Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Desabafo - An outflow

por t2para4, em 08.08.11

Sinto que, afinal, o Verão passado está regressar em força. Sem a opção forçada do desfralde porque isso ainda me dá a volta à cabeça. Estou a começar a sentir-me um pouco perdida e desesperada, sem saber o que mais inventar. Estou a chegar àquele limite que me permite entender o porquê de alguns pais optarem por deixar os filhos todo o dia num qualquer infantário, mesmo que eles estejam em casa.

 

Ao contrário do que se pensa habitual em crianças autistas, as piolhas nunca foram apáticas, quietas, paradas, sossegadas e todos os sinónimos que existam para isto. Bem pelo contrário. Conseguem pôr qualquer criança hiperactiva a um canto... Não param nem a dormir, não conseguem estar muito tempo dedicadas a uma só coisa - a menos que seja muito interessante para elas mas descobrir isso nem sempre é fácil -, tudo é estimulante, tudo atrai a sua atenção, continuam a ter alguma dificuldade em concentrar-se num só ponto/objecto/actividade, ainda sentem uma grande necessidade de rodopiar ou correr sem nexo, fogem, escondem-se, não respondem ao nome ou a chamamentos - calmos ou desesperados. Iludi-me ao pensar que poderia conter tudo isto planeando actividades com a ajuda do terapeuta da fala e envolvê-las na escolha dessas actividades. Iludi-me ao pensar e acreditar que a vinda de uma cadela - uma golden retriever especificamente e não outra raça qualquer - faria pequenos milagres e ajudar-me-ia a levar este mês com bastante mais calma. Iludi-me ao pensar que conseguiria fazer tudo sozinha e ainda ter forças para regressar ao trabalho, fresca e fofa, sem necessitar de fazer férias na verdadeira acepção da palavra.

Sinto-me fisicamente cansada e quase esgotada, ando continuamente com dor de cabeça e com a sensação de estar em piloto automático. Hoje convidei a filha da vizinha, de 6 anos, para vir cá brincar com as piolhas. So far so good.

 

O dia de casamento da tia correu bem. Se considerarmos que correr bem é:

- andar com mil olhos em cima delas para evitar que fujam ou aproveitem a mínima distracção para se esconderem sem darem sinal disso

- não conseguirem estar quietas 2 minutos seguidos

- quererem fugir para qualquer lado ou gritar de cada vez que são contrariadas

- conter as piolhas num carrinho de bebé de cada vez que queríamos comer ou simplesmente descansar os pés e as pernas de tanto correr atrás delas

- chegar ao fim do dia e sentir que entraremos em coma a qualquer instante

 

Apesar de tudo, até acho que o balanço foi positivo. Pelo menos nesse dia. No dia seguinte, já em casa dos meus pais, a coisa não foi tão fácil. Por sermos menos pessoas, algumas acham que podem opiniar à vontade e falar do que não sabem. Exemplos:

 

Exemplo A:

- Então, foi parto normal?

- Não, foi cesariana.

- Ahhh (expressão de desolação espelhada no rosto), de barriga aberta? Porquê?

- Elas estavam sentadas.

- Ahhh, tá bem...

 

Exemplo B:

- Olha, eu tirei a fralda à tua filha (nem sei a que propósito foi isto mas tudo bem) e ela fez muito bem xixi na sanita!

- E faz mas pasado um pouco deixa de controlar e faz onde lhe apetece.

- Mas tu gastas uma renda em fraldas!! Eu não digo isto para teu mal, tens que desfraldá-las este ano sem falta. Já têm 4 anos!

- Elas são autistas!! Em média, essas crianças só desfraldam aos 6 anos! E não é uma coisa fácil!

- E lá estás tu! Tu é que as fazes doentes!! Se limpas xixi à cadela também limpas às tuas filhas, não?

 

Exemplo C:

- Olha, tens de largar as fraldas porque vem lá um bicho e morde-te o cu. (vira-se para mim e diz) E se tu pusesses um bicho a fingir na fralda para ela se assustar?

- E quem é que depois lhes põe fraldas de noite? Tu? E quem é que depois compra colchões novos e faz as camas de lavado todos os dias? 

 

Exemplo D:

- É preciso uma mulher só para tomar conta delas... (é preciso dinheiro n aminha conta bancária, posso deixar o NIB)

 

Exemplo E:

- Deixa andar as meninas à vontade que elas não fogem! Mas para que andas sempre atrás delas? Não as ponhas já no carrinho!

Passados uns minutos, essa mesma pessoa (ou pessoas), aflitas:

- Onde está a outra menina? Para onde é que ela foi? 

 

Exemplo F:

- A filha do não-sei-quem fala muito bem e é mais nova do que as tuas e também não usa fraldas desde os 2 anos. E já faz isto e isto. 

