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Ir para fora, cá dentro

por t2para4, em 27.08.16

Antes de sermos pais, passeávamos muito e, na maioria das vezes, saíamos de madrugada de casa apenas com o destino pensado mas sem nada definido. Se nos atrasássemos, até passaríamos a noite fora, num solar ou hotel. Engravidei e foi impossível andar de um lado para o outro; nasceram as piolhas e a logística era tal que cansava só de pensar em sair: primeiro porque eram muito pequenas, depois porque não conseguiam estar em lado nenhum, depois porque não aguentavam ir a lado nenhum sem uma gritaria descomunal, depois porque não é fácil passear com crianças de quase 5 anos que ainda usavam fraldas. Fomos desistindo de arriscar saídas para longe e nunca mais passámos noites fora.

Entretanto, com o trabalho desenvolvido pelos técnicos e professores e por nós, com a maturidade que foi surgindo nas piolhas, começámos, pouco a pouco, a experimentar percursos cada vez maiores e mais elaborados e, apesar de uma ou outra contrariedade, tem corrido bem. Não podemos esquecer-nos de antecipar uma saída – para evitar episódios de ansiedade – nem de parabenizar bons comportamentos – que pode ser algo tão simples como poderem levar e usar o tablet (mas só no carro e durante a viagem).

 

2016 tem sido um ano generoso em saídas uma vez que conseguimos conjugar vários fatores:

- vivemos no centro do país pelo que, facilmente e em poucas horas de viagem, conseguimos percorrer vários km e visitar locais onde não precisamos de pernoitar;

- aproveitamos o período da manhã bem cedo para fazer o percurso e estar no local por volta das 9h ou 9h30, o que não constitui sacrífico pois as piolhas dão o toque de alvorada bem cedo e o café é sempre um amigo presente para mim;

- utilizamos muito autoestradas (a história de poupar em portagens e usar nacionais, para mim é uma falácia, a menos que queiramos conhecer localidades por onde passem. O carro tem muito menos desgaste, gasta menos combustível e pneus em autoestrada, não há desvios entre localidades centrais, por exemplo);

- conjugamos a visita a várias localidades e pontos de interesse numa só viagem, criando, para isso, um itinerário e calculando o tempo que despendemos em casa local (anotamos os locais que queremos visitar, verificamos a proximidade entre eles e criamos um percurso, anotamos as coordenadas GPS, definimos um tempo para a visita e para a viagem, levamos uns lanches para a viagem, decidimos onde almoçaremos - com ou sem picnic- e cumprimos o que estabelecemos, explicamos/contextualizamos a história do local às piolhas);

- podemos conciliar saídas com folgas do marido ao invés de aguardar por férias.

 

Já conseguimos visitar quase toda a área central do país, aproveitando, principalmente, locais de grande interesse histórico, antecipando, assim, alguns dos conteúdos que serão lecionados na escola.

Ainda sentimos muita dificuldade com o passar noites fora do nosso ambiente familiar. Acredito que, com a devida preparação, as piolhas até delirariam com a ideia mas fica muito caro. Temos pesquisado locais onde aceitem 2 adultos e 2 crianças no mesmo quarto e os preços disparam. Alugar 2 quartos e ter as piolhas num e nós noutro está fora de questão; pôr uma a dormir com a mãe e outra com o pai não me parece muito adequado nos dias que correm; um quarto para tantos é uma suite e não há bolsa para isso… Por isso, ainda não foi desta que arriscámos ir para lá de Guimarães, nem para lá de Monte Real e muito menos ilhas…

 

No entanto, e como somos umas mulas teimosas, quando decidimos que é para sair, é para sair. Mesmo que as piolhas digam que não e que fica muito longe de casa e que vão ter saudades e que isto e que aquilo. Vão para onde formos e mais nada. Quando tiverem idade para ficarem sozinhas em casa, já terão voto de decisão; até lá, mandamos nós.

