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Pensei que iria ser O ano, AQUELE ano... Consegui sobreviver a um ano letivo tão complicado e, em agosto, fui colocada logo em contratação inicial, pertinho de casa, a conjugar o meu horário incompleto (mas anual) com a minha atividade freelance (da qual não abdico) e pensei, honestamente, que conseguiria fazer tudo. 

Mas, depois, olhando para trás, só em jeito de tentar perceber o que se passou e por que razão 2016 não O ano esperado, começamos a pensar que o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita... E que, infelizmente, anula as pequenas felicidades.

 

A minha saúde esteve em cheque umas poucas de vezes este ano. Talvez por andar sempre a correr de um lado para o outro, de ser uma control freak e ter horários controlados ao minuto (a sério, tinha mesmo), de tentar malabarismos estranhos com trabalho e família, não notei uma série de sinais que o meu corpo foi dando.

De repente, 3 pares de calças tinham deixado de servir mas eu perdera peso, tinha tido um natal de comes e bebes à doida e não fazia sentido; o cansaço era muito mas tinha acabado de sair de férias e, bem, andava sempre cansada; a minha menstruação, pela 1ª vez, foi das coisas mais dolorosas, intensas e estranhas de sempre. Percebi depois, que tinha abortado espontanemante, estava grávida sem saber... Doeu bastante - ainda hoje doi - e, se, na altura até pensei que saberia lidar com isso, acho que nunca soube nem saberei. Como, por cá, não temos por hábito esconder conversas das nossas filhas, talvez o desejo de uma das piolhas de ter mais irmãos e de estar sempre a falar do assunto venha daí... Sentimos um misto de tristeza que ainda hoje nos custa com alívio - pois se houve um aborto numa fase tão inicial é porque algo estava naturalmente mal e a natureza encarregou-se de tratar do assunto. E talvez já não esteja previsto voltarmos a ser pais. Há um -ismo que paira nas nossas vidas...

 

Acordei bastantes vezes dormente, com a sensação de que me faltavam dedos, as minhas unhas - mesmo rentes - escamavam e desapareciam. Achei que era dos nervos (afinal estava a trabalhar tanto e tinha um contrato a terminar em poucos meses, um verão de desemprego, o susbsídio de desemprego a terminar de vez em setembro). Comcei a dormir cada vez menos e com pior qualidade, a acordar imenso durante a noite. Piorou consideralvelmente nos últimos meses. Mas não dei importância.

 

Tive crises de coluna bastante graves que quase me impediam de andar, durante todo o verão. Mas como já tinha marcado mentalmente que iria lavar todas as carpetes de casa (e uma delas é simplesmente gigante e tem estantes por todo o corredor, em cima), sozinha tratei de tudo isso e mais alguma coisa; haja força muscular e vontade e tudo se arrranja. Asneira mas adiante. A casa ficou impecável, todos os tapetes, carpetes e afins lavados e cheirosos e eu podre.

 

Pelo meio, ainda tivemos que lidar com a "doença súbita", por duas vezes, do nosso carro principal, gastar uma fortuna na oficina e até ter que comprar outro, à pressa, pois o que eu estava a usar emprestado da minha mãe, teve de ser devolvido porque a minha irmã, pelos mesmos motivos, também precisou dele. Ora, despesas imprevistas que me fizeram, literalmente, perder (mais) noites de sono. E, por parte das piolhas, apesar do seu boost de desenvolvimento, a certa altura, a melatonina teve que intervir e ajudar durante uns tempos pois andava tudo sem conseguir adormecer em condições e a horas decentes.

E como apanhámos parte do 3º ano letivo, com menos 4 semanas de aulas, juro que pensei que dávamos todos em doidos. Mas o que diabo se passou pela cabeça de quem decide as metas curriculares para introduzir aquele tipo de conteúdos no currículo de miúdos de 7 e 8 anos? Mas anda tudo doido?! Até para mim era complicado atingir determinadas conclusões! E os exercícios eram, na sua maioria, absurdos sem aplicação absolutamente nenhuma na vida real (exemplo do bolo que se corta em 3 vezes na horizontal, transversal e vertical. A sério? É assim que se corta um bolo de aniversário para crianças de 8 anos? Nem o Sheldon!!!!!). Acabámos o ano letivo, literalmente, exaustas. E, por causa de tudo isso e mais um pouco, desleixei-me com as questões da terapia da fala que treinamos sempe no verão. E o resultado foi um retrocesso e uma maior dificuldade na produção de linguagem como aprendizagem e utilização prática, ou seja, a certa altura, falava-se porque os humanos falam e não miam... E a culpa e o ter que encontrar uma solução extra...

