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Momento ahhhhhh das piolhas #13

por t2para4, em 30.04.17

Fomos almoçar e passear com uns amigos do Norte. Tinha estacionado o carro num local central onde pudessemos todos nos encontrar facilmente. Dali seguiríamos para outro lado e estavamos a decidir, de entre as crianças, quem iria com quem. 

As piolhas, como habitualmente, andavam comigo, já havíamos decidido quem viria connosco, no nosso carro, e estava já eu pronta para dar a indicação do costume "entrar, sentar e pôr o cinto" quando uma delas pede algo que não ouvi bem (se calhar, o meu sistema optou por não ouvir) e pedi para repetir. Dizia ela, pois então:

"Mãe, posso ser eu a levar o carro?"

Ora, se estávamos todos a decidir quem tinha idade ou altura para ir no banco da frente e, se afinal, uma das amiguinhas com 10 anos (mas assim 10 anos a chutar para aspeto de 13) podia ir à frente, por que razão não podia ser ela a conduzir? 

 

(Memo to myself: nunca mais (tipo nunca mais mesmo!!!) dizer, quando as piolhas estão fartas de algum lado e querem vir para casa, "toma lá a chave do carro e vai andando". Qualquer dia a meu sarcasmo irónico pode ser tomado à letra, não vá esta oportunidade de conduzir antes do tempo escapar.)

 

 

 

 

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publicado às 19:20

Tagarelice #54

por t2para4, em 25.04.17

A acabar de chegar a casa (e ainda bem, já perceberão porquê), numa tentativa de discussão com o pai, uma das piolhas acaba a defesa do seu ponto de vista com um gesto e uma expressão (agora estão a tentar usar expressões idiomáticas e provérbios mas ainda falham os contextos e parecem definitivamente o Sheldon - Teoria do Big Bang):

"Estou em olho de ti", dizia isto com uma vozinha de menina a tentar estar séria e mexia os dois dedos dos olhos dela para os olhos do pai e repetia a frase "Estou em olho de ti".

 

Foi de rir até às lágrimas porque foi inesperado, foi contextualizado e foi muito bem apanhado, mesmo com as preposições trocadas. Depois de atinar com "Estou de olho em ti" e ter aperfeiçoado o gesto (ela faz aquuilo de uma maneira tão gira com os dedos que parece diferente), passou a ser a nossa mais recente private joke quando queremos chamar a atenção uns dos outros cá pelo t2.

 

 

 

 

 

 

 

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publicado às 20:49

Na semana passada, depois de muita ginástica para conseguir levar a avó ao comboio (e depois apanhar o avião para ir ter com o avô) e ainda conseguir chegar antes da hora marcada à reunião de avaliação, já contando com o facto de ter deixado as piolhas no ATL, pouco depois das 9h perguntava-me uma colega por que as piolhas não tinham ido com a avó. Confesso que tal ideia nunca me passou pela cabeça - embora, naquele momento, por breves micro-segundos tenha conseguido visualizar uma realidade alternativa, onde as piolhas passariam duas semanas com os avós, no estrangeiro, viajariam de avião e teriam acesso a toda uma cultura diferente da nossa. Foram uns micro-segundos muito dolorosos pois essa realidade alternativa, a exisitir, está ainda a anos de distância da realidade atual.

 

Têm sido dias de retrocesso, de desespero, de mágoa, de lágrimas. Não pensávamos que fosse possível regressar ao passado e, no entato, aqui estamos nós, com as piolhas numa fase tão má e tão desesperante que chega a doer fisicamente. 
Não precisamos que nos relembrem que nunca teremos filhas neurotípicas, nem precisamos que nos relembrem que há aqui um desfasamento de quase 2 anos a nivel do comportamento adaptativo. Mas precisávamos mesmo que alguém nos dissesse "vai ser mais fácil" ou "é só uma fase má que vai passar e dar lugar a uma nova fase de maturidade" ou "não é andar para trás, é só tomar balanço para dar um salto". Temos repetido estas desculpas esfarrapadas e justificações cegas e sem qualquer teor científico a nós mesmos, talvez, na tentativa vã de doer menos e, a acontecer, descansarmos com a certeza de que, no futuro, já saberemos como agir.

Tudo mentira. Não sabemos nada. É tudo uma sucessão tremenda de tentativa-erro a ver o que poderá resultar em bem. Comportamentos que achávamos para sempre perdidos regressaram e, de repente, questionamos tudo. Será que, desde 2010, com tanto trabalho, tantas terapias, tantas horas de sessões, tantos custos, tantos sacríficos, afinal, de pouco valeram? 

