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A 2 de abril

por t2para4, em 02.04.17

Há uma data que se assinala por ser o dia mundial da consciencialização do autismo.

Em 2013, criei este texto em Comunicação Alternativa e Aumentativa, em formato imagem, e, hoje, apercebi-me que tem corrido mundo. Fico orgulhosa por poder, de alguma forma - e esta tão simples -, contribuir para que os nossos meninos sejam vistos como crianças, com as suas especificidades.

 

 

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Fico muito satisfeita por saber que há cada vez mais informação fidedigna e credível, e que, apesar de em algumas situações ainda nos verem como uns ETs, começa a haver cada vez mais pessoas a não engelhar o nariz ou a achar que estamos a inventar uma doença terrível.

 

Para já, como disse algures hoje, só quero mesmo que os passeios solitários das piolhas pela escola por não entenderem nem serem entendidas pelos seus pares, deixe de ser a norma e passe a ser a excepção; que não tenham que ser elas a ter que sociabilizar quando isso lhes é tão complicado (ninguém pede a alguém cego para ver mas todos pedem a um autista para se controlar e para ir brincar com os colegas - seja lá o que isso for); que não tenhamos nem sintamos a necessidade de explicar um comportamento desadequado ou desfasado da idade porque, aos olhos de terceiros, o que se vê são duas crianças aparentemente "neurotípicas" que não parecem nada ter autismo (seja lá o que isso for, again). 

 

Se calhar, no momento, estou a pedir coisas muito difíceis. Mas difícil também é a nossa vida e ninguém nos perguntou nada.

 

 

 

 

 

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publicado às 20:05

Se me tivessem dito, há 7 anos que tal seria possível, e não teria acreditado, teria chorado de raiva e frustração... Mas hoje quase chorei mas de alegria, de orgulho, de felicidade! Decidimos arriscar -afinal, o pior que poderia acontecer era termos que pintar a cara de preto e tentar sair o mais discretamente possível da sala - e ainda bem que o fizemos!

 

As piolhas participaram hoje, pela 1ª vez, numa atuação perante uma sala cheia (falamos de cerca de 400 lugares, todos ocupados), com música bem alta - mais do que num cinema -, com música, dança e mais música. E elas não foram dançar mas foram mostrar um pouco do que fazem nas suas aulas de psicomotricidade - onde estão inscritas desde 2015, e que funciona para nós como Terapia Ocupacional, nas áreas de coordenação corporal, motricidade fina e grossa, psicomotricidade, dissociação, equílibrio, coordenação óculo-motora, compreensão e cumprimento de regras ou instruções, etc. 

 

Lá foram elas, de cabelos bem presos enfeitados com fitinhas coloridas, tutus esvoçantes brilhantes e fitinhas na mão. Felizes, tão felizes. E estiveram tão bem, tão bem!

 

No final da atuação, depois de retirados os acessórios, regressaram aos seus lugares na plateia e assistiram ao resto do espetáculo, aplaudiram familares, colegas e conhecidos, cantarolaram as músicas das coreografias e até ponderaram enveredar pela área da ginástica, mais tarde. Bateram muitas, muitas, muitas palmas. E voltaram a subir ao palco para se juntarem a todos os outros participantes, pular mais um pouco e tirar fotografias. 

 

Estou de coração cheio, quase que nem acredito que é real, que aconteceu mesmo. 

 

O verso da medalha? Não quisemos esticar demais a corda e, assim que terminou o espetáculo, esgueirámo-nos para a saída, antes da grande confusão e regressámos a casa, onde passámos o resto da tarde em atividades calmas, sem alaridos, sem estímulos demais. As piolhas estiveram cerca de uma hora entretidas a criar mosaicos de poneis; ainda jogaram uns jogos no tablet, viram TV, desenharam imenso, terminaram um TPC e brincaram muito com Legos e Pinipons. Não houve meltdowns, não houve birras, não houve sobrecarga sensorial. Demos-lhes o espaço e tempo de que necessitavam para recuperar da manhã. 

