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Conheci Bruno Viera Amaral, em 2019, na Fnac de Coimbra. Conversámos (uma conversa sobre recibos verdes, impostos ao Estado e despesas de ATL) enquanto vigiávamos os nossos filhos no lançamento de um livro. Fez-me perceber, com muito agrado, que os escritores não são todos seres inalcançáveis.
Esta foi a primeira obra que li (não será seguramente a última) e fui logo arrebatada pela escrita cuidada, muito visual (que um cérebro como o meu agradece) e com um excelente uso das palavras, uma escrita crua.
"As primeiras coisas" são aquelas pequenas coisas que englobam personagens, situações e locais num "Bairro Amélia". Ficção ou realidade? Ficção E realidade. Aliás, realidades, no plural. Não só ali naquele bairro da Margem Sul - multicultural, onde o peso das palavras "retornados", "pretos", "ciganos", "velhos", "putas" não é o mesmo de hoje - mas um bocadinho por todo o Portugal pré-euro. Em todos os recantos do país há uma história de alguém que desmancha gravidezes sem ninguém saber mas todos sabem, de um desgraçado que vende atoalhados e eletrodomésticos a prestações numa carrinha e se vê aflito para reaver a totalidade do dinheiro, de um retornado com histórias (quiçá agruras) para contar, de alguém que vive numa barraca, de alguém que tem um Mercedes vermelho reluzente, de um dono de café com copos limpos a panos sebentos e escapadelas com a empregada ambiciosa no armazém, etc. É um mix muito à portuguesa dentro de um local português mas não só. A leitura vai-nos mostrando essas realidades: a dos escudos, a das barracas proibidas depois para dar lugar à ocupação de casas (concluídas ou não), a das drogas, do gangster lá do bairro, da merda de cão em todo o lado, da junção de culturas/credos/raças, por exemplo.
Não tenho uma personagem preferida mas gostei de ler Abel, o que fala crioulo com pedaços de português e inglês e muito latim. Não é qualquer um que fala latim e sabe mesmo o que significam aquelas palavras que dizem numa língua morta. Gostei de ler sobre o fantasma Manuel Morais, um pé cá e um pé lá, nas Áfricas onde tantos portugueses estavam. Gostei de ler sobre outros que vão ficando na memória.
Em última instância, é disso que se trata: não esquecer os vivos e não deixar esquecer os mortos, ao jeito de memórias, na visão, às vezes confusa, do narrador. O "Bairro Amélia" que podem ser tantos outros bairros.
Portanto, leitura recomendada, sem dúvida.

 

Pode ser uma imagem de livro

 

 

 

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publicado às 13:16

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