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Definitivamente, cat people

por t2para4, em 28.06.17

As piolhas tiveram hoje uma saída que envolveu uma visita a um criador de cães local que, entre outras raças, cria Golden Retrievers. O mesmo criador a quem comprámos a Íris, há tantos anos. Já na altura da visita, elas borrifaram-se para os cães e andaram perdidas e felizes da vida atrás de um gato "ginger", como uma delas gosta de dizer. Não ligámos a esse sinal, tão cegos que estávamos com a ideia de que uma cadela Golden Retriever pura iria fazer os milagres que procurávamos e nos quais queríamos tanto acreditar. Não fez e a história correu mal. Doi até hoje (mais pormenores, cuscai no blog, não vou por links diretos).

 

A verdade é que elas são definitivamente aquilo que, em inglês, se define como cat people. Em Caminha, quando regressávamos da nossa ida relâmpago a Santiago de Compostela, encontrámos uma gata preta e branca (semelhante ao nosso Silvestre) numa das ruelas que rodeiam o forte. Chegaram-se logo a ela e ela aceitou miminhos e festinhas delas mas recusou que o marido se chegasse perto...

O mesmo se passa com o gato que passeia pelo meu local de trabalho.

E com os gatos que encontramos na rua...

 

Não foi diferente aqui. Enquanto todos os coleguinhas se encantavam com os cães e cachorrinhos, as piolhas deleitavam-se com os gatos e a nova ninhada que por lá andava. "Um ginger, um parecido com o gato da T., um Quico mas não era igual ao nosso Quico e os outros eram todos brancos. E não deixaram pelos no nosso colo". Enquanto os gatos se afastavam dos outras crianças, deixavam-se cativar pelas piolhas (as mesmas crianças, ou seja, as minhas filhas que eu jamais levaria para uma loja da Vista Alegre e até tremo quando entram na Ótica de um familiar... ).

 

Não pretendo, nem por um milésimo de segundo, desvalorizar o que quer que seja que se faça com cães de serviço e a sua importância; apenas quero mostrar que o autismo, a PEA das minhas filhas, talvez esteja numa outra parte do espectro no que respeita a animais de apoio. Elas sentem-se incomodadas por cães, independentemente da sua raça - tal como a minha irmã -, elas afastam-se instintamente de cães, não importa o tamanho. Por outro lado, adoram gatos, sentem-se atraídas pelos felinos, são enigmáticas e fazem lembrar um gato em alguns dos seus comportamentos, não sei explicar bem, apenas se nota, ao olhar para elas e para a relação delas com gatos, que são mesmo cat people. E até com isso e nisso podemos ver aprendizagem. Não precisamos de seguir a norma quando há algo mais fora da norma que também funciona - ainda para mais se é fofinho e com umas orelhinhas pontiagudas e um bigodes... 

 

Sou uma cat person, sem dúvida. Mas as piolhas são mais. Passei a olhar com outros olhos - uns olhos agradecidos - para os gatos quando o nosso Silvestre, ainda um juvenil, aguentou um meltdown dos feios de uma das piolhas, sem sair de perto dela, enquanto ela o agarrava e ele nem uma unha pôs de fora... Só saiu quando ela deu sinais de se acalmar - para voltar segundos depois, como para se certificar de que estava bem antes de tirar tempo para si mesmo. Acho-os muito parecidos com as minhas crianças. Com comportamentos muito autistas... Este episódio marcou-me. E a relação delas com este animais parece diferente...

Dá que pensar, não?

 

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 (os gatos são ou não um pouco autistas? Eu acho que os nossos são uma cópia felina das piolhas ;) )

 

 

 

 

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publicado às 23:11

No âmbito do projecto Autism Spectrum Disorder in the European Union (ASDEU), no qual o Instituto Nacional de Saúde e o Hospital Pediátrico de Coimbra participam, foram desenvolvidos dois inquéritos que pretendem recolher evidência sobre:


1) os custos socio-económicos do autismo para as famílias;


2) as práticas de deteção, diagnóstico e intervenção no autismo, na União Europeia.

 

Os resultados destes dois inquéritos servirão de suporte à programação de apoio médicos, educativos e sociais mais adequados para as pessoas com autismo, em cada país participante do projeto e na União Europeia.

