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Os nossos auto-rádios originais era obsoletos e, apesar de origem, já muito ultrapassados e roufenhos. Comprámos, em preços de desconto, rádios com leitor de mp3 em pen ou com entrada auxiliar, onde, através de um cabo, podemos ligar os telemóveis e colocar uma qualquer playlist.

No outro dia, estive a ripar cd antigos com músicas que ouvia antes de as piolhas nascerem e passei tudo para a pen... Aproveitei para (re)ouvir Xutos e Pontapés, GNR e até Estudantina e Bandas Sonoras de filmes de que gostei. Deu-me a melancolia e aquela sensação do género "é pá, esta música obriga mesmo a pensar, como é que me deixei de ouvir isto?" ou ainda mais surpreendente "Como é que eu ainda sei a letra desta música?".

Claro que também lá tenho uma pasta para os Maroon 5 e Katy Perry e ainda falta acrescentar Coldplay e mais uma ou outra banda que de gostemos e, se calhar, música solta, do género playlist, já que Justin Timberlake faz parte das minhas músicas de caminhada e basta ligar o telemóvel.

 

Bem, neste momento, a pasta em execução é GNR. Caramba, a minha voz (depois de anos de cantoria e ensaios sem a menor preparação) de cana rachada e acordes roufenhos faz os altos e baixos da voz do Reininho sem dificuldade eheheheh e eu já nem me lembrava do que era ouvir as músicas da banda e interpretar ao mesmo tempo que se tenta cantar e acompanhar a lógica sem lógica aparente da letra. L-i-n-d-o! Adoro. Mesmo, como diz uma amiga, que seja um saco cheio de palavras misturadas em forma de música. Gosto, pronto.

Ora, passava, então, "Las Vagas" e as piolhas a engelhar o nariz pois queriam ouvir Maroon 5 em modo repeat. Lá as convenci a ouvir as guitarras e as baterias e a tentar captar a letra (essa foi a parte divertida, eheheheh). Uma perguntou que banda era e eu disse:

"GNR".

"O quê? A polícia é uma banda?"

"Não, filha, GNR-polícia é Guarda Nacional Republicana; estes são Grupo Novo Rock. Claro que GNR chama mais a atenção e obriga as pessoas a usar a cabecinha. E fica no ouvido, que é o que se pretende".

"De que ano é?" (porque, aqui, as músicas separarm-se por faixas etárias entre clássico - tudo o que for anterior a 2007- e moderno... Tenho que educar estas meninas para estas coisas...)

"Acho que deve ser, para aí de 1990 e qualquer coisa, talvez já com alguns 25 anos..." (dor súbita no coração)

"Hiiii, tão clássica!!!"

"Hiii, que exagero. E que acham da música?"

"Foleira!"

 

Doeu. De castigo, vão levar com a pasta dos GNR durante todas as idas para a escola. E vindas para casa - se for eu a ir buscá-las. E ainda vão levar com "Las Vagas" em modo repeat. E com "Sangue Oculto". E depois passamos para o album ao vivo dos Xutos e Pontapés (provavelmente o último concerto ao vivo que vi antes de ter engravidado, até ao momento). E só quando souberem a letra d' "A minha alegre casinha" é que mudo de pasta. Para os Queen.

Haja um deus que nos governe, ora essa.

 

 

 

 

 

 

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publicado às 20:43

Tagarelice #50

por t2para4, em 16.05.16

Uma piolha, toda prá frentex, completamente desgovernada, ataca a trotinete com toda a fúria e...esbardalha-se. Rapidamente, levanta-se e saca de uma tirada à Valentim da Dra Brinquedos, "Eu estou bem!!!!".

A irmã rebenta à gargalhada e atira-lhe "Parecias que estavas na "Ciência da Estupidez"!"

 

Foi impossível não rir, tão lindo... A piolha ficou mesmo bem, apesar do joelho arranhado. Adoro joelhos arranhados, é sinal de que brincam muito e que caem e se levantam e brincam. E elas ficam sempre bem, na boa e divertem-se. É para coisas destas que o sol nos faz muita muita falta.

