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Das aulas de bateria...

por t2para4, em 27.09.17

... à nossa noção de música, quase ali a roçar a musicoterapia mas sem entrar nesse ramo.

 

Vamos por partes. Musicoterapia é muito muito mais do que o uso da música por um professor de música. É algo muito para além disso. Não vou dissertar com definições da minha parte porque prefiro deixar isso para os profissionais. Vamos do geral ao particular, pelas palavras de Benzenon e Nordoff Robbins, que, além de musicoterapeutas, dão o nome a centros de musicoterapia, cujos domínios me foram apresentados pelo musicoterapeuta Tozé Novais, de quem ja falei anteriormente e com quem estive na palestra sobre o autismo em abril de 2016.

 

De acordo com a World Federation of Music Therapy, a Musicoterapia é a utilização da música e/ou de seus elementos constituintes como o ritmo, melodia e harmonia, por um musicoterapeuta qualificado, com um cliente ou grupo, num processo destinado a facilitar e promover comunicação, relacionamento, aprendizagem, mobilização, expressão, organização e outros objetivos terapêuticos relevantes, a fim de atender às necessidades físicas, emocionais, mentais, sociais e cognitivas. A musicoterapia busca desenvolver potenciais e/ou restaurar funções do indivíduo para que ele ou ela alcance uma melhor qualidade de vida, através de prevenção, reabilitação ou tratamento.” (Portugal Místico, 2016)

 

A musicoterapia é uma psicoterapia que utiliza o som, a música e os instrumentos corporo-sonoro-musicais para estabelecer uma relação entre musicoterapeuta e paciente ou grupos de pacientes, permitindo através dela melhorar a qualidade de vida, recuperando e reabilitando o paciente para a sociedade
(Benenzon, 2011)

 

"We all have experiences of being engaged in music – even if it is only by tapping our foot to a song on the radio, or singing in the shower. Most of us don’t need any help to access the opportunities music offers for socialising, communication, expression or just plain joy. But people who have the most need for these experiences often need skilled help in accessing musical opportunities moment-by-moment and in being able to make use of them. That’s what Nordoff Robbins music therapists are there to do: they are skilled musicians who have a thorough understanding of the challenges faced by the people they work with and work hard to make music's opportunities available in ways which are accessible but also impact on people's lives more generally. This happens via engagement in shared music making, whether this is done improvisationally, making use of music people already know, creating new music together, or working towards some kind of performance."
(nordoff robbins centre)

 

 

As piolhas não frequentam um centro de musicoterapia nem nunca fizeram ou tiveram alguma sessão. Mas as piolhas estão ligadas à música de forma quase terapeutica na aprendizagem do instrumento que escolheram. As piolhas escolheram aprender bateria. Ambas fizeram-nos o pedido em novembro de 2016 e quer eu quer o pai achámos que seria por imitação da Pinkie Pie, a equestria girl baterista que lança confetis de um dos tambores... Pedimos a um dos nossos amigos, professor de música, que tocasse para elas, sem poupar nos efeitos sonoros e elas, de olhos fechados, ouviram tudo até ao final e voltaram a repetir que queriam aprender a tocar bateria. Nós, incrédulos e a achar tudo muito rápido, deixámos passar uns meses e o desejo manteve-se. Tratámos da inscrição, então, e a primeira aula foi logo um sucesso retumbante.

 

Para quem não sabe, uma bateria é composta por pratos, tambores e pedais (sim, pedais...). E podem ser assim distribuídos:

 

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 via 

 

Este é o modelo que as piolhas tocam.

 

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Por regra, não assistimos às aulas delas mas conseguimos ouvi-las tocar enquanto esperamos. Vai uma de cada vez e, às vezes, podemos assistir a pequenos bocadinhos da aula. A minha surpresa veio logo nas primeiras aulas ao aprender que tocam de braços cruzados, ou seja, com as baquetas (comprámos umas profissionais, tamanho 7, na Fnac) em cruz e que o tal pedal que me supreendeu ainda mais também é parte constituinte do instrumento e é para ser usado. Pensei que seria uma grande confusão mas não é. Elas adoram aprender bateria, têm imenso jeito, são habilidosas e deram-se rapidamente com a minha confusão do baquetas cruzadas-pé no pedal.

