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É o meu corpo e ponto final

por t2para4, em 04.08.18

Adoro quando regressam os dias de sol e de calor e irrompem de todo o lado mil anúncios a ginásios, dietas, cremes anti-celulite, suplementos e até exercícios localizados. Só que não.

Qual é que é o ponto de pressionar as mulheres - e os homens, já começo a ver que também surgem ataques disfarçados à figura física masculina - para se ter um suposto corpo perfeito? Mas, por acaso, a perfeição é gradualmente tornarmo-nos todas iguais umas às outras, entupidas de botox, sem expressões faciais, sem características pessoais únicas? 

Não, obrigada.

A sério.

 

Demorei anos a aceitar-me. Passei todos os meus anos de escola - todos - insegura de mim mesma: ou era o cabelo (que não era liso) ou eram as unhas (que não existiam por roê-las) ou eram as pernas (que ameaçavam celulite) ou era o aspeto (alta demais, achava-me feia) ou era o queixo (comprido demais). Por favor! Se eu pudesse voltar atrás dava a mim mesma uma carga de porrada e mostrar-me-ia que posso ser firme, segura de mim mesma e confiante sem ligar às opiniões de terceiros e sem ter que me comparar com ninguém. 

É exatamente isto que digo às piolhas sempre que surge uma oportunidade. Nunca as ouvi queixar-se do que quer que seja do seu corpo (ainda é cedo para estas crises) e quando falam de borbulhas no nariz, elas próprias, com naturalidade, dizem que é a puberdade.

 

Eu não sou perfeita Mas sou perfeitamente capaz de aceitar os meus defeitos inestéticos. Uma gravidez múltipla trouxe-me estrias na cintura e falta de definição na barriga, esticou a minha pele a um estado tal que consigo ver onde engelha por causa dessa elasticidade; uma amamentação mal sucedida e uma subida do leite inesperada trouxeram estrias às minhas mamas e fê-las descaírem; essa mesma gravidez e um aborto espontâneo há uns anos agravaram a celulite nas minhas pernas e despertaram uma rosácea terrível na minha cara que só ameniza com pomada antibiótica. 

Não estou tonificada nem morenaça nem musculada. Não tenho o cabelo esticadinho, perfeito e sempre no lugar. Não uso maquilhagem todos os dias. Já não consigo usar saltos agulha.

MAS...

Estou com um corpo incrível para quem passou por 2 cirurgias à barriga e passou por 2 gravidezes, sobreviveu a uma lesão grave intermuscular e lesões cerebrais que requereram medicação tão forte que me fez cair o cabelo, dar cabo da pele e enfraquecer as unhas.

Não tenho paciência, nem dinheiro, nem vontade de encher o cabelo de químicos. Nem sequer tenho vontade de me pentear e só o faço quando lavo o cabelo. Sigo um cronograma capilar de forma séria, arrisquei um corte de cabelo novo e ganhei caracóis e ondas que defino com creme de pentear ou espuma. E penteio-me com os dedos.

De vez em quando, quando as costas e as folgas me permitem, faço algum exercício físico. Mas, há de contar como reforço subir 3 lanços de escadas com kg de sacos de compras, materiais da escola, filhos, etc. Porque, de uma coisa estou certa, tudo isto me sai do coiro.

Tenho celulite e, este ano, depois de muitos muitos muitos anos a recusar sequer ter algo do género no meu roupeiro, usei vestidos e saias no inverno (com collants e não leggings) e estou a usar e a abusar dos calções, vestidos e saias no verão (de perna ao léu, mesmo).

Tenho uma barriga magra e lisa que não é tonificadinha mas uso bikini e bikini usarei até me fartar. 

Desisti de fazer a depilação só para, supostamente, agradar ao marido (quando ele, na realidade me confessou que não liga nada a isso) e faço por mim: porque detesto pêlos, porque é mais higiénico, porque vou usar uma saia ou um bikini e porque eu controlo esse processo (faço com máquina em casa e tenho pouquíssimos motivos de sofrimento).

Desisti de disfarçar os brancos. Ainda pintei o cabelo várias vezes com coloração permanente e com a que sai com lavagens. E, um dia, um mês depois de o ter pintado, apanhei piolhos (quando supostamente não entrariam em cabelo pintado). Apanhei uma neura tal que desisti. Estou com imensos fios brancos e quase quase na minha cor natural. E sinto-me muito bem.

