Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




As mães e as mães

por t2para4, em 26.09.15

Eis um texto que traduzi e adaptei, que mostra tão bem a diferença entre "as mães" e as "as mães", ou seja, as mães normais e as mães de crianças com necessidades especiais (NE). Revejo-me em muitas das situações descritas em baixo e, quando me dizem, "mas o meu filho faz o mesmo e tem a mesma idade", acreditem que não é o mesmo. É como querer comparar uma dor de cabeça com uma enxaqueca. Parecem a mesma coisa mas são bem distintas, com origens/causas e tratamentos diferentes.

 

- Mães normais dizem aos filhos para se levantarem e se vestirem. E, bem ou mal, eles fazem isso.
M
ães de crianças com necessidades especiais vestem as suas armaduras de guerra para conseguir ter os filhos prontos para começar o dia.

 

- Mães normais mandam os filhos lavar os dentes.
 Mães de crianças com necessidades especiais passam a vida a dizer
, "Lavar os dentes de cima. Lavar os dentes de baixo. Lavaste de lado? Abre a boca. Ó meu Deus, dá cá a escova de dentes! Tens metade do jantar aí! "

 

 - Mães normais dizem adeus aos filhos mal saem do carro ou quando chegam ao portão da escola.
 Mães de crianças com necessidades especiais são, elas mesmas, um serviço completo de motorista, porteiro e segurança dos filhos.

 

 - Mães normais sabem os nomes de todos os seus amigos.
 Mães de crianças com necessidades especiais 
conhecem a maioria dos seus amigos pelo perfil do facebook ou nick de fóruns da especialidade.

 

- Mães normais julgam as outras mães, quando os filhos fazem birras em lojas.
 Mães de crianças com necessidades especiais 
perguntam a si mesmas, "Hmm, será que haverá ali qualquer coisa mais?"


 - M
ães normais queixam-se que passam a vida a levar os filhos ao futebol ou à música, de carro, de um lado para o outro. 
 Mães de crianças com necessidades especiais 
colocam um sorriso amarelo e aguentam as viagens semanais para terapias, exercícios da especialidade, consultas médicas e reuniões (técnicas e escolares).


 
- Os filhos de mães normais têm um professor por disciplina.
 Os filhos de mães de crianças com necessidades especiais 
têm uma equipa tal que dava para jogar futebol com suplentes e árbitos.


- Mães normais falam sobre objetivos atingidos.
 Mães de crianças com necessidades especiais 
falam sobre competências, por exemplo, competências de jogo/brincadeira, competências de comunicação, competências para a vida, competências sociais e competências funcionais .


 - M
ães normais relaxam com os seus filhos durante o verão.
 Mães de crianças com necessidades especiais 
começam o seu segundo trabalho como terapeutas, monitoras e coaches de competências.


- Mães normais referem-se a hotéis quando se fala em alojamento de férias.
 Mães de crianças com necessidades especiais
esperam, um dia, conhecer esses alojamentos e saber o significado da palavra "férias", sem ter que recorrer a uma lista infindável de coisas que regulam os seus filhos.


- Mães normais desejam uma boa carreira para os filhos.
 Mães de crianças com necessidades especiais desejam que alguém dê aos seus filhos uma hipótese de trabalhar
.


- Mães normais relaxam com um bom banho.
 Mães de crianças com necessidades especiais
consideram qualquer tempo sozinhas numa casa de banho um luxo.

 

- Mães normais gostam de ler o último best-seller ou uma revista.
 Mães de crianças com necessidades especiais deveriam
receber um título honorário por todos os livros e legislação que leram sobre direitos, deficiência e inclusão.


- Mães normais vão ao cinema ou jantar fora com os maridos, sem os filhos, sem preocupações, de vez em quando.
 Mães de crianças com necessidades especiais vão ao cinema ou jantar fora com os maridos, sem os filhos, sem preocupações, quando os filhos estão na escola ou...bem, a ultima vez foi antes de ter filhos.


 - M
ães normais queixam-se que os filhos não gostam de legumes.
  Mães de crianças com necessidades especiais 
estão tão desesperadas em relação à alimentação dos filhos que consideramos hamburguers um produto de carne legítimo e batatas fritas um legume com valor nutricional igual à couve-flor.