 

 

 

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publicado às 08:30

 

O nosso diagnóstico veio tarde. Para mim, que, volvidos quase 6 anos, ainda me consumo com isto, acho que surgiu tarde. Não consigo perdoar nem esquecer não me terem dado ouvidos mais cedo... Aos 3 anos, as minhas piolhas já poderiam estar com cerca de 15 meses de trabalho efetivo em cima, como qualquer outra criança com o mesmo diagnóstico. Mas não. Foi preciso aguardar demasiado tempo - tempo precioso - para se chegar lá...

 

Hoje, por mero acaso, encontrei este texto, traduzido livremente por uma mamã de um filhote com autismo que reproduzo aqui, com a devida fonte. A ver se começa a fazer sentido para mim, para nós, para a comunidade médica que ainda é tão leiga nestas coisas das perturbações do autismo - o que é ser-se autista no feminino...

(em português (do Brasil): http://lagartavirapupa.com.br/autismo-em-meninas-e-o-dificil-diagnostico/ )

 

 

Seeking precise portraits of girls with autism

Subtle, significant. In a nutshell, these two words capture the symptoms of many girls with autism. Like many in my field, I’ve seen this subtlety firsthand.

One 6-year-old girl I met several years ago seemed, at first, to have good social skills. She responded appropriately when I introduced myself, complimented my outfit and politely answered all of my questions. It was only when I saw her again a few days later that I understood her family’s concerns: She made nearly identical overtures, as if our interaction were part of a play she had rehearsed.

I also met a teenage girl with autism who was highly intelligent. Because she could not relate to the other girls at her high school, she began interacting exclusively with boys, whose social behaviors she found easier to imitate. She even went through a period of wanting to become a boy, reasoning that she might have more success navigating the social world as a male.

The past several years have seen an explosion of studies aimed at backing up these one-off observations about how autism presents differently in girls than in boys. This is a welcome development, as understanding the unique presentation of autism in girls will help us to better identify and treat the disorder.

Consistently recognizing autism in girls can be challenging, however. This is not only because girls with autism are as diverse as any other group of individuals with the disorder, but also because most autism screening and diagnostic tools were developed based primarily on observations of behaviors in boys.

As a result, we may still be missing girls whose symptoms do not match the ‘prototypical’ boy presentation. These challenges in recognition may also help to explain why many parents say clinicians initially dismiss their concerns about autism in their daughters. Had I not seen that 6-year-old girl a second time, I too might have been guilty of this.

Social caricatures:

Early studies on sex differences in autism suggested that, compared with boys who have autism, girls with the disorder have lower intelligence and more severe symptoms. But because these studies were conducted during a time when higher-functioning children with autism were less likely to be identified, such studies likely missed girls with high intelligence quotients (IQs) and milder social difficulties — whose autism may have been particularly difficult to detect. Excluding this group would not only drive down the average IQ of girls with autism, but also push up the ratio of boys to girls with the disorder, which stands at around 4-to-1.

As clinicians recognize greater numbers of high-functioning girls and women with autism, our outdated views on gender differences in autism are crumbling. Researchers are investigating whether girls with autism as a group exhibit less severe social and communication difficulties and fewer repetitive behaviors than boys with the disorder.

Some researchers theorize that girls are better than boys at camouflaging their symptoms, particularly during highly structured interactions such as a clinic visit. For instance, a colleague of mine described girls with autism as “caricatures” in social interactions. These girls may be motivated to interact, but their behaviors seem exaggerated.

Because autism symptoms are so variable in girls, the team behind the latest version of the “Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders” emphasized that any examples in the book are just that: examples. Unfortunately, a clinician’s ability to effectively extrapolate beyond the written descriptions depends heavily on experience — not just with girls who have autism, but also with girls who don’t. After all, if clinicians are not well-versed in how a child of a given age and developmental level behaves, then they will struggle to assess the abilities of a child with autism.