Os inquéritos são respondidos online, e podem ser acedidos através dos links:


1. Custo da Perturbação do Espetro do Autismo em Portugal: http://asdeu.limequery.com/survey/index/sid/758623/newtest/Y/lang/pt


2. Identificação, diagnóstico e intervenção precoce em crianças com Perturbação do Espetro do Autismo (para pais/famílias):
https://usalinvestigacion.eu.qualtrics.com/jfe/form/SV_6lKhtERFQogPPMN?Q_Language=PT-BR

ou ainda através do site do projecto ASDEU: www.ASDEU.EU

 

Não custa nada ajudar! Partilhe-se!

 

 

 

 

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publicado às 18:48

Oh, querida Julia...

por t2para4, em 11.04.17

Já lá vão uns anitos em que o handflapping era muito comum. Ainda tende a aparecer, de vez em quando, em momentos de maior tensão ou de incompreensão do que as rodeia.

 

Apesar de já ter falado da Julia antes (aqui), vê-la trouxe-me lágrimas aos olhos porque vi ali um 1:20 de piolhas... Certo que evoluímos muito desde então mas, ainda assim, custa e dói um bocadinho... Porque, se por um lado houve evolução da parte delas, por outro, parece que falta tanto caminho ainda...

 

 

In  https://www.facebook.com/GoodMorningAmerica/videos/10155619103608812/

 

 

 

 

Oxalá as minhas "Julias" encontrem sempre alguém que as compreenda e as respeite por fazerem as coisas "a little differently"...

 

 

PS: aqui para nós, não acharam a Julia uma miúda feliz, assim, genuinamente feliz? Eu achei. E, apesar de tudo, as piolhas também são miúdas felizes.

 

 

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publicado às 17:02

Na semana passada, depois de muita ginástica para conseguir levar a avó ao comboio (e depois apanhar o avião para ir ter com o avô) e ainda conseguir chegar antes da hora marcada à reunião de avaliação, já contando com o facto de ter deixado as piolhas no ATL, pouco depois das 9h perguntava-me uma colega por que as piolhas não tinham ido com a avó. Confesso que tal ideia nunca me passou pela cabeça - embora, naquele momento, por breves micro-segundos tenha conseguido visualizar uma realidade alternativa, onde as piolhas passariam duas semanas com os avós, no estrangeiro, viajariam de avião e teriam acesso a toda uma cultura diferente da nossa. Foram uns micro-segundos muito dolorosos pois essa realidade alternativa, a exisitir, está ainda a anos de distância da realidade atual.

 

Têm sido dias de retrocesso, de desespero, de mágoa, de lágrimas. Não pensávamos que fosse possível regressar ao passado e, no entato, aqui estamos nós, com as piolhas numa fase tão má e tão desesperante que chega a doer fisicamente. 
Não precisamos que nos relembrem que nunca teremos filhas neurotípicas, nem precisamos que nos relembrem que há aqui um desfasamento de quase 2 anos a nivel do comportamento adaptativo. Mas precisávamos mesmo que alguém nos dissesse "vai ser mais fácil" ou "é só uma fase má que vai passar e dar lugar a uma nova fase de maturidade" ou "não é andar para trás, é só tomar balanço para dar um salto". Temos repetido estas desculpas esfarrapadas e justificações cegas e sem qualquer teor científico a nós mesmos, talvez, na tentativa vã de doer menos e, a acontecer, descansarmos com a certeza de que, no futuro, já saberemos como agir.

Tudo mentira. Não sabemos nada. É tudo uma sucessão tremenda de tentativa-erro a ver o que poderá resultar em bem. Comportamentos que achávamos para sempre perdidos regressaram e, de repente, questionamos tudo. Será que, desde 2010, com tanto trabalho, tantas terapias, tantas horas de sessões, tantos custos, tantos sacríficos, afinal, de pouco valeram? 

 

Eu não preciso de uma linguagem correta para a escola: preciso de uma linguagem que me diga o que aconteceu na escola, se algum menino foi incorreto para com elas, se se passou algo grave que consigam explicar de forma lógica e coerente. 