Agora pensemos fora da caixa: para que serve, para além de aprender música? Faço já uma lista: aprender a comunicar, trabalhar a sensibilidade musical e o ouvido, apurar o distinção de sons, trabalhar a motricidade, trabalhar a coordenação motora, aprender a ler uma pauta, improvisar, trabalhar o ritmo, expressarem-se melhor e com mais naturalidade.... São tantas tantas as vantagens que poderia alongar-me mais um pouco mas já deu para perceber a ideia, certo?

 

O que fazemos não é musicoterapia mas funciona como uma terapia. Temos notado pequenas melhorias a nível da coordenação motora e a nível da expressão. E temos visto o quão felizes estão no dia em que têm aula de bateria. Enquanto uma piolha espera pela sua vez, porque a mana já está na aula, só se ouve dizer que o tempo passa muito devagar e ela quer ir logo para a aula. E tocam as covers das músicas das suas bandas favoritas, felizes da vida, nos momentos de relax e improviso. Um dia destes tenho de enviar uma gravação aos Maroon 5 :D    Por 90 minutos (45 + 45), esquecemos o autismo e apercebemo-nos que temos ali duas crianças que estão a aprender música, como tantas outras daquele instituto, sem que precisem de perceber e sem que nós precisemos de relembrar que trabalhamos todo um outro leque de competências.

 

E quanto ao facto de serem meninas a aprender bateria acho que a piada está aí mesmo. Se é para sermos diferentes, vamos ser diferentes. Apesar de vermos cada vez mais meninas a optar por este instrumento, ainda não se veem muitas. É pena pois há aqui um potencial fantástico e uma boa bateria faz toda a diferença numa música, em qualquer estilo.

 

Só lamento que o ensino de música no 2º ciclo seja a flauta. Duvido que alguma vez venham a aprender a tocar o Hino da Alegria, de forma afinada e com os dedos a tapar os buraquinhos todos... Se fosse em bateria... ;)

 

 

 

 

 

 

 

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publicado às 14:54

E, eis que começa...

por t2para4, em 25.09.17

... back to school and all hell breaks loose...

 

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publicado às 20:55

Vacinas - como nos preparámos

por t2para4, em 29.08.17

Aqui pelo T2 todos nos vacinamos, até os gatos. O que pretendo com este post não é nenhuma discussão pró ou anti vacinação, mas sim, o que nós fizemos até ao dia de hoje, dia em que as piolhas levaram a vacina anti-tétano, que preparação foi feita para que tudo corresse bem ou com o menor imprevisto possível. Assim sendo, comentários extremistas ou fundamentalistas sobre vacinas e insultos não são bem-vindos e serão apagados.

Relembro: este post não é sobre a minha opinião acerca das vacinas

 

Os nossos gatos, Quico e Silvestre, são vacinados todos os anos. E foi por aí que comecei: marquei a consulta + vacinação dos gatos com as piolhas e, no dia marcado, foram elas que os levaram ao veterinário, à vacina. Viram todo o processo, viram que o Quico não se queixou mas o Silvestre já fez um miau sofrido e aproveitei para lhes dizer, logo ali, que este verão, também elas, na consulta dos 10 anos, teriam de levar uma vacina. E que, tal comos gatos, pode doer um bocadinho mas nem se queixarem...

Em casa, aproveitei e expliquei que a vacinação é um processo que faz parte do nosso crescimento e desenvolvimento, desde o nascimento e que a grande marca qe têm nos braços esquerdos são provenientes de uma vacina que levaram com pouquíssimos dias de vida. As vacinas contêm substâncias que ajudam o nosso corpo a precaver-se, a combater ou até a imunizar-se contra determinadas doenças que sem a ajuda da vacina podem ser mortais. Posto isto e que elas entenderam, fomos juntas marcar a consulta. A consulta ficou agendada para daí a um mês e meio. Deu tempo mais do que suficiente para se mentalizarem.