Until we are confident that our standard assessment methods can reliably recognize autism in girls, clinicians may need to gather evidence of a girl’s difficulties through other means. This might involve observing the girl in more naturalistic settings as she interacts with her peers.

Recruiting girls:

Meanwhile, to better understand how girls and boys with autism differ, researchers are actively recruiting more girls into studies — a move that we hope will provide more concrete examples of what autism looks like in girls. But we should also consider less traditional ways to explore sex differences.

For instance, instead of scoring girls with autism using existing instruments, expert clinicians could observe them and compare them with girls who don’t have the disorder. This approach would force us to generate fresh examples of the ways that social and communication impairments and repetitive behaviors manifest in girls. Based on these observations, as well as interviews with the girls’ parents or teachers, clinicians could start to identify behaviors that may be specific to girls with autism. We could then verify whether current screening and diagnostic tools adequately capture these behaviors.

It is also important to note that gender is only one factor that can influence the appearance of autism. At a meeting on sex differences last year, Ami Klin, director of the Marcus Autism Center in Atlanta, Georgia, stressed that other demographic variables, such as ethnicity and socioeconomic status, can affect the assessment and diagnosis of autism. Both clinicians and researchers need to carefully consider all these variables.

We also should keep an open mind when it comes to our assumptions about girls with autism. For example, we must be just as open to the possibility of very few sex differences between boys and girls with autism as we are to the possibility of many.

At the same time, we should focus on appropriately identifying as many girls (and boys) with autism as possible so that these children can access interventions. Even if a girl has subtler difficulties than other children with the disorder, those problems may nevertheless have a tremendous impact on her life.

Somer Bishop is assistant professor of psychiatry at the University of California, San Francisco.

 

in https://spectrumnews.org/opinion/seeking-precise-portraits-of-girls-with-autism/

 

 

 

 

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publicado às 15:38

Estive - e participei - numa palestra

por t2para4, em 07.05.16

O convite surgiu durante o mês de abril, o mês da consciencialização do autismo, por uma professora de Educação Especial que trabalha no Agrupamento de Escolas de Arganil. Com outros professores e colaboradores, promoveram imensas atividades no âmbito da semana da deficiência, com o grande intuito da promoção - redunde-se - da inclusão, da consciencialização, da aceitação.

 

Não precisei de preparar nada de complexo e técnico - o meu público alvo seriam alunos do secundário. Peguei numa apresentação que já tinha usado num workshop de sensibilização no ano passado e reformulei alguns diapositivos. Quando tudo ficou pronto, enviei para a organizadora responsável pela sessão de abertura da semana de trabalhos e foi aguardar o dia.

 

Assustou-me ter ficado de cama, os 3 dias imediatamente anteriores à palestra... O vírus que trouxe da escola deitou-me mesmo abaixo mas, com muita persistência, dieta e falta de tempo para estar doente, lá me meti a caminho no dia 26 de abril, embora fraquinha e com uma tensão arterial de rastos. Já tinha trabalhado naquela localidade há muitos anos atrás... Foi estranho fazer os mesmos caminhos, com uma missão ligeiramente diferente, desta vez.

Como cheguei muito cedo à escola, tive o prazer de tomar um chá preto - o único estimulante que pude tomar durante toda a semana - e de conhecer pessoas incríveis e os seus respetivos locais de trabalho. Pude apercerber-me que há professores fantásticos que fazem imenso pelos seus meninos, muitas vezes, acabando por se oporem a um sistema que acaba por ser aceite por ser cómodo... Senti e vi meninos felizes e completamente aceites no espaço escolar. Nada paga isto.

