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in: https://uptokids.pt/educacao/o-ensino-a-distancia-a-escola-nunca-mais-voltara-a-ser-como-era-antes/?fbclid=IwAR1lynykS6AmxNo6G4_TGL-M_rZJtBP8ty3v_bpAMwFCF__0gSwopwd88IQ 

 

O ensino à distância.

A escola nunca mais voltará a ser como era antes.

Esta é a realidade que nos assiste desde o dia 16 de março de 2020. Foi uma reinvenção à pressa, sem preparação, sem aviso com a devida antecedência. Mas foi o desafio que acabámos todos, de uma forma ou outra, por abraçar e aceitar, apesar das inúmeras dificuldades e do acesso.

A escola que se quer inclusiva ainda não consegue chegar a todos agora – mas, se pensarmos bem, já antes não conseguia chegar a todos. Lembremo-nos das inúmeras batalhas travadas para que os direitos básicos de crianças com necessidades específicas sejam cumpridos na íntegra mas também dos que abandonam a escola. Sim, apesar da escolaridade obrigatória ser até ao 12º ano ou 18 anos, a verdade é que ainda há quem fique pelo caminho. E isto ainda não é a definição de escola inclusiva. Lá chegaremos, quero muito acreditar.

O ensino à distância

Na nossa nova realidade, com o ensino à distância, vejo os dois lados: o de professora – o meu lado – e o do aluno – as minhas filhas. Ambos os lados estão cheios de trabalho, a esforçar-se para cumprir o planificado, o proposto, o esperado; ambos os lados se sentam de manhã ao computador e saem ao final do dia. Não é fácil, não é o ideal, não é o desejado – mas é o que temos por agora e, que, de uma forma ou de outra, todos se esforçam para que funcione e para que chegue aos alunos.

Vejo um esforço imensurável de colegas que mesmo aos fins de semana enviam emails e notificações para que não se falhem prazos e vejo uma preparação de aula e planos semanais a delinear a serem feitos com uma semana de avanço, sem prejuízo do trabalho a desenvolver na semana anterior. O enfoque na avaliação padronizada e estruturada com fichas e testes e provas está diluído e transformado. E isto é uma coisa boa.

A adaptação

Mas não irei alongar-me em questões pedagógicas relacionadas com o ensino à distância. Não é a mim que compete essa avaliação. A mim compete-me adaptar-me e fazer os meus adaptarem-se. E isso tem corrido surpreendentemente bem, apesar de algumas dificuldades – técnicas e pessoais. A aprendizagem tem sido bem mais transversal e alargada do que estar apenas numa disciplina, numa qualquer classroom, em frente a um computador.

Deixo alguns exemplos:

– é necessário saber ler o horário enviado e gerir aulas síncronas e assíncronas, aproveitando as assíncronas para fazer os trabalhos pedidos;

– é necessário saber gerir algumas plataformas eletrónicas diferentes do que se usava habitualmente e saber fazê-lo em segurança (passwords, permissões, etc.);

– saber gerir o tempo para ter todas as tarefas feitas e entregues dentro dos prazos pedidos;

– é necessário continuar a ter rotinas saudáveis: levantar num horário, vestir como se fossemos para a escola, lanchar adequadamente nos devidos intervalos, auxiliar em pequenas tarefas em casa;

– saber usar todo um hardware à sua volta: computador, telemóvel, impressoras, scan, tripé, etc.

– é necessário saber ler nas entrelinhas dos chats de colegas o que é dito, como é dito e se há ali algo de relevante, de perigoso ou apenas conversa fiada;

– é necessário estarmos preparados para imprevistos e saber lidar com eles: a ligação que cai, a rede que tem oscilações, a impressora que só funciona depois de reiniciar o computador, o sistema operativo que é lento, etc.

O Bullying

No nosso caso, a melhor coisa que o ensino à distância nos trouxe – além da gestão pessoal das coisas no nosso espaço familiar – foi o fim dos episódios de bullying. Não há nada que valha mais do que isto. Não há vontade alguma de regresso a uma suposta normalidade escolar que me faça mudar de ideias. Eu sei que é importante ter a questão social resolvida, eu sei que a vida real é entre pessoas e não numa bolha no nosso espaço pessoal, eu sei que isto é apenas algo passageiro. Mas temos tido uma paz que não experienciávamos desde junho do ano letivo anterior.

Este é o nosso lado da história.