Assim, este verão conseguimos fazer algumas rotas interessantes. O acaso tem sido nosso amigo e, por vezes, proporciona-nos algo diferente como atividades de rua ou feiras medievais ou exposições. E ainda bem pois se soubéssemos de antemão, dado o evitar de possíveis crises de ansiedade e meltdowns, provavelmente iríamos noutras datas e perderíamos pequenos espetáculos. Que foi o que aconteceu quando fomos a Guimarães, aproveitando uma ida ao aeroporto para ir buscar a avó: a feira afonsina esperava-nos e foi muito engraçado ver canções na rua – apesar de as piolhas terem tido medo e se terem recusado a aproximar-se do grupo. A pé, subimos a avenida principal até aos Paços dos Duques de Bragança (e adorámos ver uma das piolhas a comparar estilos arquitetónicos com o Mosteiro da Batalha), dali para o Castelo e capela onde, supostamente, D. Afonso Henriques foi batizado. E andámos pelo espaço da feira sem dificuldades.

 

Já conhecemos outro lado do Porto: começámos na zona da Foz e do estuário, passámos por baixo da ponte da Arrábida e viemos por Vila Nova de Gaia, até perto da marina. Depois fomos pela zona das caves até à Ponte D. Luís e atravessámos até à Zona Ribeirinha, que adoro imenso. Não comemos francesinhas mas andámos de barco (porque o preço do teleférico, desculpem-me, é um abuso) e aproveitámos cada momento da viagem. As piolhas gostaram pois já tinham andado nos moliceiros na Ria de Aveiro e gostariam de andar de barco de novo. Dali, fomos até ao Senhor da Pedra, ver aquela pequena capela fantástica no meio da praia, sempre atentos à subida da maré pois a ideia era visitar a capela por dentro sem nos molharmos. Ficámos impressionados com a praia lindíssima, limpíssima e águas transparentes. Parámos em Santa Maria da Feira para visitar o Castelo e terminámos o dia na Costa Nova, por onde já tínhamos andado no ano anterior mas, desta vez, com muito menos gente e muito menos confusão.

 

Também já fizemos uma volta na zona litoral: começámos na Nazaré – onde abusei das bolachas de amendoim fantásticas que lá vendem, adoro! – no Sítio e Forte de São Miguel, seguimos para São Martinho do Porto e Foz do Arelho – onde passeámos a pé pelas marginais e praias, aproveitando uma manhã extremamente agradável sem sol -, depois para Óbidos – e a respetiva ginjinha, pois claro, e ainda nos rimos às gargalhadas com a conversa entre um casal “-Estou um pouco tremeliques das pernas, por causa da muralha – dizia a mulher. – Precisas é de outra ginjinha – responde o marido”; as piolhas descobriram que detestam andar empoleiradas em muralhas sem proteções e a tia, a certa altura, também ficou a parecer estar a precisar de outra ginjinha. Almoçámos em Peniche, que percorremos desde o Farol até ao Forte (que não visitámos por estar fechado) e terminámos o dia no Budha Garden. Sem se aperceberem, as piolhas fizeram km a pé, sem queixas. Foi de estranhar e espantar.

 

Também voltámos a Águeda e aos seus chapéus-de-chuva coloridos. E aproveitámos para conhecer a Lagoa da Pateira – que achei linda!!! As Grutas da Moeda e de Mira d’Aire, numa outra saída, foram uma boa experiência para as piolhas: um ambiente completamente diferente e uma boa desculpa contextualizada para falarem de tipos de rocha (tema recorrente cá em casa desde maio). Aproveitámos estar na área para conhecer o Castelo de Ourém e só não vimos as pegadas de dinossauro porque estava fechado.

 

Infelizmente, neste país, a cultura é cara. As entradas para os museus e monumentos não são propriamente baratas e, como não temos os 1º domingos de cada mês sempre disponíveis, tentamos aproveitar os descontos família ou rotas de monumentos ou outro tipo de oportunidade. E mesmo assim, gastamos alguns euros. Vale a pena visitar a nossa História, as nossas coisas, os nossos cantinhos, apesar de tudo.

