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in: https://uptokids.pt/educacao/o-ensino-a-distancia-a-escola-nunca-mais-voltara-a-ser-como-era-antes/?fbclid=IwAR1lynykS6AmxNo6G4_TGL-M_rZJtBP8ty3v_bpAMwFCF__0gSwopwd88IQ 

 

O ensino à distância.

A escola nunca mais voltará a ser como era antes.

Esta é a realidade que nos assiste desde o dia 16 de março de 2020. Foi uma reinvenção à pressa, sem preparação, sem aviso com a devida antecedência. Mas foi o desafio que acabámos todos, de uma forma ou outra, por abraçar e aceitar, apesar das inúmeras dificuldades e do acesso.

A escola que se quer inclusiva ainda não consegue chegar a todos agora – mas, se pensarmos bem, já antes não conseguia chegar a todos. Lembremo-nos das inúmeras batalhas travadas para que os direitos básicos de crianças com necessidades específicas sejam cumpridos na íntegra mas também dos que abandonam a escola. Sim, apesar da escolaridade obrigatória ser até ao 12º ano ou 18 anos, a verdade é que ainda há quem fique pelo caminho. E isto ainda não é a definição de escola inclusiva. Lá chegaremos, quero muito acreditar.

O ensino à distância

Na nossa nova realidade, com o ensino à distância, vejo os dois lados: o de professora – o meu lado – e o do aluno – as minhas filhas. Ambos os lados estão cheios de trabalho, a esforçar-se para cumprir o planificado, o proposto, o esperado; ambos os lados se sentam de manhã ao computador e saem ao final do dia. Não é fácil, não é o ideal, não é o desejado – mas é o que temos por agora e, que, de uma forma ou de outra, todos se esforçam para que funcione e para que chegue aos alunos.

Vejo um esforço imensurável de colegas que mesmo aos fins de semana enviam emails e notificações para que não se falhem prazos e vejo uma preparação de aula e planos semanais a delinear a serem feitos com uma semana de avanço, sem prejuízo do trabalho a desenvolver na semana anterior. O enfoque na avaliação padronizada e estruturada com fichas e testes e provas está diluído e transformado. E isto é uma coisa boa.

A adaptação

Mas não irei alongar-me em questões pedagógicas relacionadas com o ensino à distância. Não é a mim que compete essa avaliação. A mim compete-me adaptar-me e fazer os meus adaptarem-se. E isso tem corrido surpreendentemente bem, apesar de algumas dificuldades – técnicas e pessoais. A aprendizagem tem sido bem mais transversal e alargada do que estar apenas numa disciplina, numa qualquer classroom, em frente a um computador.

Deixo alguns exemplos:

– é necessário saber ler o horário enviado e gerir aulas síncronas e assíncronas, aproveitando as assíncronas para fazer os trabalhos pedidos;

– é necessário saber gerir algumas plataformas eletrónicas diferentes do que se usava habitualmente e saber fazê-lo em segurança (passwords, permissões, etc.);

– saber gerir o tempo para ter todas as tarefas feitas e entregues dentro dos prazos pedidos;

– é necessário continuar a ter rotinas saudáveis: levantar num horário, vestir como se fossemos para a escola, lanchar adequadamente nos devidos intervalos, auxiliar em pequenas tarefas em casa;

– saber usar todo um hardware à sua volta: computador, telemóvel, impressoras, scan, tripé, etc.

– é necessário saber ler nas entrelinhas dos chats de colegas o que é dito, como é dito e se há ali algo de relevante, de perigoso ou apenas conversa fiada;

– é necessário estarmos preparados para imprevistos e saber lidar com eles: a ligação que cai, a rede que tem oscilações, a impressora que só funciona depois de reiniciar o computador, o sistema operativo que é lento, etc.

O Bullying

No nosso caso, a melhor coisa que o ensino à distância nos trouxe – além da gestão pessoal das coisas no nosso espaço familiar – foi o fim dos episódios de bullying. Não há nada que valha mais do que isto. Não há vontade alguma de regresso a uma suposta normalidade escolar que me faça mudar de ideias. Eu sei que é importante ter a questão social resolvida, eu sei que a vida real é entre pessoas e não numa bolha no nosso espaço pessoal, eu sei que isto é apenas algo passageiro. Mas temos tido uma paz que não experienciávamos desde junho do ano letivo anterior.

Este é o nosso lado da história.