Deixei de usar cremes de dia, de tarde e de noite. Além daquelas bodegas me atiçarem a rosácea, esquecia-me de usar como deveria e em dias de calor absurdo como agora, eu ficava um nojo maior. atirei tudo fora e utilizo água termal, a tal pomada quando necessário, leite de limpeza da marca Cien todas as noites. E chega que não tenho paciência para mais. Nem dinheiro.

 

O que quero daqui retirar é que, desde que aprendi a aceitar-me assim como sou e a ter a noção de que o esforço a que submeti o meu corpo e a idade que começa a fazer-se pesar, sinto um alívio imenso e me sinto realmente melhor. Não sou nenhuma hippie! Adoro usar maquilhagem e não saio de casa sem lápis/rímel e baton. Adoro salto alto (passei a optar por uns mais baixinhos ou por salto cunha) mas há looks incríveis com botins, sandálias e sapatilhas. Comecei a usar roupas com as quais me sinto verdadeiramente confortável e bem. Arranjo as unhas, quase religiosamente, há coisa de dois anos com a melhor pessoa que podia imaginar, que sabe o que faz e não arrisca estragar o pouco que há e que faz autênticos milagres.

Não quero que as minhas filhas passem pelo horror que eu passei e tenham vergonha de sorrir para uma foto porque acham que são feias. Tudo coisas parvas da nossa cabeça e sem razão para existirem. Elas são lindíssimas (eu sei que sou altamente suspeita e imparcial mas é verdade) e não precisam nem têm necessidade de pensar ou de se rebaixarem ao ponto de não se aceitarem como são. Já basta o que basta.

Tudo com conta, peso e medida. Ignorar e evitar ataques, serem saudáveis e terem cuidados básicos com a saúde (e, por acréscimo, com o corpo) e serão sempre belas. Porque envelhecer não tem que se tornar no horror e na fogueira de vaidades plastificadas e sem heterogeneidade que se apregoa por aí. Pode ser natural. 

 

Para já, espero que, como adolescentes, as piolhas não sintam nem sofram a pressão de serem uma ou outra figura. Espero e tentamos que sejam elas próprias, com o gosto delas e que saibam aceitar-se. São lindas, saudáveis e felizes. 

Como dizem os meus caríssimos e queridos Dr. Watson e Sherlock Holmes, "it is what it is".

 

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publicado às 16:48

Tagarelice #58

por t2para4, em 30.07.18

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Costuma dizer-se que há 3 coisas que dizem a verdade: As crianças, os bêbedos e as leggings.

As minhas crianças, do alto da sua ausência de filtros sociais, são qualquer coisa de transcendente. E de hilariante. Sobretudo porque, além da fala, esta situação envolve... mamas - as minhas mamas.

 

Long story short, apareceu do nada e de repente, um quisto no quadrante esquerdo inferior da minha mama esquerda que inflamou forte e feio a ponto de ficar vermelho, com febre e dores horríveis. Além da repetição do exame (tinha feito uma eco mamária no dia 13 deste mês), envolveu vários pagamentos de taxas moderadoras e brufen fixo por uma semana de 8h em 8h, isto se correr bem e não necessitar de antibiótico.

Ontem, já com ideia de fazer consulta de reavaliação amanhã, estava a preparar-me para tomar duche enquanto as piolhas estavam a acabar de se vestir. Verifico se o caroço se nota e aviso as piolhas que no dia seguinte teriam de ir comigo à consulta e que era para se portarem bem. Entretanto, vão perguntando se me doi muito, que já não está vermelho, que pontinhos eram aqueles perto do mamilo, porque é que as minhas mamas eram diferentes. E eu respondo que era adulta e daí serem diferentes e que o mamilo/auréola é por norma acastanhado e é tudo normal. 

"Não mãe, diferentes assim, parece que estão a cair".

Very nice. Quem ia caindo era eu, já que as mamas, aparentemente, já tinham caído. E lá lhes respondo, depois de um loooooooooooooooongo suspiro, "fui mãe".

Ora, o processamento auditivo das piolhas, às vezes, também deixa a desejar.

"Fumaste??? E as mamas ficam assim?"

"Não, filha, eu    fuuuuuiiiiiiiiii   mããããããããeeeeee; não fumei; vocês nasceram e eu fui mãe."