Eu não preciso de um comportamento igual aos dos seus pares nesta idade: preciso de um comportamento que não destoe dos demais, que não lhes cause problemas discriminatórios, que não as coloque em perigo em casos extremos (as nossas cabeças voam para cenários de horror quando estamos cansados e lidamos com problemas sérios. Em caso de assalto onde se exija o mais completo silênciao, nós seríamos os primeiros a ser dizimados sem piedade alguma). Extremos? Se calhar sim mas, neste momento, tudo me assusta, tudo me dá medo, até o sair de casa sem saber se a janela ficou fechada ou não. Temo por um futuro recente onde nada, absolutamente nada parece estar ao meu alcance de um mínimo de controlo.

 

Não estamos numa fase boa. Relembra-me as férias de 2011 ou 2012 em que até acordar era um sacríficio pois implicava um dia daqueles... Com a agravante do não sabermos bem onde acaba ou começa o autismo ou onde acaba ou começa o testar "normal" dos pais, como faria um neurotípico.

Ainda assim, sou teimosa: as piolhas estão em casa comigo e não no ATL que já paguei; as sessões de terapia mantêm-se; os estímulos em excesso foram drasticamente reduzidos; houve atribuição de castigos; as obsessões limitativas foram controladas; voltámos aos estudos para saber quais os passos que deveremos seguir; continuamos a sair mesmo quando uma diz que não; continuo a levar as piolhas para todo o lado a que eu precise de ir, independentemente de tudo; continuo a acreditar que, talvez, por muito negro que pareça agora - e acho que ninguém tem a noção do negrume que para aqui vai -, é só uma fase má e que vêm aí dias felizes. 

 

Até lá, vou tentar seguir este mandamento injusto mas que nos resguarda ilusoriamente de mágoas: "Não compararás a tua prole com a prole dos outros". Sugiro que outros também o façam e, melhor ainda, para sua própria proteção, não o digam em voz alta perto de pais como eu. A última coisa de que precisamos é de alguém a relativizar os nossos problemas sérios. Aqui, no t2, nenhum de nós sabe ou tem a experiência do que é ser-se pai de um filho neurotípico. E um pai de filhos neurotípicos, felizmente, nunca saberá o que é sentir o que sentimos. 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado às 10:48

A 2 de abril

por t2para4, em 02.04.17

Há uma data que se assinala por ser o dia mundial da consciencialização do autismo.

Em 2013, criei este texto em Comunicação Alternativa e Aumentativa, em formato imagem, e, hoje, apercebi-me que tem corrido mundo. Fico orgulhosa por poder, de alguma forma - e esta tão simples -, contribuir para que os nossos meninos sejam vistos como crianças, com as suas especificidades.

 

 

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Fico muito satisfeita por saber que há cada vez mais informação fidedigna e credível, e que, apesar de em algumas situações ainda nos verem como uns ETs, começa a haver cada vez mais pessoas a não engelhar o nariz ou a achar que estamos a inventar uma doença terrível.

 

Para já, como disse algures hoje, só quero mesmo que os passeios solitários das piolhas pela escola por não entenderem nem serem entendidas pelos seus pares, deixe de ser a norma e passe a ser a excepção; que não tenham que ser elas a ter que sociabilizar quando isso lhes é tão complicado (ninguém pede a alguém cego para ver mas todos pedem a um autista para se controlar e para ir brincar com os colegas - seja lá o que isso for); que não tenhamos nem sintamos a necessidade de explicar um comportamento desadequado ou desfasado da idade porque, aos olhos de terceiros, o que se vê são duas crianças aparentemente "neurotípicas" que não parecem nada ter autismo (seja lá o que isso for, again). 

 

Se calhar, no momento, estou a pedir coisas muito difíceis. Mas difícil também é a nossa vida e ninguém nos perguntou nada.

 

 

 

 

 

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publicado às 20:05

Se me tivessem dito, há 7 anos que tal seria possível, e não teria acreditado, teria chorado de raiva e frustração... Mas hoje quase chorei mas de alegria, de orgulho, de felicidade! Decidimos arriscar -afinal, o pior que poderia acontecer era termos que pintar a cara de preto e tentar sair o mais discretamente possível da sala - e ainda bem que o fizemos!

 

As piolhas participaram hoje, pela 1ª vez, numa atuação perante uma sala cheia (falamos de cerca de 400 lugares, todos ocupados), com música bem alta - mais do que num cinema -, com música, dança e mais música. E elas não foram dançar mas foram mostrar um pouco do que fazem nas suas aulas de psicomotricidade - onde estão inscritas desde 2015, e que funciona para nós como Terapia Ocupacional, nas áreas de coordenação corporal, motricidade fina e grossa, psicomotricidade, dissociação, equílibrio, coordenação óculo-motora, compreensão e cumprimento de regras ou instruções, etc. 

