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Cirurgia de escoliose - feito

por t2para4, em 07.04.24

Estamos em casa. E, de facto, a recuperação em casa é outra coisa; não há mesmo outro lugar como a nossa casa. Com as devidas adaptações (banco e degrau para a banheira, um rolo igual ao do hospital para colocar na cama, mantas do sofá, etc.), está tudo a ir como expectável, com calma.
Vivemos aqueles dias um bocado atarantados... Mas só tenho a dizer maravilhas de todos os profissionais com quem nos cruzámos.
A intervenção cirúrgica foi no Hospital Pediátrico de Coimbra e estivemos na área de Ortopedia (internamento). Desde o pré-operatório até ao dia da alta médica, a piolha e nós fomos tão bem recebidos e tratados que não há palavras para descrever ou agradecer.
Sendo ela autista, houve sempre o cuidado de os intervenientes se apresentarem e explicarem tudo o que iria passar-se e iria ser feito. A neurocirurgiã falou com ela (desta vez, porém, acabou por ser outro, uma pessoa com quem estabelecemos logo uma empatia incrível e que foi muito simpático) e explicou o procedimento até à saída do hospital, a médica anestesiologista também veio conversar com ela bem como os enfermeiros de reabilitação, fomos conhecer a UCI e como tudo funciona lá e houve a segurança de que iria ser acompanhada por mim até ao bloco operatório. Lá, toda uma equipa imensa apresentou-se e assegurou que estaria em boas mãos e iria correr tudo bem. E assim foi.
A espera é imensa... Vemos pais sentados naqueles bancos a tentarem ocupar-se e equipas médicas a perguntar pelos pais da criança tal ou tal e a dar feedback. Dependendo se vão ou não para a UCI podem ir visitar ao recobro. Das 8h+ horas previstas para a cirurgia da nossa filha, estivemos 6h. Foi surpreendentemente rápido. Quando ouvimos o nome dela e vimos o neurocirurgião nem queríamos acreditar. Depois, na sua maca cheia de máquinas e fios e tubinhos, passou por nós a caminho da UCI onde esteve a ser preparada antes de podermos juntar-nos a ela.
Aquelas primeiras horas são qualquer coisa... Os delírios, o grogue da anestesia e medicação mostram o outro lado de uma pessoa. O lado dela é divertido: cantou Linkin Park, repetiu vezes sem conta o refrão "Alive" dos Pearl Jam, dizia "bye (ou fuck...) scoliosis", sabia que estava super grogue e só pedia que ficássemos com ela. E ficámos claro.
Estar na UCI não é para todos os corações... As máquinas a apitar, os esgares de dor (que são imediatamente controlados), o som dos ventiladores, as outras crianças internadas... Mexe muito connosco... Eu estava sempre de olho na minha e no vizinho, um bebé prematuro com uma força incrível...
Ver um filho chorar de dor é algo que nos congela por dentro. É uma sensação de impotência horrível, de paragem interior dolorosa. Queremos trocar de lugar com ela e não podemos... Tudo se controla e a medicação existe para isso mesmo. Claro que, com tudo o que foi necessário, momentos houve em que o seu autismo pareceu ter exacerbado e ter havido um retrocesso... Mas estamos cá para dar a volta a isso - já o fizemos antes.
Evolução prevista e verificada na UCI, transferência para um quarto individual com wc e uns bancos compridos lado a lado que me nos permitiram esticar o esqueleto (o cadeirão é espetacular para umas sestas mas para noites é terrível... E a nossa idade já se faz notar...). A partir daí foi tentando fazer o que se esperava: alimentação gradual (não correu bem por uma série de outros fatores da própria miúda), virar-se na cama, levantar-se, reclinar-se, sentar-se, caminhar, ir ao wc pelo próprio pé, ter movimentos dos intestinos, comer sentada, subir e descer escadas. A febre decidiu dar um ar da sua (des)graça o que nos valeu mais um dia extra e a colocou num estado de desespero enorme mas que se resolveu.
No dia da cirurgia, a irmã ficou com os avós; depois começou a estar sempre connosco, durante todo o dia, e serviu de recuperação terapêutica (a ambas, a bem dizer). O pai e eu íamos revezando as noites. E tudo se fez.
Passámos a conhecer bem os meandros do HPC e já sabíamos que elevadores dão diretamente para o refeitório ou cafetaria, como ir para o estacionamento sem nos perdermos. O pessoal foi impecável, mesmo. A certa altura já nos conhecem e nós também reconhecemos outros pais, de outros internamentos.
Gostava de ter tido tempo de poder ter agradecido pessoalmente a todos com quantos privei/privámos: médicos, enfermeiros, estagiários, auxiliares (de várias áreas), administrativos, pessoal do bar/refeitório, seguranças, voluntários. Todos mas todos foram pessoas fantásticas. E estou a falar de pessoas que trabalham num hospital público, um hospital central que recebe crianças de todo o país, que fica no meio de uma cidade sem condições de estacionamento livre (nós optámos por deixar os carros dentro do hospital). Há serviços de qualidade. Há pessoas incríveis na sua área de profissão. Há pessoas com o coração no sítio certo. Há pessoas boas, apesar das adversidades da vida. E há esta miúda que conseguiu fazer rir a funcionária mais séria do serviço.
Eu acho que "obrigada" parece pouco para o que sinto mas é o que consigo exprimir, neste momento. Por isso, muito obrigada por tudo.

