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"I've got a hangover" poderia ser a banda sonora do meu atual momento, não fosse a causa da minha ressaca ser outra que não alcoólica... Uma ressaca é sempre a ausência ou excesso de algo, que, neste caso, é a ausência de antidepressivos.

 

 

A minha relação com estes químicos é ambígua e complicada. Preciso deles e não preciso deles... Mas, deixem-me contar o início da nossa vida conjunta.


Comecei em 1999, após o diagnóstico de esgotamento/depressão/crises de ansiedade/burnout. Fui parar ao hospital com mega dores de cabeça, sonos irregulares e, perante a hipótese de uma cura do sono (tão em voga naquela altura), a minha mãe optou por me trazer para casa, altamente medicada, e sujeitar-me a uma (ainda mais) estreita vigilância e dieta alimentar do género "tens de comer para ficares forte porque estás muito magrinha". E estava... Coincidiu com o diagnóstico de cancro, definhar e morte do meu avô materno, que acompanhava às consultas - nesta altura, vestia o mesmo tamanho de roupa da minha irmã, que é 3 anos mais nova que eu... ela tinha 16 anos e eu 19; demasiada pressão na faculdade (bullying - hoje tão na berra, com um nome pomposo, mas, já existente na altura. Não me metia nos copos, não apanhava bebedeiras de caixão à cova, não me baldava às aulas, atrevia-me a passar de ano sem negativas nem cadeiras penduradas, não participava em praxes, não entrava em coma alcoólico nas Queimas ou Latadas. Digamos que, socialmente, não era uma pessoa muito popular... Mas isso nem me afetava muito; afetava-me mais o facto de troçarem de mim por ser estudiosa e gostar de estudar); demasiadas e rápidas mudanças na minha vida até então mais ou menos controlada; surgimento de dificuldades com que não contava; aprender a conduzir numa das cidades mais populosas e enruadas do país...


Anyway, comecei com os antidepressivos e ansiolíticos de 1ª geração, aqueles que são sertralina e que nos zombificam. Eu só dormia. Todo o dia. E continuava com sono. Pouco a pouco, durante muito mais tempo do que eu desejava e esperava, lá me fui desabituando do Zoloft (este desgraçado até ficou referido na minha caricatura por um colega em pé de igualdade) até ficar com um quarto de comprimido e cerca de 2 ansiolíticos por dia. E, sempre fiel às consultas de neurologia onde me viam como cobaia devido as minhas horríveis e lancinantes dores de cabeça e lá me prescreviam medicamentos que nada resolviam - até descobrirem que eram enxaquecas e me receitarem um medicamento milagroso em 2010, nas Urgências dos HUC -, lá acabei a licenciatura e fiz estágio profissional, namorei e casei, estive desempregada e depois dei aulas num colégio além de ter um centro de explicações aberto.


Um dia, no início de 2006, creio, aconteceu-me algo de muito estranho, quase paranormal. Não me recordo nada, mesmo nada nada, de uma parte do caminho que habitualmente fazia de carro. A minha dedução lógica é: adormeci ao volante. No entanto, foram ainda cerca de 2 km sem me recordar de nada. Seja como for, pregou-me um susto de morte e, nesse mesmo dia, decidi acabar de vez com antidepressivos e ansiolíticos. Andei cerca de 2 semanas a sofrer os sintomas da abstinência (nome horrível e pejorativo mas é assim que se chama) mas mantive-me firme. Foi horrível. Dormia pouquíssimo mas andava elétrica, arranjava quinhentas desculpas para não ter que ir dormir à noite, tremia imenso nas mãos, tinha alguma dor de cabeça e pouca tolerância à claridade. Mas evitei ter que regressar aos comprimidos apenas para não ter que andar assim. Foi uma vitória fantástica da qual me orgulho imenso. Sozinha, sem qualquer ajuda, consegui limpar aquelas influências do meu organismo. E ainda bem porque, no final desse ano, descubro que estou grávida.

 

 

Mantive-me forte, firme, teimosa e segura de mim mesma até 2012. Foi imenso tempo, vendo bem. Em 2012, não aguentei mais e o que eu mais evitara e temera aconteceu: regressei aos drunfos. Teve que ser, reconheço. Passei por uma gravidez complicadíssima, por uma licença de maternidade curtíssima, pela negação do período de aleitamento, um despedimento ilegal no dia do parto das minhas filhas, um processo em tribunal contra o colégio onde trabalhara, pela procura de emprego, pelo trabalhar a recibo verde em 5 locais diferentes em horários laborais e pós-laborais, pelo notar que as piolhas não eram como as outras crianças, pelo diagnóstico de autismo e tudo o que se seguiu em catadupa: terapias, papelada, burocracias, apoios, referenciações, exercícios, mais terapias, mais tudo. Não tinha tempo sequer para chorar as minhas dores, o meu sufoco, o meu luto durante o tempo que eu queria; foi arregaçar as mangas e seguir em frente, ir à luta porque não concebia sequer outra forma.


Desisti de fazer o mestrado que escolhera no verão de 2010 e, apesar de tudo preenchido, não submeti a candidatura porque dia 17 de agosto tudo mudou. Optei por abdicar de fazer uma carreira e sujeitei-me a continuar a dar aulas mas por aqui bem perto, sempre contactável e sem (muito grandes) penalizações em caso de saída à pressa a qualquer hora, o que implicava recusar colocações em outras escolas, pelas listas do MEC. Desisti de estudar. Dediquei-me às minhas filhas o melhor que soube e o máximo que pude. Tentei dar sempre mais do que era preciso, estar presente em tudo o que envolvesse o desenvolvimentos das piolhas, ser mãe-terapeuta-professora-tarefeira-auxiliar-enfermeira-médica-motorista-nutricionista-guia-técnica-amiga-colega-educadora-empregada doméstica-intérprete-tradutora-cozinheira-estudante-etc.


