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É ao ler este tipo de testemunhos reais (independentemente de aqui ser em relação à maternidade) - em vez de um estudo qualquer, feito por sei lá quem, encomendado por sabe-se lá quem -, que consigo visualizar um futuro para as piolhas. Ainal, é possível. Quero acreditar que sim.
 
 
Como é ser mãe e ter autismo
 
A paciência diminui mais do que o comum, as conversas tornam-se cansativas rapidamente e as piadas ficam por perceber
 
 
 
Marisa Cardoso
 
Sempre tentei disfarçar as minhas dificuldades. Achava que não tinha interesse nenhum, que era "poucochinha". As outras pessoas pensavam que era arrogante e malcriada, porque fazia cara de poucos amigos mas era tudo para me defender. Pensava: "Ok, sinto-me mal, mas mais ninguém sabe." Por exemplo, quando as pessoas saem para se distraírem, isso para mim é um sofrimento. É muita informação a entrar, fico cansadíssima, não consigo desligar de tudo o que está a acontecer à minha volta. E é o ter de interagir… Não saber o que é que hei-de dizer às pessoas… Sinto sempre que o que vou dizer não tem interesse. Depois, as minhas reacções nas conversas são: se toda a gente está a rir, eu também me vou rir. Posso nem estar bem a ouvir a conversa mas se estão todos a rir é porque é suposto rir, portanto faço o que o grupo está a fazer. 

Com as minhas três filhas é fantástico porque sempre fui verdadeira com elas. Sempre pude ser eu na realidade e portanto com elas – que têm 14 anos, 11 e a mais nova 5 – estava bem. Não tinha que usar máscaras, não tinha de fingir que compreendia. Claro que o facto de me cansar muito depressa faz com que me irrite também rapidamente. De repente, desato a gritar, a disparatar com elas… E era muito difícil depois recuperar a partir dali. 
 
Aconteceu várias vezes com as mais velhas, principalmente, irritar-me, chegar a extremos… Agora já sei que quando estou a atingir o meu limite, aviso: "Meus amores, a mãe está a atingir o limite. Por favor ajudem a mãe a não atingir esse limite." Foi por causa de uma das minhas filhas que descobri, aos 40 anos, que tenho Asperger, aliás, chama-se agora Perturbação do Espectro do Autismo. 

A minha filha precisava de ajuda, estava com algumas dificuldades na escola, principalmente falta de concentração, e achei que ela poderia ter qualquer coisa que necessitasse de terapia. Eu e o meu marido João fomos a uma clínica fazer uma avaliação e comecei a estudar todos os tipos de diagnóstico. Gosto de saber exactamente o que é que as minhas filhas têm para poder apoiá-las ao máximo. Estudei a Perturbação de Hiperactividade/Défice de Atenção, o Transtorno Obsessivo -Compulsivo… A Síndrome de Asperger [inserida na Perturbação do Espectro do Autismo] era uma delas. Identifiquei-me. 

Já não estava a ver a minha filha mas a mim. Identificava-me com todas as coisas que lia, as dificuldades de interacção com as pessoas, o sentir-me a mais, ter uma dificuldade enorme em estar com muitas pessoas, sentir-me estoirada. 

Numa conversa com a terapeuta que fez a avaliação à minha filha, o João diz-lhe: "Ah, tem graça, a Rita acha que ela tem Asperger." A terapeuta pára tudo e diz: "Não, a Rita é claramente Asperger, não há dúvida nenhuma." 
Agora, referia-se a mim. Um dos traços do Asperger é ser muito literal, então achei que aquele "claramente" significava que toda a gente sabia mas nunca ninguém me tinha dito nada. Achei que tinha vivido 40 anos em mentira. E agora como é que ia gerir a minha nova vida? Neste processo de me encontrar entrei numa depressão muito forte, muito profunda, que durou cerca de um ano. 
 

Ser Asperger 
É muito difícil arranjar psicólogos e psiquiatras que compreendam o autismo de adultos. E de mulheres são raros. Sei que há porque na minha página do Facebook – Claramente Asperger –, que já tenho há um ano, falei com pessoas que me indicaram especialistas. Mas na altura, como é que uma pessoa faz? Vai-se ao Google, não é? "Preciso de um psicólogo para mulheres autistas." Não aparece nada. 

Os psicólogos ainda podem conhecer as características dos homens porque está tudo muito enviesado para os homens, os diagnósticos e as avaliações. Mas não conhecem as características das mulheres. Acham que o facto de eu ter seguido com a minha vida, ter casado, ter filhos é razão para eu não ser Asperger. Ou então: "Ok, eu sou Asperger mas qual é o problema? Tenho a minha vida." Mas não percebem é o que se passa no meu interior. Ninguém vê o que é que eu sinto, não está à vista. 