 

 

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publicado às 09:47

A recuperar - adios escoliose

por t2para4, em 04.04.24
É seguro dizer que estamos no bom caminho e que tudo está a decorrer dentro do expectável. Claro que não é nada fácil ver um filho numa cama de hospital, seja em que contexto for e independentemente da gravidade da condição; dói infinitamente e é uma dor fininha mesmo no coração e na alma quando chora com dores e não hesitamos em querer trocar de lugar - se isso, ao menos, fosse possível.
Mas temos também aquela silver lining: é muito jovem, é magrinha, 2 anos de ioga, natação e alongamentos ajudaram os músculos, tem uma enorme força de vontade de ir embora o mais rapidamente possível (para se ter uma noção, no 1º dia em que deu meia dúzia de passos já perguntava se podia ir embora; quando conseguiu subir e descer escadas, só faltou dar alta a si mesma) e um dos aspetos positivos que o autismo até tem: uma grande tolerância à dor (quando ela diz que sente um 7 na escala da dor, noutra pessoa seria um 9 garantido).
Temos passado os dias juntos neste T0 com wc privativo e vista para a cidade 🙂 a irmã por perto é a melhor terapia possível (para uma e para outra) e vamos caminhando, descansando, sentando à mesa, comendo, descansando, caminhando - em looping. Há toda uma mecânica no levanta-senta-caminha-roda-senta-deita e exercícios de respiração e reabilitação e sei lá que mais a que teremos acesso a seu tempo. para já, importa o imediato e é nesse objetivo que nos focamos, um de cada vez.
O número de parafusos e de pensos adesivos ou o tamanho da cicatriz não são o mais importante para já. Temos tempo de chegar a tudo isso, detalhadamente.
Autismo à parte (ou talvez por causa dele, quem sabe?), ela foi preparada para todo o processo, falou com todos os possíveis intervenientes, tirou dúvidas com os principais médicos da equipa que a operou, visitou a UCI, conquistou os corações de todos com quem se cruzou, toda a gente sabe o nome dela, é uma querida. E todos são uns queridos com ela. E eu fico assim feliz e orgulhosa e grata por termos a sorte de privar com pessoas assim, que a apoiam e a fazem sentir-se bem. Somos afortunados.
 