 

E eu continuo feliz, feliz!!  As minhas piolhitas conseguiram!

 

 

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publicado às 21:24

Da consulta da especialidade

por t2para4, em 23.01.17

A noite passa-se entre voltas e reviravoltas (e a minha teimosia em não tomar nada para dormir). A manhã começa com o toque do telemóvel a avisar da hora de começar a preparar nem sei bem o quê, pois já tudo estava pronto de véspera. Engole-se algo parecido com um pequeno-almoço e ala de viagem. Tudo enerva, desde o apressadinho que ultrapassa tudo e todos sem noção do que vai a fazer ao trânsito que se sente até na circular externa, sem grande razão para isso (daí se chamar circular externa...), ao estacionamento caótico que não interessa resolver nas traseiras dos HUC a caminho do HPC.

E eis-nos naquele piso de estacionamento, naquele elevador (o do meio, sei lá porquê, mas sempre o do meio), no corredor da máquina de bilhetes a caminho da máquina do café e exibição de trabalhos, vira à direita, volta a virar à direita e chegámos. Mais uma consulta de autismo, no departamento de Neurodesenvolvimento e Autismo.

 

Se o presente ainda me incomoda, olhar para o passado parece tão irreal quanto arduamente vivido. Agora tudo é bem mais tranquilo, familiar, presente; antes era o caos, as birras, a gritaria, a agitação motora, a hiperatividade, mais uma sessão de birras e meltdowns e saímos de lá pequeninos, impotentes e sem vislumbrar nada melhor.

As piolhas estão muito trabalhadas. Em algumas situações, um olho treinado e habituado a estas patologias, notará logo um comportamento artificialmente adequado mas funcional (um pouco como quando o Sheldon é obrigado a falar com os chefes, por exemplo). Nós notamos mudanças extremas. A sala fica intacta, a mesa sossegada, as cadeiras no lugar e as piolhas sentadas e colaborantes! São capazes de ter uma pequena conversa apropriada e contextualizada com a situação, colaboram nas medições (peso, altura, perímetro encefálico) e já não há explosões de caos quando é necessário verificar a tensão arterial. A enfermeira, que as conhece desde 2010, estava estupefacta com o comportamento, a maturidade e a boa disposição delas. Claro que havia ali uma pequena esterotipia verbal de uma e uns movimentos motores incontroláveis de outra a querer espreitar mas nada que mostrasse uma estranheza atroz, aos olhos de um leigo.

Fomos parabenizados, elas igual, e saímos de lá orgulhosos, orgulhosos, agraciados com a benção notória de um trabalho diário, constante, onde exigimos 10 para atingir 5 ou 6, em alturas boas.

 

No consultório médico, acabámos por receber as mesmas graças verbais e que nos enchem o coração de orgulho, esperança e nos deixam vislumbrar um caminho mais iluminado e uma estrada menos acidentada do que aquilo que víamos há uns anos. Claro que, há umas curvas manhosas no caminho que não nos deixam ver a sua totalidade mas, se já passamos por tanto, seguramente, aguentaremos o restante, certo?

É sempre bom conversar com alguém que nos respeita como pais e que, em certos aspetos, nos fala de igual para igual. O nosso médico sabe que somos uns bibliografos do pior e lemos muito, estudamos muito e ponderamos muito, antes de tomar qualquer decisão. Somos respeitados por recusar o metilfenidato e não nos crucificam por assumirmos que as piolhas tomam café todos os dias (café, tipo bica, do de máquina, intensidade máquina mesmo). Estamos numa fase boa de desenvolvimento das piolhas que permitiu algum progresso a nível de medicação, maturidade e até comportamental. Não nos iludimos: não estão ao nível dos seus pares. Lá chegarão mas não estão lá, ainda. Ainda a palavra chave.