 

Lá foram elas, de cabelos bem presos enfeitados com fitinhas coloridas, tutus esvoçantes brilhantes e fitinhas na mão. Felizes, tão felizes. E estiveram tão bem, tão bem!

 

No final da atuação, depois de retirados os acessórios, regressaram aos seus lugares na plateia e assistiram ao resto do espetáculo, aplaudiram familares, colegas e conhecidos, cantarolaram as músicas das coreografias e até ponderaram enveredar pela área da ginástica, mais tarde. Bateram muitas, muitas, muitas palmas. E voltaram a subir ao palco para se juntarem a todos os outros participantes, pular mais um pouco e tirar fotografias. 

 

Estou de coração cheio, quase que nem acredito que é real, que aconteceu mesmo. 

 

O verso da medalha? Não quisemos esticar demais a corda e, assim que terminou o espetáculo, esgueirámo-nos para a saída, antes da grande confusão e regressámos a casa, onde passámos o resto da tarde em atividades calmas, sem alaridos, sem estímulos demais. As piolhas estiveram cerca de uma hora entretidas a criar mosaicos de poneis; ainda jogaram uns jogos no tablet, viram TV, desenharam imenso, terminaram um TPC e brincaram muito com Legos e Pinipons. Não houve meltdowns, não houve birras, não houve sobrecarga sensorial. Demos-lhes o espaço e tempo de que necessitavam para recuperar da manhã. 

 

E eu continuo feliz, feliz!!  As minhas piolhitas conseguiram!

 

 

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publicado às 21:24

Da consulta da especialidade

por t2para4, em 23.01.17

A noite passa-se entre voltas e reviravoltas (e a minha teimosia em não tomar nada para dormir). A manhã começa com o toque do telemóvel a avisar da hora de começar a preparar nem sei bem o quê, pois já tudo estava pronto de véspera. Engole-se algo parecido com um pequeno-almoço e ala de viagem. Tudo enerva, desde o apressadinho que ultrapassa tudo e todos sem noção do que vai a fazer ao trânsito que se sente até na circular externa, sem grande razão para isso (daí se chamar circular externa...), ao estacionamento caótico que não interessa resolver nas traseiras dos HUC a caminho do HPC.

E eis-nos naquele piso de estacionamento, naquele elevador (o do meio, sei lá porquê, mas sempre o do meio), no corredor da máquina de bilhetes a caminho da máquina do café e exibição de trabalhos, vira à direita, volta a virar à direita e chegámos. Mais uma consulta de autismo, no departamento de Neurodesenvolvimento e Autismo.

 

Se o presente ainda me incomoda, olhar para o passado parece tão irreal quanto arduamente vivido. Agora tudo é bem mais tranquilo, familiar, presente; antes era o caos, as birras, a gritaria, a agitação motora, a hiperatividade, mais uma sessão de birras e meltdowns e saímos de lá pequeninos, impotentes e sem vislumbrar nada melhor.

As piolhas estão muito trabalhadas. Em algumas situações, um olho treinado e habituado a estas patologias, notará logo um comportamento artificialmente adequado mas funcional (um pouco como quando o Sheldon é obrigado a falar com os chefes, por exemplo). Nós notamos mudanças extremas. A sala fica intacta, a mesa sossegada, as cadeiras no lugar e as piolhas sentadas e colaborantes! São capazes de ter uma pequena conversa apropriada e contextualizada com a situação, colaboram nas medições (peso, altura, perímetro encefálico) e já não há explosões de caos quando é necessário verificar a tensão arterial. A enfermeira, que as conhece desde 2010, estava estupefacta com o comportamento, a maturidade e a boa disposição delas. Claro que havia ali uma pequena esterotipia verbal de uma e uns movimentos motores incontroláveis de outra a querer espreitar mas nada que mostrasse uma estranheza atroz, aos olhos de um leigo.

Fomos parabenizados, elas igual, e saímos de lá orgulhosos, orgulhosos, agraciados com a benção notória de um trabalho diário, constante, onde exigimos 10 para atingir 5 ou 6, em alturas boas.