 

Aprendi muito. Pude perceber que, apesar de tudo, estamos num cantinho de céu. Nessa semana, ouvi uma notícia de sobre um grupo de pais que luta pela integração dos seus filhos com autismo na escola regular num país francófono e recebi mensagens de mães - uma no Luxemburgo e outra na Suiça - desesperadas porque, lá, nem sequer se equaciona a hipótese de os seus filhos - crianças iguais às minhas - poderem frequentar a escola regular. A partir do momento em que têm um diagnóstico, pumba!, escola dos deficientes. E sim, a designação popular é mesmo esta... Promove-se e institui-se a institucionalização. Na mesma semana em que sai um despacho normativo que suscita leituras dúbias - ou não fosse a nossa legislação quase objeto de estudo de uma Faculdade de Letras e não de Direito... Sem que ninguém o tivesse abordado, Ana Sofia Antunes, a Secretária de Estado que é cega e que não se esconde e que detesta coitadinhices, toca no assunto e refere que não quer que as crianças estejam segregadas, que, como aconteceu com ela, vão para uma escola diferente. Crianças são para estar com outras crianças, a aprenderem umas com as outras, num local comum. Só assim se promove uma aprendizagem saudável e uma inclusão natural. Parece-me óbvio... Claro que precisamos de ter vontade que o objetivo seja mesmo esse e se cumpra, que se incuta esse cumprimento nos restantes profissionais, que se aborde a temática da deficiência mais e mais e mais, sem tabus e sem "penas" e sem parvoíces. Se dá trabalho? Claro que dá! Esperavam que as coisas caíssem do céu? Nada cai do céu! Acha que uma mãe ou um pai estudou ou se preparou para ter um filho diferente? Nem pensar! É uma aprendizagm contínua; aprendemos a valorizar o que é verdadeiramente importante e a tirar verdadeiras lições de vida com quem realmente aprendeu a lidar com crianças com deficiência - seja ela de que tipo for.

 

Aprendi a gostar - mais ainda - de Coldplay, depois de ouvir uma adolescente com autismo clássico a tocar maravilhosamente e a expressar-se em inglês melhor do que muitos dos meus melhores alunos. E guardei todas as palavras que troquei depois com a mãe dela.

 

Aprendi o verdadeiro sentido da Musicoterapia. E quem é o verdadeiro musicoterapeuta e as suas abordagens. E não, lamento, um mero professor de música não pode ser musicoterapeuta só porque é músico ou é professor de música. Eu sou professora de línguas mas não sou linguista nem terapeuta da fala, see the difference?

 

Aprendi - e descobri, quase como se tivesse tido uma epifania no momento - que as estereotipias não têm que ser apenas visuais e motoras; também podem ser verbais e comportamentais... E atingiu-me que as piolhas não deixaram de ter estereotipias, apenas as transferiram para algo mais socialmente aceite, ainda que com reservas e que, lá está, tal como o próprio autismo, não são visíveis, logo, são um problema para entender: obsessão com o desenho e repetição extenuante de frases. Não têm acessos de handflapping mas têm outras coisas...

 

Aprendemos que é possível surpreender um auditório de teenagers pouco virados para estar a ouvir o que achavam que seria uma grande seca, mas que afinal, podem ser motivados e estimulados e salutarmente chamados à atenção para serem uma amostra social do que é possível fazer lá fora, na vida real, quando nos aceitamos uns aos outros na nossa plenitude.

 

 

Deixo a apresentação que usei em 2015, no workshop "O Autismo não é um bicho", e em 2016 na palestra "Descobrindo o Autismo".

 

 

 

Sobre nós e, basicamente o que todos fizemos, o Agrupamento de Escolas de Arganil, escreveu:

"Descobrindo o Autismo

Caminhando com passos decisivos rumo à inclusão, ao longo do presente ano letivo foram levadas a cabo algumas pequenas grandes ações no sentido da crescente sensibilização da comunidade educativa para as questões da diferença. Ainda nesse âmbito e porque acreditamos que falar com naturalidade de qualquer tipo de deficiência faz parte do processo de inclusão escolar e na comunidade, realizou-se ontem na EB 2,3 de Arganil um conjunto de atividades sob o tema “Descobrindo o Autismo”.