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publicado às 09:58

You got this. You are grand.

por t2para4, em 01.04.24
A semana mais comprida, difícil e emotiva das nossas vidas.
Do internamento para o bloco para a Unidade de Cuidados Intensivos para o internamento. A temida, ansiada, desejada mas odiada ao mesmo tempo, cirurgia à escoliose já passou. Já foi. Já está.
Os Pearl Jam passaram a ser a nossa banda do coração depois de ela, ainda sob o efeito da anestesia e medicação para as dores, cantar "Alive" na UCI 😁 e a ensaiar manguitos com o slogan imediato "fuck scoliosis" 🙈
Esta miúda é uma força da natureza e, juro, que depois destes dias, a minha escala da dor está alterada. Está miúda aguentou tudo de forma estóica, sem lágrimas, com uma resiliência e uma simpatia que, não só conquistou todos ( mesmo todos) os que privaram com ela como me mostram que há adultos que jamais suportariam o que ela suportou.
E a irmã? Uma ansiedade que acabou em meltdown (algo que já não havia há anos), uma preocupação e saudade terríveis. Mas, tal como a irmã, aguentou tudo por ela e foi buscar bom humor e boa disposição sei ls onde para lhe transmitir boas vibes.
As minhas meninas mulheres não são guerreiras, são deusas, são heroínas, são gigantes. E eu não aceito menos do que isso, da parte de ninguém.
Estamos a cumprir as etapas esperadas. Com um sobressalto ou outro, mas aqui, rock solid. Porque nem sequer há outra hipótese.
You got this. You are grand.
 

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publicado às 09:55

Vamos ser sinceros?

por t2para4, em 24.02.24
Vamos ser sinceros, sem hipocrisias, filtros ou mimimis?
Quantas vezes já nos passou pela cabeça se somos objeto de algum castigo que mereça uma punição severa na figura dos nossos filhos ou que não nos serve de nada ser boa pessoa?
Quantas vezes já sentimos inveja, ciúme, dor porque os nossos filhos são diferentes, precisam de horas de trabalhos extra, não são como os filhos do amigo/colega/tio/primo/vizinho?
Quantas vezes já pensámos se vale a pena?
Quantas vezes já nos questionámos quantas vezes temos de levar na cacholeta por parte da vida?
Quantas vezes já questionámos a religião ou deixámos de todo de ser religiosos?
Quantas vezes sentimos uma culpa avassaladora por nos queixarmos mas depois ver que há casos bem mais piores e vidas bem mais complivadas? Mas sentimos depois raiva porque também as há bem mais fáceis?
 
Eu. Eu já senti tudo isto. Eu sinto tudo isto.
Eu não percebo porque a minha família, as minhas filhas têm de ser postas - cons-tan-te-men-te - à prova nem sei bem de quê. 
Eu juro que não entendo porque insisto em ter valores, moral e princípios se, de cada vez que acho que a vida está a ser tão porreira e tudo parece estar encaminhado, lá vem uma fdp de uma avalanche para desorganizar tudo e, afinal, de que serve ser boa pessoa? Desígnio superior? Não sei, não percebo.
Eu sinto inveja e ciúme do desenvolvimento normal dos outros adolescentes; eu sinto inveja e ciúme de pais com vidas despreocupadas; eu sinto inveja e ciúme do que nunca consegui viver; eu sinto um ressabiamento e uma dor imensa por nos terem sido roubadas fases típicas das nossas vidas enquanto pais, por termos de ter dividido o nosso tempo entre escola e terapias, por ainda hoje ter de dividir tempo entre escola e terapias. 
Eu desisti de ser crente. Não consigo ver um ser divino, em nenhuma religião, que permita que crianças passem por determinadas coisas, que impeça uma criança de ser e viver a sua vida como uma criança deve viver. Não consigo conceber uma entidade que permita um sofrimento atroz em crianças e em pais que tanto as desejam e as amam.
Eu procurei ajuda. Eu fiz sessões de psicoterapia tudo certinho. Eu consegui resolver muitas coisas mas há tantas outras que não sei se alguém alguma vez poderá ajudar a resolver.
 
