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Se não páras a bem, páras a mal

por t2para4, em 19.11.16

Há mais de um mês que não escrevo por aqui. Tenho colocado pequenos momentos e desabafos das nossas vidas na nossa página do Facebook mas, por aqui, tem estado em stand-by.

 

Neste espaço de tempo, aconteceu tanta tanta coisa... Aconteceram coisas boas e outras muito más. Apesar de haver um esforço enorme para valorizar as boas coisas, agradecer todos os dias o estarmos em segurança e em família, há pequenos males que se vão enraizando e minando tudo por dentro.

 

Tenho andado enervadíssima. Desde o corte de 2 horas (duas!!!!!!!!) na terapia da fala e o não se achar muita piada à solução que eu apresentei para minimizar o facto e manter as sessões com a frequência semanal; ao ter que incomodar outras mães na mesma situação para alinhar estratégias e pedir algumas orientações (para evitar o agir a quente e seguir todos os trâmites, comme il faut); ao ter que reforçar terapias e trabalhar extra em casa; ao ter que adiar um dos desejos de atividade extra das piolhas que lhes fará tão bem, por falta de tempo e verba, para já; ao ter que lidar com alunos extremamente difíceis que, considerados alunos com nee graves a nível de aprendizagem, têm atitudes comportamentais e sociais para lá de toda a compreensão humana sem que nada, mas absolutamente nada, o justifique; a alunos que, aparentemente neurotípicos, não mostram o mínimo respeito pelos restantes e ainda acham que tudo é uma brincadeira; ao passar horas e horas a inventar materiais e estratégias para motivar quem se está a cagar para o sistema; a pais que se preocupam e pedem ajuda para os filhos e estes, simplesmente, se baldam às aulas; aos eremitas dos pais do marido que não atendem o telefone no dia de anos nem perguntam pelas netas quando o filho ainda tenta ver deles; às contribuições que vou ter que pagar para a segurança social porque alguem fez mal as contas; à pressão que sinto quando me exigem comportamentos e ações por parte das piolhas que elas ainda - AINDA! - não podem fazer porque não têm maturidade neurológica que o permita; ao simples facto de até o cair da chave no chão me enervar até à red line.

 

Passei estas últimas duas semanas a ouvir, constantemente, "ficas velha", "não podes mudar o mundo", "acalma-te". Mas eu, teimosa, ainda achei que poderia deixar lá uma sementinha de entusiasmo e de diferença e continuei a correr... Não posso. Do outro lado, não há essa recetividade.

E qual foi a minha recompensa, afinal? Num momento que achava eu descontraído, senti uma dor tão debilitante e forte no peito que me impediu de respirar e acabei nas urgências dos HUC, depois de ganhar uma viagem de ambulância (que vou ter que pagar porque o marido, assustadíssimo, levou-me diretamente ao quartel). E, tal como eu pensava, todos pensavam que eu estava a ter uma crise nervosa. E eu sentia tanto tanto frio... Andei mais de uma semana e meia cheia de frio, com os meus casacos de inverno e collants por debaixo das calças e 3 mangas, sempre a tiritar de frio. 

Ninguém me adiantava o que poderia ter mas, como eu não sou assim tão parva, depois de fazer um raio-x, um eletrocardiograma, um anti-inflamatório, análises e uma nebulização, percebi que se supunha que eu poderia estar a ter um ataque cardíaco... Ainda tive outra crise no hospital. Uma dor extremamente fininha, dentro do peito, no lado esquerdo que não deixa respirar e que dói ao mínimo movimento. E quando a crise passava, ficava um cansaço atroz, uma dor fininha constante que não deixava encher os pulmões de ar... E eu respirava o mínimo possível para não sentir dores...

Do mal o menos, ao fim de 7h nas urgências, está tudo bem com o meu coração (exceto o facto de ele ser demasiado grande e acreditar que pode mudar o mundo e se preocupar com tudo e todos - não verificável pelos exames). Tenho uma nevrite intercostal. E o que é isso? É basicamente uma lesão extremamente dolorosa nos músculos entre as costelas na zona do coração. Daí o imenso frio, as dores ao respirar, ao movimentar-me, etc. E sim, poderá ter sido causado pelo excesso de peso que carrego (computador, pasta), pelo hiperventilar e batimentos cardíacos de cada vez que me enervo, pela perda de massa muscular, pela minha constituição magra - em especial naquela zona.

Tem tratamento: um ansiolítico para me pôr a dormir - algo que não fazia em condições há mais de um mês-, um relaxante muscular tipo antibiótico poderosíssimo (que se fosse para o  marido não compraria devido aos seus efeitos secundários), um anti-inflamatório muscular poderosíssimo e um opiácio (este ficou na farmácia. Tenho enxaquecas frequentes e sobrevivi a uma cesariana, só com benurons e brufens. Dispenso morfinas). Estou completamente grogue e tenho dormido mais nestes dois dias do que nas útimas duas semanas, pareço um gato idoso que dorme em qualquer lugar. E ainda falta fazer uma ecografia aos tecidos moles (boa sorte em encontrá-los loooool).

 

Abriu-me os olhos. Deitada na maca do hospital fui pensando no que andava a fazer à minha vida, estava preocupadíssima de morte com as piolhas que me viram enrolar-me de dores. E fui tomando decisões. Quando estava com a máscara na cara, sem conseguir respirar por causa das dores, finalizei as minhas decisões e há coisas que vão mesmo mudar. A começar desde já.

 

Não posso mudar o mundo quando o mundo não aceita mudanças; tenho de escolher bem que guerras comprar; tenho, definitivamente, de relaxar. Hoje foi "apenas" o músculo... E para a próxima?

Neste momento, lido com o autismo, ponto final. E lido com o conseguir um trabalho, a cada setembro. Não tenho que abraçar todas as outras lutas, não tenho de me movimentar como um polvo a tentar chegar a todos quando, na realidade, é na minha casa que sinto os cortes cegos que nos impingem e as injustiças. Por uns tempos, tenho de ser egoísta e pensar em mim e na minha saúde, para poder chegar às minhas filhas e ao meu marido e aos meus pais que não estão para novos. 

 

Muitas vezes, não é uma capa que se ganha em ser-se super; é uma viagem rápida para o serviço de urgências mais próximo.

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