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Síndroma da coitadinhice

por t2para4, em 06.03.13

São gémeos? Ah coitada…

Vão as duas para a escola? Ah coitada…

Têm autismo? Ah coitada…

 

A “coitadinhice” é algo que deve ser manifestado, de forma visível, de modo a incomodar, com o intuito de vitimizar, contra a vontade do abordado.

 

A “coitadinhice” não vem sozinha. Por norma, vem acompanhada de um olhar extremamente piedoso, do género, “tens-aí-uma-coisa-estranha-que-pode-pegar-se-deus-me-livre-mas-olho-para-ti-misericordiasamente” e de uma voz quase melíflua.

 

A “coitadinhice” deve ser expressa em voz alta, por regra, junto do alvo. Se for uma mãe com uma criança – ou várias, gémeos ou mais será o ideal -, preferencialmente desenrascada e entendida, é a vítima perfeita. Deve ser abordada como se a conhecêssemos toda a vida e atingida pelo “ah, coitada” com toda a veemência, sem dar espaço para uma resposta.

 

A “coitadinhice” não pode esperar uma resposta à altura, sob pena de a pessoa ser considerada antipática perante a boa vontade do interlocutor.

 

A “coitadinhice” fica excecionalmente bem quando aplicada a pessoas com problemas ou deficiências, preferencialmente crianças. Não interessa o quão fortes serão os pais dessas crianças nem quais os seus limites de tolerância perante a absurdidade do que os rodeia. Dem ser abordados, não importa onde. Ou, caso não se ouse fazê-lo, comentar com a pessoa ao lado, cochichando mas deixando perceber de quem se fala e porquê.

 

A “coitadinhice” é transversal a todas as idades, credos, raças, sexos, estratos sociais, etc.

 

Não gosto de “coitadinhice”.  “Ah, coitada…” A sério? Por que razão alguém que passa pela alegria de ser mãe – e mãe de gémeos – é considerada “coitada”? Por que razão ter dois filhos na escola é para ser comentado de “coitada”? A maioria das pessoas nem sabe o que é autismo mas sabe dizer “coitada”. Cada vez me convenço mais de que se diz “coitada” para se ter algo que dizer, embora, nestas situações, seria muito melhor se estivessem caladas. Há algo que toda a gente deveria entender quando se abordam pessoas que estão com crianças, principalmente crianças com necessidades especiais: a nossa tolerância é para com eles e baixa drasticamente com comentários absurdos, vindos de terceiros.

 

E que tal umas sugestões, ao invés da “coitadinhice”?

- elogiar a criança pela sua beleza, gestos, comportamentos ou palavras

- não julgar uma criança pelo seu comportamento estranho ou inconveniente – principalmente quando os pais estão tão preocupados que nem parecem respirar

- evitar reações inapropriadas junto de uma criança, seja por ignorância ou crueldade

- não abordar os pais para dar sermões ou dicas de educação, sem saber minimamente o que se passa

- evitar os chavões “se fosse meu filho… “ e “ah coitada…”: se fosse seu filho, iria reagir do mesmo modo ou pior que aqueles pais; não comparemos o que desconhecemos

- evitar falar quando não há nada para dizer. O silêncio faz maravilhas.

 

crónica de 5 de fevereiro de 2013, www.maisopiniao.com

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publicado às 08:21

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10 comentários

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De Daniela Santos a 06.03.2013 às 12:20

If only closed minds came with closed mouths...

não tenho pachorra.
bj
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De t2para4 a 12.03.2013 às 20:30

Ahhh, that's something they will have to work on...
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De zimmortal a 06.03.2013 às 22:18

as duas para a escola ao mesmo tempo? claro que não, 1º vai uma e depois quando ela acabar os estudos vai a outra, é assim que as coisas funcionam!

bjinhos e força, pelo que tenho lido és uma grande mulher!
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De t2para4 a 12.03.2013 às 20:31

ah ah ah ri-me tanto ao ler este comentário. Obrigada, soube muito bem. Vou ter que começar a dizer esta quando me atirarem com essa pérola.
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De Catarina Pinho a 07.03.2013 às 01:43

na mouche, muito bom! Odeio quando começam com isso por ter gemeos + 1 e ainda por serem todos rapazes...não há pachorra!
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De t2para4 a 12.03.2013 às 20:33

Acaba por nos tirar um pouco a paciência sim... Uma pessoa já se cansa só de pensar em sair de casa e se ainda se lembrar desses episódios, já nem sai...
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De Rainbow Mum a 07.03.2013 às 23:51


Talvez tenho tido muita sorte, mas não me lembro de alguma vez ter sido vítima de "coitadinhice"... Talvez porque tb nunca menciono que ele tem um problema e as pessoas devem olhar não para um miúdo com necessidades especiais mas mais para um miúdo "terrorista", o que sendo rapaz talvez seja + "desculpável":) Agora a parte do: "Se fosse meu filho"/"Não dão educação às crianças hoje em dia"/ "Ele é hiperactivo, certo?" etc...etc... Ui, já apanhei tantas vezes que já lhe perdi a conta... Normalmente ignoro mas já ouve uma ou 2 vezes que não resisti e passei-me...
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De t2para4 a 12.03.2013 às 20:35

ahhh, esse tema do "se fosse meu filho..." já está na forja para uma nova crónica :) acho o máximo ouvir isso. A minha resposta também será à altura quando o voltar a ouvir: "Uma semana em minha casa e eu fazia de si um homem/mulher." Para gente parva, respostas parvas.
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De Diana a 08.03.2013 às 04:26

Como se diz por aqui:  É fácil matar um leão por dia.Difícil mesmo é desviar das antas.
           Bjinhos para as 3 mulheres lindas e poderosas que são você e as piolhas.Parabéns.
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De t2para4 a 12.03.2013 às 20:36

Que saudades Diana!! Como vai a sua piolha? De férias, presumo! Por cá tanto frio, tanta chuva... :(


Obrigada pela sua frase. Tive que pesquisar um pouco sobre as antas mas gostei de perceber o significado da frase. É verdade mesmo!


Beijos enormes para vocês também. 

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