Estou magoada, ressentida, sofrida, enciumada, invejosa, cansada, exausta, desiludida, preocupada, ansiosa, deprimida, farta de ser forte e de aguentar tudo; quero poder gritar e chatear-me com o mundo, com a genética, com a idiopatia das coisas. Quero mesmo muito partir coisas e bater em alguém. Quero avançar o tempo e despachar já/agora/neste instante o que ainda pode ser clinicamente resolvido. E quero deixar um abraço sentido e forte a todas as mães (e pais) que perdem a paciência com a merdinh@s insignificantes dos outros e têm de ir buscar forças lá à caralh0lândia para estar sempre ali de cara limpa, firme e impecável para os filhos. Essas são mães do caraças e era nelas que eu pensava - e penso - nestes dias e, por isso, lá lavava a cara com água fria e punha o baton superstay que aguentava até as noites dormidas no cadeirão.
We got this, right?
A gente dá conta, é certo; mas a gente também é feita de carne, osso e muitos sentimentos. E eu, tenho a certeza absoluta absolutinha, que não sou a única a pensar assim ou a sentir-me assim.
 
Agora é tempo de lamber feridas, ficar no ninho e preparar um novo round. Porque é assim, né? Melhores dias virão e em breve já serei uma pessoa mais socialmente aceitável.

 

 
 
 
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publicado às 15:37

Ainda sei o que faço.

por t2para4, em 14.01.24

Já são muitos anos de vigília e atenção cuidada. E, nesta fase, a menos de dois anos da maioridade das piolhas, há coisas que eu já não tolero ouvir e não aceito.
No que diz respeito às nossas filhas, nunca fizemos nada de errado em relação aos diagnósticos que têm. Nunca. Aliás, fomos - fui! - sempre atrás de respostas e lembro-me claramente de referir sinais estranhos logo aos 9 meses de idade e de ninguém me ter ouvido. Afinal, era autismo... Se inicialmente senti uma culpa avassaladora, agora não sinto. Não posso fugir à genética, mesmo que quisesse; não haveria nada de diferente que eu pudesse ter feito desde a conceção até ao nascimento que viesse a evitar o autismo. É o que é e,no fundo, até tivemos muita sorte. Sim, soa um bocadinho a cenas judaio-cristãs mas é verdade. Podia ter sido imensamente pior.


O mesmo com a miopia/astigmatismo galopante de uma delas. O facto de só um olho ter, incialmente, dificuldades de acuidade visual, não deixava que ela mesma notasse algo de estranho na sua visão, pois o outro olho compensava as perdas. Mais uma vez, não sentimos culpa me relação a isso, não há nada que fosse feito de forma diferente que viesse a evitar este problema e estamos a resolver.


E, mais uma vez, o mesmo com a escoliose de ambas. Desde que notei que haveria ali uma pequena assimetria pélvica - tão pequena que todos me julgavam doida e fui duramente criticada quando marquei consulta com especialista -, que, em apenas dois meses, numa delas o grau passou de 42 para 43. Disseram, então, "escoliose idiopática do adolescente". Pedi 3 opiniões diferentes, incluindo a ortopedistas especializados estrangeiros que me enviaram relatório detalhado, e mantém-se o diagnóstico, o processo de ação e o desfecho que se avizinha. Sendo que "idiopático" significa "sem causa". Em 9 meses, depois de fisioterapia, natação específica, ioga e alongamentos específicos, o grau aumentou exponencialmente e, depois de muito estudar/investigar/falar com imensas pessoas que passaram pelo mesmo/conversar seriamente com a que será a nossa cirurgiã, aguardamos cirurgia. E mantemos tudo o que já estávamos a fazer. E também sabemos que, quando fizermos os exames preliminares, o grau terá aumentado novamente.
A outra também tem, embora diferente e com um grau bem menos significativo. Além de -ises e -oses vertebrais, a fisioterapia e exercícios posturais ajudam imenso. Vigiar, é palavra de ordem.
Logo, mais uma vez, não sentimos culpa em relação a esta condição, não haveria nada de diferente que pudessemos ter feito que resultasse em algo diferente.