Sei, infelizmente, que ainda que a nossa casa seja mesmo o nosso castelo, outras há que são verdadeiros infernos e a escola seria o oásis de salvação. Daí a importância de se ver que a escola será sempre uma sociedade em miniatura, com os seus problemas e ações, com as suas especificidades tão particulares e tão abrangentes ao mesmo tempo. Mas, agora, em setembro deste ano, para o ano, daqui a 2 ou 5 anos, esta escola tem se se reinventar e jamais voltará a ser o que era. E nós adaptar-nos-emos.

 

 

 

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publicado às 21:15

Coisas e coisinhas

por t2para4, em 21.05.20
Adoro a forma como uma determinada "senhora professora de adultos" veio escrever para os blogues de educação da nossa praça que os autistas adoram coisas e não pessoas. COISAS. Porque é mais fácil gostar de coisas. Bem, até aí até concordo. Não conheço esta "senhora professora" e já amo de paixão esta COISA que uso para escrever.
Uau.
Vamos lá desconstruir isto:
Sai um novo Iphone e temos gente a vender rins para o comprar; todos os verões temos pessoas que gastam milhares de euros em férias; a economia está basicamente voltada para uma sociedade de consumo de COISAS. Ora, da última vez que eu verifiquei estas COISAS, ia jurar que eram feitas, compradas, amadas e COISIFICADAS por - pasme-se!! - neurotípicos! Não estou a ver um autista a vender deliberadamente um rim para compra o novo IPhone ou no novo IMac!
 
Há uma mania - quase patológica! - de ver indivíduos no espectro do autismo como seres insensíveis, frios, calculistas, agarrados a COISAS - lá está. Quantos autistas conhecem assim? Possivelmente muito menos do que os autistas calorosos, hiper-sensíveis, demasiado emotivos, people seekers! Não vamos meter tudo no mesmo saco e generalizar de forma, ainda por cima, errónea e sem grande conhecimento de causa.
 
E isto tudo porque os autistas amam COISAS, é-lhes mais fácil o ensino à distância por um computador porque é mais fácil lidar com uma COISA. Pois, com pessoas assim por perto, com bestas destas, de facto, até eu, neurotípica prefiro gostar de COISAS.
Metam na cabeça que a escola não compreende a nossa realidade global, "one size doesn't fit all". Com COISAS ou sem COISAS. Nunca será possível ter um sistema de ensino - presencial ou à distância ou misto - que vá agradar a toda a gente ou servir a toda a gente. Mas, para já, é o que temos. E, em muitos muitos casos de alunos com autismo funciona. E o lado relacional está lá, mesmo à distância. Porque, mesmo à distância, é preciso comunicar com os professores e colegas. E o gostar ou não de COISAS não tem nada a ver com a comunicação e a relação.
 
 
 
 
 
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publicado às 22:28

Das aprendizagens do passado

por t2para4, em 10.05.20

O medo paralisa, o medo impede-nos de sermos racionais. O medo ativa-nos mecanismos de sobrevivência ou desencadeia ações impulsivas. Mas o medo faz parte da nossa condição, o medo existe. Conseguimos doseá-lo de forma mais ou menos saudável mas ele está cá.

 



Há uns tempos - não vou dizer se foram meses ou anos, isso não interessa - eu e algumas pessoas do meu círculo social estivemos em contacto com um individuo portador do bacilo da tuberculose. Tinha dado positivo nos testes. Fazia parte do nosso círculo de pessoas com quem temos contacto mais do que ocasional. Fiquei em pânico. Temos as vacinas, é certo, mas ainda assim, podemos vir a ter tuberculose. E passá-la a alguém. E, ao contrário do que se possa pensar, há bastantes casos e há sempre movimento no BCG exatamente pelos mesmos motivos: alguém esteve em contacto com alguém com tuberculose e é preciso fazer testes de despiste.



A primeira coisa que fiz foi, de imediato, informar o pediatra das piolhas, relatar pormenorizadamente toda a situação e pedir aconselhamento. E eu avançar para testes de despiste. Já não ia ao BCG desde os tempos da faculdade, tirar as velhinhas micros para entregar na Secretaria Geral aquando das matrículas. Não vou entrar em detalhes mas fiz a micro e prova tuberculina. Uma deu negativo, a outra fez reação. Não tinha tuberculose mas, algures no meu período de vida passado, estive em contacto com o bacilo. Já tinha acontecido em 1995. Foi necessário repetir e passaram-se meses até ser dispensada.

 



Este pequeno episódio não me traumatizou nem me trouxe propriamente medo por mim mas um pânico enorme pelas minhas filhas. Eu sei que é impossível protegê-las de tudo e, vamos ser racionais, com quantos vírus, bactérias, parasitas lidamos todos os dias, até dentro da nossa casa, e nem sequer sabemos? Mas quando tempos um nome e uma proximidade com um inimigo invisível, a nossa perspetiva muda radicalmente.