- Os filhos de mães normais vão brincar com os amiguinhos ou sair em grupo ou a festas em casa uns dos outros.
  Os filhos de mães de crianças com necessidades especiais 
vão às terapias, às aulas de natação, às aulas de motricidade... e não costumam dar-se bem nesse tipo de "eventos" sociais...


- Mães normais ainda conseguem uma ladies' night.
  Mães de crianças com necessidades especiais consideram uma ladies' night quando conseguem estar online juntas à mesma hora enquantos os filhos não acordam do 1º sono, a discutir estratégias e a ajudarem-se em relação à escola, legislação, consultas, etc
.


- Mães normais têm a informação clínica dos filhos numa pasta ou no boletim da criança.
  Mães de crianças com necessidades especiais 
confessam que uma pequena floresta foi derrubada para que pudéssemos receber as nossas reivindicações e que a estante já não aguenta com os dossiers todos (e já ninguém se dá ao trabalho de escrever no boletim da criança).


- Mães normais pensam que CRI deve ter alguma coisa a ver com partidos políticos.
  Mães de crianças com necessidades especiais
sabem mais siglas do que um engenheiro da NASA.

 

- Mães normais deixam de ter o contacto do pediatra em speed dial a partir dos 5 anos.

Mães de crianças com necessidades especiais têm esse contacto em speed dial, bem identificado, sem data limite para quebrar contacto.


- Mães normais conseguem cozinhar um jantar completo e pensar em comidas saudáveis.
  Mães de crianças com necessidades especiais 
nunca irão admitir quantas vezes já fizeram uma sopa em 20 minutos ou prepararam esparguete durante dias a fio, desde que os filhos comam.


- Mães normais queixam-se dos seus empregos e do trabalho que dá conciliar tudo.

 Mães de crianças com necessidades especiais adorariam poder fazer o mesmo... Muitas de nós deixámos de trabalhar por causa dos nossos filhos ou trabalhamos poucas horas e perto de casa (sem carreira definida à vista), por causa dos nossos filhos.

 

E, apesar de tudo, são os nossos filhos e é por eles que fazemos tudo... Quero acreditar que, entre "mães" e "mães", pelo menos, essa diferença não existe.

 

 

in http://www.oneplaceforspecialneeds.com/main/library_regular_vs_special.html

 

 

 

---------------- Estamos também no Facebook --------------------

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:27

O ser humano blá blá blá é munido de ferramentas blá blá blá e isso permite-lhe conviver em sociedade blá blá blá e isto e aquilo e a comunicação e coiso.

Que discurso tão lindo!

 

 

Agora a minha versão:

[Este] ser humano - eu - é munido de ferramentas que lhe permitem conviver em sociedade - sem atirar um sapato à cabeça de alguém ou enfiar dois chapadões na cara de alguém - e, como tal, conduz a uma integração - que, às vezes, dispenso, obrigada - e descodificação de sinais e códigos sociais - que, na realidade, só me fazem perder tempo e anos de vida e nem sempre os conseguimos descodificar em condições -, abrangendo a comunicação - que, por vezes, cai no vernacular ribeirinho do Porto e não é bonito de se ouvir (pelo menos sem sotaque) -, e abrindo caminho à sociabilização/vida em sociedade - não me puxem pela lingua... E se eu fosse eremita?

 

 

As apresentações da escola são importantes para pais e alunos. É o primeiro grande contacto - e, em alguns (na maioria) dos casos, o único - com os docentes da turma, restantes pais e todos os alunos (ou os que decidem ir). Preocupados como somos, tanto eu como o marido, achamos que, mesmo que não diga nada à piolhas, elas devem estar presentes com os seus pares e restante grupo e, de alguma forma, estarem imersas num amboente e situação social para que possam ir adquirindo algumas estratégias e ferramentas para lidar com este tipo de pressões sociais e reuniões para as quais têm de ir, mesmo sem vontade.