Portanto, em relação a tudo isto, não me perguntem "E não notou mais cedo?" porque arriscam-se a levar com uma resposta muito pouco educada, bastante sarcástica e ao estilo palestra TEDtalk. Não tentem atribuir-me culpas que não tenho e não sinto.
Outra coisa que anda aqui a moer-me os fígados: elas não me estragaram a vida. Eu OPTEI racional e conscientemente por me dedicar ainda mais a elas, escolha de que não me arrependo e que não me impediu de ver o seu progresso e evoluação - algo que jamais teria acontecido se eu não o tivesse feito. EU é que escolhi esse caminho. E essa culpa que outros tanto querem jogar, também não recai nelas. Faria TUDO de novo, se voltasse atrás.


Resumindo: a culpa fica bem no confessionário. As nossas opções a nós nos cabem, ninguém controla a genética (ainda, neste campo), ninguém controla o imprevisto idiopático e, se sabemos do que falamos e do que nos calhou, ninguém tem o direito de duvidar ou questionar os pais e incutir-lhes um exagero/culpa/distorção que não existe. Não sabem o que dizer? Calam-se. Fazem melhor figura.

 

 

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publicado às 11:04

Ora, então, bom ano, sim?

por t2para4, em 30.12.23
Cenas reais de uma família real no mundo real, a poucas horas do fim de ano:
- não conseguirei ter a roupa toda lavada, enxuta e arrumada, logo, o fdp do cesto da roupa suja terá enchimento com quem passar o réveillon;
- não vou conseguir ir levar o plástico nem o papel aos contentores da reciclagem porque tenho mais que fazer nesse dia e, sinceramente, não me apetece nada andar com sacos para baixo e para cima ou dentro do carro;
- a máquina da louça terá louça suja que não será lavada pois não está cheia e não vou gastar água e luz com meia dúzia de peças e, obviamente que não irei lavar à mão;
- não vai dar para limpar o pó aos móveis como eu queria - mas, pelo menos, o chão e tapetes estão aspirados e mopados;
- a minha secretária vai continuar com papéis, cadernos e cenas amontoadas até eu me sentar para começar a preparar as aulas de janeiro.
Com coragem e determinação, vou fazer um bolo e alguns petiscos e vivóvelho.
Estou demasiado cansada, um pouco desanimada e muito pouco entusiasmada com a proximidade de 2024. Será um ano muito desafiante e desafiador e não sei se será tudo tão fantástico e floribelo como se sonha nestas horas pré-ano-novo.
Ou seja, basicamente, estou sem paciência e com vontade de hibernar. Mas, não podendo ser possível, olhem, que venha comida e bebida. E umas séries e filmes porreiros. E mais um pouquinho de comida e bebida. (Em 2024 faço exercício físico ahahahhahahahahahahahahahahahahahahahahaahhaahhahahhhhahahhahahahahahahahahahahahahahahah)
Mais real creio que é impossível.
Por isso, com ou sem cuecas - coloridas! heheheh - bom ano a todos. É só uma volta ao sol 😉
 
 
(Para todos verem: flutes de champanhe em cima de um cesto de roupa para dobrar)
 

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publicado às 19:06

No final desta semana vai ser submetido a votação final global o diploma sobre a autodeterminação da identidade de género nas escolas. Não tenho absolutamente nada contra quem não se identifica com o género com que nasceu (e já escrevi sobre isso, mas não esqueçamos a biologia e tudo o que isso acarreta) mas estamos a começar a confundir o que realmente é inclusão. E, desculpem lá, meus amigos, inclusão não é o Tó que em casa se assume e identifica como meninO mas, na escola, quer ser Maria e identifica-se como meninA e, já que a lei o permite, escolher ir às casas de banho femininas e balneários femininos. O mesmo pode acontecer com o género oposto.
Sou muito à frente em muitas coisas mas NÃO concordo com esta proposta. E desejo vivamente que não seja aprovada. Vamos imaginar o regabofe que vai ser: os miúdos todos misturados a fazer o que bem entendem, a abusar da sua (e da dos outros!) liberdade, alguns mais velhos a ameaçar mais novos, uns a troçar dos outros, uns a agredir os outros e, chego até mais longe, sim, alguém pensou no assédio? na perseguição? na hipótese de violação?