Não menti nunca acerca do processo de vacinação. Disse-lhes que doía mas que, por exemplo, as urtigas com que se picaram na serra ou uma afta na ponta da língua doem mais. Disse-lhes também que, depois de levarem a vacina, iríamos fazer gelos por várias vezes para atuar como anti-inflamatório e que era normal terem uma sensação de dorido. E, disse-lhes ainda que para ajudar a minimizar a dor, tomariam um paracetamol antes de sairmos de casa - que, depois, percebi que deve ser feito depois... Vá-se lá entender... É como o deitar os recém-nascidos, mudam as posições todos os anos.

Juntas, na véspera, fomos ao centro de saúde e pedi para falar com a enfermeira de família e explicar que, uma vez que têm autismo e não faço ideia do que nos espera - o mais certo seria um meltdown ou um grito dos de partir vidros -, o ideal será chegar e vacinar sem grandes explicações nem preâmbulos nem prolongamentos de ansiedades. E que queria apenas, hoje, vacinar contra o tetano e deixar a do cancro do colo do útero para mais tarde - exatamente por não saber qual a reação. Combinadíssimo.

 

Então, hoje, em casa, a minha piolha mais sensorial a nível visual-estomacal (que é como diz, mais sensível de sabores e de vómito fácil), conseguiu, pela 1ª vez tomar um benorun (cápsula pois não se desfaz em grânulos e não tem sabor)! Foi uma festa cá em casa!!!! 1ª conquista!

E, depois de um passeio pela localidade e de um lanchinho na pastelaria, lá estávamos nós à espera da consulta. As piolhas ainda encontraram uma monitora do ATL e ajudou a quebrar a tensão. Chamadas para a enfermagem, a consulta foi igual à do Hospital Pediátrico: pesagem (30kg) e medição (1,38m), medição da tensão arterial (uma novidade das excelentes pois já não há gritos nem fugas  nem pânicos - valores baixinhos mas a sentirem-se bem, 9/5), verificação da dentição, as habituais perguntas acerca da alimentação e desenvolvimento. E as piolhas - nervosas e ansiosas - não se calaram um segundo que fosse, a falar de tudo e de nada, a falar a falar a falar a falar e deu-se a vacina e elas a falar a falar a falar a falar a falar e coloca-se o penso (uma das piolhas ficou feliz até à pontinha do nariz pois adora colar pensos até nas nódoas negras) e elas a falar a falar a falar. Esperámos um pouco para verificar se não havia reações adversas enquanto se preenchiam os caderninhos e a informação no sistema e elas a falar a falar a falar a falar...

E foi assim. Se a alta tolerância à dor - cortesia do nosso amigo autismo - foi aquilo que fez com que isto funcionasse tão bem, agradeço pois eu recordo-me bem do quanto aquilo dói...

 

Dali para a consulta onde falaram e falaram e falaram e falaram e viram o calendário da mesa do médico como se nunca tivessem visto um calendário na vida e falaram e falaram e falarm e fizemos a avaliação clínica e falaram mais um pouco e nós todos maravilhados. 

 

Hoje estou em mim de contente, a rebentar de orgulho, só me apetece falar disto e do bem que correu e do espetáculo de comportamento delas. Tão bom que deixámos a próxima vacina já marcada para as férias do Natal. 

No entretanto, já fizemos gelo e correu maravilhosamente, nem querem a minha ajuda. Relembram quando precisam de colocar gelo e vão dando feedback. Uma queixou-se que doía um pouco e pediu gelo, a outra está na boa.

 

Acho que, depois de termos viajado ao estrangeiro (algo que eu nunca pensei que viesse a acontecer e que foi o grande marco de desenvolvimento que atingimos - fica para outro post), o dia de hoje e o alcançado hoje está no TOP 3, empatado, no mesmo lugar.