"Ah, pensei que era fumar, eu nunca nunca vou fumar" (menos mal, venham as mamas descaídas... Já valeu a pena)

"Fui mãe, vocês não facilitaram com a amamentação, as minhas mamas nunca foram grandes e não há nada que um soutien não resolva. End of story"

 

E foi mesmo.

E eu fiquei semi deprimida a pensar que vou continuar a apostar em bons soutiens (daí a palavra que, no francês, quer dizer "apoio, suporte"). Bem preciso de "soutien" - qualquer que seja a tradução agora.

Também precisava de um gin ou de uma somersby ou assim mas com ibuprofeno é capaz de ser má ideia, pelo que, fico eu com as minhas feridas mamas semi descaídas e os meus soutiens.

 

 

 

 

 

 

 

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publicado às 21:48

Decreto-Lei nº 54/2018 de 6 de julho

por t2para4, em 06.07.18

Já saiu o novo Decreto-Lei que vem substituir o DL 3/2008. Na altura da discussão aberta, estudei e acabei por me envolver com uma equipa de trabalho em relação às nossas questões, receios, interpretações, etc.

Não vou tecer, para já, nenhum comentário em relação a este novo documento. Não sei se será melhor ou pior. Para já, assim muito ao de leve e sem corroboração palpável, assustam-me as Equipas Multidisciplinares, nomeadamente, nas pessoas que serão selecionadas para fazerem parte dessas equipas. Mas, nada como ver no terreno como se desenrolarão as coisas. 

Não esquecer que, a partir de agora, é sobre este documento que incidirão as  medidas a ter em consideração para os nossos filhos, tenham eles necessidades educativas especiais ou não, sejam elas provisórias ou de caráter permanente, sejam elas quais forem.

Indo e vendo...

 

Aqui fica o link para o DL.

https://dre.tretas.org/dre/3393139/decreto-lei-54-2018-de-6-de-julho

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publicado às 12:32

Tecnologia q.b.

por t2para4, em 04.07.18

As piolhas têm acesso ao que a maioria dos nossos jovens também tem acesso. Sabem usar com destreza e qualidade um computador, um tablet, um telemóvel. Mas tudo com conta, peso e medida e, acima de tudo, regras.

Isto a propósito de alguns dos comentários que fui deixando no Facebook.

A tecnologia, em especial no computador ou tablets, ajudaram imenso as piolhas. Mas fomos nós que selecionámos o que usar e como usar. Com o acesso ao telemóvel e ao sistema de escrita inteligente, as piolhas passaram a ter mais atenção ao que escreviam e com escreviam. Notei que melhoraram o discurso escrito e o uso de alguns vocábulos. Sempre vinquei a importância de escrever sem erros, mesmo num sms.

Mas, mais uma vez, o acesso cá em casa é feito com conta, peso e medida e, acima de tudo, regras.

 

Tablet

Usávamos como distrator em viagens grandes, de auto-estrada, mas este ano já acabámos com isso. Não há mais tablets a sair de casa (à exceção de quando estão à espera uma da outra pela aula de bateria - só há uma bateria na escola).

Há um horário estabelecido por nós - e já é bem esticado - para o seu uso: depois do pequeno-almoço até às 9h e ao final da tarde entre as 18h30 e as 20h. Raras vezes há exceções para o seu uso entre estas duas hipóteses.

Como estamos em casa, no tablet há as apps que mais utilizam (maioritariamente jogos em rede - os nicks são nicks e não os nomes, obviamente -, jogos de bateria, My Town, etc.). A câmara do tablet está tapada com um pouco de fita-cola negra para evitar hackings por imagem e não têm acesso à conta que gere as apps (logo, é impossível fazerem compras, por exemplo).

As regras são bem definidas sob pena de ficarem sem o tablet: nada de apps a pagar, nada de compras em jogos, nada de cartões de jogos, nada de fotos delas, nada de dados delas.

 

Telemóvel

Ambas têm um smartphone de 2010, pequeno e maneirinho, mas com uma série de limitações que provocámos: dados móveis barrados na rede pela operadora (basta ligar a pedir), nada de apps, nada de bluetooth, lista de contactos apenas com os números uma da outra/mãe/pai, só é usado durante o dia de escola e está desligado durante as aulas, está desligado e à parte em casa desde que chegam até à manhã do dia seguinte, tarifário livre (basta um carregamento de 6 em 6 meses para manter o número). O único extra é poderem tirar fotos. Fora disso, é um telemóvel no verdadeiro significado da palavra: ligam, atendem chamadas, enviam e recebem sms.