Deixem-me fazer uma pequena partilha pessoal: detesto ir a casas de banho públicas, incluindo as de shoppings; odeio mesmo balneários (quando fazia natação era um pesadelo para mim trocar o fato de banho molhado por roupa) e nunca tomei duches lá (nem quando fazia ginásio) - detesto mesmo. Odiava, desde miúda, as comparações de corpos entre colegas meninas. Não há privacidade nenhuma e estamos todAs perante o mesmo: mulheres e miúdas, tudo genitalmente igual. Agora extrapolem isto para um género misto.
Agora deixem-me propor este desafio: imaginem a vossa filhA, sossegada da vida, numa casa de banho, a mudar o seu tampão ou penso higiénico ou num balneário a mudar a roupa interior depois do duche (ou até no duche) mas estas instalações são mistas e partilhadas. Ninguém pensa na reserva da vida privada. A de uns e a de outros.
Não importa a idade, não importa o género, não importa nada, desde que haja inclusão.


Inclusão? Inclusão?


Meus senhores, inclusão é tratar antes e acima de qualquer coisa de cumprir a Constituição Portuguesa da República e cumprir os direitos que todos temos - incluindo a pessoa com deficiência.
Em pleno século XXI, ainda há escolas sem acessibilidades físicas (por que não pode o meu filho de cadeira de rodas entrar pela porta principal mas tem de o fazer pelo portão das traseiras onde só há pó e lama? Há casa de banho adaptada? Mesas? Portas com largura suficiente?); ainda há escolas com docentes com mentalidades retrógradas (ai, este menino, não pode ir fazer um secundário. Eu já dou aulas há 40 anos e já apanhei muitos casos e não eram assim. Não tenho de aplicar medidas. Ele qualquer dia vive de subsídios. Ele nem o nome escreve!); ainda há agrupamentos que recusam aceitar crianças com deficiência (não há recursos humanos nem condições para receber crianças assim. Mas a lei... Sim, mas o ministério não coloca mais ninguém); ainda há balcões da segurança social a transmitir informações erradas e desatualizadas a pais de/a pessoas com deficiência; ainda há programas de televisão não acessíveis a todos; ainda não há o cuidado de a própria Assembleia da República também escrever as suas leis em Comunicação Acessível (e não falo de CAA ou uso de pictogramas mas sim de palavras simples e diretas, textos concisos e menos rebuscados); ainda tem de haver uma política de proteção da mulher (da mulher!!!!!) porque ainda existe violência doméstica; ainda há milhares de pessoas sem acesso a cuidados básicos de saúde (direitos que estão na Constituição, lembram-se?) nem médico nem enfermeiro de família; ainda existe bullying nas escolas, nos hospitais, nos locais de trabalho; ainda há a promoção descarada da meritocracia, o compadrio, a cunha; ainda há o "dar um borrego para passar", noutra descarada corrupção; ainda não há cumprimento de prazos nem orçamentos em nenhuma obra (mas ai do contribuinte que passe 1h que seja depois do prazo); ainda há discriminação de género, racial, social, etária, financeira, literária, física.
Podia continuar mas estou cansada. Farta mesmo.
E anda este país a divergir atenções para casas de banho mistas e a dar azo a uma série realista de potenciais problemas graves quando há tanto mas tanto mais grave para resolver? Por favor, bastava criar um espaço misto extra, nada de extraordinário! Mas não misturem inclusão nisto!