Uma pequena dança da vitória para terminar :D

 

 

 

 

 

 

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publicado às 19:29

Sim, saímos com as nossas filhas

por t2para4, em 06.08.17

Muitas pessoas me têm indagado e questionado acerca das nossas saídas, em especial, no que toca à questão "piolhas". E a todas eu respondo o mesmo que o marido responde: não faz sentido, nesta fase, sairmos sem elas. Onde nós vamos, elas irão connosco, gostem ou não gostem.

"Ah e tal, mas e não têm fins de semana a sós?": não. Para já, não faz sentido deixá-las algures para comemorar algo encaremos que deva ser comemorado em família. Além disso, quando elas tiverem aí uns 15 ou 16 anos não deverão querer andar com os cotas dos pais para todo o lado e, acreditamos nós, que já possam ficar com os avós sem lhes dar uma carga de trabalhos.

 

"Ah e tal, mas e por que não ficam com os avós?": sim, ficam. Ficam com os avós umas horinhas ou um dia inteiro mas nunca passam a noite por lá para que nós possamos ir a algum lado. Nunca surgiu essa oportunidade, o marido trabalha por turnos, e, para já, não faz sentido. Além disso, quando elas tiverem aí uns 15 ou 16 anos não deverão querer andar com os cotas dos pais para todo o lado.

 

"Ah e tal, como é que consegues que elas fiquem tão sossegadas e se portem bem?": a verdade é que há aqui muito muito muito trabalho, muitos anos de treino e prática. Lembro-me que a primeira médica de desenvolvimento que nos acompanhou nos dizia em agosto de 2010 que em dezembro iríamos conseguir ir a uma área de restauração com elas. E eu pensava que havia de ser dezembro mas sabia-se lá de que ano... Mas há aqui três fatores chave: persistência e resiliência e negociação. Nunca desistimos de as levar a todo mas mesmo todo o lado para que soubessem e conseguissem aprender o saber-estar em diversas situações e espaços diferentes. Inicialmente, levavamo-las nos carrinhos (quando eu saía sozinha, iam num bengala com lugares lado-a-lado - parecia o circo, tudo a olhar - porque era-me impossível usar os meus únicos e insuficientes dois braços para as segurar e trelas nem pensar - opinião do marido. Andámos nisto até quase aos 5 anos, desenvolvi uns músculos dos braços fenomenais) com uma parafernália de brinquedos para que se sentissem acompanhadas por algo familiar, as mãos delas tinham de estar sempre ocupadas. Depois começaram a ficar demasiado crescidas para andarem de brinquedos nas mãos e lá conseguimos negociar com o nosso telemóvel mas só quando se espera ou num local onde seja necessário muito silêncio. Com o passar do tempo e aquele click maravilhoso da maturidade, até isso já se tornou desnecessário.

Passámos por muitas vergonhas, muitos espetáculos deprimentes, muitos apontar de dedo, muitos cochichos, muitos olhares de esguelha e sei eu o que mais; passámos por muitos meltdowns nos momentos e locais mais inapropriados e pensámos que era daquela que nos fechávamos em casa até nos transformarmos em pó... Felizmente, o nosso mau feitio e teimosia não deixaram e levámos nós a melhor.

Agora sofremos da cura: se passarmos um dia num shopping ou numa ala comercial qualquer, mesmo que depois fiquem rabugentas, estamos a dar-lhes a provar o sabor do arco-íris. O que acaba por nos facilitar a vida para outros contextos, como uma sala de espera num hospital ou numa repartição pública. As piolhas já estiveram na véspera de natal na loja do cidadão de Coimbra com gente até ao teto à espera comigo por 3h... E no mês passado, com a avó, nos HUC, devido a um "problema no sistema" mais de 5h (só cedi o telemóvel quando uma delas começou a chorar de frustração, um choro baixinho e doloroso...). Só as sujeito as estas esperas quando não tenho hipótese de as deixar com alguém. Mas não deixam de ser fatores de aprendizagem.

 

"Ah e tal, como fazes?". Sempre que sei que vamos apanhar uma seca algures, vou preparando para o que se avizinha. No dia, reforço os nossos passos e o que faremos e preparo uma mochila com materias básicos de sobrevivência: cadernos, um estojo com lápis, borracha, canetas e afia, pequenos brinquedos do estilo Littlest PetShop ou Shopkins. O telemóvel com acesso à net e o jogo Water Heroes de que tanto gostam só é dado em ultimo recurso. 