Sei, infelizmente, que ainda que a nossa casa seja mesmo o nosso castelo, outras há que são verdadeiros infernos e a escola seria o oásis de salvação. Daí a importância de se ver que a escola será sempre uma sociedade em miniatura, com os seus problemas e ações, com as suas especificidades tão particulares e tão abrangentes ao mesmo tempo. Mas, agora, em setembro deste ano, para o ano, daqui a 2 ou 5 anos, esta escola tem se se reinventar e jamais voltará a ser o que era. E nós adaptar-nos-emos.

 

 

 

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publicado às 21:15

Coisas e coisinhas

por t2para4, em 21.05.20
Adoro a forma como uma determinada "senhora professora de adultos" veio escrever para os blogues de educação da nossa praça que os autistas adoram coisas e não pessoas. COISAS. Porque é mais fácil gostar de coisas. Bem, até aí até concordo. Não conheço esta "senhora professora" e já amo de paixão esta COISA que uso para escrever.
Uau.
Vamos lá desconstruir isto:
Sai um novo Iphone e temos gente a vender rins para o comprar; todos os verões temos pessoas que gastam milhares de euros em férias; a economia está basicamente voltada para uma sociedade de consumo de COISAS. Ora, da última vez que eu verifiquei estas COISAS, ia jurar que eram feitas, compradas, amadas e COISIFICADAS por - pasme-se!! - neurotípicos! Não estou a ver um autista a vender deliberadamente um rim para compra o novo IPhone ou no novo IMac!
 
Há uma mania - quase patológica! - de ver indivíduos no espectro do autismo como seres insensíveis, frios, calculistas, agarrados a COISAS - lá está. Quantos autistas conhecem assim? Possivelmente muito menos do que os autistas calorosos, hiper-sensíveis, demasiado emotivos, people seekers! Não vamos meter tudo no mesmo saco e generalizar de forma, ainda por cima, errónea e sem grande conhecimento de causa.
 
E isto tudo porque os autistas amam COISAS, é-lhes mais fácil o ensino à distância por um computador porque é mais fácil lidar com uma COISA. Pois, com pessoas assim por perto, com bestas destas, de facto, até eu, neurotípica prefiro gostar de COISAS.
Metam na cabeça que a escola não compreende a nossa realidade global, "one size doesn't fit all". Com COISAS ou sem COISAS. Nunca será possível ter um sistema de ensino - presencial ou à distância ou misto - que vá agradar a toda a gente ou servir a toda a gente. Mas, para já, é o que temos. E, em muitos muitos casos de alunos com autismo funciona. E o lado relacional está lá, mesmo à distância. Porque, mesmo à distância, é preciso comunicar com os professores e colegas. E o gostar ou não de COISAS não tem nada a ver com a comunicação e a relação.
 
 
 
 
 
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publicado às 22:28

Das aprendizagens do passado

por t2para4, em 10.05.20

O medo paralisa, o medo impede-nos de sermos racionais. O medo ativa-nos mecanismos de sobrevivência ou desencadeia ações impulsivas. Mas o medo faz parte da nossa condição, o medo existe. Conseguimos doseá-lo de forma mais ou menos saudável mas ele está cá.

 



Há uns tempos - não vou dizer se foram meses ou anos, isso não interessa - eu e algumas pessoas do meu círculo social estivemos em contacto com um individuo portador do bacilo da tuberculose. Tinha dado positivo nos testes. Fazia parte do nosso círculo de pessoas com quem temos contacto mais do que ocasional. Fiquei em pânico. Temos as vacinas, é certo, mas ainda assim, podemos vir a ter tuberculose. E passá-la a alguém. E, ao contrário do que se possa pensar, há bastantes casos e há sempre movimento no BCG exatamente pelos mesmos motivos: alguém esteve em contacto com alguém com tuberculose e é preciso fazer testes de despiste.



A primeira coisa que fiz foi, de imediato, informar o pediatra das piolhas, relatar pormenorizadamente toda a situação e pedir aconselhamento. E eu avançar para testes de despiste. Já não ia ao BCG desde os tempos da faculdade, tirar as velhinhas micros para entregar na Secretaria Geral aquando das matrículas. Não vou entrar em detalhes mas fiz a micro e prova tuberculina. Uma deu negativo, a outra fez reação. Não tinha tuberculose mas, algures no meu período de vida passado, estive em contacto com o bacilo. Já tinha acontecido em 1995. Foi necessário repetir e passaram-se meses até ser dispensada.