A consulta demorou pois conversamos muito e aproveitamos para tirar dúvidas e falar até de outras coisas (acabei por descobrir pelo pediatra que a minha lesão muscular pode ter sido causada por um vírus!). As piolhas, que foram desprovidas de materiais de entretém, acabariam por começar a falar sozinhas e a imaginar... Tem sido algo muito recorrente, ultimamente. Traduzindo: regulam-se sozinhas, acabando por inventar historietas e narrar em voz baixa para elas mesmas, como forma de se ocuparem e conseguirem ter um comportamento regulado e adequado. Surgiu ali e ainda bem pois, assim, sabemos do que s etrata e poderemos explicar esse comportamento na escola ou até com técnicos, quando ele surgir.

 

Ainda rimos a bom rir ao imaginar as piolhas numa junta médica (ainda para mais com a doutora que temos na nossa pacata localidade, leia-se o sarcasmo) que, sem entenderem que estavamos numa de role-play, diziam o nome e queriam falá-lo também em inglês, punham o dedo no ar para falar. Dada a inteligência que assola estes profissisonais na nossa zona de residência, eu até imagino a cena... Não iria haver relatório médico nenhum, nem que fosse validado pelo Vaticano, aceite (been there, done that. Há uns anos, tentei uma junta médica e a suposta doutora pôs as piolhas na rua porque ela não conseguia trabalhar. É que ainda há pessoas que não fizeram nenhum upgrade aos seus conhecimentos e não devem ter descoberto ainda que existem deficiências neurológias, tipo, autismo, por exemplo... E são pessoas destas que declaram os mortos como estando mortos e atestam licenças para assar leitões - já agora, foi esta mesma pessoa que perguntou pelas habilitações superiores do proprietário para lhe poder validar a licença, a tal para assar leitões, mas anyhow. Escusado será dizer que a senhora doutora nunca mais me viu os dentes e eu duvi-dê-o-dó da sua capacidade de discernimento, pelo que, para já, não conta com a minha simpática presença no seu gabinete).

Bom, não faz parte dos nossos planos imediatos sujeitar as piolhas a uma junta médica. 

 

 

Estas consultas não nos trazem reforço de terapias nem devolvem horas retiradas aos centros de recursos para terapias nem, por muito que eu tente acalmar o meu lado inconsciente e patético, têm uma cura escondida num qualquer ficheiro. Mas trazem-nos algumas respostas e indicações de que estamos ou não no caminho certo - ou, pelo menos, mais adequado.

Ainda assim, ficamos sempre com a aquela sensação do copo meio cheio - porque as coisas estão mais ou menos compostas - ou meio vazio - porque ainda são crianças que não têm nenhuma facilidade em conseguir comunicar com os outros, quenão leem nas entrelinhas, que não possuem grandes filtros sociais, que não se enquadram com os seus pares, que... e que ... e que... e que...

Resta-nos olhar para trás e ver o tanto que já alcançamos, e, se calhar manter a mesma receita, já que, até ao momento, alguns resultados está a dar... O caminho ainda é longo mas, hey, já percorremos trilhos bem complicados, hein?

Talvez tenhamos, apenas, que ver o copo de outra perspetiva e continuar a (re)enchê-lo de esperança, dedicação, amor, paciência e mais um pouco de trabalho...

 

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publicado às 19:27

A inclusão, ai , a inclusão.

por t2para4, em 16.01.17

É a panaceia que se quer atribuir aos atuais sistemas, sejam eles de saúde, educativo ou até social. Promover a inclusão, falar de inclusão, proporcionar meios de inclusão é muito discutido e fica bem em qualquer documento - principalmente em relatórios ou atas de reuniões escolares. É, assim, tipo, chique, sei lá.

 

Mas, vamos começar do início, sim?

Comecemos pela definição mais básica, aquela que qualquer dicionário conteria:

 

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 (gosto particularmente, da origem "encerramento" - leia-se a ironia

 

Portanto, é basicamente aceitar, abranger, incorporar como se de uma receita se tratasse, do género, "agora inclua os ovos e mexa. Ta-da! É só levar a massa ao forno, et voilà, l'inclusion parfaite". 