A iniciativa contou com a presença da Exª Srª Secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência, Dr.ª Ana Sofia Antunes, e teve início pelas 10:30h com a sua receção pelos alunos com o Hino da Agrupamento “Força de Acreditar” e a inauguração do símbolo “Escola Amiga do AUTISMO”. De seguida os presentes foram brindados com a atuação do grupo musical da APPACDM que a todos encantou.

Dirigido a alunos do 3º ciclo e ensino secundário realizou-se um painel de comunicações sobre o tema em questão cuja abertura foi claramente enriquecida pela mensagem da Dr.ª Ana Sofia Antunes e que muito nos honrou. Para nos ajudar a conhecer um pouco melhor esta problemática e a melhor forma de intervir junto dos alunos com autismo tivemos connosco a Dr.ª Assunção Ataíde (docente de Educação Especial com largos anos de experiência junto destes alunos) e o Dr. ToZé Novais (musicoterapeuta) que nos brindou com o privilégio de assistir a um concerto delicioso, de piano e voz por parte da Beatriz Aleixo (uma menina com autismo severo). Para finalizar os trabalhos esteve presente a Dr.ª Mara Tomé (professora) mãe de 2 meninas gémeas com autismo, detentora obviamente de muita informação que só quem vivencia pode ter e que enriqueceu este espaço de partilha com um gesto interpretativo da singularidade da problemática.

A Exª Srª Secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência realizou ainda uma visita aos diferentes espaços da escola, dando uma especial atenção à Sala Funcional e à Unidade de Apoio Especializado e Educação de Alunos com Multideficiência.

No período da tarde decorreu um jogo de BOCCIA com utentes da APPACDM de Arganil, que contou com a colaboração dos alunos do 9º A. Ainda durante este período um conjunto de docentes e alunos realizaram uma visita à Sala de Snoezelen da Santa Casa da Misericórdia de Arganil."

 

 

Obrigada, Eunice. Por tudo...

 

 

 

 

 

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publicado às 21:02

Porque, às vezes, é assim um dia...

por t2para4, em 29.04.16

O texto abaixo foi escrito para o "Jornal do Fundão" a convite da mãe do Diogo e, atendendo ao número de caracteres a utilizar, tive que fazer uma review. Publico aqui, na íntegra, embora o que tenha saído no jornal esta semana, não seja tão extenso.

Acrescento que, ainda esta semana, falarei da palestra de abertura da Semana da Deficiência, decorre no Agrupamento de Escolas de Arganil, para a qual fui convidada.

 

 

 

Às vezes, acho/acredito/sinto/sei que houve um erro imenso na nossa vida, que o diagnóstico foi um erro imenso, crasso, doloroso.

Às vezes, acho/acredito/sinto/sei que estou a exagerar e que esse diagnóstico nos permitiu perceber tanta tanta coisa e abrir-nos as portas necessárias para, pelo menos, começarmos a agir em conformidade.

Às vezes, não sei se continuarei a ter as forças necessárias para continuar a batalhar, a desbravar caminho, a exigir cumprimento de direitos…

Às vezes, sei que essa força está lá, adormecida e latente, à espera de ser estimulada para surgir.

Às vezes, fico na dúvida, sem saber se estarei a fazer um bom trabalho.

Às vezes, apercebo-me de que estou a fazer o melhor que posso, a dar o melhor de mim, sem nunca ter tido qualquer preparação prévia ou ensaio.

Às vezes, sinto que mais ninguém poderia ser a mãe que sou.

Às vezes, vou-me abaixo e digo palavrões e esconjuro o mundo e quero fugir.

Às vezes, tudo isso passa com umas lágrimas e um bom duche bem quente.

Às vezes, a vida ganha um sentido tão pleno e tão perfeito quando ouço as gargalhadas piras e genuínas das minhas filhas…

Às vezes, penso que o autismo me roubou as filhas, lhes roubou a elas o direito de terem uma vida como os seus pares.

Às vezes, penso que o autismo nos roubou o direito de sermos pais.

Às vezes, penso que, talvez, o autismo não nos tenha roubado a vida que idealizámos, apenas se tornou uma característica dela e já nem conseguimos imaginar como seria sem ele por perto.