Quando for altura de ir às urnas, pensemos no amanhã. Eu já tive de lutar por tantos direitos que são alienáveis. Vamos continuar nisto até quando?

 

E que não me venha ninguém chatear a moleirinha porque ah e tal mas és contra trans e comunidades tal? Não, não sou. Mas antes de viajarmos na maionese a pedir direitos que essas pessoas já têm e ninguém lhos tirou, pensemos nos direitos que outros também têm mas já foram - ou são - negados.

 

EDIT: Há a referência a que deve ser assegurando o bem-estar de todos, procedendo-se às adaptações que se considere necessárias. E todos, são todos aqueles que frequentam a escola. Pelo que não é aceitável que a solução encontrada pela escola sejam casas de banho mistas e não o acesso a uma casa de banho fechada, não partilhada com outros colegas.
Aguardemos.
 
 

 

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publicado às 16:23

Este ano ainda não comecei oficialmente com o assinalar do Dia Internacional da Pessoa com Deficiência (não é a celebração, minha gente!! Paremos de romantizar a deficiência!) mas já tenho uma ideia concreta e um plano de ação do que fazer com as minhas turmas - e respetivas adaptações às respetivas realidades.
E, depois de uma formação na área, muito interessante, fez-se o click que faltava: comunicação acessível. E, como nos foi dito e poderá servir de mote, comunicação acessível é comunicação total. E isto é válido para pessoas com deficiência mas também para pessoas sem qualquer tipo de comprometimento ou dificuldade.
E lembrei-me do cartaz que está numa das minhas salas e que ilustra os direitos básicos das crianças (sendo assinalada também a criança com necessidades especiais) e ocorreu-me que, de forma acessível e simples (sem ser simplista ou capacitista mas sim com o intuito de capacitar), abordar também as questões legais relativas à pessoa com deficiência. E nada melhor do que usar o exemplo que a @fenacerci criou com o documento "Convenção das Nações Unidas sobre os direitos das pessoas com deficiência" - comunicação acessível é o tal triângulo (ou tríade, se formos para uma palavra muito pouco acessível que podemos já desconstruir) de interações, documentos e contextos. E já que tenho a interação e o contexto, por que não o documento?
Avançarei com um story telling* (e posterior exploração) que pretendo que envolva como bons resultados, além da sensibilização, consciencialização e aceitação da diferença/(neuro)divergência/deficiência, a resolução de problemas, a criatividade, a compreensão da linguagem e, claro, o aproveitar aquele momento e o gostar de aprender.
Será diferente pois somos todos diferentes - e não há absolutamente nada de errado nisso - mas com direitos iguais - algo que muitas pessoas ainda desconhecem.
 
Portanto, por que não, de forma acessível, falar de coisas sérias, sem "simplistificar" nem infantilizar?
Vai o desafio? ;)
 
*feedback na próxima semana ;)
 
(imagem da capa do documento criado pela Fenacerci em versão leitura fácil, com código de cores lateral)
 

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publicado às 23:18

Este ano estou numa escola nova (depois de uma pequena vida noutra) e os alunos são qualquer coisa de bom, a sério. E são muito curiosos e, claro, mesmo durante as aulas, enquanto nos organizamos (cadernos, livros, o meu computador, etc.), conversamos. Gosto muito deste pequeno "ritual" que ninguém criou e que surgiu espontaneamente. Creio que é bom para todos. Adiante. A certa altura, expliquei que estava à espera de um telefonema importante da escola das minhas filhas e que, por isso, eles ficariam a trabalhar um pouquinho enquanto eu atendia (explico sempre o porquê de eu estar disponível no telemóvel pessoal, sempre). E segue-se um pequeno momento:
"Que idade têm as tuas filhas?" - 16 anos
"Quantas filhas tens?" - duas
"As duas com 16 anos?" - Sim
"Ah, são gémeas?" - sim (eu tenho, este ano, 3 pares de gémeos 😃 adoro)
"São gémeas verdadeiras?" - Sim, são.
"E tu não te enganas a distingui-las?" "Oh, E. claro que não! A teacher é a mãe!" (não lhes disse que, se calhar, no meio da loucura extrema de noites sem dormir e fraldas e gritos quando tinham meses de vida, deveremos ter trocado uma pela outra...)
"E não tens mais filhos?" Não. E agora já estou um bocadinho velha para isso...
"Olha, teacher, a minha mãe ia ter 3 filhos mas o do meio não nasceu..."
"Também aconteceu isso à minha mãe. Eu podia agora ter mais irmãos mas a gravidez não avançou"
Sim, às vezes, com ou sem motivos, isso acontece. Também me aconteceu. Dói mas estamos aqui. Vamos trabalhar um bocadinho? Ok, let's go.