 

Se correu sempre tudo bem? Não. Houve alturas em que foi preciso perguntar o porquê de uma choraminguice ou ameaçar com um castigo (Eu juro que te tiro o tablet!) ou deixar dormitar um pouco no carro para recuperar energias ou compensar com uma refeição num shopping MAS nada disto era possível há um ano ou dois atrás. Sentimos que estamos a compensar anos de limitação ao espaço familiar: casa-Coimbra-Figueira da Foz–serras. Apesar de, por vezes, ainda levarmos com um “fogo, vocês fartam-se de passear…”. O que não se vê nesses passeios é o trabalho que tivemos para chegar tão longe, todo o tempo que estivemos impedidos (sim, impedidos, é essa a palavra) de arriscar saídas tão longas, o proporcionar vivências às piolhas que dificilmente teriam com a escola ou outro meio, o querermos ser nós também merecedores de momentos diferentes, o termos direito a férias – seja qual for a definição que lhe deem -, o podermos sair em família para além do nosso limite geográfico. Não vejo mal nenhum nisso. 

 

 

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publicado às 18:23

O país em sombras de cinzento

por t2para4, em 10.08.16

É o que eu vejo no céu, de manhã à noite... E quando acordamos, além do cinzento do céu, há uma nuance azulada e um sol que parece muito distante e pouco brilhante. E há cinza por todo o lado, mesmo sem incêndios na localidade.

Desde pequena que vejo que agosto é o mês por excelência para ter umas semanas para pôr tudo a arder. E ouvir várias vezes "é a política" como se isso resolvesse tudo... E ouvir falar de incendiários e da velha máxima "era atá-lo a um pinheiro"... E ouvir os helicópteros e avionetas e sirenes... Parece que passou a fazer parte do verão. E todos os verões, a partir de julho e até setembro, como se já fosse mesmo regra legislada, a minha mãe lançava a proibição de eu e a minha irmã passarmos sequer perto de um pinhal, nem sequer para apanhar pinhas.  

Recordo uma vez que regressávamos de Coimbra, há muitos anos, talvez uns 20 anos, e fomos parados pela GNR e Bombeiros porque dali já ninguém passava... E voltar para trás estava complicado porque as outras hipóteses estavam também a arder... 

Em 2005, Coimbra ardeu tanto mas tanto que pensei que ia passar meses a limpar cinza a 30 km de distância da cidade. Caíam folhas de eucalipto de 10 cm completamente chamuscadas na minha varanda. Todos - todos!! - os acessos estiveram cortados, por umas horas... Foi um ano muito quente, muito cinzento, um horror para estes lados... As primeiras chuvas trouxeram metade das encostas para a estrada e autênticos ribeiros negros por todo o lado. 

No ano passado, alguém deve ter pensado que 10 anos era mais do que tempo suficiente para recuperar área para re-arder e toma lá disto de novo. Não sei quantos dias com tudo a arder aqui à volta, estradas fechadas e cinza a cair como se fosse neve. 

De 10 em 10 anos, toda aquela área de árvores semi chamuscadas que vão escapando de um fogo para outro, árvores minúsculas ou raquíticas, eucaliptais, mato e fetos é tido como material inflamável porreiro para um triste espetáculo. Deve fazer espécie a alguém que não sabe ter as mãos quietas e a conta bancária sossegada.

 

 

E depois há perguntas que eu não consigo responder... Perguntam-me as piolhas porque os dias estão assim tão estranhos e por que há tantos incêndios. E por que é perigoso fazermos viagens (e eu nem quero imaginar o sufoco de ficar presa numa autoestrada, com mais de 40 graus e sem escapatória... Ficámos retidos uma vez em abril por causa de um acidente e o meu coração ia saindo esterno fora e fico sem ar de cada vez que vejo um carro a arder em plena estrada) e por que não vamos à piscina por causa da cinza que cai (ainda não percebem bem a relação da cinza a cair em locais onde não há incêndios diretos nem a questão dos ventos) e o que vai acontecer depois.

