Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




"Se eu tivesse um mundo meu, tudo seria sem sentido. Nada seria o que é, porque tudo seria o que não é. E ao contrário, o que é, não seria. E o que não seria, seria. Vês?"
Alice no País das Maravilhas

 

Em vésperas do dia da criança pensei em fazer um post com um breve questionário onde as piolhas dariam as suas respostas. E, enquanto tratava do assunto, deparo-me com aquela parede que nos impede de avançar e pede que demos a volta, desmontemos ou trepemos ou até escavemos para podermos chegar ao outro lado. Um - aparentemente - simples questionário com perguntas do género "Como és? Descreve-te" ou "Qual o teu hobby?" não têm as respostas que os miúdos da mesma idade habitualmente dão. Nem sequer saem respostas que possam aproveitar-se. Ou seja, não é um conteúdo escolar ou académico que possa ser estudado para depois ser debitado numa qualquer ficha ou responder ecolalicamente em caso de pergunta; é o responder espontaneamente, sem ter que pensar muito, só dizer. Que não se diz.

 

Estamos em fase de avaliação. Tudo é avaliado, só falta mesmo vir a equipa da colheita de sangue, urina e fezes. E eu estou menos tolerante, mais cansada, mais atenta e mais exigente. E as piolhas estão menos tolerantes, mais cansadas e a (continuar a) não estar nos supostos parâmetros normais exigidos para a idade. Muita da avaliação é feita por nós pais e outra pelos técnicos que as apoiam na escola. Mais a avaliação do Hospital Pediátrico cujos relatórios ainda não vieram mas, pelo que me explicaram e eu percebi, se alguém tiver dúvidas quanto ao autismo delas vai levar com o raio dos relatórios pela tromba acima porque, pasmemo-nos, de acordo com a Escala de Ruth Griffiths para esta faixa etária, o comportamento e a linguagem apresentam-se abaixo do "normal". Ou seja, basicamente, continuamos com a confirmação do diagnóstico de PEA - não que eu tivesse dúvidas.

 

O mais estranho nisto tudo é a absurdidadedo que sinto em alturas destas. 

Racionalismo puro e duro: absorver, reter, ler, aceder ao máximo de informação possível para me fazer entender e entender o que se passa em torno das piollhas e poder reproduzir algo mais técnico em casa ou, pelo menos, poder auxiliar o trabalho escolar de alguma forma, sempre com a ideia do "amanhã", "lá fora, na vida real".

Ingenuidade e estupidez no seu mais puro nível: isto não passou de um grande engano, os humanos não detêm o poder da universalidade de conhecimento, um dia eu vou chegar ao hospital e não precisar mais de repetir rotinas, falar de medos, falar de problemas porque elas estão tão bem e tão evoluídas que puf, não há nem  nunca houve um diagnóstico do que quer que seja.

Bofetada mental: os comportamentos disruptivos, os desfasamentos de desenvolvimento, as questões linguísticas têm um nome (não importa qual) com base no qual se trabalha para que se desenvolvam estratégias para que elas possam vingar no mundo real lá fora, amanhã. E, para isso, é preciso estar atenta e ser-se dedicada. Independentemente de tudo.

 

Portanto, o raio da emoção estraga-me o raciocínio todo, estraga-me as unhas a ponto de ficar só com as cabeças dos dedos e de perder mais cabelo que o ser humano comum (graças aos céus que tenho uma cabeleira forte senão já andava a contar os últimos sobreviventes capilares). Em alturas dessas, preciso de café, descanso, umas quantas lágrimas vertidas, conduzir, organizar ideias.

 

E porquê esta "fixação" com o "normal" quando o ser "normal" é, no fundo, seguir a carneirada e não primar pela diferença? Porque, no raio do mundo em que vivemos, se não tivermos a base do suposto "normalismo" não sabemos distinguir-nos pela nossa verdadeira diferença. O standard, o padrão é o ser-se "normal" - e é nesse padrão "normal" que está na base da maioria das escalas de avaliação. E é ao preencher isso que nos damos conta de como nos sentimos no momento em que preenchemos e avaliamos. Não é uma avaliação que se faça matematicamente, cruamente. É algo mais suscetivel... Numa pergunta do género "Deixa a roupa torcida no corpo depois de se vestir", comecei com um raramente para estar agora num frequentemente. E porquê? Porque se, no ano passado ou há 2 anos atrás eu até tolerava isto porque eram pequenas porque se vestiam com dificuldade porque era eu quem ajudava para nos despacharmos, agora não tolero porque já se vestem sozinhas porque não custa nada meter o raio da t-shirt mais direita porque com 9 anos já é mais do que suposto fazerem isto há mais do que tempos!!!

E as fitas para fazer as coisas são tão mais intensas e a tolerância à frustração baixou mais do que eu desejava e o foco na atividade em mãos caiu drasticamente e o toque de alvorada é a partir das 6h30. E supostamente as coisas, nesta fase não deveriam estar ao nível de crianças de 5 ou 6 anos mas é o que temos. As fitas atuais são quase todas por causa do mesmo - brinquedos - e quase sempre é aquela birra desgastante que os miúdos desta idade fazem. Mas com gritos mais altos e mais esbracejares porque a idade e o tamanho já são outros...

 

Por isso, nesta fase, honestamente, precisamos muito muito de descansar em muitos muitos níveis. Precisamos do bom tempo de volta (e não desta instabilidade que enlouquece os miúdos e não há mandalas nem palavras cruzadas que nos valham). Precisamos de quem venha por bem. Precisamos de dias sem rotinas rígidas nem obrigações nem correrias. Precisamos de boas memórias (ou de boas amnésias, como as que nos fazem esquecer os medos e as dores de um parto para embarcar numa nova gravidez, como se nos tivessemos esquecido de tudo). Precisamos de tempo para nós.

 

 

Portanto, em vésperas do dia da criança, não quero saber de posts bonitos e, basicamente, não peço muita coisa para as minhas crianças - em especial as minhas filhas - ou para a criança em mim: felicidade - aquela felicidade ingénua, pura, memorável, da junção de todas as pequenas felicidades vindas das pequenas coisas - e nisso, nós somos peritos. With no strings attached... Se calhar, no mundo da Alice onde tudo parece fazer muito mais sentido, aquele sentido que, às vezes, só eu vejo neste nosso "mundo"...

 

 

 

2016-05-30_211024.jpg

 

 

 

 

---------------- Estamos também no Facebook --------------------

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:28

Contador

AmazingCounters.com


Direitos Reservados

Algumas das fotos publicadas neste blog são retiradas da Internet, tendo assim os seus Direitos Reservados. Se o autor de alguma delas discordar da sua publicação, por favor informe que de imediato será retirada. Obrigada. Os artigos, notícias e eventos divulgados neste blog tem carácter meramente informativo. Não existe qualquer pretensão da parte deste blog de fornecer aconselhamento ou orientação médica, diagnóstico ou indicar tratamentos ou metodologias preferenciais.


Mais sobre mim

foto do autor







Copyright

É proibida a reprodução parcial/total de textos deste blog, sem a indicação expressa da autoria e proveniência. Todas as imagens aqui visualizadas são retiradas da internet, com a excepção das identificadas www.t2para4.com/t2para4. Do mesmo modo, este blog faz por respeitar os direitos de autor, mas em caso de violação dos mesmos agradeço ser notificada.

Visitas


Translate this page


Mensagens