Quando me fui abaixo, fiquei sem amor-próprio. Preferia pensar nas outras pessoas, nas minhas filhas, no João. Era como se não existisse. Então, comecei a pedir mais tempo para mim e a dizer: "A mãe agora não pode brincar com vocês, preciso de fazer outra coisa, preciso de estar comigo." 

Elas não sentiram esta descoberta da mesma forma que eu senti. No máximo, o que sentiram foi eu ter desaparecido um ou dois dias. Geri as coisas de forma a que as minhas irmãs as fossem buscar e que elas não sentissem grande diferença e assim pude ter o meu espaço. 

Nunca choro à frente delas quando estou triste. Posso-me isolar mais, mas tento não chorar. Naquela altura precisava de estar sozinha. Elas foram percebendo o que eu tinha. Não me sentei com as minhas filhas e disse: "Olhem agora vamos falar sobre o Asperger." Mostrei-lhes a página onde escrevia e elas fizeram perguntas: "O que é isso que a mãe passa tanto tempo a fazer ao computador?" E eu fui-lhes falando naturalmente. As mais velhas reagiram sem stress mas a mais nova não faz a mínima ideia do que é. 

É normal que elas tenham curiosidade porque roubo um bocadinho do tempo com elas para escrever na página. Acho que a mensagem em relação ao autismo está mal passada. As pessoas não sabem realmente o que é o autismo. Existe um rótulo de que é algo incapacitante – mas não é. Por exemplo, falando no trabalho – sou editora de imagem –, as pessoas são muito focadas e podem ser dos melhores trabalhadores porque a entrega é total. Quando um autista gosta daquilo que está a fazer entrega-se de corpo e alma. 

É certo que sou muito rígida em termos de pensamento e é muito difícil ir um bocadinho mais para a direita ou para a esquerda, demora tempo. Mas também sou muito verdadeira. A minha relação com o meu marido é baseada na verdade, sempre lhe contei tudo e ele sempre me contou tudo também. Muitas vezes o João está a dizer algo simples e eu penso que ele me está a acusar de algo, mas não. Isso compreendemos nós agora porque eu estou a perceber o Asperger e ele também está. Estamos os dois a crescer juntos.

Artigo originalmente publicado na edição n.º 681, de 18 de Maio de 2017.  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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publicado às 12:22

Aquele momento que te faz cair de cu no chão na realidade e em que acordas para a put@ da vida e, indireta e inconscientemente acabas por te esquecer de todas as novas conquistas das recentes semanas (as piolhas a conseguirem comer peixe de faca e garfo e já conseguirem separar as espinhas; o ficarem sozinhas enquanto vou despejar o lixo ou vou à garagem ou ao arrumo; o caminharem corretamente cada vez mais e mais longe a andar a pé; o fazerem - sozinhas - planos para o amanhã...): vês o adulto de quem falavámos no outro dia, o irmão do coleguinha do ATL, os tais que têm ambos autismo, a atravessar a passadeira, e-x-a-t-a-m-e-n-t-e da mesmíssima maneira, com os mesmos trejeitos, as mesmas conversas para si mesmo, os mesmos jeitos, o mesmo andar... que as piolhas.

E sentes uma neura a subir leve, levemente e neve não é certamente. Tão perto, tão "ah, in your face" e tão longe ao mesmo tempo...

 

Por isso, não; não tenho um acirdar fácil. Tenho o acordar com o um enorme privilégio e uma dádiva mas não algo que seja fácil de fazer. Literal e metaforicamente.

 

 

 

 

 

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publicado às 18:21

Definitivamente, cat people

por t2para4, em 28.06.17

As piolhas tiveram hoje uma saída que envolveu uma visita a um criador de cães local que, entre outras raças, cria Golden Retrievers. O mesmo criador a quem comprámos a Íris, há tantos anos. Já na altura da visita, elas borrifaram-se para os cães e andaram perdidas e felizes da vida atrás de um gato "ginger", como uma delas gosta de dizer. Não ligámos a esse sinal, tão cegos que estávamos com a ideia de que uma cadela Golden Retriever pura iria fazer os milagres que procurávamos e nos quais queríamos tanto acreditar. Não fez e a história correu mal. Doi até hoje (mais pormenores, cuscai no blog, não vou por links diretos).