 

 

Avancemos, agora, para um conceito do que é inclusão. Também é algo que fica bem num trabalho de secundário quando os alunos precisam de falar de algo muito abstrato e complicado e saem coisas assim:

http://conceitos.com/inclusao/

 

(inclusão por oposição a exclusão, nunca teria pensado nisso... Ironia, again)

 

Agora vejamos este artigo, na minha opinião, muito bem escrito e que mostra o lado perverso da inclusão tal como nos parece imposta nos dias que correm.

https://www.publico.pt/2014/03/17/sociedade/noticia/o-que-e-a-inclusao-1628577

 

 

E, agora, as minhas considerações:

De vez em quando, vou espreitar as piolhas à escola, nas horas do intervalo. E o que vejo são duas crianças perfeitamente incluídas na rede escolar e na turma. O que também vejo são duas crianças a passear sozinhas pelo recinto escolar porque não se sentem incluídas nas brincadeiras ou nas atividades dos colegas, embora estes as aceitem como são, ainda que com dificuldade em entender o patamar de desenvolvimento em que estão - uns e outros. A realidade é que, se, na sala de aula, as piolhas até podem estar mais à frente na compreensão imediata e direta dos conteúdos - esta é outra coisa que o nosso sistema gosta de perverter, como se o escolasticamente adquirido fosse alguma vez aplicável e aplicado no contexto da vida real sem sermos professores -, naqueles momentos de amostra real do que é a vida social, elas estão bem atrás dos colegas. Ainda não estão na fase parvinha mas normal das meninas apaixonadas pelos coleguinhas ou com conversas tolinhas mas normais sobre a família, as roupas, o drama que é ser-se criança nesta idade. E, honestamente, por muito que me doa vê-las sozinhas naquela escola enorme - e que seria o mesmo numa escola pequena -, até prefiro que assim seja pois não sofrem com a pressão do ter que estarem incluídas à força num grupo onde todos os sinais sociais são difíceis de interpretar e para os quais não possuem filtros, maturidade, leitores e lhes causaria uma ansiedade incontrolável. 

Neste momento, na minha ótica, a verdadeira inclusão passa por uma coisa tão simples quanto básica e fundamental: a aceitação. A aceitação de que não podemos nem devemos ser todos iguais, de que há determinados apoios - nomeadamente terapias - que são necessários como de pão para a boca e não deveriam ser alvo de cortes cegos, de que a escola deveria ser bem mais do que apenas um poço de despejo de conteúdos e conteúdos onde não há tempo para mais nada a não ser livros e papéis e folhas e programas e metas e reuniões. Não há espaço nem aceitação pela diferença no criar, pela diferença do que é estar alheado daquele lugar mas ainda assim capaz de perceber o que se pretende aprender, pela diferença que é sermos quem somos, por estarmos mais atentos hoje do que alguma vez estivemos a direitos básicos .

Eu não quero crianças formatadas, zombificadas, incluídas sei lá em quê só porque há uma suposta norma do que é socialmente aceita fazer agora; eu quero crianças felizes e tolerantes, capazes de perceber que todos somos humanos, que todos temos direitos, capazes de respeitar e tolerar, de compreender o ser-se ou não parte integrante e incluída de um grupo, de um contexto, do que quer que seja.

De forma simplista, é esta a minha versão de inclusão. Não pretendo panaceias nem desdéns nem coitadinhices. Só pretendo que nos aceitem como somos. Simples, assim.

 

 

 

 

 

 

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publicado às 09:47

O velho ano trouxe um final de aprendizagens e de resoluções, de erros que não quero repetir, de medos que não posso voltar a sentir. O novo ano entrou e eu estou ainda em fase de aprendizagem a um novo e (bem) mais calmo ritmo, a adaptar-me a um novo "eu", a testar as minhas limitações, a ver até onde posso ir sem dores e sem recaídas.