 



O meu medo em relação ao novo vírus é isto: medo de eu lhes passar a elas, de eu apanhar e ser incapaz de cuidar delas, de elas apanharem e... nem me atrevo a verbalizar todo estes medos. Não é assim que lido racionalmente com eles. Mas aperta-nos o coração e causa-nos uma sensação de impotência avassalora. Não somos grupo de risco mas não suporto a ideia de imaginar as minhas filhas numa cama a lutar contra um inimigo destes. Por isso, tentamos fazer a nossa parte tanto quanto possível sem cair em extremismos. E, cruel ou egoísta que possa soar, agradeço a escola estar fechada pois se elas tivessem de ir, não iriam. Não nestes moldes tentativa-e-erro, vamos-experimentar-a-ver-no-que-dá. Em Setembro, regressaremos às salas de aula, de uma forma ou de outra, não tenho dúvidas, mas precisamos de um plano eficaz para não colocarmos esta geração em risco. Vamos ter que saber adaptar-nos e saber viver com este vírus - e outros - e com os efeitos adversos que nos trouxe. Mas, preferencialmente, sem nos colocarmos desnecessariamente em risco.



Atenção que em local algum eu refiro que devemos enfiar-nos numa bolha e viver lá, enrolados sobre os nossos joelhos.

Mas, apesar de tudo, ainda temos o direito a temer pelos nossos e a querer levar as coisas com calma.

Eu aprendi mais esse ensinamento.

 

 

 

 

 

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publicado às 13:42

Não há regresso à normalidade. Seja lá o que isso for. Talvez seja mais coerente dizer "não há regresso ao que fazíamos antes". Não há de todo, é impossível.
Já começámos a aliviar algum do nosso confinamento no que respeita às visitas aos familiares: já fomos ver os avós, tocar bateria, passear no jardim, abraçar a tia.
E é só isso.
Não há o aviar recados com a mãe, não há o ir às compras com os pais, não há o comprar uma t-shirt nova só porque sim, não há o visitar uma loja para ver se compramos umas roupinhas novas, não há o passear na vila como antes, não há o ir tomar um café fora, não há o ir a um centro comercial. Não há um beijo aos avós ou à tia - e isso é o que é, de longe, o mais estranho...
Não são imposições da mãe! A mãe é que não vê necessidade nenhuma de espetar uma máscara nas caras das filhas só para as levar a algum lado sem haver necessidade absoluta disso. Agradeço aos céus o pior das nossas vidas já ter passado pois juro que não sei como iria colocar-lhes uma máscara se tivesse sido há uns anos. Agora, são elas próprias que sabem da segurança que a máscara proporciona, sabem como usar e retirar e sabem que usarão máscaras descartáveis. E sabem que serão postas à prova em breve pois teremos de nos deslocar ao hospital para uma consulta. A maturidade física e neurológica permitiu-nos dar um salto de gigante no que respeita à tolerância de toque e uso de acessórios na cara.


Temos uma pequena ideia do que faremos quando chegar o verão e de que estas serão as férias mais estranhas e adaptativas que teremos até ao momento. E não podemos chamar isso de normalidade. Uma nova normalidade, talvez, sim, faz mais sentido. Mas não o regresso ao que era antes, isso já não existe.


E, na minha opinião, esta nova normalidade é limitativa. Uma máscara abafa o som, impede a real discriminação auditiva de que necessitamos em alguns casos (a minha mãe é surda profunda de um ouvido e já ouve mal de outro, sem a proximidade e a leitura labial, é ainda mais difícil para ela descortinar sons - a mesma discriminação de que as piolhas precisam para identificar as palavras e os seus significados); o distanciamento social faz-nos ficar desconfiados de tudo e todos e, nos casos de amigos ou familiares, é muito complicado não ceder ao impulso de um abraço apertadinho ou de um beijo; o não tocar em nada que não se queira trazer - ou tocar apenas na cara - é um teste à nossa força mental. Não há terapias presenciais. Se, por um lado, me alivia o coração, por outro, faz-me perguntar se estaremos a perder algo... E nem vamos falar do volume de trabalho académico. Ou do medo que sentimos em relação a este e outros vírus. É isto regressar à normalidade? Não me parece.
É, sim, aceitar uma nova realidade e saber lidar com ela o melhor possível. Adaptarmo-nos - afinal, evolução é isso mesmo.

 

 

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publicado às 15:06

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