Ainda tivemos que lidar com a morte (de amigos, vizinhos e até de um aluno...) - ainda hoje me custa imenso pensar na B., não aceito nem compreendo - e explicar isso tudo às piolhas... E com o corte que os avós paternos decidiram fazer às netas, desde o seu aniversário até ao momento (ontem elas só queriam dar-lhes as prendas de natal - e já com algum protesto "estamos atrasadas para a motricidade, não sabemos onde eles estão", porque eles nunca lhes abrem a porta - e foi isso mesmo que aconteceu. Começa a haver um entendimento muito maior sobre quem realmente gosta delas e está com elas:). Também foi preciso explicar-lhes que a saúde da avó materna não está no seu melhor (uma doença auto-imune e uma tromboflebite, felizmente sem sequelas).

E, tivemos, também que lidar com a percepção - ainda que não bem explicada - das piolhas a dizer-nos "eu tenho autismo mas eu sou diferente do Gui e do Diogo e do A e do G.... Ter autismo é bom ou mau? O G. nunca falou mas eu falo muito e estou na minha sala de aula. Mas eles são meninos como nós e nós brincamos todos juntos. O A. está no 1º ano e sabe escrever no computador como nós fazíamos no 1º ano"... Ainda não aprofundámos isto. Lá chegaremos.

 

Mas, as coisas pareciam bem encaminhadas: o marido passou muitas folgas connosco e até arriscou fazer piscina pela 1ª vez e gostou, passeámos muito pelo nosso país e as piolhas descobriram que adoram História, as férias que o marido não teve em 3 anos vieram, fiquei colocada, as piolhas regressaram à escola e - àparte as terapias que tardaram mais de 6 meses -, tudo correu bem e conseguimos feitos incríveis na sua responsabilidade e autonomia. 

 

E... surgiu um aviso bem sério e doloroso que foi, basicamente, o somatório de um ano louco e de mais outros tantos assim. Tive uma lesão muscular grave entre as costelas, na área do coração, de nome nevrite intercostal (e mais uns pozinhos técnicos, com suspeita de sei lá o quê e palavras como "burnout" e "exaustão emocional" lá pelo meio), e foram feitos imensos exames para despiste de problemas cardíacos, fui parar às urgências dos HUC por 3 vezes onde passei um total de quase 24h entre tratamentos e esperas, tive que tomar medicamentos muito fortes (anti-inflamatórios esteróides e opiáceos) e, como mesmo isso, não ajudou na totalidade, ainda andei mais de uma semana a fazer injeções. E passei quase 5 dias a dormir como os bebés, propositadamente, por causa da medicação. Fiquei impedida de conduzir e de trabalhar. Pensei que iria perder o (pouco) gosto pelo inglês que ainda sobrava dos meus meninos na escola e clientes na minha outra atividade. Quando me senti melhor, decidi regressar ao trabalho com muitas novas regras e muitas novas mudanças: não posso carregar pesos e passei a usar um trolei; no 1º dia de trabalho, decidi usar as Doc do marido porque são muito pesadas para abrandar o passo  e não ter dores nem me faltar o ar; uso elevador porque me custa e demoro imenso a subir escadas; passei a conduzir dentro dos limites de velocidade sem esticar mudanças ou andar sempre a fazer macacadas fast and furious com a caixa de velocidades; diminui o número de cafés e a quantidade de cafeína/teína ingerida; apostei numa alimentação mais proteica e calórica (o que inclui cerelac e papas de fruta); não carrego nada - nem sequer uma carteira - no lado esquerdo; vou ter consultas para osteopatia e fisioterapia; mantenho medicação para as dores e diazepan para me obrigar a dormir - nesta fase, pelo menos - e magnésio para o cansaço que ainda sinto; diminuí o ritmo de trabalho e fiz escolhas e opções nessa área; prolongo prazos quando é logicamente impossível de os cumprir com calma e qualidade. E mantenho sempre em mente, quando me esqueço deste novo "eu" que o coração também é um músculo e os sinais para um AVC estão lá, quase em red alert. Tive medo de morrer. Tenho duas filhas para criar que ainda precisam muito de mim. E eu serei um fantasma terrível, por isso, vale mais ter juízo agora.

Fui muito bem recebida no meu regresso ao(s) trabalho(s) e não perdi clientes (fiquei muito feliz!) e todos notaram que teve que haver uma mudança. Gostei de voltar. Apesar de ainda doer, de vez em quando. Aprendi a minha lição. Atempadamente, espero...

 

Àparte a decoração em casa e o calendário do advento, não me soa a Natal nem a Ano Novo... Acho que nunca tínhamos tido um ano assim, tão complicado em tantos níveis e tão mau para a saúde. Foi um ano doloroso, em todos os sentidos. Queremos que acabe e recomece um novo ciclo. Estamos a trabalhar para isso.

 

 

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publicado às 09:24

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