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Início da semana.


Manhã.
Estão 0,5 graus numa aldeia remota do interior do país, num vale no meio da serra. Os acessos são duros, cheios de curvas, curvas com gelo que só derrete na primavera e onde o sol não toca o dia inteiro. Na escola, quase à beira de uma ribeira, o aquecimento não está ligado porque há uma avaria. Está um gelo húmido e vê-se o vapor a sair da boca dos alunos pequenos. Estamos todos de gorros e casacos, abotoados até ao cimo. Peço um aquecedor. O único aquecedor daquela escola veio, um pouco a contragosto, para a minha sala e lá conseguimos trabalhar com os dedos mais ou menos quentes, embora os pés e os joelhos gelados.
A manhã esteve sempre cinzenta, com nevoeiro e fria, fora a humidade.


Tarde.
Estão cerca de 5 graus numa escola a meio metro de distância de um rio. A humidade é tal que se entranha na roupa, nas botas, nos ossos. A sala, desocupada desde há quase 3 semanas, está um gelo sepulcral. Desencantei um aquecedor elétrico de uma colega. O aquecimento, pouco e antigo, só fica ligado durante a manhã. Se, com sorte, os radiadores de parede estiverem a funcionar. Veio sol por cerca de 20 minutos e depois, a encosta da montanha, tapou e ficou escuro e frio.


Meio da semana.


Manhã.
Estão -1 (sim, um grau negativo), numa escola nos arredores de uma cidade capital de distrito (quando digo arredores refiro-me aí a uns 5km da artéria mais movimentada daquela cidade). Não há aquecimento central, nem local, nem individual nem coletivo, não há nada. Não podemos fechar as portas porque temos de cumprir com as regras da DGS e, nos intervalos das aulas, temos de abrir as janelas. Pela 1ª vez em 17 anos de aulas, tive de trabalhar de gorro porque tremia com arrepios de frio. Os meus alunos estavam todos de luvas, mantas nos joelhos, casacos de capuz, gorros, cachecóis. São alunos, na sua maioria, já adultos e que toleram melhor o frio que uma criança pequena. Com toda esta parafernália e ainda máscaras, já é uma sorte eu conseguir ver-lhes os olhos.
Saímos às 14h, com cerca de 6 graus na rua mas enregelados, de pés gelados (e reparei que, como eu, muitas alunas traziam collants por baixo das calças) e a tentar aproveitar o sol, qual lagarto no deserto, aos primeiros raios de sol.


A realidade das piolhas, aqui ao lado de casa, é muito semelhante apesar de haver aquecimento e este estar ligado: alunos super agasalhados, uma coleção de mantas nos joelhos, professores encasacados e de pontas dos dedos geladas a escrever nos quadros porque há portas (e janelas) abertas porque tem de haver circulação de ar. Por causa do vírus - aquele vírus apenas, não outro. Noutras escolas, por causa desse mesmo vírus, aquecimento desligado ou avariado...


Estas escolas não são escolas decadentes, não são escolas com problemas estruturais na sua construção - apesar das suas muitas décadas de vida -, algumas destas escolas são até modernos centros educativos. Mas nenhuma destas escolas oferece condições de trabalho a alunos e professores, horas enfiados numa sala gelada, sentados no mesmo lugar de hora a hora, saindo para um intervalo/recreio igualmente gelado. Não há capacidade intelectual que aguente pensar, trabalhar, escrever com frio. Alunos e professores sofrem com os dedos gelados e as frieiras voltam a aparecer.


Critico audivelmente a falta de manutenções básicas que deveriam ser feitas no verão e este tipo de condições criadas porque estamos a ultrapassar a barreira da noção.
Não somos um país nórdico habituado a trabalhar ou a dormir ao frio ou a brincar na neve. Não somos um país nórdico com ar condicionado até nas paragens do autocarro para nos aquecermos. Não somos um país nórdico onde, desde pequenos, sabemos lidar com temperaturas extremas e como agir em conformidade. Não somos um país nórdico com condições para trabalhar e estudar com temperaturas demasiado baixas. E mesmo assim, não me venham já com "na Finlândia ou na Suécia ou no Luxemburgo ou na Bélgica" porque há lá uma coisa chamada "intempéries" que é basicamente uma licença em que o trabalhador é dispensado do trabalho e pago a 80% ou 100% por causa das condições meteorológicas, durante um determinado espaço de tempo, aplicável a certas profissões. O meu pai, pedreiro, passou por situações assim. Ou era destacado para serviços de interior ou ia para as "intempéries".
E não está aqui ninguém a pedir para ir para casa, não se vá de ler o que não está aqui escrito.


Em algumas escolas - essas sim sem condições - já era duro lecionar e aprender no pico do inverno. Neste momento, é absurdo impor essa dureza gelada, fria e calculista em todas as escolas. Os nossos alunos - porra!, os nossos filhos - não apanham covid mas ficam com um risco acrescido de ter uma gripe séria, uma inflamação na garganta ou ouvidos, uma pneumonia? E já alguém parou 5 minutos para pensar como estão as condições nas unidades de ensino estruturado ou multideficiências? Já alguém parou 5 minutos para pensar como será a reação de uma criança/jovem com deficiência grave que precise de ter uma fralda mudada ou uma roupa trocada? Já alguém parou para pensar que temos aqui 2 pesos e 2 medidas: ar condicionados a bombar de tal forma no supermercado que até transpiramos e tudo desligado numa escola? Alguém acha isto normal?
Eu não acho. Está frio e este frio não é psicológico. E é triste estarmos em 2021 (em 2021!!!!!!) com estas (faltas) de condições e, correndo o risco de desrespeitar algumas regras, um professor ter de levar o seu próprio aquecedor para ter um mínimo de conforto mínimo (sim, é repetido de propósito).


Temos muitas realidades a nível nacional. E o interior, muitas vezes, esquecido, também ainda tem escolas... E, no interior, faz muito frio , caso alguém tenha esquecido. E o raio do aquecimento faz falta. Ajuda a ter qualidade de vida, qualidade no trabalho. Ainda que tenhamos um ou vários vírus à solta.

 

 

 

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publicado às 18:17

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