 



Este pequeno episódio não me traumatizou nem me trouxe propriamente medo por mim mas um pânico enorme pelas minhas filhas. Eu sei que é impossível protegê-las de tudo e, vamos ser racionais, com quantos vírus, bactérias, parasitas lidamos todos os dias, até dentro da nossa casa, e nem sequer sabemos? Mas quando tempos um nome e uma proximidade com um inimigo invisível, a nossa perspetiva muda radicalmente.

 



O meu medo em relação ao novo vírus é isto: medo de eu lhes passar a elas, de eu apanhar e ser incapaz de cuidar delas, de elas apanharem e... nem me atrevo a verbalizar todo estes medos. Não é assim que lido racionalmente com eles. Mas aperta-nos o coração e causa-nos uma sensação de impotência avassalora. Não somos grupo de risco mas não suporto a ideia de imaginar as minhas filhas numa cama a lutar contra um inimigo destes. Por isso, tentamos fazer a nossa parte tanto quanto possível sem cair em extremismos. E, cruel ou egoísta que possa soar, agradeço a escola estar fechada pois se elas tivessem de ir, não iriam. Não nestes moldes tentativa-e-erro, vamos-experimentar-a-ver-no-que-dá. Em Setembro, regressaremos às salas de aula, de uma forma ou de outra, não tenho dúvidas, mas precisamos de um plano eficaz para não colocarmos esta geração em risco. Vamos ter que saber adaptar-nos e saber viver com este vírus - e outros - e com os efeitos adversos que nos trouxe. Mas, preferencialmente, sem nos colocarmos desnecessariamente em risco.



Atenção que em local algum eu refiro que devemos enfiar-nos numa bolha e viver lá, enrolados sobre os nossos joelhos.

Mas, apesar de tudo, ainda temos o direito a temer pelos nossos e a querer levar as coisas com calma.

Eu aprendi mais esse ensinamento.

 

 

 

 

 

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publicado às 13:42

Não há regresso à normalidade. Seja lá o que isso for. Talvez seja mais coerente dizer "não há regresso ao que fazíamos antes". Não há de todo, é impossível.
Já começámos a aliviar algum do nosso confinamento no que respeita às visitas aos familiares: já fomos ver os avós, tocar bateria, passear no jardim, abraçar a tia.
E é só isso.
Não há o aviar recados com a mãe, não há o ir às compras com os pais, não há o comprar uma t-shirt nova só porque sim, não há o visitar uma loja para ver se compramos umas roupinhas novas, não há o passear na vila como antes, não há o ir tomar um café fora, não há o ir a um centro comercial. Não há um beijo aos avós ou à tia - e isso é o que é, de longe, o mais estranho...
Não são imposições da mãe! A mãe é que não vê necessidade nenhuma de espetar uma máscara nas caras das filhas só para as levar a algum lado sem haver necessidade absoluta disso. Agradeço aos céus o pior das nossas vidas já ter passado pois juro que não sei como iria colocar-lhes uma máscara se tivesse sido há uns anos. Agora, são elas próprias que sabem da segurança que a máscara proporciona, sabem como usar e retirar e sabem que usarão máscaras descartáveis. E sabem que serão postas à prova em breve pois teremos de nos deslocar ao hospital para uma consulta. A maturidade física e neurológica permitiu-nos dar um salto de gigante no que respeita à tolerância de toque e uso de acessórios na cara.


Temos uma pequena ideia do que faremos quando chegar o verão e de que estas serão as férias mais estranhas e adaptativas que teremos até ao momento. E não podemos chamar isso de normalidade. Uma nova normalidade, talvez, sim, faz mais sentido. Mas não o regresso ao que era antes, isso já não existe.


E, na minha opinião, esta nova normalidade é limitativa. Uma máscara abafa o som, impede a real discriminação auditiva de que necessitamos em alguns casos (a minha mãe é surda profunda de um ouvido e já ouve mal de outro, sem a proximidade e a leitura labial, é ainda mais difícil para ela descortinar sons - a mesma discriminação de que as piolhas precisam para identificar as palavras e os seus significados); o distanciamento social faz-nos ficar desconfiados de tudo e todos e, nos casos de amigos ou familiares, é muito complicado não ceder ao impulso de um abraço apertadinho ou de um beijo; o não tocar em nada que não se queira trazer - ou tocar apenas na cara - é um teste à nossa força mental. Não há terapias presenciais. Se, por um lado, me alivia o coração, por outro, faz-me perguntar se estaremos a perder algo... E nem vamos falar do volume de trabalho académico. Ou do medo que sentimos em relação a este e outros vírus. É isto regressar à normalidade? Não me parece.
É, sim, aceitar uma nova realidade e saber lidar com ela o melhor possível. Adaptarmo-nos - afinal, evolução é isso mesmo.