 

Como as regular nessa situação? Deixá-las desenhar. (Como faz um adulto? Brinca com a caneta, rabisca no caderno, verifica a agenda e marca umas cenas, masca pastilha, pensa no que vai fazer para o jantar, se desligou o fogão ou a casa vai explodir, etc. Fomos todos alunos, somos todos adultos, todos nós passamos por isso em aulas ou reuniões, admitamos). Mas... Elas estão a apanhar tudo, não se preocupem (eu não apanhei parte do que se disse porque a modos que o meu cérebro não me obedece e vagueou para outros mundos - como, por exemplo, quando e quem vai ser a tarefeira?). Nunca irão fazer contacto ocular direto com quem quer que seja, por isso, nem vale a pena vir alguém bater com a mão na mesa e exigir "olha para mim quando falo!" porque isso não vai acontecer (eu faço contacto ocular perfeito e, sinceramente, acho que consegui ver uma marca de bostik na parede acima do quadro, atrás do orador). O que vai acontecer é elas estarem na delas, calmas e reguladas, e, quando o orador se calar, elas reproduzirem tal e qual o que acabaram de ouvir, no mesmo tom de voz e com as mesmas muletas linguísticas... E foi o que aconteceu hoje: desenharam durante aquele tempo, ouviram tudo com atenção e regularam-se, apesar de, aquela reunião ser mais voltada para os pais.

 

 

E o resultado foi isto (má qualidade por ter sido tirada no telemovel):

 

IMG_2722.JPG

 

Sem teorias psicanalistas por trás, as cores são só o que havia na minha bolsa: um lápis e uma caneta azul. As folhas foram arrancadas do meu moleskin. Quanto aos desenhos, interpretações não são necessárias, pois não?

E, enquanto desenhavam, ainda ouvi pequenos risinhos e revirares de olhos por serem poneis... Picasso também passou por um período azul porque, pasme-se!, o homem abusava do.... azul!!!! E era o Picasso!!! Por que raio não podem as minhas filhas desenhar poneis? Neste aspeto, fico feliz por as minhas filhas não terem estes filtros sociais... Porque eu tenho-os bem apurados e não gosto nada.

 

Aqui para nós, e honestamente, há convenções sociais que são muito complicadas de gerir... E, até para mim, me dava jeito um tutorial...

 

Quanto ao resto, há pequenos nadas que nos sabem pela vida. Qualquer mãe de crianças com NEE sente isso. Apesar de nos esperar um ano muito trabalhoso, menos horas de educação especial (um dia, com calma, eu ponderarei falar sobre o assunto, sem ser irónica ou sarcástica), tarefeira incógnita, sei que há estruturação, rotinas ainda estabelecidas e um bom grupo de profissionais que vão acompanhá-las até junho. E, com conhecimento de causa - o que me descansa muito o coração e tira um peso enorme de cima. Não há nada que se compare a este sentimento.

 

E, com mochilas My Little Pony, na 2ª feira, lá regressarão felizes "porque, mãe, eu gosto da escola!"

 

 

---------------- Estamos também no Facebook --------------------

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:10

Deve ser do tempo...

por t2para4, em 15.09.15

... ou então do mês!!!

 

Como já devem ter-se apercebido pelo que vou comentando, estamos oficialmente sem notícias televisivas desde novembro de 2014, mais especificamente, desde o dia da prisão de Sócrates. E, já que as mudanças começaram a ser bastantes - e para melhor! - optámos também por reduzir o consumo de TV, pelo que, a televisão da cozinha passou a ser monitor do computador do marido. Não há TVs nos quartos. Temos uma única e fica na sala.

 

Desde então, tem sido um tirar a barriga de misérias de desenhos animados a qualquer hora, séries novas e antigas com temporadas acessíveis a qualquer instante e até gravações automáticas (e nem menciono a loucura dos canais de música).

Continuamos informados com o que se passa no mundo: lemos as notícias, os cabeçalhos, os comentários, em papel ou formato digital gratuito. Para desgraças chegam alguns momentos das nossas vidas, não temos que pagar para ter acesso a ainda mais desgraceira.

 

Ora, em certas alturas, eu bem digo que a ignorância é uma benção. Mas há pessoas que abusam dessa benção e são apenas burras - sem ofensa aos bichos que até são bem simpáticos. O que diabo passou pelos poucos neurónios do nosso vice??? Fizeram curto-circuito, queimaram das férias, ainda não se aperceberam que a silly season já terminou, estão numa de salazar (deus, pátria, família), deu-lhes simplesmente? Então, o papel da mulher (e só da mulher, note-se) - que, eu até posso estar enganada - mas acaba por contribuir tanto ou mais do que o homem para a sociedade portuguesa atual que temos -é [saber] que têm de organizar a casa e pagar as contas a dias certos, pensar nos mais velhos e cuidar dos mais novos"?