Quando vamos de passeio, costumamos deixar que levem os tablets mas só podem usar em pequenas partes da viagem e só no carro (ou no quarto de hotel, por uns minutos, enquanto tomamos banho) e acedo a que levem, para dormir, uns My Little Pony miniatura de peluche. É algo que lhes traz conforto e familiaridade, por isso, para já, nest afase, ainda não me importo e vamos cedendo.

 

"Ah e tal, e elas portam-se bem?", sim, na maioria das vezes, sim. Mas é aí que entra a negociação: se souberem portar-se bem, se não houver birras nem fitas, se não fizerem barulho, no final, quando saírmos podemos... (exemplos: sair para comer um gelado, tomar um café fora, almoçar no Mc Donald's, dar um passeio a pé, comprar um miminho, etc, dependendo da seriedade da espera/da saída/da siuação).

Nem sempre é fácil! Muitas vezes, passo o tempo todo tesa que nem uma tábua, com mil olhos na cara e expressões de aviso que fariam um mimo morrer de inveja e chego ao final do dia cansadíssima. Mas se não for assim, como aprenderão? Se não saírmos, se não nos / as sujeitarmos, como saberão o que fazer? Por isso, vou arriscando. Vamos assricando, gostem os outros ou não. Não é por eles nem para eles que fazemos o que fazemos. As nossas filhas serão pessoas autónomas com uma vida própria e queremos prepará-las o máximo e o melhor que soubermos e conseguirmos.

 

Para já, todas as nossas saídas e planos incluem as piolhas. A curto prazo, estamos a planear conhecer o Algarve de ponta a ponta e fazer a rota da EN2. Com as piolhas, de carro, com planos bem definidos. 

Conhecer a Escócia, viajar para a Irlanda e ocnhecer tudo de lés a lés com mochilas às costas e a pé, ir jantar romanticamente a Paris, fica para depois, para aquela altura em que as piolhas pedirão para ir dormir a casa da tia da tia ou ficar com os avós, para quando andar com os cotas não for cool e terão vergonha de ver a mãe e o paí aos beijinhos eheheeheh (até porque elas não gostam nada de caminhadas nem de dias demasiado cheios de estímulos) Mas levás-las-emos connosco se elas quiserem! Mas será mais fácil negociar, nessa altura.

Até lá, vamos passeando bastante pois, já se sabe, #agentegostaédelaró

 

 

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publicado às 21:07

É ao ler este tipo de testemunhos reais (independentemente de aqui ser em relação à maternidade) - em vez de um estudo qualquer, feito por sei lá quem, encomendado por sabe-se lá quem -, que consigo visualizar um futuro para as piolhas. Ainal, é possível. Quero acreditar que sim.
 
 
Como é ser mãe e ter autismo
 
A paciência diminui mais do que o comum, as conversas tornam-se cansativas rapidamente e as piadas ficam por perceber
 
 
 
Marisa Cardoso
 
Sempre tentei disfarçar as minhas dificuldades. Achava que não tinha interesse nenhum, que era "poucochinha". As outras pessoas pensavam que era arrogante e malcriada, porque fazia cara de poucos amigos mas era tudo para me defender. Pensava: "Ok, sinto-me mal, mas mais ninguém sabe." Por exemplo, quando as pessoas saem para se distraírem, isso para mim é um sofrimento. É muita informação a entrar, fico cansadíssima, não consigo desligar de tudo o que está a acontecer à minha volta. E é o ter de interagir… Não saber o que é que hei-de dizer às pessoas… Sinto sempre que o que vou dizer não tem interesse. Depois, as minhas reacções nas conversas são: se toda a gente está a rir, eu também me vou rir. Posso nem estar bem a ouvir a conversa mas se estão todos a rir é porque é suposto rir, portanto faço o que o grupo está a fazer. 

