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Não sou uma acérrima defensora do que é público nem entro em extremismos ou dicotomias "público vs privado".



Já trabalhei nos dois lados, cá em casa um de nós é do público e o outro do/para o privado, já usufruímos de serviços públicos e privados, conseguimos ver o que há de bom no público e no privado mas também sabemos identificar o que está há de bom e de mau no privado. Não vejo mal absolutamente nenhum em ter proveito nos dois mundos e, de alguma forma, contribuir (direta ou indiretamente) para esses dois mundos.

 



Mas, posso assegurar, que me faz muita comichão no lado esquerdo do cérebro, o incessante ataque aos serviços públicos, sejam eles quais forem. Não há perfeição em lado nenhum e sabemos perfeitamente que a nossa máquina pública tem graves defeitos e falhas. Mas também tem algo de bom, por exemplo: um SNS que vai conseguindo dar algumas respostas e até nem é mau de todo nas isenções e tem excelentes profissionais (eu consigo ter termos de comparação com o estrangeiro e, afianço, que temos excelentes médicos); uma escola pública que não pode nem deve negar a entrada de todos e tenta dar resposta a todos; uma segurança social que, a funcionar muito muito mal, com muitos muitos problemas e injustiças, ainda vai dando para abonos, pensões, reformas, etc; um Estado Social (a minha avó nunca descontou na vida mas recebe uma reforma... Como ela, há milhares de octagenários ou mais, na mesma situação...), etc.

 



Chamem-me "novinha", "otimista" ou digam que nunca me negaram nada (é mentira. Sabem lá as milhentas falhas que a segurança social já teve para comigo ou o atraso de 3 anos no diagnóstico das piolhas nas consultas de desenvolvimento numa Maternidade). MAS custa-me que se diga mal só porque sim sem se fazer algo.

Eu dou exemplos concretos:

- quando as piolhas foram para o Jardim de Infância, em algumas sessões de terapia, usava-se o computador que era do terapeuta... Não reinvindicámos material ou criticámos: o marido arranjou um computador que estava a um canto cá em casa e levámos para lá. E por lá ficou para usufruto. Se o JI precisava da nossa esmola? Não, mas nós precisávamos deste recurso e, além de apontarmos esta falha, resolvemo-la (mal ou bem, mas resolvemos).

- quando as piolhas entraram para a escola primária, não havia um canto TEACH para elas na sala. Em colaboração com os professores delas, nós pais e eles, criámos as condições necessárias para estarem na mesma sala de aula dos colegas: mesa organizada com PECs, cantinho de recursos sensoriais, material organizador, um horário visual acessível a todos, etc. Pedimos um recurso humano para duas (um docente de Ed Especial, uma Assistente Operacional, etc.).

- quando cortaram os horários das terapias, contestei e apresentei uma solução: em vez de terapias quinzenais em separado, passariam a ter terapias juntas semanalmente (e argumentei com a experiência do passado e os pontos fortes de uma e de outra como vantagem de trabalho);

- quando cortaram o tempo de terapias, foi proposta uma espécie de oficina de trabalho entre terapia da fala e ocupacional, de modo a poder tocar os dois mundos e não perder nada.



Na saúde? Apesar do sistema, sou eu a ponte entre Centro de Saúde (Médico de Família) e o Hospital Pediátrico de Coimbra, para as piolhas, para que caminhemos todos no mesmo sentido. E, no caso do meu pai, fui eu quem traduziu todos os relatórios médicos que anexei aos originais para colocar o médico a par da situação. Eu sei que há serviços para isto mas demoram, têm custos. Não me custa nada ajudar o sistema e desbloquear uma resposta.

 



Eu sei que há muita muita coisa errada, nós não queremos estar aqui a servir de exemplo para nada nem para ninguém, mas se não nos mexermos e não formos mais proativos e colaborantes, as coisas não funcionarão mesmo... Sei que vou ser acusada de estar a facilitar um sistema que deveria olhar por nós mas eu estou ciente que tenho direitos e também deveres. E sei que é muito mais célere e com mais hipóteses de sucesso quando nos envolvemos de forma positiva. Custa-me uma crítica só porque sim, sem um mínimo de esforço ou de empenho em que as coisas mudem.

 



E, agora, façam como quiserem. Não é uma defesa do público em detrimento do privado (eu fui curada das minhas lesões cerebrais pelo privado mas foi o público que me salvou as piolhas in utero com um tratamento que me pagaria a casa). É um desabafo de quem está farto de ver gente que se queixa de tudo e todos e que acha que o que é estrangeiro é que é bom mas nunca levantou a peida do sofá para fazer a diferença nem nunca se atreveu a sair deste retângulo à beira-mar plantado.

 

 

 

 

 

 

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publicado às 21:06

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