Uau, quase que me sinto impelida a fazê-lo! É que, nesta visão simplória e estado novista do atual vice, eu ando aqui a matar-me com trabalho, a fazer descontos para a Segurança Social, a esfalfar-me com horários quase nunca compatíveis com os do meu marido, a conjugar vida profissional com vida familiar sem nunca descurar uma nem outra, a fazer cursos e especializações e o diabo a sete porque o (des)governo assim se lembra (ou seja, casa, trabalho, estudo e família com duas crianças com NEE) para quê?

Poderia estar tão bem em casa, mas sabe, vivendo num T2, a organização é rápida e em menos de uma semana eu até poderia começar a organizar os apartamentos dos vizinhos; a pagar as contas a dias certos - não sei se sabe, sr vice, existe uma coisa que os bancos têm que se chama débito direto. Às vezes, ajuda um bocadinho a aliviar essa pressão de pagar as contas a dias certos. E, claro, nos supermercados, acho que o Ti Belmiro ou Ti Jerónimo não devem aceitar livros de assentos, pelo que o pagamento é na hora, imediato, percebe? -, a pensar nos mais velhos - talvez, para aí nas merdas que as minhas avós fazem, apesar de terem idade para ter juízo, tipo andar sem comer um dia inteiro ou passar frio porque é mais importante poupar a reforma para algum filho desgovernado a gastar ou mentir à descarada no hospital, por exemplo, ou lembrar-se de sair de casa a meio da noite e preocupar toda a gente - e cuidar dos mais novos - vou ser muito honesta, de facto, dava-me jeito poder cuidar mais das minhas filhas mas se as obriga a ir à escola como o posso fazer? É que, sabe, os miúdos têm cerca de 7h por dia que são passadas na escola! Tem que se decidir, sr vice, ou recuamos aí uns 60 anos ou vivemos um século XXI! Este "não é carne nem é peixe" não dá com nada! 

Por acaso, o senhor já se armou em mulher hoje? Já pagou as suas contas a dias certos, pensou nos mais velhos e cuidou dos mais novos? Já organizou a sua casa, antes de a entregar a outros? Já tratou de assuntos prementes como Educação Especial atempada, justa e para quem precisa, mesmo? Já tratou de averiguar o que diabo anda o seu ministro a fazer todos os anos com os concursos de professores? Já tratou de assuntos pendentes, tipo dinheiro de submarinos que deveria era estar na Seg Social, para quem cá vive e quem cá trabalha e quem cá desconta?  É que quem é incapaz de arrumar a sua própria casa, não deve mandar bitaites na casa dos outros! E isto, aprendi com os mais velhos!

 

Eu bem digo que este mês nunca mais acaba. Setembro é, sem dúvida alguma, a 2ª feira do resto do ano. E, agora, sinto-me algo impelida a evitar também com a imprensa escrita...

 

 

 

---------------- Estamos também no Facebook --------------------

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:38

Tagarelice #46

por t2para4, em 08.09.15

Perguntava eu, na hora do banho, entre seca cabelos, enxuga pés e manda vestir:

"Como é que vocês se desenrascariam se eu tivesse mais filhos para limpar, hein?".

Sairam as mais surpreendentes respostas (e perguntas):

- Nós ajudamos-te mamã.

- Na tua gravidez, nós ficamos com quem?

- Podemos ter irmãos gémeos, uma menina e um menino, desta vez?

- Não, mana, dois meninos?

- E onde vamos buscar a cama, está uma em casa da avó.

- Eu dou uma gaveta para guardar os brinquedos deles.

 

 

STOP. Tipo, STOP!!! What????? De onde vem isto tudo?? Até aqui, deus nos livre de partilhar o que quer que fosse com mais alguém e agora até já fazem planos para irmãos que não (vão) existem!!! What????

Foi muito bom vê-las a conspirar e a ter a abstração suficiente para fazer planos mas, a modos, que assusta um bocadinho... Creio que este desejo por mais gente em casa - só pode ser isso!!! - se deve ao facto de uma amiga estar grávida e quase quase na reta final.

