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Pois é. Neste país somos todos peritos em várias coisas, somos experts em muitas coisas e somos mesmo profissionais a dar opiniões - geralmente que ninguém pediu. Mas damos na mesma, tal é a nossa boa vontade.

 

Eu sei que a vida profissional na área do ensino está má.

Eu sei que há grupos disciplinares/recrutamento com milhares de pessoas à minha frente e atrás de mim.

Eu sei que sou da área das línguas estrangeiras (fui eu quem escolhei o curso e terminei, remember?)

Eu sei que o ensino foi chão que já deu uvas há muitos e muitos e muitos anos.

Eu sei que, em tempos bons, serei sempre e para sempre uma contratada que, se hipoteticamente, alguma vez ficar nos quadros alcançará um 5º ou 6º escalão já que chegar ao 10º há de ser quando eu tiver 150 anos e 80 de descontos.

Eu sei que é todos os anos a mesma coisa: luta contra o desemprego, concursos, escolha de escolas com o guia michelin e google maps à frente, ansiedade, etc.

Eu sei que há mais profissões no mercado.

 

O que eu não sei é onde estavam essas pessoas que me dizem todas estas coisas (e outras bem piores - lá chegaremos) no meu 9º ano, aquando da escolha e orientações vocacionais. Ou aquando do meu ano decisivo. Ou até aquando do preenchimento da folha para os exames nacionis. Ou até aquando da minha candidatura à universidade.

 

Meus amigos, vamos lá a entender-nos.

Eu não critico nem condeno nem aponto o dedo a ninguém que quisesse ter seguido a área de, digamos, enfermagem (que, já agora, está ligeiramente pior que a do ensino) ou administração pública ou engenharia civil ou tivesse ficado pelo 12º ano ou até pelo 9º ano (o limite da escolaridade obrigatória nos anos 90).

Eu quero lá saber se trabalham numa loja numa caixa de supermercado num banco ou numa multinacional. Trabalho é trabalho e deve ser sempre motivo de orgulho.

Eu quero lá saber se trabalham por conta de outrém, se por conta própria, se são freelance, se estão no quadro ou se vivem de contrato a contrato.

Eu quero lá saber se optaram por ir trabalhar ou ficar em casa, alargar a licença de maternidade ou trocá-la com o marido ou puseram um ano ou dois ou três sabáticos ou tiraram uma licença sem vencimento.

Eu quero lá saber se emigraram ou imigraram.

 

São opções. Opções que, certamente, terão sido ponderadas, pensadas ou acasos que formaram um caminho que se revelou percorrível (existe, esta palavra?) ou nem por isso e mudou-se de ideia.

São escolhas pessoais . Escolhas essas que se refletem no campo e vida profissional de cada um e não são do departamento nem da alçada de mais ninguém.

 

 

Eu escolhi ser professora. Eu decidi-me, definitivamente pela via do ensino no meu último ano de faculdade, depois de recuperar de uma depressão e esgotamento nervoso. Optei pelo ensino em detrimento de uma entrada na Polícia Judiciária (já que as vagas em aberto não contemplavam o meu curso nem escolaridade mínima sem ele), continuei a seguir o ensino mesmo depois de ter sido chamada para fazer os testes de aptidão para a Polícia Municipal. Andei, muitos anos - quase todo o meu percurso de ensino superior - indecisa entre o ensino e a área policial. E optei pelo ensino. E, apesar de, por vezes, principalmente, entre junho e outubro, pensar que foi o pior que poderia ter feito, não sei se alguma vez seria tão boa agente como tento ser docente. Não sei se alguma vez as coisas fluíriam de forma quase natural se eu tivesse enveredado pela área policial.

Não quero mudar de profissão. Já passei por muito pior nesta área e consegui sempre, entre um buraco e outro, uma lugar e outro, algumas horas que me deram uma tremenda experiência, tempo de serviço e salário, descontos e contagem de tempo para a reforma (que, por causa de uma decisão mal tomada na altura, está quase paralela com o nº de anos de trabalho.