 

O novo ano traz também velhas rotinas que nos ajudam e das quais necessitamos. Consulta de autismo para muito breve. Estaria a mentir se dissesse que, à luz deste meu novo "eu" zenificado, não estu ansiosa nem aprensiva nem insegura. Estou, como estou sempre. Mas sei que as piolhas evoluíram tremendamente, vejo e quase que se sente essa evolução de forma palpável. Se está tudo bem? Longe disso. Temos ainda um longo longo caminho a percorrer mas já dá para perceber que algumas etapas serão bem menos árduas, que há "áreas de serviço" para descansar pelo caminho, que há surpresas boas depois de uma curva perigosa.

 

O autismo está lá, não vai desaparecer nunca, elas nunca serão neurotípicas, a vida será sempre vista por elas com um filtro diferente do nosso, precisarão de apoios durante mais tempo do que qualquer outra pessoas e não, não nos enganámos, o diagnóstico é mesmo esse, não é nenhuma perturbação noutra qualquer área. Sim, custa-me horrores vê-las completamente sozinhas nos intervalos, a passear pela escola mas, depois, penso que, serão sempre as duas, nunca estarão sozinhas. Temos a gemelaridade a nosso favor.

 

Por isso, para já, esses meus já conhecidos medos vão começando a assombrar, à medida que o tempo escorre mas vamos e vamos assim mesmo com medos e tudo.

 

 

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publicado às 20:53

A história da girafa (e do abutre)

por t2para4, em 19.12.16

Estamos de "férias" e fomos trabalhar em terapia da fala. Entre outras questões, a certa altura, trabalhámos a interpretação e compreensão de contextos com uma história - noutra língua que não inglês ou francês, porque as piolhas leem logo e perde-se o objetivo da nossa abordagem - sobre uma girafa. O objetivo era tratar a história cruamente: personagens, cenário, problema, ações, resolução. Não era interpretar nem encontrar outros sentidos nem era esse o objetivo, repito.

 

"Era uma vez uma girafa tão alta tão alta tão alta que nem cabia no livro... Os outros animais da selva, como o leão e os seus compinchas macaco, zebra e crocodilo, riam e gozavam com ela por ser assim, tão alta e tão grande. E a girafa sentia-se triste, deslocada e humilhada. Resolveu encontrar novos amigos que a aceitassem como ela é. E encontrou animais raros e especiais como ela: o porco-espinho, o papa-formigas, a lebre-do-cabo. Inicialmente tudo correu bem pois tinham a particularidade de serem especiais mas não sabiam lidar uns com os outros e a girafa, tão alta que era, era muito desastrada para as brincadeiras dos outros animais e acabava por se afastar e ficar apenas a ver. Até que um dia, a jogar a bola, esta foi parar ao cimo de uma árvore e a girafa percebeu logo que poderia ajudar. Encontrou algo em que era boa! Devolveu a bola aos amigos e foram todos jogar e ver o pôr-do-sol. Fim"

 

Sou de Letras. Tive alguns dos melhores professores de Literatura do país. Tive de marrar textos e textos sem conta, de várias línguas e origens, alguns até de orige indo-americana ou criola. Chumbei a Psicologia Educacional 3 vezes com 9 e acabei depois a cadeira com 15. Eu tenho uma interpretação muito própria deste texto, independentemente do seu objetivo.

Dado o meu humor hoje - que até começou muito bem, a sério! - o que eu vi neste texto foi uma ingenuidade atroz que eu não vejo em lado nenhum e basicamente a minha adolescência - de forma literal: a gaja muito alta e desastrada que só era boa para ir ao ressalto em basket nas aulas de educação física, as piolhas na forma de animais especiais gozados e afastados pelos outros animais da selva, que se sentem um pouco com isso mas nem entendem bem o que isso é; o final a que nos prestamos: aparentemente eu só sou boa a tirar coisas de coisas altas, as piolhas só são boas a serem especiais - seja lá o que essa "designação" queira dizer.