 

Eu não preciso de uma linguagem correta para a escola: preciso de uma linguagem que me diga o que aconteceu na escola, se algum menino foi incorreto para com elas, se se passou algo grave que consigam explicar de forma lógica e coerente. 

Eu não preciso de um comportamento igual aos dos seus pares nesta idade: preciso de um comportamento que não destoe dos demais, que não lhes cause problemas discriminatórios, que não as coloque em perigo em casos extremos (as nossas cabeças voam para cenários de horror quando estamos cansados e lidamos com problemas sérios. Em caso de assalto onde se exija o mais completo silênciao, nós seríamos os primeiros a ser dizimados sem piedade alguma). Extremos? Se calhar sim mas, neste momento, tudo me assusta, tudo me dá medo, até o sair de casa sem saber se a janela ficou fechada ou não. Temo por um futuro recente onde nada, absolutamente nada parece estar ao meu alcance de um mínimo de controlo.

 

Não estamos numa fase boa. Relembra-me as férias de 2011 ou 2012 em que até acordar era um sacríficio pois implicava um dia daqueles... Com a agravante do não sabermos bem onde acaba ou começa o autismo ou onde acaba ou começa o testar "normal" dos pais, como faria um neurotípico.

Ainda assim, sou teimosa: as piolhas estão em casa comigo e não no ATL que já paguei; as sessões de terapia mantêm-se; os estímulos em excesso foram drasticamente reduzidos; houve atribuição de castigos; as obsessões limitativas foram controladas; voltámos aos estudos para saber quais os passos que deveremos seguir; continuamos a sair mesmo quando uma diz que não; continuo a levar as piolhas para todo o lado a que eu precise de ir, independentemente de tudo; continuo a acreditar que, talvez, por muito negro que pareça agora - e acho que ninguém tem a noção do negrume que para aqui vai -, é só uma fase má e que vêm aí dias felizes. 

 

Até lá, vou tentar seguir este mandamento injusto mas que nos resguarda ilusoriamente de mágoas: "Não compararás a tua prole com a prole dos outros". Sugiro que outros também o façam e, melhor ainda, para sua própria proteção, não o digam em voz alta perto de pais como eu. A última coisa de que precisamos é de alguém a relativizar os nossos problemas sérios. Aqui, no t2, nenhum de nós sabe ou tem a experiência do que é ser-se pai de um filho neurotípico. E um pai de filhos neurotípicos, felizmente, nunca saberá o que é sentir o que sentimos. 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado às 10:48

Se me tivessem dito, há 7 anos que tal seria possível, e não teria acreditado, teria chorado de raiva e frustração... Mas hoje quase chorei mas de alegria, de orgulho, de felicidade! Decidimos arriscar -afinal, o pior que poderia acontecer era termos que pintar a cara de preto e tentar sair o mais discretamente possível da sala - e ainda bem que o fizemos!

 

As piolhas participaram hoje, pela 1ª vez, numa atuação perante uma sala cheia (falamos de cerca de 400 lugares, todos ocupados), com música bem alta - mais do que num cinema -, com música, dança e mais música. E elas não foram dançar mas foram mostrar um pouco do que fazem nas suas aulas de psicomotricidade - onde estão inscritas desde 2015, e que funciona para nós como Terapia Ocupacional, nas áreas de coordenação corporal, motricidade fina e grossa, psicomotricidade, dissociação, equílibrio, coordenação óculo-motora, compreensão e cumprimento de regras ou instruções, etc. 

 

Lá foram elas, de cabelos bem presos enfeitados com fitinhas coloridas, tutus esvoçantes brilhantes e fitinhas na mão. Felizes, tão felizes. E estiveram tão bem, tão bem!

 

No final da atuação, depois de retirados os acessórios, regressaram aos seus lugares na plateia e assistiram ao resto do espetáculo, aplaudiram familares, colegas e conhecidos, cantarolaram as músicas das coreografias e até ponderaram enveredar pela área da ginástica, mais tarde. Bateram muitas, muitas, muitas palmas. E voltaram a subir ao palco para se juntarem a todos os outros participantes, pular mais um pouco e tirar fotografias. 

 

Estou de coração cheio, quase que nem acredito que é real, que aconteceu mesmo. 