Um dia, estacionada em frente à escola, desempregada mas numa modalidade emprego-inserção (aquela coisa que não é carne nem é peixe no desemprego mas obrigatória sob medidas sancionatórias em caso de recusa), não consegui sair do carro. Chorava compulsivamente, andava elétrica, birrenta, deprimida, triste, amargurada, explodia por tudo e por nada. E chorava e chorava e chorava. Pedi ajuda química porque palavras leva-as o vento e se um psicólogo tentasse compreender a minha vida acabava ele a autoprescrever-se drunfos. E eis-me de volta aos antidepressivos. Mas com o mesmo espírito rebelde.

O médico receitou escitalopran, um antidepressivo de 2ª geração, que já contém uma combinação de ansiolítico e não nos zombifica. Receitou também um ansiolítico que me lembrou logo a minha sogra (yuk). O que fiz? Tomei metade do antidepressivo, apenas. E, ao fim de umas 2 ou 3 semanas, juroq ue me sentia outra. Estava tudo muito muito melhor, eu conseguia estar mais controlada, não chorava que nem uma madalena arrependida, dormia melhor, as minhas crises de ansiedade diminuiram drasticamente.
O tempo foi passando e, de cada vez que me perguntavam, à laia de troça "mas por que toma antidepressivos?" como se eu vivesse uma vida cor de rosa cheia de frufrus, a verdade, é que, no fundo, eu ficava a remoer na mesma questão. E, de cada vez que decidia "é hoje que começo a fazer o desmame do drunfo", nunca conseguia levar a cabo o meu intento.


Até que, algo mudou. De novo. Apanhei um susto brutal do qual ainda não sei se estou livre e se me refiz. Fiz uma mamografia e ecografia mamária que revelaram um "empastamento" (aka massa) na mama direita , perto da axila, que é sentido na palpação mas demasiado incerto para se medir ou identificar com exatidão. Recomenda-se vigilância... E, a juntar a isto, o meu hemograma mostrou coisas que nem sabia serem possíveis: leucopenia (glóbulos brancos - leucócitos - abaixo do valor normal, bem abaixo) e plaquetas em baixo. Justifica todo o meu cansaço, sonolência, arrastamento, vonatde zero de fazer algo, energia esgotada,  mas sem causa aparente. Tudo o que me mandam fazer é aguardar. E eu gosto pouco de aguardar. Porque, a bem dizer, aguardei 3 anos para que me dissessem o que as piolhas tinham quando eu já sabia que algo de errado se passava, por isso, "aguardar" é algo que não me assiste.
Repeti hemograma à minha custa. Os valores continuam baixos mas os leucócitos subiram um pouquinho. Mas continuo cheia de nódoas negras na zona do soutien ou do cinto das calças, nos braços e joelhos e até no local onde aperto as botas...
And then it occorred me: e se for do raio dos drunfos? Está na altura de sair deste filme. De vez. Sem desmames nem agora metade e depois um quarto. Não, à séria. De vez.

Estou a passar de novo pelo síndroma da abstinência e está aser 10 vezes pior do que em 2006. Ando tonta, nauseada, esfomeada, com os intestinos descontrolados, fico doente só de pensar em andar de carro, doi-me estar na cama mas durmo maravilhosamente no sofá da sala, mal consigo abrir os olhos por causa do excesso de claridade e a minha cabeça parece desapegada. Estou uma walking dead quase literal. Tenho que me esforçar bem na maquilhagem para não revelar essa minha faceta assustadora. Mas ando bem, calma (estranhamente calma, até quando os miúdos parecem possuídos e só fazem asneiras) e com o objetivo bem focado: livrar-me de vez destes drunfos e resistir à tentação de voltar a tomá-los só para evitar a ressaca. Quero repetir as análises e saber por que continuo com valores em baixo, quero sentir-me livre de químicos, quero ser eu de novo.


Pouco me importam os tons acusatórios do "ah mas tens de falar com o médico!", "não podes desmedicar-te!", "não és médica, quanto mais ansiosa andares, mais problemas tens". Hello??? Os problemas estão sempre lá, muda apenas a nossa maneira de os encarar. E, agora, quero encará-los sem ajudas químicas, sem estar dopada, ainda que implique algumas lágrimas. Apesar das alegações de que estes novos medicamentos não causam habituação, a verdade é que largá-los tem os seus efeitos secundários e é mais fácil não o fazer. Mas eu encaro isto como o tabaco. Não fumo mas acredito que reduzir até deixar não iria ser uma solução para mim: ou largava de vez e arcava com a abstinência ou continuaria a fumar mesmo que fosse só um ou 2 por dia...


Fui forte sem ajuda durante muito tempo, fui forte com ajuda durante algum tempo. Agora quero apenas ser eu. Sem sustos de saúde, sem más notícias, sem ter que repensar a minha vida, sem ter que fazer opções complicadas. Agora, como diz a tal história da máscara de oxigénio durante a despressurização do avião, sou eu quem tem que pôr a máscara de oxigénio antes de colocar a máscara nas minhas filhas e nos filhos que me são emprestados (os meus alunos).

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publicado às 19:53

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