 

O meu querido terapeuta do coração já não faz parte da equipa... faltam técnicos com experiência e aquele empenho que faz brilhar os olhos, aquela vontade única de querer ajudar quem (cor)responde... falta-me tempo para poder ensinar - sim, é mesmo esse o termo, "ensinar" - todas as particularidades de uma língua e de uma linguagem que a todos os outros é inata, subdesenvolvida, desvalorizada e desperdiçada... doi-me ter que trabalhar todos os dias, sempre, qualquer coisa, seja de que conteúdo ou currículo for e não poder dar-me ao luxo de parar de treinar porque há retrocessos e ainda me chaparem à cara que "estamos de férias e não fazemos nada"... enoja-me (sim, também esse o termo) a escola (de forma geral) não ter tempo (ou não querer) para usar estas abordagens novas que fazemos nas sessões de terapia e que tão bem fazem às piolhas e ao seu entendimento linguístico (seja em que forma for: escrito, oral)... está para além da minha compreensão, por questões ridículas e burocráticas, estas novas abordagens não poderem ser mais do que um determinado nº de horas por determinado nº de tempo... 

 

Sinto-me a girafa alta demais para caber no livro, a ser gozada pelo resto dos animais (leia-se "sociedade, comunidade, whatever"), a tentar arranjar um grupo "especial" que aceite as minhas particularidades e as dos meus. E chateia-me ser a girafa. Não posso ser a chita mas, de repente, honestamente, a minha vontade é mesmo ser o abutre. E, lá do alto, voar em círculos e ver a decadência e o moribundo e, depois, calmamente e com os meus, atacar. Chama-se a isso "karma". Há quem lhe chame cabra, eu prefiro chamar-lhe abutre. Sabem porquê? Por isto : https://pt.wikipedia.org/wiki/Abutre , porque eles não atacam à toa, porque não desperdiçam energia com o que não conseguem ganhar, porque eles não são os maus da selva, porque eles não voam sozinhos e porque, acima de tudo, são pacientes. Muito pacientes. E no Livro da Selva, até eles salvam o Mogli. De quem? Do tigre... Interessante, não?

 

 

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publicado às 19:31

Abordar o tema "morte"

por t2para4, em 02.08.16

É um tema extremamente delicado de se abordar com crianças, independentemente das idades. Acredito que seja mais complicado para os adultos lidar com as emoções e a própria noção de morte do que para as crianças; ainda assim, é importante deixar o assunto resolvido na cabeça delas e evitar ansiedades profundas ou problemas em lidar com ausências e com a morte em si, no futuro.

 

Num mês, passámos por duas situações de falecimentos. Se, no início de julho foi relativamente simples de esconder as emoções e até a minha ausência para ir ao funeral da nossa amiga, pois as piolhas estavam no ATL, o marido estava a trabalhar durante o dia e as nossas conversas e desabafos emotivos eram já depois de elas estarem na cama; desta vez, no final do mês, com o vizinho não foi bem assim. Para começar, elas viram logo a reação do pai que, apanhado de surpresa, não ligou os filtros e me chamou a atenção para o facto de o vizinho ter morrido - além de terem visto os avisos colados nas ruas por onde passamos. Ainda tentaram perceber o que se passava mas como não lhes demos muito espaço para informação nem para dúvidas, a curiosidade esmoreceu, por momentos. No entanto, tive que justificar o porquê de as deixar com a tia enquanto eu ia ao funeral. Disse-lhes que iria falar com a esposa dele, que era importante e que depois, quando eu viesse, falaria com elas (entretanto, eu ansiava para que elas não trouxessem o assunto à baila).

 

No facebook do blog, apelei a estratégias para lidar com a situação e acabei por me servir de uma que encontrei neste link, deixado por uma leitora - o que muito agradeço, pois foi extremamente útil. Uma amiga enviou-me várias propostas de livros que abordam o tema mas que não consegui encontrar na biblioteca local. Decidi-me por imprimir a página 5 do pdf no link acima e, em caso de dúvidas das piolhas, seguir as orientações sugeridas. 