 

O verso da medalha? Não quisemos esticar demais a corda e, assim que terminou o espetáculo, esgueirámo-nos para a saída, antes da grande confusão e regressámos a casa, onde passámos o resto da tarde em atividades calmas, sem alaridos, sem estímulos demais. As piolhas estiveram cerca de uma hora entretidas a criar mosaicos de poneis; ainda jogaram uns jogos no tablet, viram TV, desenharam imenso, terminaram um TPC e brincaram muito com Legos e Pinipons. Não houve meltdowns, não houve birras, não houve sobrecarga sensorial. Demos-lhes o espaço e tempo de que necessitavam para recuperar da manhã. 

 

E eu continuo feliz, feliz!!  As minhas piolhitas conseguiram!

 

 

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publicado às 21:24

Estava eu tão entusiasmada com estes (míseros) dias de pausa para descansar que, quando veio a indicação do ATL das piolhas para informar se iriam ou não estes dias, disse logo que não. E só muito depois me lembrei que teria de acompanhar a minha mãe a uma consulta de especialidade (por causa da sua doença auto-imune), nos Hospitais da Universidade de Coimbra, às 9h, comigo a ter que estacionar no parque que fica perto do hotel e da escola (para proteção do meu velhinho bólide e certeza de que há lugar para estacionar).

Bem, não houve outro remédio. Vão comigo.

 

Preparei-as de antemão com indicação de que iriam atravessar uma das zonas mais movimentadas de Coimbra, que teríamos de andar a pé um bom bocado, que teríamos de esperar bastante numa sala de espera com muitas pessoas e que subiríamos as escadas até ao 6º andar se a zona dos elevadores parecesse conter metade da cidade à espera (imaginem a quantidade de germens e micróbios e bactérias naqueles espaços contíguos onde só falta haver empurradores profissionais para meter mais uma pessoa naquele elevador... Me-doooooo). 

 

Correu bem. Muni-me de mochila com livros de colorir, cadernos de desenho, estojo com materiais e ainda umas palavras cruzadas. E um lanche (iogurtes líquidos e bolachas) e água. Tive que levar chapéus de chuva pois o tempo estava muito instável mas lá fomos nós deixar a avó na área das consultas externas e estacionar o carro no outro lado. E ir até ao hospital a pé, atravessar passadeiras, gerir o espaço dos passeios com árvores e pessoas, prestar atenção ao caminho por onde íamos. Tivemos sorte pois nem choveu nem apanhámos enchentes nos elevadores (acabámos por poupar as pernas numa subida do -1 até ao 6 andar).

 

As piolhas estiveram tão bem, foram de um comportamento e atitudes irrepreensíveis. Até no gabinete do médico estiveram tão sossegadas e tranquilas que não se notava que estavam lá. As minhas piolhas estão novamente de parabéns. 

O regresso correu bem, só houve queixas de algum cansaço pois tivemos que estugar o passo. Ameaçava chover e não me apetecia nada andar por Celas de chapéus de chuva abertos a gerir crianças.

 

Estou mesmo muito feliz com esta nova etapa aprendida e adquirida. Há muito trabalho ali, nota-se, quase que se consegue tocar mas ao ter uma recompensa destas, vejo que vale a pena; vale mesmo a pena.

Poderia ter corrido muito mal, poderiamos ter que sair do gabinete ou da sala de espera para um recanto isolado, poderia ter sido o caos pô-las a caminhar no meio da cidade mas... sem arriscar nunca saberia que também poderia correr bem, que também são capazes de conseguir ir um bocadinho mais além, que também se desenvolvem em outros níveis. E eu levo as minhas filhas para todo o lado comigo, queiram os outros ou não. A avó precisa de acompanhamento nas consultas mais importantes (por causa de surdez total de um ouvido) e eu sou assim, ou me aceitam com filhas e tudo ou temos pena. Elas vão. E corre bem ;) Se correr mal, também estou cá para assumir. E corrigir. E tentar de novo.

 

 

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publicado às 16:38

O Carnaval das piolhas 2017

por t2para4, em 28.02.17

Não somos grandes celebradores do Carnaval e, até já o tinha dito aqui, há uns anos, só comecei a dar-lhe alguma importância quando as piolhas já eram toddlers e estavam na creche. E, à exceção dos seus primeiros dois anos em que, de facto, comprei roupinhas a preços de achado, daí em diante, fui sempre fazendo e conjugando coisas para lhes dar um ar festivo e carnavalesco na 6ª feira anterior à Terça-feira Gorda.