Às vezes, penso que, se o autismo faz as minhas filhas serem os seres humanos fantásticos que são, prefiro que sejam autistas.

Às vezes, odeio o autismo e tudo aquilo que nos impôs: terapias, horas infindas de trabalho e estudo, medicamentos, exames médicos, avaliações, etc.

Às vezes, não sei como nos aguentamos.

Às vezes, não sei como nos aguentámos.

Às vezes, sei o que nos faz aguentarmo-nos.

Às vezes, não peço muito da vida.

Às vezes, exijo tudo da vida, de todos, do mundo, do universo.

Às vezes, penso que o facto de valorizarmos as pequenas coisas é do mais enervante que existe.

Às vezes, enervo-me porque parece que temos sempre de nos contentar com pouco.

Às vezes, acredito que o certo é mesmo valorizar as pequenas coisas, as pequenas grandes conquistas.

Às vezes, odeio a escola.

Às vezes, adoro o que a escola pode proporcionar a todas as crianças.

Às vezes, sou utópica e sonhadora e ainda acredito num mundo melhor.

Às vezes, sou realista demais e a realidade dói.

Às vezes, penso que, lá atrás, apesar de tudo, há uns anos, era tão mais fácil lidar com o crescimento dos filhos, com a escola, com a gestão familiar.

Às vezes, penso em dar mais irmãos às minhas filhas.

Às vezes, penso em não dar mais irmãos às minhas filhas.

Às vezes, penso que se lixe, o melhor é deixar o destino/acaso/etc decidir.

Às vezes, tenho um medo irracional, absurdo, doloroso de morrer e não poder acompanhar as minhas filhas.

Às vezes, digo para mim própria que nem de velhice morrerei e, se isso acontecer, voltarei para terminar as minhas funções.

Às vezes, sei que sou uma mãe chata, horrível, desastrosa, stressada.

Às vezes, sei que sou a melhor mãe para as minhas filhas.

Às vezes, acredito em Deus.

Às vezes, zango-me com Deus e ralho com Ele e deixo de lhe falar, fico ofendida, desligo-me.

Às vezes, procuro consolo na Sua casa e falo, não sei bem com quem, mas falo.

Às vezes, falo imenso sozinha, como uma louca.

Às vezes, calo-me.

Às vezes, apetece-me fugir de carro, com as minhas filhas comigo, numa viagem sem destino – ou até acabar o combustível.

Às vezes, sou demasiado cobarde para me fazer à estrada.

Às vezes, surpreende-me que o meu casamento tenha sobrevivido a tanta coisa.

Às vezes, sei que o meu casamento sobrevive porque é o verdadeiro amor que nos une.

Às vezes, sou ingénua.

Às vezes, sou sarcástica e irónica.

Às vezes, tenho que relembrar o mundo das minhas prioridades.

Às vezes, odeio ter que ir trabalhar e ter que deixar as minhas filhas.

Às vezes, sei que é preciso dar espaço aos filhos.

Às vezes, morro de saudades das minhas filhas, 5 minutos depois de as deixar na escola.

Às vezes, arrependo-me de não me ter feito ouvir mais cedo, mais alto.

Às vezes, sei que acabámos por alcançar o tempo perdido.

Às vezes, farto-me de ter que estar em constante adaptação.

Às vezes, apercebo-me que é isso que permite a evolução.

Às vezes, sei que nasci para ser mãe.

Às vezes não – SEI que amo as minhas filhas de uma forma incondicional, impossível de transformar em palavras.

Só preciso de ver o mundo pelos olhos delas, mais vezes, e não às vezes.

E passar essa visão aos outros, mais e mais vezes.

 

 

 

 

 

 

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publicado às 14:03

Estamos, de certeza, a fazer algo bem

por t2para4, em 22.04.16

... quando estou no meu best estilo walking dead porque os meus alunos me pegaram uma gastro (com tantos sintomas, só pode ser o desgraçado do rotavírus a pôr-me rota) e estou com-ple-ta-men-te sozinha em casa com as piolhas (turnos do marido, tia constipadissima, etc.) MAS...