 

Computador

Para além de usarem como ferramenta de trabalho para a escola ou de lazer com o Paint, é uma espécie de tablet com teclado físico e um rato. Costumam usar para navegar na net ou para jogar. Tal como o tablet, a câmara está tapada com fita-cola negra (todos os nossos computadores estão). Têm emails configurados do nosso servidor para uso escolar apenas.

 

Redes sociais

Não têm. A única exceção - e que é totalmente controlada por nós - é o YouTube. Criámos um canal - do qual não vou fazer publicidade nem divulgação - para que possam publicar os vídeos que vão fazendo. Que vídeos são? Coisas delas como brincadeiras com as barbies ou com os póneis onde inventam histórias tipo filme, gravações do que fazem no tablet ou no pc. 

Há regras de ouro que nunca podem ser violadas: não podem mostrar-se. Todos os vídeos onde se diga o nome delas ou elas apareçam, não são publicados, guardamos para nós, nos nossos discos. Os vídeos que publicamos só têm a voz - em inglês ou português- mas as imagens são das mãos ou dos ecrãs ou das bonecas ou dos póneis.   

 

As piolhas não são diferentes dos pares nesta fase e já perguntaram quando podem ter WhatsApp ou Facebook ou Instagram. E nós respondemos que têm de ter calma, que há um tempo para tudo e que, por regra, estas redes sociais apenas permitem criação de perfis a partir dos 16 anos (se não aldrabarmos a coisa). "Mas a nossa colega E. já tem e a S. também". Pois mas eu não sou a mãe da E. nem da S. nem elas são minhas filhas. Com a vida dos outros posso eu bem. Para já, isto é o que temos e é para quem quer senão tambem podemos, perfeitamente, passar uma semaninha a fazer um detox de tecnologia... "Não, não, está tudo bem." Claro que está.

 

Provavelmente terão acesso a essas redes antes dos 16 anos. Não vou ser hipócrita a ponto de negar ou impedir isso mas terão que ter regras e atenção ao que fazem. Se até aqui, nos jogos em rede, a maioria dos jogadores com quem jogam até conhecem na vida real, lá há alguns que não conhecem e já percebem que não se pode partilhar tudo, não se pode dizer tudo e que a Internet é sombria, também tem um lado muito negro e perigoso. E, pasmem-se, não temos bloqueios infantis ativados. Pode perfeitamente aparecer algo pornográfico ou pior se fizerem a pesquisa errada no Google, mas a realidade é essa. Elas terão de aprender a separar e a destrinçar a informação importante do lixo.

Não queremos negar o acesso à modernidade mas queremos que sejam responsáveis no seu uso, como têm sido até agora.  E, para já, o que têm já é imenso. Haverá tempo para o resto. Com calma.

A última coisa que quero que façam - e é para isso que as alerto e, às vezes, lá vem um castigo - é que se tornem umas screenagers zombificadas (screen: ecrã; agers: de idade, tipo adolescente). Tudo com conta, peso e medida.

 

 

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publicado às 19:14

Clássicos (verbais) da maternidade #3

por t2para4, em 25.06.18

Eu acho que este é O clássico e deveria ter sido logo o primeiro, mas pronto, está no top 3.

 

Perante a recusa sistemática da nossa cria /aluno/criança em relação a qualquer coisa, colocar o ar mais sério deste mundo, semicerrar os olhos (acho mais assustador do que abri-los e isso assuta-me pois lembra-me uma colega que tive há uns anos que tinha uns olhos enormes saídos das órbitras. Quando ela se enervava e abria ainda mais os olhos, até eu me escagaçava toda...), levantar a mão e dizer bem alto e com firmeza:

 

Eu vou contar até 3. Um.... Dois... 

 

 

O truque aqui é ser-se tão firme que não há hipótese de chegar ao 3. Além disso, como eles não sabem o que aontece ao chegar ao 3, a gente deixa-os na dúvida, não vá abrir-se um portal para outra dimensão... 

