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Ficamos em casa

por t2para4, em 17.03.20

E, como é estar com duas criaturas autistas em casa, perguntam vocês?

Bem, no caso das piolhas, é o paraíso. Isolamento social é coisa que lhes assiste sem qualquer dificuldade e cumprir regras (como ficar em casa, lavar as mãos quase obsessivamente, não receber convidados, etc.) não lhes custa absolutamente nada. São um Sheldon em miniatura, com as mesmas expressões “hey, you’re in my spot” se lhes ocupo o sofá àquelas horas de TV.

 

E o que temos feito? Bem, aqui não precisamos de atividades para nos entretermos, temos sempre muito que fazer e os dias escoam com a possível normalidade. Não estamos de férias, por isso, há que estudar. Houve muitos testes por fazer e, nas disciplinas a que não temos indicações de trabalho, fazem-se resumos de conteúdos ou fichas de exercícios dos cadernos de atividades dos manuais adotados. Já recebemos indicações da escola e, por isso, estudar é a atividade principal. E a minha atividade principal é preparar materiais para a minha escola, tratar da burocracia inerente à avaliação e manter algumas aulas a funcionar à distância de um clique, sempre disponível para qualquer dúvida ou questão.

E, antes que me acusem de ser uma nazi escolar, a verdade é que este aspeto da vida delas traz-lhes segurança pois, com a quebra de uma rotina estruturada da escola, em casa as coisas ou ficam demasiado soltas ou demasiado presas a horários – ao minuto. E isso causa ansiedade que pode gerar outros problemas. Por isso, não temos horários com atividades; temos blocos de tempo onde podemos fazer uma ou várias tarefas, com alguma flexibilidade e com espaço para mudança de ideias.

 

Assim sendo, os nossos dias decorrem entre pequenas atividades agradáveis como ler, ver TV, jogar computador, etc. e estudo (exercícios, resumos, leituras) e caminhadas (eu faço cerca de 3 km por dia, as piolhas caminham 15 a 20 minutos – temos uma passadeira em casa) e fazer puzzles e aprender a cozinhar (sim, os últimos jantares têm sido feitos com a colaboração ativa das piolhas) e arrumações.

E, por incrível que pareça, esta tem sido a tarefa pela qual ansiava mais: uma spring cleaning profunda da casa e anexos e nem as gavetas escapam. Descobri imensa roupa que já não serve às piolhas, coisas inúteis que vamos guardando a pensar que servirão algum dia para alguma coisa (que inocência), desenhos esquecidos, recipientes sem as respetivas tampas e tampas sem os respetivos recipientes, que continuo a detestar limpar o forno, que as migalhas brotam do chão como ervas daninhas, que há sempre uma merdice para limpar quando pensamos que já limpámos tudo. Não, ainda há o frigorífico e os armários da cozinha e os da casa de banho e as gavetas do quarto e até o roupeiro dos casacos.

 

Se o meu telemóvel não parava, agora ainda está mais ativo: ligamos aos familiares, fazemos chamadas de vídeo, enviamos sms. Porque lá por estarmos em casa não significa que estamos sós.

 

Passei a olhar a minha varanda com outros olhos. Por causa da ausência de noção de perigo, as piolhas não usavam a varanda porque eu morria de medo do que poderia acontecer. Um medo quase patológico. Nem eu ia à varanda, a não ser para estender roupa. Agora, mais crescidas e com a noção de medo adquirida e com muitas regras rígidas, usamos a varanda para além do estender roupa. Hoje até fizeram os trabalhos de geografia ao sol, na varanda.

A garagem é o espaço de educação física: no chão já lá está uma macaca desenhada, há raquetes e tiros ao alvo e cestos com bolas e giz para pintar e desenhar. Nas nossas janelas estão arco-íris. Porque, depois da tempestade vem a bonança. E é para isso que fazemos a nossa parte.

 

E o pai? O pai continua a trabalhar pois o seu trabalho faz parte do imprescindível: setor energético de produção de eletricidade. Por isso, entre turnos longos e muitos cuidados, o pai está a trabalhar. E nós ficamos de coração apertado, claro, mas vai correr tudo bem. Vai mesmo.

Portanto, para já, é esta a história do nosso isolamento social. Estamos bem ocupadas.

 

 

 

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publicado às 17:42

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