- vão comigo à farmácia buscar primperan (para juntar aos brufens e imodiuns que já temos em stock) e não vão enfiar-se na casinha;

- mal chegamos a casa vão logo buscar-me um copo de água e certificar-me que tomei o comprimido para as nauseas e vómitos;

- encaminham-me para o sofa e deixam-se ficar a brincar por perto, enquanto eu estiver deitada;

- só vão para o quarto quando me vêem com força suficiente para pôr uma sopa de cenoura a fazer na Yammï e uns folhados no forno.

 

Resta dizer que as piolhas estão a passar por um mau bocado e estamos a precisar destes 3 dias de absoluta clausura e refúgio e relaxamento como de pão para a boca, com o apoio da nossa amiga melatonia (seja bem-vinda, minha cara).

 

 

Portanto e posto isto, ai de alguém que ouse sequer pensar ou começar um pensamento por muito pequeno e insignificante que seja sobre a forma como educamos as piolhas. Sofrerá karma instantaneo na forma rotavírus (rir maquiavelicamente).

 

 

 

 

 

 

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publicado às 19:39

Às fadas do Inverno e da Primavera

por t2para4, em 19.04.16

Minhas queridas fadas,

Gostaria muito de vos dar umas palavrinhas. Uma coisa rápida - mas completa - porque quer vocês quer eu temos imenso que fazer. Mas, ao contrário do que parece passar-se convosco, eu ainda estou ligeiramente mais organizada!

Eu explico-vos melhor. Estamos, de acordo com o nosso calendário, em abril, já um mês depois do equinócio da primavera mas o tempo meteorológico ainda é de inverno. Ou seja, já se passou quase um mês e o que nós humanos vemos são pequenos sinais tímidos do trabalho de algumas fadas da primavera a tentar explusar as suas companheiras do inverno que parecem ter-se esquecido de mudar as páginas do calendário ou de atualizar a app. Ou então andam a tentar ver quem mais lixa o quê e quem se lixa somos nós!

Vocês precisam mesmo de se organizar. Eu dou-vos alguns exemplos concretos da confusão que para aqui vai:

- chove como o raio desde, sei lá, para aí novembro (ou seja, ainda estavam as fadas do outono de serviço);

- temos autênticos ribeiros a escoar por carreiros e inundações frequentes e lama por todo o lado há mais tempo do que desejamos;

- mas há papoilas e azedas e boninas e pequenas flores roxas pelos campos verdejantes (quando não estão alagados e transformados em pântanos);

- mas as acácias já vieram e já foram mas deixaram as alergias;

- mas o pó dos pinheiros consegue passar por entre as gotas de chuva -só pode!- e causar alergias;

- o ar "cheira" a morno, ou seja, não está propriamente frio mas ainda não podemos largar os casacos e as botas de cano alto mas morremos de calor com camisolas...

- hoje o dia foi assim: sol-carga de água-sol-carga de água-sol-carga de água. No caminho para o trabalho (sensivelmente 7km) eu consigo apanhar sol, chuva, céu muito nublado, neblina, frio, calor e vento, numa só viagem;

- o Quico e o Silvestre já começaram a mudar de pêlo mas ainda estão noites frias e dias de chuva e vejo-me aflita para saber quando raio lhes devo colocar o desparasitante porque, não sei se repararam, não faz efeito se apanharem chuva;

- andamos todos com dores de cabeça, a enfardar anti-histamínicos que causam sonolência e parecem agravar ainda mais o nosso cansaço;

- custa-me decidir o que hei de vestir às piolhas todas as manhãs;

- há passarinhos e toupeirinhas por todo o lado mas há também lama e tocas e ninhos encharcados...