 

 

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publicado às 15:06

Coisas que nunca pensei dizer na vida

por t2para4, em 24.04.20

1. "Vê se te despachas a comer que tens de ir ver televisão às 14h"

2. "Está aqui o horário das vossas aulas na RTP memória. Quero-vos em frente à televisão a tirar notas"

3. "Podem ir às gravações rever a aula da televisão"

4. "Uma tarde inteira em frente à televisão? Ah mas são aulas... Vá, vão lá, não se atrasem"

5. "É para estar em frente ao computador às 8:30."

6. "Linux é mais rápido que Windows nas vídeo chamadas, muda lá de sistema operativo"

7. "Obrigada marido por teres insistido em meter uma TV no quarto das piolhas"

 

E é isto. Vou morder a língua e pôr o cérebro de molho.

 

 

 

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publicado às 23:35

Ai tanta pressa!

por t2para4, em 08.04.20

Ora deixa cá ver, de acordo com as últimas notícias, negociações, treinadores de bancada, palpiteiros de sofá e "s'tôres" de gabinete, as escolas são para abrir, talvez em maio. Talvez para o secundário, ai não, é melhor ser para os mais pequenos antes, os putos até ao 9º são resistentes, ai não, é como o sol, é para todos, ai não, maio é que é, deve ser por ser o mês de Maria, vem aí um milagre, ai não, vamos pensar, ai não, ai a economia, ai os pais, ai os miúdos, ai os exames nacionais porque isso é que é importante, ai ai ai - ai o canário.


A Universidade de Coimbra que tem alunos e professores e funcionários acima dos 18 anos cancelou as aulas presenciais até ao final do ano letivo.
As festas dos santos populares, que são em junho, foram canceladas.
Os concertos, feiras populares e espetáculos de cultura até ao mês de junho, foram cancelados.
O Rock in Rio que era no final de junho, foi adiado para o próximo ano.
No estrangeiro, em Itália contam os dois terços do ano letivo e não há mais aulas presenciais, em França não há os exames de brevet e bac, no Luxemburgo fala-se em fazer um balanço letivo só no final de maio, em Inglaterra fala-se de contar o ano letivo até finais de março e suspender exames e trabalhos para a universidade.


Mas ai e tal vamos já encher as escolas e permitir tais ajuntamentos já em maio porque ai tem de ser, ai os pais têm de trabalhar, ai os professores estão a receber por inteiro (para esses linguarudos, tenho a informar que, tal como outros funcionários de tantas outras profissões, estamos em regime de teletrabalho, com os nossos materiais e recursos, já agora), ai vem aí uma crise, ai vamos é espetar os putos todos juntos numa sala onde nem 1 metro sobre livre e siga prá frente qu'atrás vem gente.


Comentadores de estantes cujos livros são só para enfeitar, comentadores que desconhecem a realidade de uma escola, comentadores só para não estarem calados, façam-me um favor: vão comer bolos e pão caseiro, engordem e não chateiem. Fazer futurologia é perigoso. Façam com quem quiserem mas com as minhas filhas não fazem. Se um adulto não está em segurança para trabalhar presencialmente num local com mais de x pessoas por m2, uma criança muito menos e não me venham com a cena das resistências. E muito menos num ambiente propício a viroses variadas como uma escola.