- E também conta sem se enganar até 50? E também diz as cores todas em português e em inglês? E também faz desenhos e escreve o nome? Pois se calhar não. Prefiro que usem fraldas. 

 

Exemplo G:

- Como é que elas podem ser autistas se elas são tão lindas? Parecem uns ajinhos a dormir... (suspiro)

 

Chega ou devo continuar? 

 

Portanto, concluindo:

- o uso de fraldas é culpa minha porque sou branda demais

- a comparação entre uma cadela e crianças é normal

- só as pessoas feias é que têm deficiências - seja de que tipo for

- eu continuo a ser a culpada do autismo das piolhas

- não sou boa mamífera pois nem sequer fiz nascer as piolhas de parto normal (e nem sequer vou falar da amamentação...)

 

Ontem, depois de ter levado com isto tudo e ainda ter-me agitado com a minha mãe e irmã por imbecilidades, entrei mesmo em desespero. Não consigo, por muito que tente e que me esforce, ser como as outras pessoas. As piolhas não são como as outras crianças. Não posso forçá-las a serem iguais a elas quando elas não o são. Não entendo o porquê de ser tão dificil assim aceitar ou, pelo menos, tentar entender isso! Eu sou a mãe delas e a mim dói-me que sejam assim mas dói-me ainda mais a incompreensão dos que nos rodeiam. Se nos querem ajudar, parem de julgar e de opinar. 

Eu sei que estou magra, não preciso que mo digam vezes sem conta; eu sei que sou preocupada com as piolhas, mas não precisam de mo dizer e muito menos de me pedir para não o ser. Bem ou mal, sou mãe. À minha maneira.

 

Também gostava de conseguir ir a um restaurante e levar as piolhas connosco e pedirmos comida normal e comermos todos à mesa como pessoas, com talheres e guardanapos. Gostava de poder ir passar um fim de semana fora e não ter que me preocupar com o facto de ser um ambiente novo ou demasiado estimulante que possa dar azo a uma birra e arriscar a ser explusa do quarto por causa do barulho. Gostava de fazer férias - com direito a passeios, praia, comer fora. Gostava de poder sair com o marido e festejar os nossos aniversários de casamento como os casais normais fazem. Gostava de não ter que precisar de trazer sempre uma mochila com mudas de roupa, toalhetes, fraldas, pomadas e sei-lá-mais-o-quê que só os bebés usam. Gostava de poder fazer as coisas sem ser criticada. Ou julgada. Ou apontada a dedo. Ou ter que levar com tretas. E com opiniões que de nada servem. E com comparações. 

 

Enquanto isso, eu vou continuando a marcar pontos. Até agora o mais alto foi a cadela... É um erro com o qual vou viver os próximos 10 anos. paciência. Sinto um misto de arrependimento com uma ténue esperança de que talvez haja algo que possa trazer o que eu procuro para elas mas sem saber como lá chegar. Não vejo os milagres de que outros pais falam na relação dos filhos com o cão, diminuição de ansiedade, melhores sonos, mais calma, desenvolvimentos fantásticos, etc. O que vejo é, com a cadela, 3 crianças em casa, uma correria maluca entre as 3, gritinhos e guinchinhos que nunca mais acabam, disparates que não têm fim, etc. Tudo bem, há muita felicidade e alegria mas não cortou com as estereotipias ou com a necessidade de medicação, como eu ansiava… Enfim, foi a minha experiência. Acreditei nela, não correu como esperei. Fica pelo menos a tentativa e a convivência com um animal de estimação que reage (ao contrário dos peixes :) ). E o factor não me arrepender de algo que não tenha feito.

 

Ontem chorei tanto que os olhos incharam e fiquei com olheiras. A dor de cabeça piorou substancialmente.

Hoje sinto-me apenas com o coração pesado e um pouco triste.

Amanhã, estarei melhor. Amanhã é um novo dia, como diz a outra.

 

----------------------------------------

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:44

Contador

AmazingCounters.com


Direitos Reservados

Algumas das fotos publicadas neste blog são retiradas da Internet, tendo assim os seus Direitos Reservados. Se o autor de alguma delas discordar da sua publicação, por favor informe que de imediato será retirada. Obrigada. Os artigos, notícias e eventos divulgados neste blog tem carácter meramente informativo. Não existe qualquer pretensão da parte deste blog de fornecer aconselhamento ou orientação médica, diagnóstico ou indicar tratamentos ou metodologias preferenciais.


Mais sobre mim

foto do autor







Copyright

É proibida a reprodução parcial/total de textos deste blog, sem a indicação expressa da autoria e proveniência. Todas as imagens aqui visualizadas são retiradas da internet, com a excepção das identificadas www.t2para4.com/t2para4. Do mesmo modo, este blog faz por respeitar os direitos de autor, mas em caso de violação dos mesmos agradeço ser notificada.

Visitas


Translate this page


Mensagens