De resto, acho que têm uma boa imaginação para a ficção.

 

 

 

 

---------------- Estamos também no Facebook --------------------

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:37

Tagarelice #45

por t2para4, em 08.09.15

Eis-nos às compras. Fomos a dois supermercados diferentes e passaram-se episódios linguisticos caricatos nos dois.

 

Ponto 1:

 Passa a senhora da caixa a correr até à zona do pão para ver pesos e preços e diz a B., em tom irónico, à velha metediça: "Estás cá com uma pressa!". Fiquei verde, amarelas, roxa às pintas! E ela só dizia, com a maior naturalidade, "mas a senhora estava mesmo com pressa!"

Desconstruindo: usou bem a linguagem para se referir à ação mas usou ironia como ecolália... E isso já não está bem e foi-me complicado explicarq eu, naquela situação, não se aplica aquele comentário.

 

 

Ponto 2:

Estamos na caixa prioritária que estava quase vazia, só tinha 2 pessoas à frente: uma senhora já a ser atendida e um homem com uma barriga proeminente maior que a minha de gémeos em fim de tempo. E, explicava eu, às piolhas que, se aparecesse uma pessoa idosa, uma grávida ou alguém com carrinho de bebé ou bebés ao colo, teriamos que dar prioridade, ou seja, deixar passar à frente. E, sai-se a B. - de novo, estava inspirada naquele dia - com esta pérola divinal:

"Então,  mas este homem está grávido ou só inchado?!"

Juro que estou a rir que nem uma perdida a tentar acertar nas teclas do pc. Apesar de inconveniente, a verdade é que a miúda tinha razão. E, mais uma vez, lá lhe expliquei que, por vezes, mesmo que nos apeteça e seja verdade, há coisas que não devemos dizer em voz alta. Para a próxima, se ela não conseguir controlar estes ímpetos de honestidade e ecolália, o ideal é dizer-mos ao ouvido.

 

 

 

 

---------------- Estamos também no Facebook --------------------

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:29

É "só" um bilhete...

por t2para4, em 07.09.15

Há coisas que nos deixam sem chão, sem reação.

Há coisas que acontecem quando não estamos minimanente preparados para isso.

Há coisas do caraças, basicamente.

 

Eu tenho a minha quota parte de cenas estranhas e de ações inexplicáveis, como esta que vivi há uns anos, ainda sem saber que as minhas filhas tinham autismo. Quando penso nisso, sinto-me, de novo, sem saber como reagir, se pudesse voltar o relógio uns anos atrás, pois poderia ter feito tanto mais...

Mas o marido tambem começa a ter a quota parte dele. Nestes dias, chegou a casa e deu-me um bilhete, dobrado em pequenos quadrados, uma folha A4 com uma frase escrita a caneta azul, letra bem desenhada, mas mensagem muito confusa. Pensei que tinha sido alguém do serviço a gozar com ele. Contou-me, então, que tinha sido um adolescente que lhe tinha entregue o bilhete pois precisava mesmo de lhe dar esse recado. E a mãe pediu, encarecidamente, para que o aceitasse. Independentemente de tudo, o marido aceitaria tal como aceitou.

E, depois veio a confrontação: dizia a mãe do tal rapaz que ele já tinha saido de casa com aquela ideia fixa e ela não o conseguira demover. Se o meu marido ou outra pessoa qualquer se recusasse a aceitar o bilhete do miúdo, ele teria tido um meltdown, ali na hora, porque não conseguiria entender o porquê da recusa nem conseguiria regular-se a ponto de acalmar a ansiedade quue escalava desde que o escrevera.... O miúdo tem Autismo e, se valer alguma coisa o que nos dizem os nossos olhos já algo treinados, em grau nem mais grave que o das nossas filhas - daí a designação de espectro. Não há um caso igual.

O marido partilhou com aquela mãe que tambem conhecemos essa realidade e, creio que desceu sobre ela, uma aura de compreensão que só nós sentimos. Não foi preciso dizer mais nada. O miúdo ficou feliz da vida, a senhora ficou de coração leve e o meu marido, bem, sentiu-se sem chão... E ficamos ambos com um peso estranho no peito...

