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"O amor cura tudo"

por t2para4, em 27.12.20

Está visto que teria de escrever irónica e sarcasticamente, pelo menos, mais uma vez, antes das recapitulações e alegações finais de 2020.
E o tema de hoje é....... o amor. Isso mesmo. O amor.


O amor serve para tudo, não sei se já notaram. É algo que serve de motivo (vejam séries criminais e verão que há sempre um ou outro crimezito passional), de desculpa ("foi por amor, senhor advogado"), de inspiração (vejam lá os sonetos de Camões e digam-me se aquilo não era um homem constantemente enamorado), de prova (há sempre um ou outro filme lamechas na Fox Life onde o amor dá sempre provas de alguma coisa), de ânimo (mesmo canal, passam semelhantes filmes onde o amor impulsiona tudo) e mais uns quantos epítetos.


Mas o amor de que quero falar é o amor clínico. Não sabem o que é? Eu explico: é o amor que tudo cura. É aquele amor que se usa quando um desgraçado politraumatizado, entubado e de colar cervical chega ao hospital e alguém grita "preciso de 10cc de amor já!!!" ou aquele amor que se pede quando se esfregam as pás do desfibrilhador "aumenta a carga para 300 amores, já! estamos a perdê-lo!" ou aquele amor Rh - que se pede numa transfusão sanguínea ("pede um saco de amor tipo O-, já!" ou, mais simplesmente, aquele amor que o médico receita "ora, dona Amélia, vai tomar 2 comprimidinhos de 500 mg de amor, um de manhã e outro à noite mas volta cá se os sintomas persistirem".
Ai, não conheciam este tipo de amor? Pois eu sou constantemente invadida por este receituário no que toca às piolhas. Sabe-se que o amor tudo cura, portanto, é só juntar a coisa de forma lógica.


O que me chateia mesmo nisto? É que, apesar de eu acreditar que, de facto, o amor torna as coisas mais fáceis (por assim dizer, não me façam agora desconstruir a noção de "fácil"), na realidade, cientificamente, não cura porra nenhuma. Ajuda a levar as coisas, ajuda a suportar, ajuda. Mas é só isso - ajudar (sinónimo de auxiliar, apoiar, suportar, etc.). Dizer disparates do género "o amor tudo cura" é isso mesmo, um disparate. E insinua, implicitamente, que não se ama um filho o suficiente, não se ama um esposo o suficiente, não se ama um pai o suficiente - a ponto de o salvar.


Eu sei que nós somos uns enamorados e temos uma veia poética pulsante e palpitante e muito amor para dar mas, por favor, tome-se tino e ganhe-se noção. Há coisas que não se dizem, há coisas que custam ouvir e esta é mais uma entre muitas que, não só dói, como desvaloriza tudo por que uma família atípica passa. Ganhemos noção, sim?

 

 

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publicado às 22:40

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