Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Ah, saudade...

por t2para4, em 27.11.20
 

É possível sentir saudade do que nunca se viveu mas se idealizou ou com que se sonhou.
Não é um sentimento estranho nem deve ser ridicularizado; existe, sente-se e vive-se.

Eu sinto uma imensa saudade da fala inicial de bebé que surge pelos seus 2 anos e vai evoluindo cada vez mais, até fazer frases de x número de palavras. Sinto uma saudade imensa porque nunca vivi essa fase. E, de tudo o que poderia esperar numa creche, quando vou dar aulas de inglês precoce, o que mais me dói é essa evolução tão positiva e necessária nas crianças ainda tão pequenas. Dói e causa essa saudade porque nunca tivemos essa fase.
Eu sinto uma imensa saudade da fase dos -inhos, -inhas, "popós" e afins. Porque nunca vivemos essa fase. Quando as piolhas começaram a falar, faziam-no de forma correta e quase erudita e essa infantilização da linguagem não podia de todo entrar naquela fase etária e de processamento neurológico.
Eu sinto uma saudade imensa de dar colo sem parecer ter duas enguias. Porque dar colo era difícil por serem duas. Nunca houve um colo vazio mas nunca pudemos sair de casa com apenas um bebé nos braços. Além disso, a agitação motora era tal que o colo era porto de abrigo e de conforto por breves momentos ou servia de colchão de pulos e agitação.
Eu sinto uma saudade imensa das brincadeirinhas de bebé. Que não tivemos. Porque tivemos de ensinar as piolhas a brincar e as suas brincadeiras nunca passaram por fazer de conta em casinhas ou bebés ou barbies a viverem vidas faz de conta baseadas em vidas reais. Ou eram brincadeiras muito concretas (puzzles, peças de encaixe, jogos de tabuleiro) ou extremamente imaginativas, sem meio termo.
Eu sinto uma saudade imensa das saídas e passeios e idas a restaurantes porque não as tivemos. Tudo requeria uma logística tremenda, tudo tinha de ser detalhadamente antecipado e preparado, havia muitos meltdowns, havia imprevistos que mudava logo o ambiente. Melhorou. Nunca deixámos de o fazer mas era extenuante. E frustrante.
 
O tempo (e a evolução delas) veio mostrar que há sempre forma de compensação e que podemos sempre tentar alcançar algo. Mas... não é a mesma coisa... não é no timing que deveria ter sido... não é com crianças crescidas a trabalhar a entoação em terapia da fala que se espera ouvir um "é um lâni 'amião, mamã! (é um grande camião, mamã!)"...
E é perfeitamente legítimo podermos sentir esta mágoa disfarçada de saudade ou esta saudade disfarçada de mágoa, sei lá, porque, connosco, as grelhas de desenvolvimento padronizadas não se aplicaram. Mas gostaríamos que se tivessem aplicado. O tempo não cura porra nenhuma, atenua e envolve em nevoeiro algumas coisas mas elas ficam para sempre cá, ativas.
Sim, está tudo bem agora; sim, podemos fazer coisas incríveis; sim, houve muito progresso e sucesso. Mas também houve toda uma infância repartida entre trabalho, terapias, contextos e mais trabalho. E isso magoa. E marca para sempre.

Portanto, sim, é perfeitamente legítimo ter saudade do que que nunca se viveu mas se idealizou ou com que se sonhou.

 
 
 
-------------- Estamos também no Facebook e no Instagram -------------

publicado às 11:54

Podemos colocar-nos no lugar do outro?

por t2para4, em 23.11.20

À partida, não terei nenhum diagnóstico (embora a minha mãe me tivesse pedido uma avaliação para hiperatividade quando era muito miúda) mas confesso que talvez tenha uma queda para a hiperatividade ou para o síndroma de pensamento acelerado - não está nos meus planos imediatos fazer uma avaliação. Quem me conhece deve estar, neste momento, a abanar a cabeça em semiconcordância... Mas, a verdade é que, ainda hoje, tenho alguma dificuldade em encaixar-me. E consigo entender pelo que passam miúdos como os que têm as cadernetas cheias de recados ou os que são demasiado criativos e distraídos. Ou as piolhas.

A nossa vida é constituída por demasiados círculos que podem, por exemplo, ser a família próxima, a família alargada, amigos, colegas, pessoas do trabalho, pessoas que conhecemos de vista, etc. Para cada círculo, é expectável um determinado comportamento e forma de agir, uma determinada linguagem. Sem nos apercebermos, passamos o dia a saltitar de atitudes em atitudes, a tomar milhares de microdecisões, em constante adaptação. Para quem lida com pessoas, seja de que idade for, maior é a exigência dessa adaptação.
Tenho alguma dificuldade em encaixar-me em e seguir determinados padrões e, talvez por isso, na minha profissão, eu sinta um desgaste cada vez maior porque a minha tendência natural é preocupar-me, muitas vezes, em demasia. É colocar-me constantemente no lugar do outro e fazer pelos alunos o que espero que façam pelas minhas piolhas ou tivessem feito por mim quando era a minha vez nos bancos da escola. E isto é extenuante. Porque ninguém quer saber. Exceto eu.
Encaixar num mundo em que tudo nos é exigido e onde pouco espaço há para o que é diferente custa muito. Exige muito. Cansa muito. Cada vez mais.
Noto esta dificuldade mais recorrente. O confinamento, o distanciamento, o individualismo, o umbiguismo que se sente não têm facilitado a transição entre círculos de forma mais suave e quase impercetível. A exigência é imensa. E a empatia, a entreajuda, a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro estão a perder terreno…

Hoje, escrevo estas linhas no carro, em frente a um rio, num estacionamento completamente deserto porque, hoje, em particular, não consigo encaixar-me, não consigo diminuir a velocidade do que passa pela cabeça, não sinto vontade de integrar círculos onde o esforço é grande. Sou adulta, bem resolvida com a vida e feliz. Imagine-se o que sente uma criança, um adolescente, um jovem com autismo, com perturbações sociais, neurológicas, etc. Podemos colocar-nos no lugar do outro e facilitar a transição entre círculos? Ficamos todos a ganhar.