Então, recapitulando:

- em 2011, foram umas simpáticas joaninhas (as tais do fatinho que durou uns 2 ou 3 anos, até não caberem mesmo dentro dele)

- em 2012, foram Doras, as exploradoras (viva o improviso, já que foi uma altura particularmente complicada; também voltaram a ser joaninhas)

- em 2013, foram umas fadinhas rosa (nada de especial apenas um conjunto de asas, varinha de condão e antenas pindéricas  com roupa cor de rosa normalíssima, pois, foi - again - uma altura complicada)

- em 2014, foram trabalhadoras alusivas aos poneis (nem quero acreditar que foi o 1º ano delas na escola... Tema profissões antigas que, com algum engenho, lá consegui misturar com as profissões dos poneis de My Little Pony)

- em 2015 e 2016, foram de Equestria Girls (com a totalidade dos acessórios feita em casa mais alguma roupa normal a compor a coisa. Adoraram e seria mais um ano a repetir mas enough is enough)

 

Então, para este ano, 2017, após muito pensar e sem grande tempo para me dedicar a projetos DIY, as piolhas lá se decidiram pela Marinette que tem a Miraculous Ladybug por alter-ego. Para tal, foi fácil decidir o que fazer e onde arranjar o que faltava. Assim, em casa, no roupeiro das piolhas já tínhamos as leggings, as camisolas (polares que aqui faz frio), os casacos cintados (apesar de terem cores diferentes do da personagem), sapatilhas (está demasiado frio para sabrinas), as carteirinhas rosa a tira-colo.

Do que precisei:

- mascarilha, que comprei no Espaço Criança por 1,25€ e depois pintei com as cores e manchas da LadyBug

- perucas azuis (daquele tom de azul Marinette) que comprei numa loja chinesa, por 3 euros (e que, depois de fazer os puxinhos e atar com fita vermelha, cortei a jeito)

- fita vermelha já tinha, de outros trabalhos

- feltro e linha de atar chouriços, que também já tinha de outros trabalhos, para fazer uma Tikki (o amuleto vivo, por assim dizer, da Marinette e que a transforma em LadyBug)

 

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 (apesar de eu achar que elas ficaram um pouco estranhas - sinistras, vá, por causa dos olhos -, as piolhas disseram que estavam fofinhas)

 

E o resultado final, que já tinha partilhado no Facebook do blog, ficou bem melhor do que eu inicialmente imaginara. Tudo se arranja, com alguma imaginação e boa vontade. As piolhas ficaram felizes e eu também, por vâ-las felizes.

 

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publicado às 17:22

Pequenos grandes gestos

por t2para4, em 15.02.17

No dia em que se diz celebrar o amor, por excelência, há apenas a constatação do que se vem vivendo nos restantes dias do ano, sem festividade associada. Não saímos, não jantámos fora, não fomos passear. Estivemos - os 4 - a trabalhar. E o dia começou bem cedo, ainda antes das 7h, com as piolhas bem despertas pelos seus próprios relógios biológicos tão ajustados aos seus desejos quanto elas querem (sim, se decidirem acordar às 6h30, elas conseguem. Sem qualquer tipo de despertador. Aí está algo que poderão ensinar-me, um dia destes...). Começou com passinhos miúdos no chão, com vozes murmuradas de "hoje é dia de São Valentim" e "o pai está cá?" (às vezes, o pai faz o turno da noite e só chega de manhã) e ainda "o pai e a mãe têm de estar juntinhos para desejar feliz dia de São Valentim". E nós a distribuirmos milhentas bejocas matinais, tão boas, os 4 no miminho bom. 

 

E, de tanta coisa que fiz e falei - e ainda estou em fase de realização - com os alunos acerca dos afetos, continuo a fazer notar - a nós e aos outros - a importância das pequenas coisas que, todas juntas, fazem muito. E quando digo pequenas coisas, são mesmo pequenas coisas, que, independentemente dos dias, podemos fazer sempre que nos apeteça. Em casa, além de um postalinho pindérico todo meloso que adore no computador (deu nas vistas pois o portátil estava fechado e eu nunca o deixo fechado), tinha a casa arrumada e o marido estava a passar a ferro - um alívio de trabalho acrescido para o resto da semana em que estou cheia de aulas e consultas. A minha retribuição melosa foram umas garrafinhas de Sumersby e um arrozinho malandro com moelas. As piolhas não receberam prendinhas da escola ou assim (receberam um caderno de desenho da nossa parte) e estavam, todas airosas, a descansar na sala - gazetando, mais uma vez, a ida à piscina -, depois de dois dias de fichas de avaliação e muitas horas de estudo e trabalho. E o melhor de tudo é, à medida que vamos conversando e que vamos passando o dia, haver ainda mais pequeninas coisas que nos deixam de sorriso bom. Afetos, carinho, amizade, cumplicidade, amor, sim. Também mas não só.