 

A verdade é que elas são definitivamente aquilo que, em inglês, se define como cat people. Em Caminha, quando regressávamos da nossa ida relâmpago a Santiago de Compostela, encontrámos uma gata preta e branca (semelhante ao nosso Silvestre) numa das ruelas que rodeiam o forte. Chegaram-se logo a ela e ela aceitou miminhos e festinhas delas mas recusou que o marido se chegasse perto...

O mesmo se passa com o gato que passeia pelo meu local de trabalho.

E com os gatos que encontramos na rua...

 

Não foi diferente aqui. Enquanto todos os coleguinhas se encantavam com os cães e cachorrinhos, as piolhas deleitavam-se com os gatos e a nova ninhada que por lá andava. "Um ginger, um parecido com o gato da T., um Quico mas não era igual ao nosso Quico e os outros eram todos brancos. E não deixaram pelos no nosso colo". Enquanto os gatos se afastavam dos outras crianças, deixavam-se cativar pelas piolhas (as mesmas crianças, ou seja, as minhas filhas que eu jamais levaria para uma loja da Vista Alegre e até tremo quando entram na Ótica de um familiar... ).

 

Não pretendo, nem por um milésimo de segundo, desvalorizar o que quer que seja que se faça com cães de serviço e a sua importância; apenas quero mostrar que o autismo, a PEA das minhas filhas, talvez esteja numa outra parte do espectro no que respeita a animais de apoio. Elas sentem-se incomodadas por cães, independentemente da sua raça - tal como a minha irmã -, elas afastam-se instintamente de cães, não importa o tamanho. Por outro lado, adoram gatos, sentem-se atraídas pelos felinos, são enigmáticas e fazem lembrar um gato em alguns dos seus comportamentos, não sei explicar bem, apenas se nota, ao olhar para elas e para a relação delas com gatos, que são mesmo cat people. E até com isso e nisso podemos ver aprendizagem. Não precisamos de seguir a norma quando há algo mais fora da norma que também funciona - ainda para mais se é fofinho e com umas orelhinhas pontiagudas e um bigodes... 

 

Sou uma cat person, sem dúvida. Mas as piolhas são mais. Passei a olhar com outros olhos - uns olhos agradecidos - para os gatos quando o nosso Silvestre, ainda um juvenil, aguentou um meltdown dos feios de uma das piolhas, sem sair de perto dela, enquanto ela o agarrava e ele nem uma unha pôs de fora... Só saiu quando ela deu sinais de se acalmar - para voltar segundos depois, como para se certificar de que estava bem antes de tirar tempo para si mesmo. Acho-os muito parecidos com as minhas crianças. Com comportamentos muito autistas... Este episódio marcou-me. E a relação delas com este animais parece diferente...

Dá que pensar, não?

 

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 (os gatos são ou não um pouco autistas? Eu acho que os nossos são uma cópia felina das piolhas ;) )

 

 

 

 

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publicado às 23:11

No âmbito do projecto Autism Spectrum Disorder in the European Union (ASDEU), no qual o Instituto Nacional de Saúde e o Hospital Pediátrico de Coimbra participam, foram desenvolvidos dois inquéritos que pretendem recolher evidência sobre:


1) os custos socio-económicos do autismo para as famílias;


2) as práticas de deteção, diagnóstico e intervenção no autismo, na União Europeia.

 

Os resultados destes dois inquéritos servirão de suporte à programação de apoio médicos, educativos e sociais mais adequados para as pessoas com autismo, em cada país participante do projeto e na União Europeia.

Os inquéritos são respondidos online, e podem ser acedidos através dos links:


1. Custo da Perturbação do Espetro do Autismo em Portugal: http://asdeu.limequery.com/survey/index/sid/758623/newtest/Y/lang/pt


2. Identificação, diagnóstico e intervenção precoce em crianças com Perturbação do Espetro do Autismo (para pais/famílias):
https://usalinvestigacion.eu.qualtrics.com/jfe/form/SV_6lKhtERFQogPPMN?Q_Language=PT-BR

ou ainda através do site do projecto ASDEU: www.ASDEU.EU

 

Não custa nada ajudar! Partilhe-se!

 

 

 

 

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publicado às 18:48

Oh, querida Julia...

por t2para4, em 11.04.17

Já lá vão uns anitos em que o handflapping era muito comum. Ainda tende a aparecer, de vez em quando, em momentos de maior tensão ou de incompreensão do que as rodeia.

 

Apesar de já ter falado da Julia antes (aqui), vê-la trouxe-me lágrimas aos olhos porque vi ali um 1:20 de piolhas... Certo que evoluímos muito desde então mas, ainda assim, custa e dói um bocadinho... Porque, se por um lado houve evolução da parte delas, por outro, parece que falta tanto caminho ainda...