 

Acredito que é mais simples abordar o tema através de ensinamentos religiosos quando se segue uma religião ou até através de pequenas metáforas e os nossos filhos já têm a noção disso. Aqui não é o caso. Apesar de falarmos de religião e até termos alguns comportamentos religiosos, não ritualizamos. Jesus é uma figura de cerâmica num nicho de igreja e, apesar das procissões locais e idas a Fátima que lhes agradam, Nossa Senhora é uma estátua e fixe é acender velas (o único ritual em que gostam de participar e, ainda que digam que é para nos iluminar - seja lá o que isso for na cabeça delas - , não me parece que entendam na sua plenitude). Não conseguem conceber a noção abstrata de ideias como Deus, Jesus, alma, pecado, etc. Respeitam, não contestam nem criticam porque assim foram educadas mas não compreendem esta abstração, este acreditar em algo que não se vê nem se sente tão próximo com o amor de pais, por exemplo, nem se comprova cientificamente. Portanto, dizer que alguém foi ter ou viver com Jesus não faz sentido porque na igreja só está lá uma estátua dele sozinho e não com um batalhão de gente. Dizer que foi para o céu é igualmente abstrato porque o céu é o oposto da terra, onde andam aviões e pássaros, onde há oxigénio e dióxido de carbono e ozono e outros elementos químicos. Dizer que alguém se transformou em estrelinha é outro paradoxo pois as estrelas são corpos celestes do espaço e não pessoas, são basicamente rocha e gelo e não carne... Falar em alma é demais até para a minha camioneta, sinceramente.

Por isso, e como não gosto de mentir nestas coisas naturais da vida - o mesmo em relação ao sexo, menstruação e contraceção (outro post, outro dia) -, optei por abordar com a verdade, de forma delicada e apropriada à idade/estágio de desenvolvimento e, acima de tudo, de forma a evitar pavores e medos sobre o assunto.

 

Ao almoço, pergunta-me uma delas se eu consegui falar com a esposa do vizinho e como ela estava. Eu fui honesta. Disse-lhe que ela estava muito triste e alheada e que nem notou que eu lá estava. "Foi porque o vizinho morreu?". Expliquei que sim e acrescentei que o vizinho não iria voltar nunca mais. "Foi porque morreu?" Sim, morreu porque estva já muito velhinho e muito doente porque não quis ir ao médico. Morrer é natural como nascer e crescer e desenvolver-se, faz parte da natureza. Diz-se que há um princípio e um fim para tudo mas não é preciso ter medo, é algo que faz parte da vida, da natureza. "E tu demoraste muito tempo porquê? Porque foste ao enterramento dele?". É funeral que se diz e é essa a ideia, sim; eu fui ao enterro ou funeral dele que termina num cemitério - como quando a avó vai àquela terra para deixar flores ao bivô. O bivô já morreu há muitos anos, ainda antes de vocês nascerem mas a avó vai ao cemitério. 

E, como não há muitos filtros sociais nas portas das piolhas, lá avisei para não falarem do assunto com a vizinha quando nos encontrarmos; podemos e devemos cumprimentar-nos mas, como ela está triste e é doloroso lidar com a partida de alguém assim, o ideal é não abordarmos o assunto. 

 

E foi isto. Ouviram e mal acabei de falar perguntaram se podiam ir brincar na rua. E não voltaram a falar do assunto nem o reproduziram em brincadeiras (como fizeram com o batizado a que fomos, por exemplo), não precisei de requisitar livros nem fazer mais nada. Acredito que, gradualmente e à medida que vão crescendo e ganhando mais maturidade e desenvolvimento, questões como estas passem a ter algum sentido e que, mesmo que não saibam lidar bem com as emoções que possam causar, não terão problemas. 

Um passinho de cada vez, uma coisa de cada vez.