E serve esta conversa toda para quê? Para partilhar o que eles partilharam comigo: a perda gestacional de que, felizmente, cada vez mais se fala e cujo acontecimento deve ser sensibilizado. Acontece e tantas vezes nem sequer há uma justificação para isso... O que me surpreendeu mais foi o facto de os meus meninos terem conhecimento do que se passou com as suas mães, tal como as minhas filhas têm conhecimento de que, durante a minha gravidez delas estiveram sempre acompanhadas por uma bolsa vazia e que, em 2016, houve um bebé que não se formou. E isto é confiar, ensinar e sensibilizar, é envolver todos. A seriedade com que partilharam este momento tão íntimo e doloroso mostra que, apesar da sua idade, sabem do que falam e que doeu aos pais (se calhar, ainda hoje dói); mostra que não há vergonha em dizer que aconteceu e que acontece com imensas mulheres; mostra que os tempos estão realmente a evoluir e que se encara a perda gestacional, independentemente de quando acontece, como uma perda em que há dor e um luto a fazer; mostra que um filho nunca é substituível e todos entram na família; mostra que há ali um sentimento de amor da parte de todos; mostra que se fala abertamente da realidade.


Quando eu digo que ensino crianças (e que até é a faixa etária que prefiro) mas que também aprendo muito com elas, poucos acreditam. Mas é a mais pura das verdades. Esta semana aprendi, com eles, que a resiliência infantil vai muito para além do que possa acontecer diretamente com eles próprios e que os momentos de partilha (de parte a parte) são também uma pequenina parte do processo ensino-aprendizagem. É uma relação de dar e receber, sempre.

 

 

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publicado às 10:04


O delas começou a meio da semana mas já nem precisam dos pais para nada. Vão sozinhas às apresentações, tratam do que precisam, organizam-se e reclamam um bocado por terem de se levantar cedo (como se levantarem-se às 8h30 ou 9h fosse muito tarde... elas não são aquelas adolescentes que dormem 20h, isso não acontece, nem com noitadas).

O meu começou hoje. E, 20 anos depois, ainda há aquela ansiedade, aquele nervoso (que de miudinho não tem nada pois despoletou cá uma crise de rosácea que pareço uma adolescente cheia de acne, ohbalhamedeuze). Mas é sempre tão bom regressar...

E de resto? Voltam as rotinas: as atividades extra escola (algumas por questões clínicas) e novos projetos e maneiras de nos organizarmos sem nos perdermos nem acharmos que temos tempo infinito para tudo. Hoje ainda deu para fazer calendários magnéticos mensais para o frigorífico, tratar de alguma burocracia e, pasme-se, fazer uma sesta no sofá. Não lamento nem me arrependo.

 



O que desejamos para este ano letivo? Mais do que boas e excelentes notas, desejamos que sejamos alunos e professores felizes, que peçamos ajuda quando precisamos, que respeitemos o outro, que sejamos empáticos, que sejamos capazes de perceber que a escola também é importante mas não o mais importante. E que nunca nos esqueçamos do nosso autocuidado, enquanto alunos, pais, professores. Não somos nem queremos ser máquinas.

Um bom ano letivo, boas aprendizagens, boa escola!

 

 

 

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publicado às 21:54

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