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Foi assim que aconteceu - versão avós

por t2para4, em 01.08.16

Introdução:

Era uma vez um casal que teve um filho. Um único filho. Esse único filho teve duas filhas, as únicas filhas e, por conseguinte, únicas netas.

 

Desenvolvimento:

Esse casal sempre foi muito sui generis. Vivem alheados de quase todo o contacto social com o mundo, vão às compras à localidade vizinha, não dãoo notícias se não for o filho a telefonar, não emprestam as suas coisas em caso de necessidade, não colaboram se o filho/nora/netas precisarem de ir ao médico ou ficarem internados, não convidam a família para ir a sua casa, não aceitam nenhum convite para almoços/jantares/lanches, desligam o telemóvel e recusam abrir a porta nos dias dos seus aniversários, falham os aniversários do filho e das netas. All true stories.

Este casal acha que é detentor da razão suprema e que tudo o que faz justifica o seu comportamento porque, afinal de contas, eles é que têm sempre razão: são pais há quase 40 anos, trabalharam muito – aparentemente sem ajuda e nunca ninguém lhes deu nada -, os filhos e netos dos outros são sempre melhores e mais bem comportados do que o seu filho e netas, os outros têm mais coisas do que o seu filho e netas.

Este casal, em vez de conversar com o filho, decide o que é melhor para todos, independentemente das opiniões contrárias. Por exemplo, aquando do nascimento das netas, este casal decidiu comprar um pequeno enxoval (duas camas, edredões, resguardos, fraldas, roupinhas, etc.) sem avisar, para ficar em casa deles e ser única e exclusivamente usado lá. A ideia era criar – sim, criar, como se as meninas fossem órfãs – as netas, passeá-las pela localidade fazendo-se passar pela mãe delas, ser mãe novamente. Não correu como o planeado para este casal porque, que mau-feitio o do seu filho único, tanto ele como a esposa estavam vivos e de saúde, por isso, os verdadeiros pais é que criariam as suas filhas. De castigo, as netas não receberam o enxoval. Ainda assim, porque são as únicas netas, filho e nora acederam a que tomassem conta delas, semana sim semana não (em partilha com a outra avó), enquanto trabalhavam mas na casa do filho e sem viagens envolvidas.

Um dia, houve um desentendimento por causa do trabalho que as meninas davam ao qual se juntou uma tirada do género “temos tanto que fazer em nossa casa e vimos para aqui tomar conta das meninas”. O filho e a nora resolveram o problema colocando as meninas na creche a meio tempo, continuando a partilhar o restante tempo com os avós maternos. O casal deu, então, início a um processo de afastamento que se agravou dados os comportamentos disruptivos e sucessivos meltdowns das meninas, que muito os envergonhavam e trabalho davam.

Uma ida a uma consulta de desenvolvimento trouxe o diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo, e, como bónus, aos olhos sábios daquele casal, outro diagnóstico: “pais loucos porque as meninas não têm nada, é tudo coisas da vossa cabeça”. A negação tomou tais proporções que se recusavam a acompanhar as indicações de médicos e terapeutas e o filho foi-se afastando, sem, no entanto, cortar definitivamente com eles – afinal, é filho único... Um dia, foi chamado a sua casa e ouviu da boca do seu pai aquilo que nunca nenhum pai com filhos com necessidades especiais deveria ouvir: “TU (e a tua mulher) és o culpado do autismo das tuas filhas porque chegas a casa vais para o computador, a tua mulher trabalha demais e vai para o computador, nós é que estávamos a criá-las e tu puseste-as na creche onde ficaram doentes”. Com tamanha sabedoria e sapiência, aquele filho e aquela nora ficaram arrumados a um canto. Após meses de zero relação, o filho cedeu e reatou com os pais. Afinal, é filho único…Mas continuaram as atitudes de negação, a vergonha de ter netas diferentes dos netos dos outros, vieram as comparações com os netos dos outros, todos mais perfeitos que as suas e com comportamentos justificáveis.

Entretanto, começa a ladainha do “não vamos ao aniversário das meninas, o teu pai não quer, eu não posso, eu estou doente, já fui ao teu aniversário já não preciso de ir ao dela, etc”. E não vieram. E repetiram a proeza em mais aniversários e comemorações. E as meninas, que na boca do avô “não têm entendimento para isso”, perguntavam se a avó iria faltar aos anos do pai como faltou ao delas. E quer o pai quer a mãe respondiam não saber…

E a saga repetiu-se por mais umas vezes até que… filho, nora e netas se fartaram.