 

 

In  https://www.facebook.com/GoodMorningAmerica/videos/10155619103608812/

 

 

 

 

Oxalá as minhas "Julias" encontrem sempre alguém que as compreenda e as respeite por fazerem as coisas "a little differently"...

 

 

PS: aqui para nós, não acharam a Julia uma miúda feliz, assim, genuinamente feliz? Eu achei. E, apesar de tudo, as piolhas também são miúdas felizes.

 

 

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publicado às 17:02

Na semana passada, depois de muita ginástica para conseguir levar a avó ao comboio (e depois apanhar o avião para ir ter com o avô) e ainda conseguir chegar antes da hora marcada à reunião de avaliação, já contando com o facto de ter deixado as piolhas no ATL, pouco depois das 9h perguntava-me uma colega por que as piolhas não tinham ido com a avó. Confesso que tal ideia nunca me passou pela cabeça - embora, naquele momento, por breves micro-segundos tenha conseguido visualizar uma realidade alternativa, onde as piolhas passariam duas semanas com os avós, no estrangeiro, viajariam de avião e teriam acesso a toda uma cultura diferente da nossa. Foram uns micro-segundos muito dolorosos pois essa realidade alternativa, a exisitir, está ainda a anos de distância da realidade atual.

 

Têm sido dias de retrocesso, de desespero, de mágoa, de lágrimas. Não pensávamos que fosse possível regressar ao passado e, no entato, aqui estamos nós, com as piolhas numa fase tão má e tão desesperante que chega a doer fisicamente. 
Não precisamos que nos relembrem que nunca teremos filhas neurotípicas, nem precisamos que nos relembrem que há aqui um desfasamento de quase 2 anos a nivel do comportamento adaptativo. Mas precisávamos mesmo que alguém nos dissesse "vai ser mais fácil" ou "é só uma fase má que vai passar e dar lugar a uma nova fase de maturidade" ou "não é andar para trás, é só tomar balanço para dar um salto". Temos repetido estas desculpas esfarrapadas e justificações cegas e sem qualquer teor científico a nós mesmos, talvez, na tentativa vã de doer menos e, a acontecer, descansarmos com a certeza de que, no futuro, já saberemos como agir.

Tudo mentira. Não sabemos nada. É tudo uma sucessão tremenda de tentativa-erro a ver o que poderá resultar em bem. Comportamentos que achávamos para sempre perdidos regressaram e, de repente, questionamos tudo. Será que, desde 2010, com tanto trabalho, tantas terapias, tantas horas de sessões, tantos custos, tantos sacríficos, afinal, de pouco valeram? 

 

Eu não preciso de uma linguagem correta para a escola: preciso de uma linguagem que me diga o que aconteceu na escola, se algum menino foi incorreto para com elas, se se passou algo grave que consigam explicar de forma lógica e coerente. 

Eu não preciso de um comportamento igual aos dos seus pares nesta idade: preciso de um comportamento que não destoe dos demais, que não lhes cause problemas discriminatórios, que não as coloque em perigo em casos extremos (as nossas cabeças voam para cenários de horror quando estamos cansados e lidamos com problemas sérios. Em caso de assalto onde se exija o mais completo silênciao, nós seríamos os primeiros a ser dizimados sem piedade alguma). Extremos? Se calhar sim mas, neste momento, tudo me assusta, tudo me dá medo, até o sair de casa sem saber se a janela ficou fechada ou não. Temo por um futuro recente onde nada, absolutamente nada parece estar ao meu alcance de um mínimo de controlo.

 

Não estamos numa fase boa. Relembra-me as férias de 2011 ou 2012 em que até acordar era um sacríficio pois implicava um dia daqueles... Com a agravante do não sabermos bem onde acaba ou começa o autismo ou onde acaba ou começa o testar "normal" dos pais, como faria um neurotípico.

Ainda assim, sou teimosa: as piolhas estão em casa comigo e não no ATL que já paguei; as sessões de terapia mantêm-se; os estímulos em excesso foram drasticamente reduzidos; houve atribuição de castigos; as obsessões limitativas foram controladas; voltámos aos estudos para saber quais os passos que deveremos seguir; continuamos a sair mesmo quando uma diz que não; continuo a levar as piolhas para todo o lado a que eu precise de ir, independentemente de tudo; continuo a acreditar que, talvez, por muito negro que pareça agora - e acho que ninguém tem a noção do negrume que para aqui vai -, é só uma fase má e que vêm aí dias felizes. 