 

 

 

 

 

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publicado às 10:00

Oh meu rico São João

por t2para4, em 24.06.18

Foram anos a fugir ao São João e às suas celebrações. Ou passávamos as festas entre portas, com tudo fechado para não se ouvir nadinha (abençoados vidros duplos) ou íamos para longe (no ano passado, estávamos por esta altura em Espanha... ai saudade). O que nos levou a este comportamento foi tão doloroso que, mesmo sem o dizermos em voz alta, acabámos por desistir... Podem ler tudo aqui. Foi em 2012. No ano seguinte, ficámos em casa mas a avó e a tia lá fizeram um milagre acontecer e conseguiram pôr as piolhas a andar de carrossel (de tarde, claro, com a feira vazia...)

 

Este ano, depois de muitas discussões e avisos sérios da minha parte em relação ao comportamento de férias, informei que, tal como habitualmente e independentemente do meu cansaço, onde eu e o pai fossemos, as piolhas iriam também e ponto final na discussão. Assim sendo, "meninas, amanhã vamos ao São João. À noite. E não quero ouvir mais nada."

Fomos à praia de manhã, almoçámos fora, voltámos à praia para brincar na areia até estar demasiado vento para lá estarmos. Viemos para "casa" ver se o recinto da feira estaria aberto e ir aos carrinhos de choque. Não estava, logo, decidiu-se, entre os quatro, que o faríamos no final de jantar, quando ainda não houvesse muita gente por lá. 

Jantámos e, por volta das 20h45, estávamos a sair de casa, a pé, super confortáveis e eu de mochila pronta para todas as ocasiões e imprevistos. As piolhas confessaram-se ansiosas mas dissemos que era como se fosse um dia normal mas mais longo porque estávamos na noite mais curta do ano e haveria luz até mais tarde, que não haveria horários e poderiam deitar-se muito tarde e levantar-se muito tarde (spoiler: levantaram-se às 7h30).

 

No caminho até ao recinto da feira, o que mais surpreendeu as piolhas foi terem encontrado imensos colegas de escola. O choque foi tal que, a certa altura, uma delas, dizia que queria sair à noite com os amigos e perguntou-nos se podíamos ir ao bairro das tasquinhas (onde basicamente se enfiam em duas ruas estreitinhas toda a nossa localidade e concelhos vizinhos). 

 

A noite foi incrível. Conseguimos empoleirá-las num muro a ver as marchas populares, com vista de camarote; conseguimos andar nos carrinhos de choque e passear pelo recinto da feira sem confusões; encontrámos imensa gente conhecida e até pediram para tirar fotos com um manjerico iluminado gigante de fundo. No final, antes da invasão saudável e da folia do pessoal, fomos às tais ruas estreitinhas ver o ambiente e sentir o cheiro a sardinha assada e bifanas. Ainda vivemos um momento caricato no caminho: uma senhora sozinha ia à nossa frente a caminho do bairro das tasquinhas e o grupo dessa senhora (aí dos seus 70 anos) vinha atrás de nós. De repente, ela avista uma tasquinha, pára e pergunta para o ar: "Queres sardinhas?". Uma das piolhas, que vinha diretamente atrás da senhora, responde "Não obrigada, não somos grande fã de peixe." Não sei se a senhora ouviu mas eu achei o máximo. Depois lá lhe explicámos que a senhora estava a dirigir-se ao grupo dela, atrás de nós; ela não nos conhecia de lado nenhum para estar a perguntar por sardinhas...

 

O comportamento das piolhas foi de tal forma incrível que vínhamos felizes e extasiados para casa. É certo que chegámos a casa pela meia-noite qual Cinderela (mas toda a gente de sapatilhas nos pés, ninguém perdeu nada), é certo que ainda ouvimos muitos mimimimimi e muitos "que horas são" e muitos "tenho sono, estou sonolenta" mas aguentaram e usufruíram e verificaram que conseguem fazer o que fazem muitos muitos outros conhecidos - os amiguinhos incluídos. E que felizes elas ficavam quando encontravam algum e as cumprimentavam. 

 

Pasito a pasito, um de cada vez, conseguimos. Hoje estão um pouco descompensadas mas já o esperava. Não se pode ter tudo. Mas nada que se compare ao que vivemos há 6 anos. Nada mesmo. Parecem - e nós igual - outras pessoas. 

Hoje estou histericamente feliz. Com disse uma amiga "Devagar, devagarinho, se vai ao longe. Eh pá, já vos perdi de vista". E eu não poderia estar mais grata por isso.