 

Minhas queridas, vamos lá combinar uma coisa: as fadas do inverno despacham-se a terminar o que têm que terminar para as fadas da primavera poderem entrar à séria ao serviço e as fadas do verão aguentam os cavalos que não precisamos de passar de um extremo ao outro, de repente, boa? Não esquecer que nenhum de nós tem tempo para ficar doente e os meus alunos andam todos contaminados - e não é de alergias que falamos... - e os coitados não podem perder aulas agora na reta final. Vamos a ver se nos decidimos, pode ser?

Já agora, aproveito a oportunidade para vos dizer que, à semelhança da maior parte das crianças com PEA que conheço, as minhas filhotas têm passado dias horríveis sem que saibamos ao certo o porquê, já que nem sequer é lua cheia/lua nova. Se juntarmos esta vossa desorganização ao cansaço que ela provoca mais às alergias de que andam a sofrer mais à ecolália do momento "abril águas mil" porque é o provérbio do mês lá na escola, juro que não há ninguém que aguente e, graças a isso - e a vocês por acréscimo - as dores de cabeça que eu já não tinha há quase um mês voltaram em cheio, pelo que posso concluir que a culpa é... vossa.

Por isso, orientem-se, organizem-se e vejam lá se cumprem o raio da planificação. Peçam ajuda às vossas rainhas, que governar também é arregaçar as mangas e endireitar as coroas para fazer o serviço atempadamente. E vejam lá se param de se empatar umas às outras.

 

Grata pela vossa atenção e compreensão.

 

 

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publicado às 20:42

Leitura do Despacho Normativo 1H/2016

por t2para4, em 18.04.16

Foi-me enviado o conteúdo da mensagem que disponho abiaxo, da leitura feita ao Despacho que publiquei no outro dia.

Não sei bem o que dizer ou ler ou interpretar. Sou totalmente a favor da inclusão mas não à força para nenhum dos lados, isso não me parece inclusão mas sim um sacrifício para todos os intervenientes diretos e indiretos. Não sei o que interpretar, quero acreditar que haverá bom senso por parte de agrupamentos e que tem mesmo que haver bom senso por parte de todos.

 

Aqui vai:

 

Ana Sofia Antunes

17 h ·

Turmas de alunos com Necessidades Educativas Especiais mantêm dimensão

A publicação do Despacho Normativo n.º 1-H/2016 suscitou dúvidas quanto à interpretação, tendo sido realizada uma leitura em sentido absolutamente contrário aos objetivos que orientaram a sua adoção e legislação. Importa clarificar que a turma do aluno com NEE (Necessidades Educativas Especiais), que está presente em mais de 60% das atividades da turma, mantém a redução normal. Neste sentido, o objetivo desta medida consiste em promover a permanência dos alunos com NEE em contexto de sala de aula o maior tempo possível, desejavelmente por um período igual ou superior a 60% do tempo letivo. A disposição aprovada tem por base o desejo de garantir que estes alunos estão efetivamente incluídos nas aulas das turmas que frequentam. Quanto à menção deste requisito importa clarificar:

1) Os alunos com NEE não vão estar em turmas maiores, mantendo-se as mesmas com 20 alunos. Não se pretende aumentar as turmas, mas sim aumentar o tempo de permanência dos alunos com NEE junto dos seus colegas e dos seus professores, o que por vezes não estava a suceder.

2) Com esta alteração, pretende-se induzir que o desenho do CEI (Currículo Específico Individual) preveja e maximize práticas de permanência em sala de aula com os restantes colegas, que os alunos com NEE não sejam vistos como um incómodo ou o tempo com a turma como um desperdício.

O requisito de permanência em 60% das atividades implica olhar para os alunos com NEE com a dignidade que merecem: alunos que precisam do contacto com a turma, alunos que precisam de turmas reduzidas e alunos que, embora a turma fosse reduzida, eram segregados para práticas isoladas numa escola que se diz inclusiva. Deste modo, estimula-se a inclusão efetiva destes alunos na Escola, continuando os mesmos a beneficiar de apoios e terapias especializadas nos restantes 40% do período letivo.

 

 

 

 

 

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