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É "só" um bilhete...

por t2para4, em 07.09.15

Há coisas que nos deixam sem chão, sem reação.

Há coisas que acontecem quando não estamos minimanente preparados para isso.

Há coisas do caraças, basicamente.

 

Eu tenho a minha quota parte de cenas estranhas e de ações inexplicáveis, como esta que vivi há uns anos, ainda sem saber que as minhas filhas tinham autismo. Quando penso nisso, sinto-me, de novo, sem saber como reagir, se pudesse voltar o relógio uns anos atrás, pois poderia ter feito tanto mais...

Mas o marido tambem começa a ter a quota parte dele. Nestes dias, chegou a casa e deu-me um bilhete, dobrado em pequenos quadrados, uma folha A4 com uma frase escrita a caneta azul, letra bem desenhada, mas mensagem muito confusa. Pensei que tinha sido alguém do serviço a gozar com ele. Contou-me, então, que tinha sido um adolescente que lhe tinha entregue o bilhete pois precisava mesmo de lhe dar esse recado. E a mãe pediu, encarecidamente, para que o aceitasse. Independentemente de tudo, o marido aceitaria tal como aceitou.

E, depois veio a confrontação: dizia a mãe do tal rapaz que ele já tinha saido de casa com aquela ideia fixa e ela não o conseguira demover. Se o meu marido ou outra pessoa qualquer se recusasse a aceitar o bilhete do miúdo, ele teria tido um meltdown, ali na hora, porque não conseguiria entender o porquê da recusa nem conseguiria regular-se a ponto de acalmar a ansiedade quue escalava desde que o escrevera.... O miúdo tem Autismo e, se valer alguma coisa o que nos dizem os nossos olhos já algo treinados, em grau nem mais grave que o das nossas filhas - daí a designação de espectro. Não há um caso igual.

O marido partilhou com aquela mãe que tambem conhecemos essa realidade e, creio que desceu sobre ela, uma aura de compreensão que só nós sentimos. Não foi preciso dizer mais nada. O miúdo ficou feliz da vida, a senhora ficou de coração leve e o meu marido, bem, sentiu-se sem chão... E ficamos ambos com um peso estranho no peito...

 

Olhos clínicos a analisar aquele bilhete notam: uma escrita fluida, caligrafia cuidada e bom domínio da articulação ombro-cotovelo-pulso, folha limpa, motricidade fina relativamente controlada mas descontrolo visual no espaçamento e altura do desenho das letras, ausência de noção de divisão morfológica mas conhecimento básico da sintaxe portuguesa e de como construir uma frase minimanente inteligivel; a folha dobrada quase milimetricamente em quadrados perfeitos mostram controlo óculo-motor e domínio da motricidade fina, estruturação mental e abstração suficiente para se perceber que uma folha A4 de cerca de 25 cm pode transformar-se num papelucho de 5 cm.

Quem diria que se percebe tanto a partir de um simples recado?

 

O bilhete tem, agora, morada fixa na minha carteira, onde tenho - cliché, eu sei - fotos das piolhas, documentos e dinheiro. E uma ou outra coisa que me trazem excelentes memórias: uma foto do meu casamento, uma medalha que trouxe de S. Miguel, um seixo minúsculo apanhado pela minha B., um souvenir oferecido pela minha irmã. E agora o bilhete desse miúdo.

 

Nesse mesmo dia, fomos ao cinema com as piolhas. Demoramos anos a prepará-las para esse tipo de ambiente e, apesar de tudo, ainda se sentem estranhas quando o som surge e as luzes baixam mas tranquilo. Fomos ver a Ovelha Choné, que, diga-se de passagem, adorámos. E absorvi cada minuto deste passo gigantesco que demos todos, pois, já fui mais vezes ao cinema este verão do que nestes últimos 9 anos da minha vida. E, lá longe no meu pensamento, esperava que o autor do bilhete que trago comigo, consiga tudo isto e muito mais.

 

 

 

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publicado às 22:18

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