 

 

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publicado às 15:43

Consulta record no dentista

por t2para4, em 06.06.18

Um longo caminho foi precorrido desde a primeira ida ao dentista com as piolhas. Nesta fase, já não necessitamos de preparação prévia - basta um aviso de que no dia tal há consulta, às tais horas -; já não necessitamos de negociação, chantagem, recompensa - basta um informar de que, no final do dentista, vamos às compras ou a casa da avó ou para casa-; já não necessitamos de explicar tudinho ao pormenor do que se vai fazer e utilizar - basta uma informação geral do procedimento.


As piolhas já não parecem as mesmas. Temos cumprido religiosamente as idas ao dentista de 6 em 6 meses pois as cáries e  selagens a fazer estão todas tratadas; a desmineralização dos dentes de leite está progressivamente a desaparecer à medida que caem esses dentes afetados e nascem os definitivos; os dentes definitivos estão a nascer direitinhos e nos respetivos locais. Para já tudo bem - e ainda bem!

 

A nossa última consulta foi num destes sábados, à habitual hora. Demorou menos de 5 (cinco) minutos. Com as duas! A sério! Nada de cáries, nada de lesões, dentes saudáveis a nascer, dentes a abanar no timing certo, tudo a correr bem. Desta vez, as piolhas já iam para entrar e ficar sozinhas, sem a minha presença, afinal, estão umas crescidas e, começando desde cedo a tratar dos problemas dentários, ir ao dentista não causa medos nem procedimentos mais complicados.
A próxima consulta ficou então agendada para daqui a meio ano, pois claro. Até lá, cairão imensos dentes e teremos o problema de um dos molares de uma das piolhas resolvido.

A piolha sofre de bruxismo (ranger os dentes) e partiu um dos dentes que, desde essa altura, tem estado em constante vigilância. Já abana pelo que, em breve, teremos menos uma chatice.
Quanto ao que fazer futuramente, talvez selar todos os dentes mas logo se vê.
Quanto ao bruxismo da piolha, um dia destes falarei do assunto, mas, para já e dada a fase de crescimento maxilar e dentário, não pode usar qualquer tipo de aparelho. É aguardar e vigiar. E agir, se for caso disso.

 

Convém adicionar que nunca houve qualquer tipo de mensagem egativa ou de incutir de medos em relação ao dentista. Ir ao dentista é tão natural como ir ao médico de família fazer um check up. É necessário e faz parte das nossas ações para estarmos bem e saudáveis. E um ambiente descontraído e informal faz milagres. 

 

Um passo de cada vez para chegarmos (muito) longe. E pensar que esteve em cima da mesa a hipótese de sedação e ida ao bloco... Chegámos mesmo muito longe.

 

 

 

 

 

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publicado às 16:25

Clássicos (verbais) da maternidade #2

por t2para4, em 04.06.18

Ou "como me tornei na minha mãe sem me aperceber" #2

 

Dado o tempo meteorológico bipolar, incerto, instável, depressivo e sei-lá-mais-o-quê que temos tido, honestamente, não sei o que vestir às piolhas ou preparar para as aulas de Ed. Física. Na dúvida:

 

Leva o casaco que podes ter frio. Eu vou trabalhar e não posso ir levar-to à escola. (insistir, abrir os olhos, levantar o sobrolho e fechar bem os lábios. Ganhei) 

 

 

(Aparte: já não é a 1ª vez que, face ao "és chata" da parte do pai e insistências das piolhas em não levar casaco, que as mesmas, no primeiro intervalo da manhã, me telefonam "Mãe... estás a trabalhar? Podias vir trazer-me um casaco quentinho? Está frescote..." Ahhhh, mãe sabe.)

 

 

 

 

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publicado às 09:31

Clássicos (verbais) da maternidade #1

por t2para4, em 03.06.18

Ou "como me tornei na minha mãe sem me aperceber" #1

 

Inicio esta rúbrica com os dizeres e as expressões maternais que nunca pensei usar mas que herdei da minha mãe. E que, contra todas as minhas vontades e expectativas, me fazem ficar como ela.