E eu não quero falar em lobbies nem em corrupção nem em contratações manhosas para ficar com lucros sobre área ardida nem na (ir)respondabilidade da limpeza de terrenos nem nos gastos do país com máquinas que não apagam fogos nem em forças que só atuam quando já não há muito mais para arder nem em jornalismo doente que abre noticiários com "este ano Portugal teve menos fogos" em maio nem em palmadinhas nas costas dos incendiários porque coitados são maluquinhos ou gostam de ver avionetas nem em sei lá mais quantas coisas que me passam pela cabeça... E eu nem quero sequer imaginar nem ter de explicar às piolhas o que é ter que passar por uma situação tão dantesca como a que se vive na Madeira, neste momento. Já tivemos focos de incêndios perto das casas dos nossos pais e sentimos uma impotência tão grande que não se descreve, parece que as bocas de incêndio e as mangueiras são demasiado pequenas para tanto fogo, tanto calor...

 

O mínimo que poderemos fazer para ajudar - para já -  é plantar árvores de espécies autóctones quando autorizadas para isso, ajudar os bombeiros, tentar de alguma forma auxiliar quem tudo perdeu, tentar proteger as nossas casas com áreas limpas (embora com ventos isso não sirva de muito), apostar na prevenção e esperar que a floresta recupere rápido e o próximo ano seja bem mais calmo... 

 

 

 

 

 

 

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publicado às 09:33

Celebrar a 4

por t2para4, em 07.08.16

Já lá vão 11 anos desde o "sim, aceito", num local lindíssimo, cheio de significado para nós. E, contra todas as expectativas, chegámos aqui, tão longe no tempo. Sim, longe no tempo, porque, para nós e dado tudo aquilo que já vivemos, parece que estamos juntos não há 11 anos mas há 20.

As nossas celebrações são simbólicas e muito baseadas no sentimento, no mimo, no estar em família. Aliás, não tivessem nascido às 35 semanas e as piolhas estavam previstas chegar (cesariana programada por estarem pélvicas), no dia 7 de agosto. Por isso, há muitos motivos para celebrar. 

Por regra, como celebramos dois aniversários (em janeiro e agosto), no inverno costumamos ficar em casa, num ambiente mais acolhedor e quentinho, com refeições ultra especiais, com louças xpto que fazem as delícias das piolhas (adoram copos de pé alto ehehehehe). No verão, preferimos sair.

 

Pensámos em sair à noite, depois do jantar, dar uma volta pelas ruas, tomar um copo, apanhar ar... Mas as piolhas ainda estão em fase de conhecimento com estas andanças de noite.

Pensámos ir para os copos mas as piolhas ainda não têm idade para isso e não lhes é permitida a entrada em bares.

Pensámos passar uma noite fora mas isso implica que as piolhas fiquem com alguém e/ou um grande rombo na carteira por causa da questão do quarto para quatro pessoas.

Pensámos passear na praia mas é domingo e as localidades em redor devem ter-se mudado em peso para lá, por isso, não nos pareceu grande ideia.

Pensámos numa viagem mas hoje não era um bom dia dado o calor excessivo, os incêndios nas principais auto-estradas do país, o trabalho do marido mais tarde, o ser domingo.

Pensámos em ir a banhos toda a manhã mas um imprevisto não nos deixou seguir com a ideia.

Optámos, então, por passear os quatro no Jardim Botânico de Coimbra - para onde íamos gazetar para namoriscar, quando andávamos na faculdade -, almoçar nas áreas favoritas das piolhas e estarmos juntos, apenas os quatro, porque assim faz mais sentido - afinal, "family forever".

 

Não há nada que chegue perto da felicidade que se sente em sermos acordados pelas nossas filhas, todas felizes da vida, aos beijinhos logo de manhã às 7h30, a dar-nos os parabéns pelo nosso dia especial. Só isto, só assim, já é motivo de celebração.