 

 

 

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publicado às 13:18

Calma!

por t2para4, em 03.04.20

O meu feed já não mostra tanto pão e bolos como há uns dias mas está inundado, quase quase a afogar e eu a bloquear pessoas, de trabalhos e trabalhinhos, atividades e atividadezinhas. Vamos lá a ver: numa situação normal, estas duas semanas seriam de... vá, completem lá a frase... de... férias para os miúdos! plimplimplimpim acertaram!!! Os nossos alunos estariam na sua vidinha, a fazer o que quer que façam em férias e não iriam certamente pensar em trabalho, a menos que tivessem algum TPC. E os professores lá estariam nas suas reuniões - como realmente estiveram, vivam as plataformas à distância! Amén - e a tratar da burocracia inerente à coisa - possivelmente à distância também pois o programa dará para isso.
Então, expliquem-me como se eu fosse muito burra: estamos a partilhar sites, gigas e terabites de informação escolar agora porquê? Estou a receber tanta publicidade patrocinada e emails institucionais sobre ensino à distância porquê? Porque só agora se pensa realmente no assunto, é isso? Ando há anos - basicamente desde que trabalho - a dizer que há tantas tantas coisas que se podiam fazer em casa, à distância. E ando - basicamente desde que trabalho - a fazer muito muito do meu trabalho à distância com os meus materiais, aqueles comprados e pagos por mim.
Não se iludam, não nos iludamos: não iremos conseguir milagres espetaculares cheios de efeitos especiais com apenas um mês de preparação à toa para esta coisa do ensinar à distância (e em lado nenhum eu digo ou se pode ler que estou contra ou que falo sobre o términus do ano letivo, vamos lá a prestar atenção) mas iremos conseguir fazer alguma coisa, que pode ou não chegar a todos. Não chegará aos alunos com multideficiências, tenho quase a certeza, só para dar um exemplo. A esmagadora maioria dos alunos com necessidades específicas está relegada para um grave plano inferior. E não é colocá-los a eles sozinhos nas escolas abertas que é solução, como eu via num grupo de educação no outro dia! Se a escola não é segura para neurotípicos, também não o é para atípicos, desculpem lá qualquer coisinha e a minha política de sofá!
Mas vamos lá a comportarmo-nos comme il faut: os miúdos agora descansam um bocado que bem merecem, os professores tratam das avaliações e aguardam por orientações específicas do ministério e vamo-nos deixar de invenções. Não vamos querer complicar algo que já por si é trabalhoso. Até lá, podemos ser realistas e pensar no que iremos mesmo - mesmo - fazer com os nossos filhos e alunos? E, quiçà, de uma forma ou de outra, aproveitar um pouco a Páscoa?

 

 

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publicado às 16:04

A nós, ontem, hoje e amanhã

por t2para4, em 02.04.20

Somos de datas e datinhas, celebrações e comemorações, assinaladas ou não no calendário. Celebramos até o aniversário dos gatos (que também é hoje), assinalamos dias que nos tocam especialmente (hoje, coincidentemente, é dia mundial da conscientização do autismo), comemoramos os nossos dias. E, há 19 anos, começámos um caminho que encheu toda a gente de dúvidas e que todos viam demasiado atribulado. Mas mantivemo-nos fiéis a nós mesmos, com os nossos ideais e valores quase retrógrados e desatualizados neste mundo desconfiado e fomos ajustando o nosso caminho. Nem sempre o seguimos a direito, nem sempre as indicações de um qualquer GPS foram as mais corretas, mas, juntos adaptámo-nos e nunca desistimos. E ainda cá estamos. Começámos um namoro tímido, quase envergonhado, em 2001, e evoluímos para uma vida a dois que depois se tornou uma vida a quatro, assim de repente. Temos algo seguro, sólido, forte, quase inabalável.
Não mudaria nada.
Somos felizes à nossa maneira tola mas verdadeira. Completamo-nos.
A nós, ontem, hoje e amanhã.

 

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publicado às 16:46

A nossa recriação de arte

por t2para4, em 31.03.20

Vi imensas recriações de quadros e pinturas célebres e decidi que também queríamos participar. Já fizemos duas recriações: esta, Girl with a balloon de Bansky, e Siamese Twins de Leah Saulnier (que não publicarei aqui porque as caras delas estão bem visíveis).
Nota-se muito que já estamos há muito tempo em casa? O que vale é que as piolhas acham imensa piada a estas coisas e alinham nas minhas doideiras.