Com as minhas três filhas é fantástico porque sempre fui verdadeira com elas. Sempre pude ser eu na realidade e portanto com elas – que têm 14 anos, 11 e a mais nova 5 – estava bem. Não tinha que usar máscaras, não tinha de fingir que compreendia. Claro que o facto de me cansar muito depressa faz com que me irrite também rapidamente. De repente, desato a gritar, a disparatar com elas… E era muito difícil depois recuperar a partir dali. 
 
Aconteceu várias vezes com as mais velhas, principalmente, irritar-me, chegar a extremos… Agora já sei que quando estou a atingir o meu limite, aviso: "Meus amores, a mãe está a atingir o limite. Por favor ajudem a mãe a não atingir esse limite." Foi por causa de uma das minhas filhas que descobri, aos 40 anos, que tenho Asperger, aliás, chama-se agora Perturbação do Espectro do Autismo. 

A minha filha precisava de ajuda, estava com algumas dificuldades na escola, principalmente falta de concentração, e achei que ela poderia ter qualquer coisa que necessitasse de terapia. Eu e o meu marido João fomos a uma clínica fazer uma avaliação e comecei a estudar todos os tipos de diagnóstico. Gosto de saber exactamente o que é que as minhas filhas têm para poder apoiá-las ao máximo. Estudei a Perturbação de Hiperactividade/Défice de Atenção, o Transtorno Obsessivo -Compulsivo… A Síndrome de Asperger [inserida na Perturbação do Espectro do Autismo] era uma delas. Identifiquei-me. 

Já não estava a ver a minha filha mas a mim. Identificava-me com todas as coisas que lia, as dificuldades de interacção com as pessoas, o sentir-me a mais, ter uma dificuldade enorme em estar com muitas pessoas, sentir-me estoirada. 

Numa conversa com a terapeuta que fez a avaliação à minha filha, o João diz-lhe: "Ah, tem graça, a Rita acha que ela tem Asperger." A terapeuta pára tudo e diz: "Não, a Rita é claramente Asperger, não há dúvida nenhuma." 
Agora, referia-se a mim. Um dos traços do Asperger é ser muito literal, então achei que aquele "claramente" significava que toda a gente sabia mas nunca ninguém me tinha dito nada. Achei que tinha vivido 40 anos em mentira. E agora como é que ia gerir a minha nova vida? Neste processo de me encontrar entrei numa depressão muito forte, muito profunda, que durou cerca de um ano. 
 

Ser Asperger 
É muito difícil arranjar psicólogos e psiquiatras que compreendam o autismo de adultos. E de mulheres são raros. Sei que há porque na minha página do Facebook – Claramente Asperger –, que já tenho há um ano, falei com pessoas que me indicaram especialistas. Mas na altura, como é que uma pessoa faz? Vai-se ao Google, não é? "Preciso de um psicólogo para mulheres autistas." Não aparece nada. 

Os psicólogos ainda podem conhecer as características dos homens porque está tudo muito enviesado para os homens, os diagnósticos e as avaliações. Mas não conhecem as características das mulheres. Acham que o facto de eu ter seguido com a minha vida, ter casado, ter filhos é razão para eu não ser Asperger. Ou então: "Ok, eu sou Asperger mas qual é o problema? Tenho a minha vida." Mas não percebem é o que se passa no meu interior. Ninguém vê o que é que eu sinto, não está à vista. 

Quando me fui abaixo, fiquei sem amor-próprio. Preferia pensar nas outras pessoas, nas minhas filhas, no João. Era como se não existisse. Então, comecei a pedir mais tempo para mim e a dizer: "A mãe agora não pode brincar com vocês, preciso de fazer outra coisa, preciso de estar comigo." 

Elas não sentiram esta descoberta da mesma forma que eu senti. No máximo, o que sentiram foi eu ter desaparecido um ou dois dias. Geri as coisas de forma a que as minhas irmãs as fossem buscar e que elas não sentissem grande diferença e assim pude ter o meu espaço. 