 

 

 

 

 

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publicado às 19:20

Abordar o tema "morte"

por t2para4, em 02.08.16

É um tema extremamente delicado de se abordar com crianças, independentemente das idades. Acredito que seja mais complicado para os adultos lidar com as emoções e a própria noção de morte do que para as crianças; ainda assim, é importante deixar o assunto resolvido na cabeça delas e evitar ansiedades profundas ou problemas em lidar com ausências e com a morte em si, no futuro.

 

Num mês, passámos por duas situações de falecimentos. Se, no início de julho foi relativamente simples de esconder as emoções e até a minha ausência para ir ao funeral da nossa amiga, pois as piolhas estavam no ATL, o marido estava a trabalhar durante o dia e as nossas conversas e desabafos emotivos eram já depois de elas estarem na cama; desta vez, no final do mês, com o vizinho não foi bem assim. Para começar, elas viram logo a reação do pai que, apanhado de surpresa, não ligou os filtros e me chamou a atenção para o facto de o vizinho ter morrido - além de terem visto os avisos colados nas ruas por onde passamos. Ainda tentaram perceber o que se passava mas como não lhes demos muito espaço para informação nem para dúvidas, a curiosidade esmoreceu, por momentos. No entanto, tive que justificar o porquê de as deixar com a tia enquanto eu ia ao funeral. Disse-lhes que iria falar com a esposa dele, que era importante e que depois, quando eu viesse, falaria com elas (entretanto, eu ansiava para que elas não trouxessem o assunto à baila).

 

No facebook do blog, apelei a estratégias para lidar com a situação e acabei por me servir de uma que encontrei neste link, deixado por uma leitora - o que muito agradeço, pois foi extremamente útil. Uma amiga enviou-me várias propostas de livros que abordam o tema mas que não consegui encontrar na biblioteca local. Decidi-me por imprimir a página 5 do pdf no link acima e, em caso de dúvidas das piolhas, seguir as orientações sugeridas. 

 

Acredito que é mais simples abordar o tema através de ensinamentos religiosos quando se segue uma religião ou até através de pequenas metáforas e os nossos filhos já têm a noção disso. Aqui não é o caso. Apesar de falarmos de religião e até termos alguns comportamentos religiosos, não ritualizamos. Jesus é uma figura de cerâmica num nicho de igreja e, apesar das procissões locais e idas a Fátima que lhes agradam, Nossa Senhora é uma estátua e fixe é acender velas (o único ritual em que gostam de participar e, ainda que digam que é para nos iluminar - seja lá o que isso for na cabeça delas - , não me parece que entendam na sua plenitude). Não conseguem conceber a noção abstrata de ideias como Deus, Jesus, alma, pecado, etc. Respeitam, não contestam nem criticam porque assim foram educadas mas não compreendem esta abstração, este acreditar em algo que não se vê nem se sente tão próximo com o amor de pais, por exemplo, nem se comprova cientificamente. Portanto, dizer que alguém foi ter ou viver com Jesus não faz sentido porque na igreja só está lá uma estátua dele sozinho e não com um batalhão de gente. Dizer que foi para o céu é igualmente abstrato porque o céu é o oposto da terra, onde andam aviões e pássaros, onde há oxigénio e dióxido de carbono e ozono e outros elementos químicos. Dizer que alguém se transformou em estrelinha é outro paradoxo pois as estrelas são corpos celestes do espaço e não pessoas, são basicamente rocha e gelo e não carne... Falar em alma é demais até para a minha camioneta, sinceramente.

Por isso, e como não gosto de mentir nestas coisas naturais da vida - o mesmo em relação ao sexo, menstruação e contraceção (outro post, outro dia) -, optei por abordar com a verdade, de forma delicada e apropriada à idade/estágio de desenvolvimento e, acima de tudo, de forma a evitar pavores e medos sobre o assunto.