 

 

126528270_426974308432867_3868412442619436728_n.jp

 

 

-------------- Estamos também no Facebook e no Instagram -------------

publicado às 13:24

Miminho bom

por t2para4, em 13.11.20

Conheço-te desde os teus 3 anos. Talvez deva dizer, mais corretamente, que me conheces desde os teus 3 anos, talvez.
Viste-me sentada no chão, na beirinha do degrau do recreio, a vigiar os meninos mais crescidos que brincavam, e vieste enroscar-te e encaixar-te no meu colo, como um gato a ronronar. Cabias ali na perfeição, estavas confortável, seguro. O teu cabelo era suave, fofinho, fininho, aquele cabeço típico de criança, com cheiro ainda a bebé, que me encheu de saudades das piolhas, do tempo em que, como tu, cabiam ali enroscadinhas no meu colo e o espaço era perfeito.
Olhaste sorridente para os meus brincos estranhos porque parecem a linha de uma folha e o dourado chamou-te a atenção. Mexeste muito neles mas não tive medo que os puxasses. De repente, saíste do meu colo num pulo e puxaste-me a mão para correr. Nunca precisaste de dizer uma palavra para que eu percebesse perfeitamente o que querias fazer e como.
Hoje, vieste a correr para os meus braços, pediste-me de braços esticados aquele colinho bom, deste-me um abracinho forte e um beijinho! Caramba... que coisa mais boa... Que saudade de um abracinho de gente pequena... porque as piolhas também eram assim, sabias? Elas davam muitos beijinhos, muitos abracinhos exatamente iguais aos teus. E tinham o mesmo cheirinho doce e suave no cabelo.
Quiseste que me deitasse no chão contigo porque querias brincar... mas o chão estava muito frio e eu com mochila e não consegui. Mas deste-me a mão para que te seguisse. Sono? Uma sestinha? Uma brincadeira calma? Deste muitos sinais ao mesmo tempo porque querias que te seguisse.
Mais uma vez, não precisaste de falar. Já tens uns 4 anos por agora. E não falas. Comunicas muito, és muito expressivo mas não sentes necessidade de verbalizar o que queres. E, à tua maneira doce, mesmo nos teus maus momentos, consegues transmitir como te sentes e o que queres. E quem te rodeia consegue compreender-te.
Já vi um mau momento teu. Tiveste um meltdown muito feio. Não deve ter sido um dia fácil para ti pois estavas muito agitado e os teus olhos estavam vermelhos e inchados. Não quis incomodar-te com as minhas patetices mas senti uma urgência terrível de te dar o meu colo. Há dias melhores, vais ver. Porque vais crescer e, com calma e com as ferramentas certas, vais conseguir reconhecer que estás mal e autorregulares-te. Eu sei porque já vi isso acontecer com as piolhas, sabes? E sabes porquê? Porque elas já fizeram o caminho que fazes agora. E, apesar de sinuoso, com as pessoas certas, podes chegar tão longe...

 

O A. não me conhece de lado nenhum a não ser dos intervalos onde me vê 1x/semana, uma manhã, apenas.
O A. tem autismo. Reconheci os sinais assim que vi os seus calcanhares no ar enquanto caminhava e veio enroscar-se no meu colo, sem uma palavra, com os mesmos gestos que faziam as piolhas, o mesmo olhar, o mesmo tipo de foco de atenção.
O A. hoje deu-me o inesperado abraço e beijo que me deram o reconforto e a força de recobro de uma semana difícil.
Hoje, o A. foi maior que o mundo. Mesmo estando com sono e no rescaldo de uma birra por causa da sopa.
O A. tem autismo e é um miúdo incrível. É só isso que tenho a dizer.

 

 

-------------- Estamos também no Facebook e no Instagram -------------

publicado às 09:31

Direitos Reservados

Algumas das fotos publicadas neste blog são retiradas da Internet, tendo assim os seus Direitos Reservados. Se o autor de alguma delas discordar da sua publicação, por favor informe que de imediato será retirada. Obrigada. Os artigos, notícias e eventos divulgados neste blog tem carácter meramente informativo. Não existe qualquer pretensão da parte deste blog de fornecer aconselhamento ou orientação médica, diagnóstico ou indicar tratamentos ou metodologias preferenciais.


Mais sobre mim

foto do autor







Parceiros


Visitas


Copyright

É proibida a reprodução parcial/total de textos deste blog, sem a indicação expressa da autoria e proveniência. Todas as imagens aqui visualizadas são retiradas da internet, com a excepção das identificadas www.t2para4.com/t2para4. Do mesmo modo, este blog faz por respeitar os direitos de autor, mas em caso de violação dos mesmos agradeço ser notificada.

Translate this page


Mensagens