Nunca choro à frente delas quando estou triste. Posso-me isolar mais, mas tento não chorar. Naquela altura precisava de estar sozinha. Elas foram percebendo o que eu tinha. Não me sentei com as minhas filhas e disse: "Olhem agora vamos falar sobre o Asperger." Mostrei-lhes a página onde escrevia e elas fizeram perguntas: "O que é isso que a mãe passa tanto tempo a fazer ao computador?" E eu fui-lhes falando naturalmente. As mais velhas reagiram sem stress mas a mais nova não faz a mínima ideia do que é. 

É normal que elas tenham curiosidade porque roubo um bocadinho do tempo com elas para escrever na página. Acho que a mensagem em relação ao autismo está mal passada. As pessoas não sabem realmente o que é o autismo. Existe um rótulo de que é algo incapacitante – mas não é. Por exemplo, falando no trabalho – sou editora de imagem –, as pessoas são muito focadas e podem ser dos melhores trabalhadores porque a entrega é total. Quando um autista gosta daquilo que está a fazer entrega-se de corpo e alma. 

É certo que sou muito rígida em termos de pensamento e é muito difícil ir um bocadinho mais para a direita ou para a esquerda, demora tempo. Mas também sou muito verdadeira. A minha relação com o meu marido é baseada na verdade, sempre lhe contei tudo e ele sempre me contou tudo também. Muitas vezes o João está a dizer algo simples e eu penso que ele me está a acusar de algo, mas não. Isso compreendemos nós agora porque eu estou a perceber o Asperger e ele também está. Estamos os dois a crescer juntos.

Artigo originalmente publicado na edição n.º 681, de 18 de Maio de 2017.  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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publicado às 12:22

Aquele momento que te faz cair de cu no chão na realidade e em que acordas para a put@ da vida e, indireta e inconscientemente acabas por te esquecer de todas as novas conquistas das recentes semanas (as piolhas a conseguirem comer peixe de faca e garfo e já conseguirem separar as espinhas; o ficarem sozinhas enquanto vou despejar o lixo ou vou à garagem ou ao arrumo; o caminharem corretamente cada vez mais e mais longe a andar a pé; o fazerem - sozinhas - planos para o amanhã...): vês o adulto de quem falavámos no outro dia, o irmão do coleguinha do ATL, os tais que têm ambos autismo, a atravessar a passadeira, e-x-a-t-a-m-e-n-t-e da mesmíssima maneira, com os mesmos trejeitos, as mesmas conversas para si mesmo, os mesmos jeitos, o mesmo andar... que as piolhas.

E sentes uma neura a subir leve, levemente e neve não é certamente. Tão perto, tão "ah, in your face" e tão longe ao mesmo tempo...

 

Por isso, não; não tenho um acirdar fácil. Tenho o acordar com o um enorme privilégio e uma dádiva mas não algo que seja fácil de fazer. Literal e metaforicamente.

 

 

 

 

 

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publicado às 18:21

Constatações...

por t2para4, em 05.07.17

No caminho de casa, encontramos o irmão do G., um menino do mesmo ano que as piolhas e que está no ATL com elas desde sempre (o G. tem autismo clássico infantil e é não-verbal), a atravessar na passadeira. Digo-lhes quem é e elas perguntam se ele também tem autismo. E eu respondo que sim, mas menos grave do que o do irmão pois ele já é moço para uns 20 anos e é independente e leva uma vida relativamente autónoma. Perguntam-me elas se o autismo delas é como o do irmão do G. 

Não é. É aquilo que na gíria se chama "autismo leve" (e que leva muitas pessoas a acharem, erradamente que, por ser leve, pode-se cortar com tudo e mais alguma coisa porque já se desenrascam). 

Expliquei-lhes, então, que o autismo delas é bem mais leve do que o do irmão do G. e que olhando para ele, fico de coração cheio pois sei que também elas serão indivíduos autónomos, que terão uma vida independente e que poderão ter um futuro que há uns anos parecia impensável.

E lá lhes dizia eu que acreditava que elas teriam uma vida semelhante à minha: teriam uma profissão, carta de condução, poderiam fazer um empréstimo e comprar casa ou carro, poderiam casar e constituir família...