 

No consultório médico, acabámos por receber as mesmas graças verbais e que nos enchem o coração de orgulho, esperança e nos deixam vislumbrar um caminho mais iluminado e uma estrada menos acidentada do que aquilo que víamos há uns anos. Claro que, há umas curvas manhosas no caminho que não nos deixam ver a sua totalidade mas, se já passamos por tanto, seguramente, aguentaremos o restante, certo?

É sempre bom conversar com alguém que nos respeita como pais e que, em certos aspetos, nos fala de igual para igual. O nosso médico sabe que somos uns bibliografos do pior e lemos muito, estudamos muito e ponderamos muito, antes de tomar qualquer decisão. Somos respeitados por recusar o metilfenidato e não nos crucificam por assumirmos que as piolhas tomam café todos os dias (café, tipo bica, do de máquina, intensidade máquina mesmo). Estamos numa fase boa de desenvolvimento das piolhas que permitiu algum progresso a nível de medicação, maturidade e até comportamental. Não nos iludimos: não estão ao nível dos seus pares. Lá chegarão mas não estão lá, ainda. Ainda a palavra chave.

A consulta demorou pois conversamos muito e aproveitamos para tirar dúvidas e falar até de outras coisas (acabei por descobrir pelo pediatra que a minha lesão muscular pode ter sido causada por um vírus!). As piolhas, que foram desprovidas de materiais de entretém, acabariam por começar a falar sozinhas e a imaginar... Tem sido algo muito recorrente, ultimamente. Traduzindo: regulam-se sozinhas, acabando por inventar historietas e narrar em voz baixa para elas mesmas, como forma de se ocuparem e conseguirem ter um comportamento regulado e adequado. Surgiu ali e ainda bem pois, assim, sabemos do que s etrata e poderemos explicar esse comportamento na escola ou até com técnicos, quando ele surgir.

 

Ainda rimos a bom rir ao imaginar as piolhas numa junta médica (ainda para mais com a doutora que temos na nossa pacata localidade, leia-se o sarcasmo) que, sem entenderem que estavamos numa de role-play, diziam o nome e queriam falá-lo também em inglês, punham o dedo no ar para falar. Dada a inteligência que assola estes profissisonais na nossa zona de residência, eu até imagino a cena... Não iria haver relatório médico nenhum, nem que fosse validado pelo Vaticano, aceite (been there, done that. Há uns anos, tentei uma junta médica e a suposta doutora pôs as piolhas na rua porque ela não conseguia trabalhar. É que ainda há pessoas que não fizeram nenhum upgrade aos seus conhecimentos e não devem ter descoberto ainda que existem deficiências neurológias, tipo, autismo, por exemplo... E são pessoas destas que declaram os mortos como estando mortos e atestam licenças para assar leitões - já agora, foi esta mesma pessoa que perguntou pelas habilitações superiores do proprietário para lhe poder validar a licença, a tal para assar leitões, mas anyhow. Escusado será dizer que a senhora doutora nunca mais me viu os dentes e eu duvi-dê-o-dó da sua capacidade de discernimento, pelo que, para já, não conta com a minha simpática presença no seu gabinete).

Bom, não faz parte dos nossos planos imediatos sujeitar as piolhas a uma junta médica. 

 

 

Estas consultas não nos trazem reforço de terapias nem devolvem horas retiradas aos centros de recursos para terapias nem, por muito que eu tente acalmar o meu lado inconsciente e patético, têm uma cura escondida num qualquer ficheiro. Mas trazem-nos algumas respostas e indicações de que estamos ou não no caminho certo - ou, pelo menos, mais adequado.

Ainda assim, ficamos sempre com a aquela sensação do copo meio cheio - porque as coisas estão mais ou menos compostas - ou meio vazio - porque ainda são crianças que não têm nenhuma facilidade em conseguir comunicar com os outros, quenão leem nas entrelinhas, que não possuem grandes filtros sociais, que não se enquadram com os seus pares, que... e que ... e que... e que...

Resta-nos olhar para trás e ver o tanto que já alcançamos, e, se calhar manter a mesma receita, já que, até ao momento, alguns resultados está a dar... O caminho ainda é longo mas, hey, já percorremos trilhos bem complicados, hein?

Talvez tenhamos, apenas, que ver o copo de outra perspetiva e continuar a (re)enchê-lo de esperança, dedicação, amor, paciência e mais um pouco de trabalho...

