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Ontem não dei aulas. Ou melhor, não dei aulas na escola. Foi dia da manifestação e greve por distritos em Coimbra e eu fui, com a minha escola.
Não sou a única prejudicada. Os meus alunos são prejudicados. São prejudicados:
- quando não podemos dar-lhes os recursos de que necessitam porque o ministério da educação não autoriza;
- quando são confrontados com um porgrama curricular estupidamente extenso, cheio de conteúdos para vomitarem num qualquer exame ou prova;
- quando são cobaias de programas e programinhas, projetos e projetinhos, cenas e ceninhas para mostrar serviço de um qualquer senhor sentado num gabinete, lá na capital;
- quando são confrontados com quotas até para poderem beneficiar das medidas do DL 54;
- quando mudam de professor no final do ano letivo, com sorte, ou de mês a mês, com pouca sorte, ou nem têm professor, com azar;
- quando a faixa etária dos seus professores ronda os 60 anos e já nem a paixão pela profissão faz o devido milagre porque estão cansados, desmotivados, desrespeitados;
- quando o professor contratado nunca mais volta a trabalhar com eles porque foi para outra escola, com sorte;
- quando, por arrasto das condicionantes da profissão docente, nem eles têm estabilidade;
- quando têm perante si um professor doente ou com familiares doentes mas não pode ter mobilidade por doença, ou porque não tem direito a ela por ser contratado ou porque, apesar de ser do quadro, mudaram as regras a meio do jogo;
- quando professores e auxiliares são mal pagos, em comparação com os vencimentos das mesmas profissões na UE;
- quando o dinheiro para a educação é ao cêntimo e à míngua mas outras entidades é ao estilo buraco sem fundo e basta pedir;
- quando as negociações com sindicatos são um gozo perpétuo e indigno para com os docentes.
E podia continuar mas estou cansada. Ninguém, da comunidade escolar (que são todos os intervenientes diretos ou indiretos), merece isto. Agora, cada um que decida o que fazer. Eu estou farta de prejuízos. E dispenso bem as bocas "tens pouco tempo de serviço porque nunca concorreste para longe" - a minha família vem primeiro senão não teria constituído família (autismo à parte). Assim simples. São opções. E eu durmo bem com isso.

 

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publicado às 21:20

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4 comentários

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De Zé Onofre a 25.01.2023 às 22:50

Boa noite
Já fui professor. Já fiz a mesma luta, embora já estivesse colocado no 10º escalão. Concordo com tudo o que diz.
Apenas discordo num pormenor, que por acaso é um por maior, usar os alunos como escudo, ou como arma de arremesso. Isso não.
Zé Onofre
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De t2para4 a 26.01.2023 às 15:41

Obrigada.
Os meus alunos não são a minha arma nem o meu escudo, são a razão da minha luta porque as minhas filhas também são alunas e todos têm direito a uma educação pública de qualidade. É por isso que também luto.
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De Zé Onofre a 26.01.2023 às 17:26

Boa tarde
Como bem diz os alunos são a razão de ser professora, como já foi a minha.
As minhas intervenções em reuniões sindicais, sem interesse para o caso SPN, afastavam-se muitas vezes dos temas salariais para defender uma escola em que os alunos fossem tratados cada qual pela sua individualidade, e não como "a média". 
Numa dessas reuniões, ainda antes das AEC (com as quais não concordo) defendia que a "a escola" deveria ser a tempo inteiro. Levantou-se um borborinho entre os colegas que se estivesse no West Selvagem ter-me-iam linchado. 
Permitiram que eu continuasse e argumentei. Muitas crianças saem da escola apenas tinham a rua para os receber. Então, a estes alunos deveria a escola oferecer mais tempo e espaços, não para os entreterem, não para continuarem como tempos "lectivos", não para serem aulas de recuperação, não para serem tempos para fazer os TPC (com os quais nunca concordei), não para fazerem uma atividade definida pela escola. Estes tempos e espaços diferenciados estariam à disposição dos alunos para eles frequentarem por escolha em cada dia. Espaços de artes - desenho, pintura, dramática, musical, dança, artesanato - carpintaria, tecelagem, cerâmica - desporto. Esta é a razão de não concordar com as AEC. 
 Se quiser entender melhor leia o que publiquei no Blog - Notas à Margem - por aqui e por ali - 92 (escrito em 996/02/12, reunião do SPN na CMA, Amarante).
  Nessa altura tinha dois filhos estudantes. Fiz as greves que tive que fazer. Manifestei na rua o que tinha para manifestar. Nunca me passou pela cabeça levá-los comigo. Entretanto levava-os comigo às manifestações do 25 de Abril e primeiro de Maio, quando queriam.
  Zé Onofre
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De t2para4 a 30.01.2023 às 09:46

Obrigada pela sua partilha e esclarecimentos. A minha grande luta - principalmente por motivos familiares, como deve depreender deste blog - prende-se com o cumprimento de direitos dos alunos com necessidades específicas. E, em grande parte, a minha greve também inclui reivindicações para esses alunos, os (ainda, em alguns lados) marginalizados e ostracizados da sociedade, os que dão trabalho, os que ninguém quer. Mas a escola pública - a inclusão - é dar aos alunos, a todos os alunos, o acesso à educação - e adaptarmo-nos a isso, dependendo do que temos como público. 
Durante muitos anos fui professora de AEC. Mas foi há mesmo muitos anos, quando ainda havia muita diversão, quando fazíamos coisas fantásticas com os alunos e quando não havia a questão da avaliação. E foram bons tempos. Agora, temos que ocupar os meninos... Vê-se bem pela imposição dos serviços mínimos. Dar aulas é, neste momento, o último dos pontos importantes da parte do ME... O importante é entreter as crianças. A escola deve ser um porto seguro e de abrigo - nisso concordo a 100%. Mas as famílias não podem delegar toda a sua responsabilidade nas escolas... 
Quero acreditar que ainda nelhorará. talvez já não no tempo das minhas filhas que já estão o secundário mas no dos meus alunos. Desejo muito que sim.

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