 

Ao almoço, pergunta-me uma delas se eu consegui falar com a esposa do vizinho e como ela estava. Eu fui honesta. Disse-lhe que ela estava muito triste e alheada e que nem notou que eu lá estava. "Foi porque o vizinho morreu?". Expliquei que sim e acrescentei que o vizinho não iria voltar nunca mais. "Foi porque morreu?" Sim, morreu porque estva já muito velhinho e muito doente porque não quis ir ao médico. Morrer é natural como nascer e crescer e desenvolver-se, faz parte da natureza. Diz-se que há um princípio e um fim para tudo mas não é preciso ter medo, é algo que faz parte da vida, da natureza. "E tu demoraste muito tempo porquê? Porque foste ao enterramento dele?". É funeral que se diz e é essa a ideia, sim; eu fui ao enterro ou funeral dele que termina num cemitério - como quando a avó vai àquela terra para deixar flores ao bivô. O bivô já morreu há muitos anos, ainda antes de vocês nascerem mas a avó vai ao cemitério. 

E, como não há muitos filtros sociais nas portas das piolhas, lá avisei para não falarem do assunto com a vizinha quando nos encontrarmos; podemos e devemos cumprimentar-nos mas, como ela está triste e é doloroso lidar com a partida de alguém assim, o ideal é não abordarmos o assunto. 

 

E foi isto. Ouviram e mal acabei de falar perguntaram se podiam ir brincar na rua. E não voltaram a falar do assunto nem o reproduziram em brincadeiras (como fizeram com o batizado a que fomos, por exemplo), não precisei de requisitar livros nem fazer mais nada. Acredito que, gradualmente e à medida que vão crescendo e ganhando mais maturidade e desenvolvimento, questões como estas passem a ter algum sentido e que, mesmo que não saibam lidar bem com as emoções que possam causar, não terão problemas. 

Um passinho de cada vez, uma coisa de cada vez.

 

 

 

 

 

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publicado às 22:23

Foi assim que aconteceu - versão avós

por t2para4, em 01.08.16

Introdução:

Era uma vez um casal que teve um filho. Um único filho. Esse único filho teve duas filhas, as únicas filhas e, por conseguinte, únicas netas.

 

Desenvolvimento:

Esse casal sempre foi muito sui generis. Vivem alheados de quase todo o contacto social com o mundo, vão às compras à localidade vizinha, não dãoo notícias se não for o filho a telefonar, não emprestam as suas coisas em caso de necessidade, não colaboram se o filho/nora/netas precisarem de ir ao médico ou ficarem internados, não convidam a família para ir a sua casa, não aceitam nenhum convite para almoços/jantares/lanches, desligam o telemóvel e recusam abrir a porta nos dias dos seus aniversários, falham os aniversários do filho e das netas. All true stories.

Este casal acha que é detentor da razão suprema e que tudo o que faz justifica o seu comportamento porque, afinal de contas, eles é que têm sempre razão: são pais há quase 40 anos, trabalharam muito – aparentemente sem ajuda e nunca ninguém lhes deu nada -, os filhos e netos dos outros são sempre melhores e mais bem comportados do que o seu filho e netas, os outros têm mais coisas do que o seu filho e netas.

Este casal, em vez de conversar com o filho, decide o que é melhor para todos, independentemente das opiniões contrárias. Por exemplo, aquando do nascimento das netas, este casal decidiu comprar um pequeno enxoval (duas camas, edredões, resguardos, fraldas, roupinhas, etc.) sem avisar, para ficar em casa deles e ser única e exclusivamente usado lá. A ideia era criar – sim, criar, como se as meninas fossem órfãs – as netas, passeá-las pela localidade fazendo-se passar pela mãe delas, ser mãe novamente. Não correu como o planeado para este casal porque, que mau-feitio o do seu filho único, tanto ele como a esposa estavam vivos e de saúde, por isso, os verdadeiros pais é que criariam as suas filhas. De castigo, as netas não receberam o enxoval. Ainda assim, porque são as únicas netas, filho e nora acederam a que tomassem conta delas, semana sim semana não (em partilha com a outra avó), enquanto trabalhavam mas na casa do filho e sem viagens envolvidas.

