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Detour - Desvio

por t2para4, em 08.09.13

Uma das piolhas teve uma crise um pouco feia. Nada o fazia prever e nem havia razão aparente para tal (seja como for, também não a consegui descobrir).

Acordou muito mal-humorada da sua sesta antes do almoço. Foi dormir pelo seu pé e acordou por si mesma, sem barulhos nem sustos nem ninguém a chatear. Perguntei se queria almoçar e começou o caos. O almoço era empadão de frango com legumes da época. Servi um pouco, dei-lhe sumo, preparei-lhe um tabuleiro para comer na sala. Entre o embirrar com a comida - por razão nenhuma porque ela gosta -, o entrar em desafios comigo e o perder-se foi num instante.  E a minha piolha parecia possuída e parecia uma crise como esta...

- ora ria ora chorava

- decidiu despir as cuecas e só não se pôs toda nua porque não conseguiu (ou não lembrou...) de despir o vestido

- corria casa fora de divisão em divisão

- "miava" enervantemente, sempre com a mesma obsessão: queria comer pão com chouriço (que não havia em casa, mesmo depois de lhe ter mostrado e explicado)

- não ouvia o que eu lhe dizia

- começou a ficar demasiado elétrica

 

Ora esta crise envolveu outras coisas típicas de crianças normais, que talvez surjam mais cedo, como o desafio da autoridade e o querer fazer tudo à sua maneira. Ora deu-se mal porque quando as coisas começam a roçar a má educação, pára tudo. Não a forcei a nada: não quis comer, não comeu. Mas o prato do empadão de frango ficou à sua espera na sala, no tabuleiro, até que ela tivesse fome. Não havia a hipótese de outros alimentos. A reação dela? Pôs-me a língua de fora com barulho. Nem vi mais nada, levou um estalo. E o desafio passou.

A piolha é daquela raça de pessoas (e que eu acho que acaba por ser uma excelente ferramenta de defesa) que parte mas não dobra. E, desenrascada como é, já estava de frigorífico aberto com o pacote da manteiga na mão para ir fazer uma sanduiche. Deu-se mal porque tranquei a despensa e escondi o pão. Queria comer, o empadão estava à espera. 

Atirou frascos ao chão, tapou o tabuleiro do empadão com as pegas de cozinha, desfez flores para cima de pratos, gritou, pulou, esperneou, veio desafiar-me de novo e eu tirei-lhe os poneis e o computador. Este jogo de forças acabou por trazer os comportamentos descritos acima e pronto. 

0,25 ml de risperidona. 

E a calma.

Parecia outra criança, a minha criança.

 

Pediu para aquecer o empadão no micro-ondas, comeu tudo porque "estava muito bom" e ainda pediu um pão com manteiga. Teve, como recompensa, a devolução do computador mas entendeu que iria ficar mais um tempo sem os poneis. Pediu "imensas desculpas" e compreendeu o castigo.

 

Ora, reações: estou com uma dor de cabeça monumental, sinto-me a pior das mães ao cimo da terra, odeio sentir-me chateada com as minhas próprias filhas, estes jogos de forças sugam-me a energia e acabo sempre a chorar que nem uma perdida... Continuo a encarar o autismo como uma punição injustificada e imerecida. Quanto mais crescidas ficam e mais desenvolvem o seu caráter, mais difícil se torna de lidar com isto e acabamos com coisas absurdas como esta: tudo por causa do raio de um empadão... Foi o quê? Incapacidade de lidar com o "não"? Incapacidade de se colocar no papel do outro? Incapacidade de perceber que não havia outra opção?

Só sei que estou um caco. E será empadão para o jantar. Ponto.

 

 

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publicado às 18:58

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