 

Até lá, vou tentar seguir este mandamento injusto mas que nos resguarda ilusoriamente de mágoas: "Não compararás a tua prole com a prole dos outros". Sugiro que outros também o façam e, melhor ainda, para sua própria proteção, não o digam em voz alta perto de pais como eu. A última coisa de que precisamos é de alguém a relativizar os nossos problemas sérios. Aqui, no t2, nenhum de nós sabe ou tem a experiência do que é ser-se pai de um filho neurotípico. E um pai de filhos neurotípicos, felizmente, nunca saberá o que é sentir o que sentimos. 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado às 10:48

A 2 de abril

por t2para4, em 02.04.17

Há uma data que se assinala por ser o dia mundial da consciencialização do autismo.

Em 2013, criei este texto em Comunicação Alternativa e Aumentativa, em formato imagem, e, hoje, apercebi-me que tem corrido mundo. Fico orgulhosa por poder, de alguma forma - e esta tão simples -, contribuir para que os nossos meninos sejam vistos como crianças, com as suas especificidades.

 

 

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Fico muito satisfeita por saber que há cada vez mais informação fidedigna e credível, e que, apesar de em algumas situações ainda nos verem como uns ETs, começa a haver cada vez mais pessoas a não engelhar o nariz ou a achar que estamos a inventar uma doença terrível.

 

Para já, como disse algures hoje, só quero mesmo que os passeios solitários das piolhas pela escola por não entenderem nem serem entendidas pelos seus pares, deixe de ser a norma e passe a ser a excepção; que não tenham que ser elas a ter que sociabilizar quando isso lhes é tão complicado (ninguém pede a alguém cego para ver mas todos pedem a um autista para se controlar e para ir brincar com os colegas - seja lá o que isso for); que não tenhamos nem sintamos a necessidade de explicar um comportamento desadequado ou desfasado da idade porque, aos olhos de terceiros, o que se vê são duas crianças aparentemente "neurotípicas" que não parecem nada ter autismo (seja lá o que isso for, again). 

 

Se calhar, no momento, estou a pedir coisas muito difíceis. Mas difícil também é a nossa vida e ninguém nos perguntou nada.

 

 

 

 

 

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publicado às 20:05

Se me tivessem dito, há 7 anos que tal seria possível, e não teria acreditado, teria chorado de raiva e frustração... Mas hoje quase chorei mas de alegria, de orgulho, de felicidade! Decidimos arriscar -afinal, o pior que poderia acontecer era termos que pintar a cara de preto e tentar sair o mais discretamente possível da sala - e ainda bem que o fizemos!

 

As piolhas participaram hoje, pela 1ª vez, numa atuação perante uma sala cheia (falamos de cerca de 400 lugares, todos ocupados), com música bem alta - mais do que num cinema -, com música, dança e mais música. E elas não foram dançar mas foram mostrar um pouco do que fazem nas suas aulas de psicomotricidade - onde estão inscritas desde 2015, e que funciona para nós como Terapia Ocupacional, nas áreas de coordenação corporal, motricidade fina e grossa, psicomotricidade, dissociação, equílibrio, coordenação óculo-motora, compreensão e cumprimento de regras ou instruções, etc. 

 

Lá foram elas, de cabelos bem presos enfeitados com fitinhas coloridas, tutus esvoçantes brilhantes e fitinhas na mão. Felizes, tão felizes. E estiveram tão bem, tão bem!

 

No final da atuação, depois de retirados os acessórios, regressaram aos seus lugares na plateia e assistiram ao resto do espetáculo, aplaudiram familares, colegas e conhecidos, cantarolaram as músicas das coreografias e até ponderaram enveredar pela área da ginástica, mais tarde. Bateram muitas, muitas, muitas palmas. E voltaram a subir ao palco para se juntarem a todos os outros participantes, pular mais um pouco e tirar fotografias. 

 

Estou de coração cheio, quase que nem acredito que é real, que aconteceu mesmo. 

 

O verso da medalha? Não quisemos esticar demais a corda e, assim que terminou o espetáculo, esgueirámo-nos para a saída, antes da grande confusão e regressámos a casa, onde passámos o resto da tarde em atividades calmas, sem alaridos, sem estímulos demais. As piolhas estiveram cerca de uma hora entretidas a criar mosaicos de poneis; ainda jogaram uns jogos no tablet, viram TV, desenharam imenso, terminaram um TPC e brincaram muito com Legos e Pinipons. Não houve meltdowns, não houve birras, não houve sobrecarga sensorial. Demos-lhes o espaço e tempo de que necessitavam para recuperar da manhã. 

 

E eu continuo feliz, feliz!!  As minhas piolhitas conseguiram!

 

 

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publicado às 21:24

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