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Culpada, disseram todos.

por t2para4, em 07.07.20

A culpa primordial de todos os males da Humanidade recai sobre a mulher. E há imensos exemplos disso na Mitologia, na História, na vida real. Provada que esteja ou não essa alegada culpa. Temos Eva (que não resistiu ao encantamento diabólico), Pandora (que não controlou a sua curiosidade), as bruxas de Salem, a mulher comum que não consegue engravidar ou tem filhos com deficiência. E já dei exemplos religiosos, mitológicos, históricos e reais.

A culpa é sempre da mulher. E, quando passa a ser mãe, a culpa é sempre da mãe.

Até há não muito tempo, no nosso país, a mulher que não casasse virgem – com ou sem o homem com quem tivesse tido essa primeira experiência – era uma desavergonhada; já do homem, não se diz o mesmo, pelo contrário, incentivava-se a essa experiência de forma quase pública, afinal, ia tornar-se um homem; se a mulher casada não engravidasse, a culpa era dela pois não servia o seu propósito de vaso recetor e fecundador do marido, independentemente de haver a possibilidade de essa dificuldade ou infertilidade poder ter causas masculinas; se nascia uma criança do sexo feminino, a culpa era da mulher pois ela é que tinha parido – ainda que a ciência tenha vindo explicar que, afinal, a determinação do sexo é feita pelo homem pois é ele quem possui os cromossomas XY; se uma criança nasce com uma deficiência, mesmo que seja uma anomalia genética única não presente no pai ou na mãe, a culpa é da mãe pois não terá seguido o indicado para uma gravidez segura, ela é quem carrega o bebé, ela é quem dá à luz, logo, ela é a culpada.

Sempre a culpada, sempre a acusada, sempre a ré – sem julgamento, sem defesa, só com acusação.

Quando começaram a surgir os primeiros casos diagnosticados sob o nome de autismo, a primeira resposta à pergunta “qual a causa”, foi a teoria das mães-frigorífico. Esta teoria, cunhada por altura dos anos 1950, defendida por alguns psicanalistas (o autismo esteve durante muito tempo ligado à psicanálise e avaliado, analisado e tratado sob o ponto de vista desta área), sugeria que o autismo era causa direta da falta de calor humano, amor e carinho por parte das mães. Leo Kanner, o autor da teoria, através da observação direta de alguns casos, referia haver uma frieza, distanciamento e alheamento dos pais – em especial da mãe, sobre quem recaía a função de educação dos filhos – e uma atenção quase mecânica, causando a ausência de um vínculo correto. Mais tarde, esta teoria foi descartada e revogada e desacreditada mas já era tarde demais. Estamos na segunda década do século XXI e ainda há membros clínicos, familiares e pessoas comuns que acreditam nesta teoria. E, mais uma vez, a culpa é da mãe. Repare-se que o nome da teoria é “mães-frigorífico” e não “pais ou avós frigorífico”.

Não há culpas a atribuir num diagnóstico, jamais aos progenitores. Nenhum progenitor entra numa gravidez a desejar que o seu bebé tenha um problema de saúde ou uma perturbação neurológica. A hereditariedade, a genética, o ambiente ou até mesmo todos estes fatores combinados – quando possível – podem dar uma resposta para a causa de uma doença, condição ou perturbação. E essa resposta pode ser rápida, lenta ou nunca chegar... Esses mesmos fatores, combinados ou não, podem ser A causa dessa doença, condição ou perturbação… Mas, na minha ótica, mais importante do que uma possível causa, é o que podemos fazer no “durante”: que tratamentos há, que trabalho pode ser feito, que cursos terapêuticos podemos seguir, que medicação é ou não adequada e se existe, etc. Pode haver uma cura. Pode não haver cura. O que não pode haver é a atribuição de culpas aos pais, em especial à mãe.

 

 

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publicado às 08:45

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