 

Uma piolha decidiu escrever um bilhetinho de carinho ao avô. E até pediu ajuda à tarefeira para fazer um envelope e poder guardá-lo em segurança, sem se amassar. Quando nos contou que iria aguardar até setembro para oferecer o bilhete ao avô (altura em que regressa a Portugal), perguntei o que ela achava de lhe enviar amanhã, por correio. Fez-lhe um pouco de confusão ter que escrever uma morada em língua estrangeira - que não o inglês - mas já temos correio para despachar amanhã e, certamente, um sorriso muito feliz na cara do avô quando o receber.

 

O dia acabou um pouco mais tarde do que eu previra, depois de nos termos enroscado no sofá a ver "A Bela e o Monstro" (e eu a estranhar pois sou do tempo do lançamento em VHS, em versão brasileira; posteriormente, já com piolhas bebés, a versão originbal em inglês, pelo que, a versão portuguesa é, para mim, uma novidade. E, para que conste, não há nada de errado com a minha noção temporal, os anos 90 foram mesmo há 10 anos, ok? Sim, porque eu lembro-me que foi no ano em que abriu o CoimbraShopping e o Continente, local onde comprei a cassete. Portanto, dizia eu, há pouco mais de 10 anos.).

 

A felicidade está mesmo nas coisas simples, no bem que podemos fazer uns aos outros, no que sentimos quando estamos felizes. E, ainda que em dias negros, amaldiçoemos o termos que nos contentar com as "pequenas coisas", a verdade é que, ninguém as valoriza como nós - nós e alguém como nós.

 

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publicado às 23:39

Da consulta da especialidade

por t2para4, em 23.01.17

A noite passa-se entre voltas e reviravoltas (e a minha teimosia em não tomar nada para dormir). A manhã começa com o toque do telemóvel a avisar da hora de começar a preparar nem sei bem o quê, pois já tudo estava pronto de véspera. Engole-se algo parecido com um pequeno-almoço e ala de viagem. Tudo enerva, desde o apressadinho que ultrapassa tudo e todos sem noção do que vai a fazer ao trânsito que se sente até na circular externa, sem grande razão para isso (daí se chamar circular externa...), ao estacionamento caótico que não interessa resolver nas traseiras dos HUC a caminho do HPC.

E eis-nos naquele piso de estacionamento, naquele elevador (o do meio, sei lá porquê, mas sempre o do meio), no corredor da máquina de bilhetes a caminho da máquina do café e exibição de trabalhos, vira à direita, volta a virar à direita e chegámos. Mais uma consulta de autismo, no departamento de Neurodesenvolvimento e Autismo.

 

Se o presente ainda me incomoda, olhar para o passado parece tão irreal quanto arduamente vivido. Agora tudo é bem mais tranquilo, familiar, presente; antes era o caos, as birras, a gritaria, a agitação motora, a hiperatividade, mais uma sessão de birras e meltdowns e saímos de lá pequeninos, impotentes e sem vislumbrar nada melhor.

As piolhas estão muito trabalhadas. Em algumas situações, um olho treinado e habituado a estas patologias, notará logo um comportamento artificialmente adequado mas funcional (um pouco como quando o Sheldon é obrigado a falar com os chefes, por exemplo). Nós notamos mudanças extremas. A sala fica intacta, a mesa sossegada, as cadeiras no lugar e as piolhas sentadas e colaborantes! São capazes de ter uma pequena conversa apropriada e contextualizada com a situação, colaboram nas medições (peso, altura, perímetro encefálico) e já não há explosões de caos quando é necessário verificar a tensão arterial. A enfermeira, que as conhece desde 2010, estava estupefacta com o comportamento, a maturidade e a boa disposição delas. Claro que havia ali uma pequena esterotipia verbal de uma e uns movimentos motores incontroláveis de outra a querer espreitar mas nada que mostrasse uma estranheza atroz, aos olhos de um leigo.

Fomos parabenizados, elas igual, e saímos de lá orgulhosos, orgulhosos, agraciados com a benção notória de um trabalho diário, constante, onde exigimos 10 para atingir 5 ou 6, em alturas boas.