 

Olhos clínicos a analisar aquele bilhete notam: uma escrita fluida, caligrafia cuidada e bom domínio da articulação ombro-cotovelo-pulso, folha limpa, motricidade fina relativamente controlada mas descontrolo visual no espaçamento e altura do desenho das letras, ausência de noção de divisão morfológica mas conhecimento básico da sintaxe portuguesa e de como construir uma frase minimanente inteligivel; a folha dobrada quase milimetricamente em quadrados perfeitos mostram controlo óculo-motor e domínio da motricidade fina, estruturação mental e abstração suficiente para se perceber que uma folha A4 de cerca de 25 cm pode transformar-se num papelucho de 5 cm.

Quem diria que se percebe tanto a partir de um simples recado?

 

O bilhete tem, agora, morada fixa na minha carteira, onde tenho - cliché, eu sei - fotos das piolhas, documentos e dinheiro. E uma ou outra coisa que me trazem excelentes memórias: uma foto do meu casamento, uma medalha que trouxe de S. Miguel, um seixo minúsculo apanhado pela minha B., um souvenir oferecido pela minha irmã. E agora o bilhete desse miúdo.

 

Nesse mesmo dia, fomos ao cinema com as piolhas. Demoramos anos a prepará-las para esse tipo de ambiente e, apesar de tudo, ainda se sentem estranhas quando o som surge e as luzes baixam mas tranquilo. Fomos ver a Ovelha Choné, que, diga-se de passagem, adorámos. E absorvi cada minuto deste passo gigantesco que demos todos, pois, já fui mais vezes ao cinema este verão do que nestes últimos 9 anos da minha vida. E, lá longe no meu pensamento, esperava que o autor do bilhete que trago comigo, consiga tudo isto e muito mais.

 

 

 

---------------- Estamos também no Facebook -------------------- 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:18

Dizem que ver gatos melhora o humor

por t2para4, em 03.09.15

Foi o que fizemos agorinha mesmo.

Estes pensamentos à volta do podre que está o nosso mundo não podem fazer bem à cabeça e deixam um peso negro no coração. Fomos tratar dos nossos pets e fomos aproveitar o que de melhor há no quintal da avó.

E, tivemos uma surpresa boa, que nos arrancou umas boas gargalhadas! Gatos malucos!!!

 

2015-09-03_182534.jpg

 

Deixei o carro aberto enquanto fui apanhar figos e, quando chegámos, vimos o Quico, todo sorrateiro e sem vergonha nenhuma, a entrar no carro. Foi logo para a cadeirinha de uma das piolhas e sentou-se na boa. O Silvestre seguiu os seus passos mas optou por ficar à frente...

 

"Eu conduzo! Eu conduzo!"

"Vamos lá, então! Conduz com cuidado que o cinto não me serve" (apesar de ter a noção de que não tem altura suficiente para não usar cadeirinha.)

(Diálogo criado pelas piolhas...)

 

Momento cómico do dia, é bom. E as piolhas fartaram-se de rir com eles e isso é muito bom.

E, no final, já em casa, reparamos que já temos framboesas e amoras suficientes para fazer doce, figos demasiado maduros que também vão virar doce para o Natal (framboesas, amoras silvestres e figos devidamente selecionados e já no congelador) e figos doces para a sobremesa de hoje - apanhados na companhia das piolhas e dos gatos -, uns limões que caíram quando passámos, tomate que já cresceu o que devia e alguma salsa para repor a nossa ausência de stock. E um aroma fantástico dentro do saco. Pequenas coisas que nos enchem a alma.

 

2015-09-03_182715.jpg

 

 

 

 

---------------- Estamos também no Facebook -------------------- 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:20

Aulas de História para todos, sff

por t2para4, em 03.09.15

Não percebo, não entendo, não compreendo este mundo, o que se passa, o que está a passar-se. Será que, o período do início do século XX até aos anos 80, não fazia parte do programa de História de todos os países, só em Portugal?