 

Depois de estar de volta do aspirador, da esfregona, dos panos do pó, dos detergentes para a casa de banho, ainda ter ajudado uma piolha a fazer um bolo que quer levar para a terapia ocupacional, ter separado 664646468786 resmas de papel desenhado e esvaziado gavetas - se alguém me disser que isto não conta como exercício físico, eu escravizarei essa pessoa -, este é o clássico verbal da maternidade que me sai boca fora quando vejo as piolhas a ir à cozinha, na sua busca de algo para comer:

 

Não quero migalhas em lado nenhum, que acabei de aspirar. 

 

Ora toma.

 

 

 

 

 

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publicado às 15:25

A ignorância, ai, a ignorância...

por t2para4, em 24.05.18

Ora, antes de eu contextualizar o que me leva a escrever, vamos a umas definiçõezitas básicas, assim, coisa pouca e leve.

 

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 Por exemplo, numa frase: "Ainda há muitas pessoas de uma ignorância atroz no que respeita ao autismo."

 

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Por exemplo, numa frase: "Ainda há muitos locais de uma incompetência atroz no que concerne às deficiências, em especial, as neurológicas, como o autismo."

 

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Por exemplo, numa frase: "Choca-me a inércia de algumas pessoas em relação à forma como os seus filhos, que podem ou não ter autismo, são tratados."

 

 

Ora, depois destas breves considerações, vamos a pontos-chave na compreensão destes vocábulos:

- o mal do mundo não é o autismo, lamento desiludir os iluminados que acham que é bonito e prático utilizar esta palavra para caracterizar e desculpabilizar uma série de coisas. Há que ter um certo cuidado e brio na utilização das palavras. E do que significam. Por exemplo, eu sei que sou alta e sou alta; por que é que as pessoas estúpidas e burras não têm essa noção, de que são estúpidas e burras?

 

- autismo e violência estão tão relacionados um com o outro como crianças e violência. Não perceberam? Eu explico: miúdos neutotípicos (rótulo para crianças ditas normais, ou pensavam que eram só os nossos a ter rótulos?), de vez em quando, independentemente do seu berço e educação, podem pegar-se ou mandar umas bocas, certo? Reprovável ou não, ninguém vem a correr dizer "sabe, ele é assim porque é neurotípico, desculpe-o lá". Se não acham isto normal por que raio acham normalíssimo associar autismo a atos de violência? 

 

- o autismo é uma desordem neurológica que tem de ser médica e clinicamente comprovada e diagnosticada. A vizinha do lado ou a professora não são experts nesse assunto - a menos que lhes toque. Justificar o nariz vermelho do Rudolfo, os sapatos de rúbi da Dorothy ou a fome do Scooby Doo como sinais de autismo é como eu dizer que o Bruno de Carvalho é neurotípico porque tem dois braços e duas pernas. Além disso, continuo a não ver a relação entre autismo e violência.

 

- as moscas têm asas; os morcegos têm asas; logo, os morcegos são insetos. Bela falácia, hein? Ora, então, se o autismo gera violência, todos os que são violentos são autistas. Puxa, afinal os americanos tinham razão e estamos perante uma pandemia! Na volta, ainda sofremos com outro dilúvio para limpar o mundo. 

 

- aceitar que uma tal justificação possa pegar sem que contestemos e nos indignemos é pior que inércia, é compactuar. Não ando - eu e tantos ainda mais que eu - há uma data de anos a batalhar para a aceitação da diferença, a consciencializar, a explicar como são as coisas para virem pasquins, políticos acéfalos, pais sem a noção de parentalidade ou escolas sem a noção de inclusão estragar todo um caminho árduo que tem vindo a ser desbravado! E não falo só de autismo!

 

 

 

Gente ignorante, inútil, falsa, incompetente e hipócrita ide-vos fecundar mas sem vos procriardes que mal já vai o mundo e a geração seguinte não tem culpa nenhuma. Lede sem a ironia que grassa pelo texto e interiorizai sem o sarcasmo que o caracteriza.

 

 

A nossa vida -  a vida de pessoas com autismo e os seus familiares - já é suficientemente complicada sem que precisemos de - ainda - nos preocuparmos com a estupidez e ignorância alheia. Deixem-se de casas de degredos e reality shows decrépitos e estudem, leiam, cultivem um espírito. Não há nada pior nem mais perigoso que gente acéfala ignorante. É o pasto ideal para a carneirada. E eu, lamento, não faço parte da carneirada. Nem as minhas filhas. Já no outro dia o disse: não me ponham à prova senão até o diabo aprende coisas novas. 

 

 

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publicado às 13:11

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