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Figura de estilo: comparação

por t2para4, em 26.02.15

Não sei se será um aspeto cultural, linguístico ou algo apenas intrínseco a algumas pessoas; não sei de onde surgiu, qual a necessidade constante de o fazer, se há um objetivo específico no final; não sei o que se ganha em fazê-lo.

 

Acho imensa piada às comparações que as mamãs fazem dos filhos, em conversas. Parece que estão ali a ver qual tem o QI mais elevado ou qual já faz determinados itens de um patamar superior e, depois, cruamente, olhamos para aquelas crianças e vemos... bem, isso mesmo, crianças. Pequenos seres em constante desenvolvimento, dentro dos parâmetros ditos normais, que se babam porque têm dentes a nascer, porque estão a começar a gatinhar, bem, dentro da idade dita normal. Genial? Genial sim porque, nos dias que correm, são os nossos tesouros, filhos desejados e muito amados que, genialmente, se desenvolvem sem dificuldades. Verdadeiramente genial seria já nascerem a comer feijoada e a dizer tabuadas de cor com vislumbres de equações para complementar a Teoria das Cordas.

 

O que me leva à maravilhosa pérola "comparado com alguns casos, as tuas filhas não têm nada". Pois, comparado com o diretor da EDP eu sou uma desgraçada pobretanas. Mas de onde vem isto? Estes termos de comparação apenas nos sobrecarregam de (ainda) mais culpas, por causa disso mesmo: temos um filho com um problema diagnosticado que precisa de terapias (paga algumas se quiseres) + apoios escolares + acompanhamento + sacríficos profissionais da nossa parte mas, comparativamente ao J. que está numa cadeira de rodas porque teve uma encefalite e ficou em estado quase vegetativo, o nosso filho não tem nada... E a culpa atinge-nos em pleno pois, de facto, aquele caso é bem mais grave e sabemos que, possivelmente haverá uma altura em que, pura e simplesmente, deixará de haver progressos... E a culpa atinge-nos de novo...

 

Quem define o que é grave? Quem define o que não é nada? Em que circusntâncias se deve, efetivamente, fazer uma comparação? Se o autismo é todo um espectro onde até podem entrar outros síndromas o que nos é dado como "grave" ou "não grave"? Um diagnóstico, só por si, ganha apenas o peso de estigmatizar? Um diagnóstico, só por si, ainda tem de ser subdividido em outros milhentos diagnósticos? Como se definem percentagens?

Quase tão popular como a pérola "ah mas não parecem autistas!" é este comparar. E isto é grave porque, em épocas de cortes de recursos - humanos, financeiros, técnicos, académicos - quem decide o que é grave? E ético? Será que apoiar uma criança confinada a uma cama, em estado quase comatoso, de progressões quase inexistentes é mais prioritário do que apoiar uma criança quase autónoma mas cujo processamento cerebral é desorganizado porque tem uma disfunção cognitiva? Quem decide o que é mais grave? Comparativamente, quem precisa de mais ajuda?

 

 

Não tenho a quantificação do grau de autismo das piolhas. Lamento desiludir os supostos entendidos na matéria, mas não há como quantificar. É como tentar quantificar um insulinodependente "ah e tal eu sou só 3% dependente de insulina porque só tenho 10% de diabetes". Desculpem-me mas isto não funciona assim. Há um problema, há um diagnóstico, há uma orientação elaborada em função desse diagnóstico e uma terapêutica associada (seja ela medicamentosa ou não).

Aos olhos dos outros, não me interessa se as minhas filhas têm um autismo grave ou ligeiro, se são verbais ou não, se são autónomas ou não, se evoluem ou não. O que vem escrito, preto no branco, daquela forma crua e fria que só os números podem dar em várias avaliações, é que, elas têm uma perturbação do espectro do autismo e precisam de terapia ocupacional, terapia da fala, apoio da educação especial, acompanhamento e outras questões académicas legais e logísticas. Ponto.

É isto que lhes é devido, é isto que lhes foi orientado e encaminhado, é esta a terapêutica elaborada - da mesma forma que se receita um medicamento químico a alguém -, é nisto que temos que nos focar. Não é para aqui chamada a gravidade da situação nem a comparação com outros casos. E, por acréscimo, muito menos a culpa.

 

O que me leva a outro ponto. Há muita gente que têm que meter naquelas cabecinhas ocas que não há nada de engraçado nem de curioso em duas crianças irmãs - gémeas ou não, mas principalmente gémeos - com a mesma perturbação. Eu até entendo que se queira fazer case studies e que, em muitas situações, ajuda imenso aquelas crianças pois a dedicação a elas e o o que se faz com elas é muito mais, mas não me digam "isto é um favor", "esta não é a minha área", "eu vou só ver e depois encaminho", dando-nos falsas esperanças, colocando-nos numa situação de dívida para todo o sempre sem sabermos como a pagaremos. Se não podem, não façam, não digam nada; encaminhem-nos apenas para quem de direito e sobre o que deveremos fazer. Não nos digam "comparado com outros casos que acompanhamos, têm sorte." Sorte? Definam sorte. "Ah e tal, nasci. Olha, tiveste sorte. Podias ter morrido, comparativamente a.... ". Percebe-se o absurdo?

 

Para terminar e ver se nos entendemos. Não estou aqui a defender o autismo/a perturbação/a diabetes/o diagnóstico de ninguém. Não estou a acusar ninguém (pelo menos direta e objetivamente). Não estou a vitimizar-me.

Estou, apenas, a tentar passar a mensagem de que, passando nós (nós e outras famílias) pelo diabo como passámos, tendo o trabalho extra que temos, sacrificando as nossas opções profissionais e estudos como fizemos sem nos queixarmos nem nos arrependermos disso, merecemos respeito. E, para começar, seria bom evitar estes chavões "no fundo, até tiveram sorte. Conheço um casal que tem um filho ............", "está caladinha, que comparado com outros casos, como os que vão à tv, os teus filhos não têm nada...". Isto magoa, culpabiliza-nos, aterroriza-nos e deixa-nos num labirinto de pensamentos e emoções. Para nós, independentemente da gravidade atribuída por leigos, já basta o que basta. Pela simples razão que é algo que atinge os  nossos filhos.

 

 

 

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