Um dia, houve um desentendimento por causa do trabalho que as meninas davam ao qual se juntou uma tirada do género “temos tanto que fazer em nossa casa e vimos para aqui tomar conta das meninas”. O filho e a nora resolveram o problema colocando as meninas na creche a meio tempo, continuando a partilhar o restante tempo com os avós maternos. O casal deu, então, início a um processo de afastamento que se agravou dados os comportamentos disruptivos e sucessivos meltdowns das meninas, que muito os envergonhavam e trabalho davam.

Uma ida a uma consulta de desenvolvimento trouxe o diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo, e, como bónus, aos olhos sábios daquele casal, outro diagnóstico: “pais loucos porque as meninas não têm nada, é tudo coisas da vossa cabeça”. A negação tomou tais proporções que se recusavam a acompanhar as indicações de médicos e terapeutas e o filho foi-se afastando, sem, no entanto, cortar definitivamente com eles – afinal, é filho único... Um dia, foi chamado a sua casa e ouviu da boca do seu pai aquilo que nunca nenhum pai com filhos com necessidades especiais deveria ouvir: “TU (e a tua mulher) és o culpado do autismo das tuas filhas porque chegas a casa vais para o computador, a tua mulher trabalha demais e vai para o computador, nós é que estávamos a criá-las e tu puseste-as na creche onde ficaram doentes”. Com tamanha sabedoria e sapiência, aquele filho e aquela nora ficaram arrumados a um canto. Após meses de zero relação, o filho cedeu e reatou com os pais. Afinal, é filho único…Mas continuaram as atitudes de negação, a vergonha de ter netas diferentes dos netos dos outros, vieram as comparações com os netos dos outros, todos mais perfeitos que as suas e com comportamentos justificáveis.

Entretanto, começa a ladainha do “não vamos ao aniversário das meninas, o teu pai não quer, eu não posso, eu estou doente, já fui ao teu aniversário já não preciso de ir ao dela, etc”. E não vieram. E repetiram a proeza em mais aniversários e comemorações. E as meninas, que na boca do avô “não têm entendimento para isso”, perguntavam se a avó iria faltar aos anos do pai como faltou ao delas. E quer o pai quer a mãe respondiam não saber…

E a saga repetiu-se por mais umas vezes até que… filho, nora e netas se fartaram.

A discriminação, o não aceitar estratégias para saber lidar com as netas, o não compreender nem querer estar com as netas, a ausência, a não-cooperação em casos de doença, o não-auxílio aquando de horários complicados dos pais, o afastamento propositado e sabe-se lá mais o quê, levaram a um corte quase radical.

 

Conclusão:

O filho está em fase de rescaldo e de reclusão no que concerne aos pais; as netas encaram o mas recente acontecimento como mais uma de muitas das birras dos avós; para a nora é o fim da macacada. Que farão – principalmente o filho – não se sabe. Para já, precisam de tempo, de distância física e psicológica, de alheamento total. Depois, se vê.

A triste realidade é que tudo isto é verdade. A primeira grande ação de discriminação veio da própria família – e não estamos a falar de primos em 4º grau ou família afastada! Família direta, os avós!

Não sabemos, principalmente eu - que desconhecia comportamentos destes em família -, como lidar com pessoas assim. Infelizmente para eles, felizmente para mim, acabou. Não tenho de compactuar mais com criancices de adultos sexagenários nem de dourar historietas para tentar justificar atitudes estranhas até para os olhos das netas. As coisas são como são, acabou.

O marido pergunta porque nos exponho. Porque a minha paciência esgotou-se, porque fomos discriminados por quem nos deveria apoiar incondicionalmente, porque já lá vão 11 anos de casamento mais 4 de namoro com duas filhas em comum e já é tempo mais do que suficiente para eu ver os meus esforços de boa educação serem recíprocos, porque quem nos lê pode vir a conhecer uma realidade diferente da que visualiza, porque não devemos nada aos pais do marido, porque a vida que temos ou levamos é nossa e não deles, porque eles não pagam nem nunca nos pagaram as contas, porque eles de pais têm muito pouco. Aí está o porquê. E porque eu não admito discriminação da parte de ninguém. 

 

 

 

 

 

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publicado às 09:23

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