"- Mas eu não quero casar!"

Não faz mal, filhota, podes viver com o teu amor, sem precisares de casar.

"-Mas eu também não quero casar. Nem quero ter um namorado. Eu tenho namorados que são amigos."

 

E é assim que deve ser. "Namorados que são amigos".

Tenho umas filhas muito à frente. 

 

 

 

 

 

 

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publicado às 17:31

Definitivamente, cat people

por t2para4, em 28.06.17

As piolhas tiveram hoje uma saída que envolveu uma visita a um criador de cães local que, entre outras raças, cria Golden Retrievers. O mesmo criador a quem comprámos a Íris, há tantos anos. Já na altura da visita, elas borrifaram-se para os cães e andaram perdidas e felizes da vida atrás de um gato "ginger", como uma delas gosta de dizer. Não ligámos a esse sinal, tão cegos que estávamos com a ideia de que uma cadela Golden Retriever pura iria fazer os milagres que procurávamos e nos quais queríamos tanto acreditar. Não fez e a história correu mal. Doi até hoje (mais pormenores, cuscai no blog, não vou por links diretos).

 

A verdade é que elas são definitivamente aquilo que, em inglês, se define como cat people. Em Caminha, quando regressávamos da nossa ida relâmpago a Santiago de Compostela, encontrámos uma gata preta e branca (semelhante ao nosso Silvestre) numa das ruelas que rodeiam o forte. Chegaram-se logo a ela e ela aceitou miminhos e festinhas delas mas recusou que o marido se chegasse perto...

O mesmo se passa com o gato que passeia pelo meu local de trabalho.

E com os gatos que encontramos na rua...

 

Não foi diferente aqui. Enquanto todos os coleguinhas se encantavam com os cães e cachorrinhos, as piolhas deleitavam-se com os gatos e a nova ninhada que por lá andava. "Um ginger, um parecido com o gato da T., um Quico mas não era igual ao nosso Quico e os outros eram todos brancos. E não deixaram pelos no nosso colo". Enquanto os gatos se afastavam dos outras crianças, deixavam-se cativar pelas piolhas (as mesmas crianças, ou seja, as minhas filhas que eu jamais levaria para uma loja da Vista Alegre e até tremo quando entram na Ótica de um familiar... ).

 

Não pretendo, nem por um milésimo de segundo, desvalorizar o que quer que seja que se faça com cães de serviço e a sua importância; apenas quero mostrar que o autismo, a PEA das minhas filhas, talvez esteja numa outra parte do espectro no que respeita a animais de apoio. Elas sentem-se incomodadas por cães, independentemente da sua raça - tal como a minha irmã -, elas afastam-se instintamente de cães, não importa o tamanho. Por outro lado, adoram gatos, sentem-se atraídas pelos felinos, são enigmáticas e fazem lembrar um gato em alguns dos seus comportamentos, não sei explicar bem, apenas se nota, ao olhar para elas e para a relação delas com gatos, que são mesmo cat people. E até com isso e nisso podemos ver aprendizagem. Não precisamos de seguir a norma quando há algo mais fora da norma que também funciona - ainda para mais se é fofinho e com umas orelhinhas pontiagudas e um bigodes... 

 

Sou uma cat person, sem dúvida. Mas as piolhas são mais. Passei a olhar com outros olhos - uns olhos agradecidos - para os gatos quando o nosso Silvestre, ainda um juvenil, aguentou um meltdown dos feios de uma das piolhas, sem sair de perto dela, enquanto ela o agarrava e ele nem uma unha pôs de fora... Só saiu quando ela deu sinais de se acalmar - para voltar segundos depois, como para se certificar de que estava bem antes de tirar tempo para si mesmo. Acho-os muito parecidos com as minhas crianças. Com comportamentos muito autistas... Este episódio marcou-me. E a relação delas com este animais parece diferente...

Dá que pensar, não?

 

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 (os gatos são ou não um pouco autistas? Eu acho que os nossos são uma cópia felina das piolhas ;) )

 

 

 

 

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