 

 

 

 

 

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publicado às 22:23

A respeito disto:

 

http://g1.globo.com/bemestar/noticia/2016/07/paracetamol-na-gravidez-aumenta-autismo-e-hiperatividade-diz-estudo.html

 

Tenho a dizer:

- existem demasiados outros estudos que atestam que o paracetamol é dos poucos medicamentos que quase (atente-se aqui, porque nunca há 100% de nada) não tem efeitos secundários e quase é seguro que a maioria das pessoas tome.

- a menos que vivamos uma tribo qualquer, há por aí algum xamã que me poss recomendar algo não químico e realmente eficaz que me baixe a febre das piolhas? Uma delas faz febres galopantes e nem sempre só o paracetamol a faz descer.

- que outras alternativas existem para, por exemplo, um bebé de 4 meses tome quando está com 40 º de febre?

- passei grande parte da gravidez internada ou de cama. A 1ª grande razão de um internamento foram as dores de cabeça, tão grandes e tão fortes e tão delibilantes que me punham a vomitar e a ter que usar óculos escuros dentro de casa. Eram dores tão fortes que, a certa altura, eu só desejava que a cabeça rebentasse de vez mas se descobrisse uma forma de salvar as minhas bebés. Foi assim desde as 10 semanas de gravidez. Só podia tomar... paracetamol e pouco mais. Tomei tantos que pensei que brincava dizendo que a 1ª palavra das minhas filhas iria ser "paracetamol", assim à séria. Mas, quer eu quer as piolhas, estamos aqui, vivas e saudáveis. Ainda bem que levei com o paracetamol.

- quase toda a gente toma paracetamol, homem ou mulher, adulto ou criança ou idoso, grávida ou não. A maioria das pessoas que toma não tem autismo. 

- há algum - unzinho apenas - medicamento/remédio/poção/mezinha 100% seguro e eficaz e natural e saudável e sem contraindicações? Até a água que bebemos tem contraindicações. Lá está.

 

Poderia continuar a desfiar motivos e razões mas honestamente isto... cansa-me. Eu até entendo que se procure uma causa e até percebo que haja uma relação entre causa-cura (ou seja, descobre-se a causa para se tentar descobrir a cura) mas incutir culpas a ABCDEFG e, com isso, influir uma culpabilidade absurda na cabeça dos pais deveria ser considerado criminoso. Até ao momento, ainda não li nenhum pseudo estudo que se preocupasse em realmente tentar chegar a uma causa sem culpabilizar ninguém. 

Em resposta a estudos anteriores: 

- tomei ácido fólico tarde, ás 7 semanas - quando descobri a gravidez

- não tomei ácido fólico a gravidez toda -parei às 20 semanas por indicação médica

- não há antecedentes genéticos marcados por a+b+c+d

- não sou prima do meu marido

- sou alta para o tipo de altura média da população portuguesa

- sou magra - magra!!!! - e nunca fui obesa nem estive jamais acima do peso

- não tomei antidepressivos nos anos anteriores, durante e posteriores à gravidez

- os meus níveis de vitaminas estiveram sempre ok e não sou fumadora - nunca fui

- vivo numa das zonas mais puras do país e não estou exposta a fatores de poluição ambiental

- o marido não é obeso nem magro demais nem tem diabetes nem hipertensão

- a velha temática - vacinas não causam autismo. E não levei nenhuma nem antes nem durante e só muito depois.

- e os laticinios também não... nem de legumes ou de frutas

 

 

Portanto, a menos que se descubra que a causa do autismo é mandar uma bem mandada, numa posição 3 para as 4 OU algo relacionado com sexo (já se sabe que o sexo é o pai de todos os males) OU voltamos ao mesmo, sexo (e aí, causa autismo, corrupção, quedas de governos, epilepsia, olhos azuis e até poluição marítima) lamento mas, para mim e para já, é tudo um monte de tretas. Poupem-me.

 

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publicado às 17:13

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