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publicado às 16:42

A diferença? Não podemos sair de casa

por t2para4, em 28.03.20

Há muitos anos, quando o infantários das piolhas fechava para as férias de verão, o pai continuava com o seu trabalho por turnos, e nós ficávamos umas com as outras 24/7. A quebra de rotinas e de estrutura, a ausência de terapias no devido local habitual dessas mesmas terapias, eram de uma desregulação que todos os dias havia crises, meltdowns, cansaço extremo. As piolhas acordavam de madrugada já prontas para um novo dia e era frequente sermos as primeiras na praia fluvial da zona às 8h30 da manhã. Como, felizmente, ainda eram pequenas e após uma manhã de agitação quebravam um pouco, à tarde sempre dava para fazer uma sesta.
Os nossos dias, durante aquele mês, eram passados assim: saídas, às vezes, inventadas à pressão, brincadeiras motoras (trampolim, corridas, mais piscina em casa dos avós, etc.), outras brincadeiras (jogos, quantas vezes feitos de raiz por mim), uma sesta no final de almoço, mais TV e computador, se estivessem nessa onda, mais uns exercícios de terapia da fala disfarçados de brincadeira... E a rotina que as piolhas queriam lá se instalava à maneira delas. Por vezes, chovia ou estava frio e não podíamos ir à praia ou à piscina de manhã e era logo um problema. Ir de tarde nem era opção que se colocasse por causa do calor e da quantidade de gente que abundava nesses locais.

Com a idade, o amadurecimento a todos os níveis (em especial, a nível neurológico), foi-se, gradualmente, tornando mais simples de contornar a ausência de rotinas ou, pelo menos esta quebra de estrutura que a escola ou um ATL trazem. Já não sentimos a necessidade de ter todos os momentos de um dia preenchidos ou com uma atividade e já percebemos que apanhar uma valente seca também faz parte do desenvolvimento humano e pode ajudar-nos a lidar com outros desafios.

As piolhas não têm amigos. Têm uma amiga, que não é neurotípica e que as conhece desde sempre e para quem elas são como são e nunca equacionou como seriam se não tivessem autismo. Da parte das piolhas é o mesmo: essa amiga é como é e nunca a imaginaram como neurotípica. Estão juntas, de vez em quando, brincam e jogam juntas e, neste momento de resguardo social, comunicam por voz via whatsapp. Mas não há nenhuma - nenhuma mesmo - comunicação seja de que tipo for com qualquer outro colega de escola.
Isto para dizer que: o nosso isolamento social, o nosso ficar em casa durante dias a fio, apenas nós e só nós, não é novidade e acaba por ser algo que fazemos todos os anos, em especial no verão. A grande grande diferença, neste momento, é que não podemos sair para ir à praia ou à piscina ou sequer à rua passear.

As piolhas são aquele tipo de indivíduo com autismo que, quando está regulado, está bem no seu mundo, no seu cluster social com quem importa e não sente necessidade de sair - porque sair acaba por trazer alguma ansiedade de gestão de sentimentos; não confundir com patologias como medos -, de estar com colegas que acabam por não as compreender e só desejam que elas fossem outras pessoas; que dão o valor pleno à frase "A casa de um homem é o seu castelo". Têm tudo de que precisam em casa sem o bónus agridoce de ter que saber lidar com pessoas - e se isso é tão difícil para nós, imagine-se para quem tem algum comprometimento social -, de tolerar comportamentos que não percebem ou que as incomoda - por exemplo, o não cumprimento de regras básicas como um carro parar na passadeira ou os colegas respeitarem as regras de sala de aula ou uma aula particularmente barulhenta -, de chegar ao fim do dia tão cheio de tanto esforço e, às vezes, descompensar com uma neura.
Também há neuras em casa, não nos iludamos. Mas com outros motivos. Somos nós 24/7, com as habituais regras porque aqui esta mãe manada no que é sei e quando é não é não e não existe nim, são as tensões normais de uma adolescente, etc.

Neste momento, a minha bolha de proteção está em pausa. Até os meus níveis de ansiedade, os meus receios, o meu victan estão em pausa. As piolhas estão em casa e, apesar das dificuldades com tanto trabalho escolar, o ensino à distância começa a piscar-me sedutoramente o olho. Não é o que eu quero, lá no fundo, pois a sociabilização é fundamental. Mas é tão fácil apaixonarmo-nos pela distância segura da sociedade, pelo outro lado do ecrã. Não é o que eu quero. Mas é do que o meu coração agora gosta. Vai ser mais doloroso e complicado para mim o regresso ao ativo, à rua, à sociedade. É-o sempre, desde há muitos anos. E, mesmo com estas melhorias, ainda o é. Mas tudo se faz e eu também estou em constante aprendizagem. Com elas, principalmente.

 
 
 
 
 
 
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publicado às 10:23

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