 

No consultório médico, acabámos por receber as mesmas graças verbais e que nos enchem o coração de orgulho, esperança e nos deixam vislumbrar um caminho mais iluminado e uma estrada menos acidentada do que aquilo que víamos há uns anos. Claro que, há umas curvas manhosas no caminho que não nos deixam ver a sua totalidade mas, se já passamos por tanto, seguramente, aguentaremos o restante, certo?

É sempre bom conversar com alguém que nos respeita como pais e que, em certos aspetos, nos fala de igual para igual. O nosso médico sabe que somos uns bibliografos do pior e lemos muito, estudamos muito e ponderamos muito, antes de tomar qualquer decisão. Somos respeitados por recusar o metilfenidato e não nos crucificam por assumirmos que as piolhas tomam café todos os dias (café, tipo bica, do de máquina, intensidade máquina mesmo). Estamos numa fase boa de desenvolvimento das piolhas que permitiu algum progresso a nível de medicação, maturidade e até comportamental. Não nos iludimos: não estão ao nível dos seus pares. Lá chegarão mas não estão lá, ainda. Ainda a palavra chave.

A consulta demorou pois conversamos muito e aproveitamos para tirar dúvidas e falar até de outras coisas (acabei por descobrir pelo pediatra que a minha lesão muscular pode ter sido causada por um vírus!). As piolhas, que foram desprovidas de materiais de entretém, acabariam por começar a falar sozinhas e a imaginar... Tem sido algo muito recorrente, ultimamente. Traduzindo: regulam-se sozinhas, acabando por inventar historietas e narrar em voz baixa para elas mesmas, como forma de se ocuparem e conseguirem ter um comportamento regulado e adequado. Surgiu ali e ainda bem pois, assim, sabemos do que s etrata e poderemos explicar esse comportamento na escola ou até com técnicos, quando ele surgir.

 

Ainda rimos a bom rir ao imaginar as piolhas numa junta médica (ainda para mais com a doutora que temos na nossa pacata localidade, leia-se o sarcasmo) que, sem entenderem que estavamos numa de role-play, diziam o nome e queriam falá-lo também em inglês, punham o dedo no ar para falar. Dada a inteligência que assola estes profissisonais na nossa zona de residência, eu até imagino a cena... Não iria haver relatório médico nenhum, nem que fosse validado pelo Vaticano, aceite (been there, done that. Há uns anos, tentei uma junta médica e a suposta doutora pôs as piolhas na rua porque ela não conseguia trabalhar. É que ainda há pessoas que não fizeram nenhum upgrade aos seus conhecimentos e não devem ter descoberto ainda que existem deficiências neurológias, tipo, autismo, por exemplo... E são pessoas destas que declaram os mortos como estando mortos e atestam licenças para assar leitões - já agora, foi esta mesma pessoa que perguntou pelas habilitações superiores do proprietário para lhe poder validar a licença, a tal para assar leitões, mas anyhow. Escusado será dizer que a senhora doutora nunca mais me viu os dentes e eu duvi-dê-o-dó da sua capacidade de discernimento, pelo que, para já, não conta com a minha simpática presença no seu gabinete).

Bom, não faz parte dos nossos planos imediatos sujeitar as piolhas a uma junta médica. 

 

 

Estas consultas não nos trazem reforço de terapias nem devolvem horas retiradas aos centros de recursos para terapias nem, por muito que eu tente acalmar o meu lado inconsciente e patético, têm uma cura escondida num qualquer ficheiro. Mas trazem-nos algumas respostas e indicações de que estamos ou não no caminho certo - ou, pelo menos, mais adequado.

Ainda assim, ficamos sempre com a aquela sensação do copo meio cheio - porque as coisas estão mais ou menos compostas - ou meio vazio - porque ainda são crianças que não têm nenhuma facilidade em conseguir comunicar com os outros, quenão leem nas entrelinhas, que não possuem grandes filtros sociais, que não se enquadram com os seus pares, que... e que ... e que... e que...

Resta-nos olhar para trás e ver o tanto que já alcançamos, e, se calhar manter a mesma receita, já que, até ao momento, alguns resultados está a dar... O caminho ainda é longo mas, hey, já percorremos trilhos bem complicados, hein?

Talvez tenhamos, apenas, que ver o copo de outra perspetiva e continuar a (re)enchê-lo de esperança, dedicação, amor, paciência e mais um pouco de trabalho...

 

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publicado às 19:27

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