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Novembro - mês da prematuridade

por t2para4, em 16.11.14

E dia 17, o dia escolhido para assinalar a consciencialização e sensibilização para a prematuridade.

Toda a informação sobre o que é a prematuridade, o que é ser-se prematuro, que condições especiais um bebé prematuro requer, que tipo de prematuro pode um bebé ser, etc, uma verdadeira fonte de informação fidedigna em http://www.xxs-prematuros.com

 

As piolhas seriam consideradas prematuras pré-termo limiar, visto que nasceram às 35 semanas + 5 dias e com peso de 2,430kg. Seriam consideradas mas eu nunca as considerei prematuras por razões que explicarei à frente.

 

As piolhas sempre foram muito apressadinhas para nascer e cresciam demasiado depressa para o ritmo do meu útero. A certa altura, fiquei proibida de fazer festinhas na barriga ou de estar com a mão pousada (o que me custou imenso....) e até a sonda do ecógrafo fazia saltar o gráfico das contrações... Foi a muito custo pessoal e com muito empenho da parte da minha família e da equipa médica que me/nos acompanhou que as piolhas se aguentaram tão bem e tanto tempo, surpreendendo toda a gente com um peso excecional. O risco de super prematuridade surgiu logo às 24 semanas, altura das ordens de repouso absoluto. E o risco não era só para as bebés nem para mim, era para todos nós... O incrível é que a maternidade onde fiquei e onde fomos bem tratadas (exceto nas consultas de desenvolvimento mas isso são outros quinhentos), não estava preparada para receber mais bebés prematuros abaixo do peso considerado habitual. Quase todas as incubadoras estavam ocupadas e só havia uma de reserva no sótão + a do INEM em caso de necessidade. Esta hipótese esteve sempre pendente sobre as nossas cabeças até ao dia do parto. Lembro-me perfeitamente da angústia, do medo que senti e do quanto chorei quando a equipa médica se reuniu no quarto onde eu estava e falava como se eu não estivesse presente, ponderando uma transferência para os únicos locais do país preparados para bebés com tão baixo peso: ou Porto (no São João) ou Lisboa (na Estefânia). Mas ninguém se chegava à frente pois a viagem era um risco, quer de helicóptero quer de ambulância. Foi às 33 semanas e as ecografias mostravam bebés saudáveis (embora também pairasse sobre nós a ameaça de ter apanhado varíola, o que nunca se confirmou) mas com baixíssimo peso para o tempo de gestação. Acabámos por vencer essa batalha, à custa de imensa medicação e corpo deitado... Quando me punha de pé e precisava de andar, parecia que tinha as pernas descoordenadas e não aguentava o peso da barriga.
Entrei em trabalho de parto sem o saber. A equipa foi surpreendida e não dava para esperar mais. Lá veio a incubadora de reserva e o INEM foi alertado. Escusadamente porque as piolhas surpreenderam tudo e todos ao nascerem com quase 2,5kg!!!! Tudo impecável, capacidade respiratória perfeita, indíce de apgar normalíssimo, tudo fantástico e até mamaram na primeira meia-hora! O mecónio de uma foi feito mal nasceu, o da outra pouco depois. Portanto, órgãos a funcionar perfeitamente.

 

Apesar de não terem ido à incubadora, acompanhei de perto a luta das nossas amigas trigémeas e relembrava os gémeos da vizinha dos meus pais que cresceram lá em casa, todos prematuros. Uma das trigémeas nasceu com 650 gramas. Eu olhava para 1kg de arroz em casa e doía-me o coração... Estávamos as duas grávidas do mesmo tempo e, enquanto eu lutava para manter as piolhas na barriga, uma das gémeas dela começou a mostrar problemas com a placenta por estar a partilhá-la... Nasceram todas de 29 semanas: duas gémeas idênticas e uma fraterna. Foram meses infernais e de uma angústia horrível que aqueles pais passaram na maternidade, entre as minhas entradas e saídas e depois saída final, ao todo, cerca de 3 meses na maternidade e mais 1 mês no hospital da localidade dela... Ela foi a 1ª a ver as minhas filhas, acompanhada pelo meu marido e mãe. Uma amiga para sempre, umas meninas quase minhas também. Lembro-me tão bem, bem demais!, do aspeto que elas tinham quando começaram a livrar-se dos fios e das terapias e ainda tão vermelhinhas, tão cabeçudas, tão carequinhas, com os olhos tão salientes... E pensava que não era justo começar a vida numa luta tão grande e tão desigual. E sem saber se elas poderiam fazer o que todos os outros bebés fazem, sem dificuldades... Ninguém dava certezas de nada...
As sequelas, felizmente, foram mínimas, apesar de ter havido "buracos" na cabeça que demoraram a desaparecer. A que tinha menos peso sofre de paralesia cerebral a nível motor e precisa de fisioterapia regular e de injeções de botox no braço e perna esquerdos. Mas monta a cavalo melhor do que muitos adultos que conheço. Sozinha!
Hoje com quase 8 anos, estas meninas são lindas, inteligentíssimas, fluentes em 2 línguas, crescidonas e ninguém NINGUÉM diria que passaram por um calvário à nascença. Quantas vezes se me parava o coração quando via a mãe delas surgir na porta do meu quarto no internamento, lavada em lágrimas? Felizmente, essa má notícia nunca veio.

 

Para mim, as piolhas nunca apresentaram nenhum sinal de prematuridade exceto o tempo de gestação com que nasceram. E, tenho para mim, que essa ausência poderia ser, desde logo, um dos muitos sinais de autismo. Nunca quis e sempre objetei a sugestão da idade corrigida porque o que elas faziam/não faziam não batia nem coincidia com nenhuma das check lists que os pediatras por lá tinham. Aliás, sempre lhes fiz tudo, baseando-me na idade de nascimento. E, continuo a fazê-lo, apesar de saber que a idade comportamental deve agora rondar os 5 anos e a idade congnitiva há de andar algures perto dos 8 anos. Demasiadas idades dentro de uma idade cronológica de 7 anos e 4 meses.

 

Não tenho palavras para descrever a força com que estes bebés se agarram à vida, a luta que travam todos os minutos, as angústias e medos e sorrisos e dores e felicidade dos pais, o sabor de cada vitória mínima - aquilo que valorizamos quando aos outros é dado como facto adquirido. O pavor das sequelas, o ter que lidar com elas - quando existem - para o resto da vida, em família, desgasta relações, os pais e até os filhos. E é neste mundo cruel e injusto que vive uma mãe trabalhadora que tem lidar com tudo isto, acabando por perder o emprego ou meter uma licença interminável sem vencimento porque, durante os primeiros anos, tudo será um teste às imunidades que são diminutas, as ausências ao trabalho serão imensas, a impossibilidade de colocar os filhos numa creche uma realidade. E poucos, muito poucos, percebem que a prematuridade não é só no nascimento mas também durante muitos anos...


Por isso, hoje, haverá uma peça roxa no meu vestuário em honra das minhas lindas guerreiras trigémeas mas também de todos aqueles que lutaram desde o 1º minuto de vida, quando essa fase deveria ser de tudo menos de luta.

 

prematuridade dia 17-nov.jpg

 

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publicado às 21:55

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