Será que os comboios cheios de gente, os familiares a puxar os filhos (e outros) para dentro, a polícia vigilante, as marcações de números na própria pele, a fuga por causa de motivos religiosos, os muros erguidos, o arame farpado, os enganos das viagens de comboio, a recusa de vários países em receber milhares de refugiados (imprensa sensacionalista: migrantes são quem sai de livre vontade de um país, não quem foge à guerra), as mortes pelo caminho... não lembra nada nadinha a ninguém? Não faz recordar algo que aconteceu há pouco mais de 75 anos? Será que passou assim tanto tempo que nos tenhamos todos esquecido dos horrores que o mundo conheceu pouco depois de 1945?

Eu não acredito - não quero acreditar - que haja alguém no mundo atualmente que nunca tenha ouvido falar de judeus-II Guerra Mundial- refugiados-holocausto. Não posso crer.

 

Não quero ousar pensar que nos possa acontecer o mesmo e, se assim for, o nosso mediterrâneo será o Atlântico... Assusta-me que milhares de refugiados tenham que deixar uma vida para trás... Assusta-me que, ao lhes abrirmos a porta de coração aberto - somos tugas, não há hipótese. Somos crueis uns para os outros mas damos a própria camisa aos de fora - venha um esgroviado islamista fundamentalista terrorista infiltrado e venha acabar com o que nós ainda não acabámos... Assusta-me que, autarcas e governo, possam estar a enganar estas pessoas que fogem, prometendo-lhes casa (que muitas vezes não há para os portuguese), escolas para os filhos (que muitas vezes não têm vagas nem recursos para receber os dos portugueses), trabalho (que não há para os portugueses), subsídios (que já sabemos como funcionam para os portugueses...). E, honestamente, assusta-me este medo do amanhã, do não saber o que fazer para tornar este mundo um bocadinho melhor...

 

Prometi a mim mesma que não falaria disto nem escreveria posts, mas depois de ver o meu facebook pessoal e o do blog invadidos - literalmente - com imagens de crianaçs mortas, de crianças que andam de país em país a pé ou sabe-se lá como, com ou sem pais ou adultos cuidadores por perto, a pedir nada mais nada menos do que uma casa e paz, dou graças por tudo o que tenho. E espero que, autismos à parte, as minhas filhas saibam dar o devido valor ao que temos. Pode funcionar mal, pode revoltar-nos, pode ser necessário ir à luta para conseguir validar os nossos direitos, mas, para já, ainda há quem nos ouça e estamos em casa... Aqui não acordamos com raids, nem com a incerteza de viver mais um dia, nem com destroços à volta...

Dou graças por ter as minhas filhas seguras, saudáveis, aqui pertinho de mim... Valorizo cada segundo com elas, mesmo quando num handflapping louco uma cotovelada me ia partindo o nariz e hoje tivemos que fitacolar a gaveta da impressora...

 

E, posto isto, apesar de já não ver noticiários desde novembro e só ler as gordas da imprensa, às vezes, penso mesmo que a ignorância é uma benção...

Para já, sejamos humanos e sigamos o caminho da inclusão - que não passa apenas pela deficiência... Temos tanto a aprender uns com os outros... E, acredito que os nossos filhos, nas mesmas escolas que os filhos de quem vem em busca de paz, podem crescer em muitos  mais sentidos do que só em altura. E, nós pais, também. E que a nossa paz tuga, à tuga, se mantenha por muitos muitos muitos anos.

 

 

---------------- Estamos também no Facebook -------------------- 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:48

Contador

AmazingCounters.com


Direitos Reservados

Algumas das fotos publicadas neste blog são retiradas da Internet, tendo assim os seus Direitos Reservados. Se o autor de alguma delas discordar da sua publicação, por favor informe que de imediato será retirada. Obrigada. Os artigos, notícias e eventos divulgados neste blog tem carácter meramente informativo. Não existe qualquer pretensão da parte deste blog de fornecer aconselhamento ou orientação médica, diagnóstico ou indicar tratamentos ou metodologias preferenciais.


Mais sobre mim

foto do autor







Copyright

É proibida a reprodução parcial/total de textos deste blog, sem a indicação expressa da autoria e proveniência. Todas as imagens aqui visualizadas são retiradas da internet, com a excepção das identificadas www.t2para4.com/t2para4. Do mesmo modo, este blog faz por respeitar os direitos de autor, mas em caso de violação dos mesmos agradeço ser notificada.

Visitas


Translate this page


Mensagens