 

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publicado às 19:27

A inclusão, ai , a inclusão.

por t2para4, em 16.01.17

É a panaceia que se quer atribuir aos atuais sistemas, sejam eles de saúde, educativo ou até social. Promover a inclusão, falar de inclusão, proporcionar meios de inclusão é muito discutido e fica bem em qualquer documento - principalmente em relatórios ou atas de reuniões escolares. É, assim, tipo, chique, sei lá.

 

Mas, vamos começar do início, sim?

Comecemos pela definição mais básica, aquela que qualquer dicionário conteria:

 

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 (gosto particularmente, da origem "encerramento" - leia-se a ironia

 

Portanto, é basicamente aceitar, abranger, incorporar como se de uma receita se tratasse, do género, "agora inclua os ovos e mexa. Ta-da! É só levar a massa ao forno, et voilà, l'inclusion parfaite". 

 

 

Avancemos, agora, para um conceito do que é inclusão. Também é algo que fica bem num trabalho de secundário quando os alunos precisam de falar de algo muito abstrato e complicado e saem coisas assim:

http://conceitos.com/inclusao/

 

(inclusão por oposição a exclusão, nunca teria pensado nisso... Ironia, again)

 

Agora vejamos este artigo, na minha opinião, muito bem escrito e que mostra o lado perverso da inclusão tal como nos parece imposta nos dias que correm.

https://www.publico.pt/2014/03/17/sociedade/noticia/o-que-e-a-inclusao-1628577

 

 

E, agora, as minhas considerações:

De vez em quando, vou espreitar as piolhas à escola, nas horas do intervalo. E o que vejo são duas crianças perfeitamente incluídas na rede escolar e na turma. O que também vejo são duas crianças a passear sozinhas pelo recinto escolar porque não se sentem incluídas nas brincadeiras ou nas atividades dos colegas, embora estes as aceitem como são, ainda que com dificuldade em entender o patamar de desenvolvimento em que estão - uns e outros. A realidade é que, se, na sala de aula, as piolhas até podem estar mais à frente na compreensão imediata e direta dos conteúdos - esta é outra coisa que o nosso sistema gosta de perverter, como se o escolasticamente adquirido fosse alguma vez aplicável e aplicado no contexto da vida real sem sermos professores -, naqueles momentos de amostra real do que é a vida social, elas estão bem atrás dos colegas. Ainda não estão na fase parvinha mas normal das meninas apaixonadas pelos coleguinhas ou com conversas tolinhas mas normais sobre a família, as roupas, o drama que é ser-se criança nesta idade. E, honestamente, por muito que me doa vê-las sozinhas naquela escola enorme - e que seria o mesmo numa escola pequena -, até prefiro que assim seja pois não sofrem com a pressão do ter que estarem incluídas à força num grupo onde todos os sinais sociais são difíceis de interpretar e para os quais não possuem filtros, maturidade, leitores e lhes causaria uma ansiedade incontrolável. 

Neste momento, na minha ótica, a verdadeira inclusão passa por uma coisa tão simples quanto básica e fundamental: a aceitação. A aceitação de que não podemos nem devemos ser todos iguais, de que há determinados apoios - nomeadamente terapias - que são necessários como de pão para a boca e não deveriam ser alvo de cortes cegos, de que a escola deveria ser bem mais do que apenas um poço de despejo de conteúdos e conteúdos onde não há tempo para mais nada a não ser livros e papéis e folhas e programas e metas e reuniões. Não há espaço nem aceitação pela diferença no criar, pela diferença do que é estar alheado daquele lugar mas ainda assim capaz de perceber o que se pretende aprender, pela diferença que é sermos quem somos, por estarmos mais atentos hoje do que alguma vez estivemos a direitos básicos .

Eu não quero crianças formatadas, zombificadas, incluídas sei lá em quê só porque há uma suposta norma do que é socialmente aceita fazer agora; eu quero crianças felizes e tolerantes, capazes de perceber que todos somos humanos, que todos temos direitos, capazes de respeitar e tolerar, de compreender o ser-se ou não parte integrante e incluída de um grupo, de um contexto, do que quer que seja.

De forma simplista, é esta a minha versão de inclusão. Não pretendo panaceias nem desdéns nem coitadinhices. Só pretendo que nos aceitem como somos. Simples, assim.

 

 

 

 

 

 

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publicado às 09:47

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