A discriminação, o não aceitar estratégias para saber lidar com as netas, o não compreender nem querer estar com as netas, a ausência, a não-cooperação em casos de doença, o não-auxílio aquando de horários complicados dos pais, o afastamento propositado e sabe-se lá mais o quê, levaram a um corte quase radical.

 

Conclusão:

O filho está em fase de rescaldo e de reclusão no que concerne aos pais; as netas encaram o mas recente acontecimento como mais uma de muitas das birras dos avós; para a nora é o fim da macacada. Que farão – principalmente o filho – não se sabe. Para já, precisam de tempo, de distância física e psicológica, de alheamento total. Depois, se vê.

A triste realidade é que tudo isto é verdade. A primeira grande ação de discriminação veio da própria família – e não estamos a falar de primos em 4º grau ou família afastada! Família direta, os avós!

Não sabemos, principalmente eu - que desconhecia comportamentos destes em família -, como lidar com pessoas assim. Infelizmente para eles, felizmente para mim, acabou. Não tenho de compactuar mais com criancices de adultos sexagenários nem de dourar historietas para tentar justificar atitudes estranhas até para os olhos das netas. As coisas são como são, acabou.

O marido pergunta porque nos exponho. Porque a minha paciência esgotou-se, porque fomos discriminados por quem nos deveria apoiar incondicionalmente, porque já lá vão 11 anos de casamento mais 4 de namoro com duas filhas em comum e já é tempo mais do que suficiente para eu ver os meus esforços de boa educação serem recíprocos, porque quem nos lê pode vir a conhecer uma realidade diferente da que visualiza, porque não devemos nada aos pais do marido, porque a vida que temos ou levamos é nossa e não deles, porque eles não pagam nem nunca nos pagaram as contas, porque eles de pais têm muito pouco. Aí está o porquê. E porque eu não admito discriminação da parte de ninguém. 

 

 

 

 

 

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8 comentários

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De Catarina a 01.08.2016 às 13:33

Não tenho palavras. Família é família nos bons e nos maus momentos. Como é possível avós voltarem assim as costas à família ?
Espero que encontrem força para viverem felizes porque as meninas merecem serem amadas e não descriminadas.
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De t2para4 a 01.08.2016 às 13:58

Já andamos nisto há tantos anos que já não é novidade. E, mesmo sem que nós dissessemos nada, as piolhas já se apercebem que não podem contar com aqueles avós, não querem ir nem ficar em casa deles e nem sequer sabem como lidar com eles. É triste mas, para elas, são apenas uns estranhos conhecidos...
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De Anónimo a 01.08.2016 às 16:06

Sou filha única e mãe de um único filho. Toda a situação que descreve é-me familiar. Acredito que existem muitos outros casos iguais aos nossos.
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De t2para4 a 02.08.2016 às 22:20

Custa-me tanto perceber o porquê... Eu sempre supus que um filho único fosse especial por ser isso mesmo, unico, fosse qual fosse o motivo que levaram os pais a decidirem-se assim... 
Lamento muito...
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De Micaela Freitas a 01.08.2016 às 18:54

Família que leva tempo a aceitar é um clássico. Que recusa ajudar espero que seja a excepção. Tenho sorte.
Mães que além de cuidar de filhos autistas, dedicam algum tempo a escrever sobre os seus dias, sobre as dificuldades e sobre as conquistas e que, sem o saberem, ajudam as outras, são super, são o máximo, são geniais. E quando o post tiver que servir para afogar mágoas que sirva. 
Um abraço, Micaela
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De t2para4 a 02.08.2016 às 22:23

O custar aceitar, até entendo. A nós também os custou. O que jamais entenderei são estas atitudes de autênticos bichos do mato sem qualquer contacto com a demais realidade. Passam os dias fechados - sim, fechados, persianas corridas e tudo - em casa. E nós é que somos os loucos. 
O que me alivia é saber que as netas já se apercebem e há muito que aprenderam a não contar com eles e nós nunca dissemos uma palavra sobre isso a elas...
Obrigada pelas palavras que deixou.
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De Marta a 12.08.2016 às 23:12

Beijinho.
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De t2para4 a 13.08.2016 às 17:18

obrigada!

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