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Abordar o tema "morte"

por t2para4, em 02.08.16

É um tema extremamente delicado de se abordar com crianças, independentemente das idades. Acredito que seja mais complicado para os adultos lidar com as emoções e a própria noção de morte do que para as crianças; ainda assim, é importante deixar o assunto resolvido na cabeça delas e evitar ansiedades profundas ou problemas em lidar com ausências e com a morte em si, no futuro.

 

Num mês, passámos por duas situações de falecimentos. Se, no início de julho foi relativamente simples de esconder as emoções e até a minha ausência para ir ao funeral da nossa amiga, pois as piolhas estavam no ATL, o marido estava a trabalhar durante o dia e as nossas conversas e desabafos emotivos eram já depois de elas estarem na cama; desta vez, no final do mês, com o vizinho não foi bem assim. Para começar, elas viram logo a reação do pai que, apanhado de surpresa, não ligou os filtros e me chamou a atenção para o facto de o vizinho ter morrido - além de terem visto os avisos colados nas ruas por onde passamos. Ainda tentaram perceber o que se passava mas como não lhes demos muito espaço para informação nem para dúvidas, a curiosidade esmoreceu, por momentos. No entanto, tive que justificar o porquê de as deixar com a tia enquanto eu ia ao funeral. Disse-lhes que iria falar com a esposa dele, que era importante e que depois, quando eu viesse, falaria com elas (entretanto, eu ansiava para que elas não trouxessem o assunto à baila).

 

No facebook do blog, apelei a estratégias para lidar com a situação e acabei por me servir de uma que encontrei neste link, deixado por uma leitora - o que muito agradeço, pois foi extremamente útil. Uma amiga enviou-me várias propostas de livros que abordam o tema mas que não consegui encontrar na biblioteca local. Decidi-me por imprimir a página 5 do pdf no link acima e, em caso de dúvidas das piolhas, seguir as orientações sugeridas. 

 

Acredito que é mais simples abordar o tema através de ensinamentos religiosos quando se segue uma religião ou até através de pequenas metáforas e os nossos filhos já têm a noção disso. Aqui não é o caso. Apesar de falarmos de religião e até termos alguns comportamentos religiosos, não ritualizamos. Jesus é uma figura de cerâmica num nicho de igreja e, apesar das procissões locais e idas a Fátima que lhes agradam, Nossa Senhora é uma estátua e fixe é acender velas (o único ritual em que gostam de participar e, ainda que digam que é para nos iluminar - seja lá o que isso for na cabeça delas - , não me parece que entendam na sua plenitude). Não conseguem conceber a noção abstrata de ideias como Deus, Jesus, alma, pecado, etc. Respeitam, não contestam nem criticam porque assim foram educadas mas não compreendem esta abstração, este acreditar em algo que não se vê nem se sente tão próximo com o amor de pais, por exemplo, nem se comprova cientificamente. Portanto, dizer que alguém foi ter ou viver com Jesus não faz sentido porque na igreja só está lá uma estátua dele sozinho e não com um batalhão de gente. Dizer que foi para o céu é igualmente abstrato porque o céu é o oposto da terra, onde andam aviões e pássaros, onde há oxigénio e dióxido de carbono e ozono e outros elementos químicos. Dizer que alguém se transformou em estrelinha é outro paradoxo pois as estrelas são corpos celestes do espaço e não pessoas, são basicamente rocha e gelo e não carne... Falar em alma é demais até para a minha camioneta, sinceramente.

Por isso, e como não gosto de mentir nestas coisas naturais da vida - o mesmo em relação ao sexo, menstruação e contraceção (outro post, outro dia) -, optei por abordar com a verdade, de forma delicada e apropriada à idade/estágio de desenvolvimento e, acima de tudo, de forma a evitar pavores e medos sobre o assunto.

 

Ao almoço, pergunta-me uma delas se eu consegui falar com a esposa do vizinho e como ela estava. Eu fui honesta. Disse-lhe que ela estava muito triste e alheada e que nem notou que eu lá estava. "Foi porque o vizinho morreu?". Expliquei que sim e acrescentei que o vizinho não iria voltar nunca mais. "Foi porque morreu?" Sim, morreu porque estva já muito velhinho e muito doente porque não quis ir ao médico. Morrer é natural como nascer e crescer e desenvolver-se, faz parte da natureza. Diz-se que há um princípio e um fim para tudo mas não é preciso ter medo, é algo que faz parte da vida, da natureza. "E tu demoraste muito tempo porquê? Porque foste ao enterramento dele?". É funeral que se diz e é essa a ideia, sim; eu fui ao enterro ou funeral dele que termina num cemitério - como quando a avó vai àquela terra para deixar flores ao bivô. O bivô já morreu há muitos anos, ainda antes de vocês nascerem mas a avó vai ao cemitério. 

E, como não há muitos filtros sociais nas portas das piolhas, lá avisei para não falarem do assunto com a vizinha quando nos encontrarmos; podemos e devemos cumprimentar-nos mas, como ela está triste e é doloroso lidar com a partida de alguém assim, o ideal é não abordarmos o assunto. 

 

E foi isto. Ouviram e mal acabei de falar perguntaram se podiam ir brincar na rua. E não voltaram a falar do assunto nem o reproduziram em brincadeiras (como fizeram com o batizado a que fomos, por exemplo), não precisei de requisitar livros nem fazer mais nada. Acredito que, gradualmente e à medida que vão crescendo e ganhando mais maturidade e desenvolvimento, questões como estas passem a ter algum sentido e que, mesmo que não saibam lidar bem com as emoções que possam causar, não terão problemas. 

Um passinho de cada vez, uma coisa de cada vez.

 

 

 

 

 

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publicado às 22:23

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