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Contexto:
As piolhas sabem que têm autismo (esta questão está para sair em breve num post), os colegas sabem que elas têm autismo, os professores e a escola idem, muita gente sabe que elas têm autismo. Não é um rótulo, é um nome para explicar o porquê de determinadas dificuldades e questões neurológicas. As piolhas não falam de autismo com ninguém, a menos que alguém lhes fale disso e, mesmo assim, elas têm indicações para dizer que "autismo é algo que têm mas não as define".

 

Num dia destes, numa ação de sensibilização à diferença - em especial a que não se vê fisicamente -, a oradora falava de Asperger. As piolhas habituaram-se, com o passar dos anos, a perguntar o que não entendem ou não sabem o que é e perguntaram o que era Asperger. A resposta foi que era uma variante de autismo. Um colega, já que falavam da diferença real, referiu que elas tinham autismo. E a oradora tentou aproveitar a deixa para ser mais coerente com o que ia apresentar e questiona as piolhas sobre o que é, para elas, ter autismo. As piolhas não souberam responder.

 

Vamos agora tentar desconstruir (não é criticar):
As piolhas ainda não estão naquela fase de maturidade neurológica que lhes permita identificar - como nós, que estamos de fora a observar - que o seu comprometimento da compreensão da linguagem/comunicação ou interação social ou determinados comportamentos são característicos de autismo. Para elas, ter autismo é algo que sempre fez parte das suas vidas e que não conseguem separar de si mesmas. Para elas, a necessidade de ferramentas que as ajudem a suplantar as suas dificuldades sempre foi uma constante, ou seja, a terapia da fala, por exemplo, faz parte das suas vidas desde que se lembram de ser gente (desde os 3 anos que têm terapia da fala de forma quase ininterrupta). Basicamente, para elas, perguntarem-lhes como é ter autismo ou em que consiste é um pouco como me perguntarem a mim como é ser alta ou ao marido como é ter olhos verdes. É algo que faz parte de nós e que nos é "natural" porque sempre esteve connosco mas que não nos define porque somos muito muito mas tão mais do que ter 1,74m ou olhos verdes ou autismo.

 

(Ainda) não cabe às piolhas explicarem-se acerca de si mesmas. Haverá uma fase em que esse entendimento sobre si mesmas e sobre o que pode condicioná-las, os seus pontos fortes e áreas mais comprometidas fará sentido e poderão ser elas mesmas a falar sobre isso. Para já, aos 11 anos, a entrar na adolescência, a experienciar toda uma série de novas mudanças físicas, mentais, neurológicas, linguísticas, psicológicas, etc, é cedo para se perceber, para ter esse entendimento. É em situações como estas que precisamos de tempo: elas, nós e os outros.

 

 

 

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publicado às 21:37

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