 

 

Não, lamento, mas não quero emigrar. Não me interessa minimamente quantas línguas falo, se sou fluente, se me dariam equivalências para o ensino em qualquer outro país. Não quero emigrar. Gosto do local onde vivo - senão teria mudado quando casei. Gosto da qualidade de vida que a minha pequena cidade e proximidade com uma grande cidade capital de distrito me proporciona. Gosto de abrir o estoro e ver uma serra nevada ou enevoada ou ver a lua subir por detrás das colinas. Gosto de ter todas as condições de apoio necessárias para as minhas filhas e as suas necessidades. Aceito o meu país e a minha localidade como são, com virtudes e defeitos. Gosto do sol, do clima, da comida, da vida que levo no meu país.

Não emigrei aquando do pior por que todos passamos, não me parece que vá fazê-lo agora, até porque se, alguma vez o fizermos, os que me mandam emigrar, terão sorte e nunca mais me/nos verão pois não regressaremos nem de férias e até mudaremos de nacionalidade. Mas não pretendemos chegar a tal.

 

 

 

Não me interessa o que fariam no meu lugar se fossem professores ou professores de línguas. Essas pessoas não são eu, não passaram pelo que passei, não vivem a minha vida, não tomam decisões por mim.

Estou-me com-ple-ta-men-te nas tintas para a opinião acerca do que poderia ter feito ou onde/como poderia estar se eu não tivesse decidido mudar de estratégias e alterar prioridades. Meus amigos, vamos lá a ver, eu optei (sinónimo de escolhi) colocar as minhas filhas em primeiro lugar ao invés de colocar a carreira (seja lá o que isso for nos dias que correm) e desistir de fazer mestrado (seja lá o que isso for também nos dias que correm). O que, aos olhos de todos foi um grande disparate pois até fiquei colocada durante anos a fio em bons horários e sempre pertíssimo de casa MAS implicavam uma dedicação quase total em horas e trabalho que eu nunca conseguiria mostrar, revelou-se a melhor decisão tomada enquanto família. Eu e o marido, logo após o diagnóstico de autismo das piolhas, ponderámos muita muita coisa, fizemos muitas muitas contas (parecemos uns contabilistas merceeiros) e decidimos atrasar a evolução profissional de um de nós por algum tempo - o que estivesse profissionalmente mais instável - de modo a poder estar 100% disponível para tudo - e eu digo mesmo tudo  - que envolvesse as piolhas: terapias a qualquer hora do dia, consultas aleatórias, urgências, chamadas constantes da escola. Se eu tivesse uma profissão que os outros chamam de normal, eu seria despedida em menos de três tempos, nunca me renovariam contratos, nunca poderia voltar a trabalhar. Assim, com a vantagem de trabalhar muito menos horas do que o marido e ter horários condensados em partes do dia (manhãs ou tardes, 1h aqui ou ali), deu perfeitamente para conseguir acompanhar tudo e faltar o mínimo possível.

E, guess what?, resultou. Resultou mesmo. Hoje, 5 anos depois de um diagnóstico (em dose dupla) que nos paralisa e nos obriga a mudar tudo num mínimo espaço de tempo possível, eu já consigo ter quase as mesmas horas de trabalho de um professor de 3º ciclo e secundário - ainda que isso implique trabalhar por conta própria em determinadas situações e não seja correspondente ao salário tabelado -, consigo continuar a saga do acumular tempo de serviço, consigo ter um salário que alivia um pouco a obrigação do marido de ter que trabalhar por 1 pessoa e meia. Passo o verão a pensar em setembro e outubro mas não acredito que venha a ser pior do que já foi.

 

 

Por isso, para esses "orientadores vocacionais", tão cheios de certezas e lirismos, a menos que caminhem com os meus sapatos nos trilhos que já percorri (isto em inglês soa dez mil vezes melhor), a menos que queiram vir cá para casa ajudar ou a menos que queiram pagar-me as contas, sugiro que mudem de profissão. É que o mercado já está cheio, há demasiada concorrência, há até quem dê conselhos de graça - nem sei como vivem, pobrezinhos- basicamente, há "orientadores" a mais. Emigrem. Por exemplo. Dar conselhos é uma coisa universal, nem precisam de equivalências.

 

 

Boa sorte ;)

 

 

 

 

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publicado às 14:50

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