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Deixem o Queiroz em paz

por t2para4, em 07.03.21

Desafio(s) para interpretantes pessoais que insistem em ler obras, estudar quadros/pinturas/frescos à luz de um contexto atual e sem a mínima consideração pelo devido enquadramento histórico, político, social e geográfico da obra em mãos:
- não faltem às aulas de Português (ou outras línguas) nem de História;
- verifiquem em que ano a obra foi escrita/pintada/produzida;
- verifiquem em que país se enquadra essa obra/autor;
- leia-se, veja-se, aprecie-se às luzes desse prévio trabalho;
- aprenda-se com o que se lê/vê/observa.


Querer reescrever a História (mesmo que se recorra a disclaimers) é, no mínimo, uma cena muito orwelliana e nada, nada, absolutamente nada saudável - além de que não se aprenderia nada com isso.
Querer contaminar os artistas de outrora com as visões da sociedade atual é isso mesmo: contaminação.
Haja o mínimo de noção e vejamos as coisas como elas são, no tempo em que surgiram, sim? Menos, minha gente, muito menos.

 

 

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publicado às 15:38

Novo texto em https://uptokids.pt/opiniao/cronicas/o-estado-falha-e-nao-da-o-exemplo/?fbclid=IwAR2LyAuDIosEIMk9kNNim8e2ttwcSj-SZqfJ3Mj7XGblIANn9NzP7wiu_IM

 

O Estado falha e não dá o exemplo. Mas se eu estiver à espera, quem falha sou eu.

 

O Estado falha e não dá o exemplo. Mas se eu estiver à espera, quem falha sou eu.

Quando, em 2010, aquando do diagnóstico nos foi dito que as piolhas precisavam de “terapia da fala para ontem” (sic), a primeira coisa que fizemos foi tratar do assunto e questionar a intervenção precoce nesse sentido. Acontece que, como nos fomos habituando a ouvir ao longo destes anos, há casos mais graves (apesar de elas não serem verbais na altura), a lista de espera é grande, só nos puderam dispensar uma educadora de educação especial e depois uma psicóloga – e não em simultâneo.

Ou seja, face à falta de resposta do Estado – apesar do direito das piolhas a este serviço – fomos procurar fora o que precisávamos desesperadamente – e pagámos do nosso bolso. Sem apoios, sem subsídios, sem ajudas. E não foi por falta de tentativas. Os tempos eram outros, alguns dos apoios que há agora não existiam na altura, para os que há não éramos elegíveis.

Passou-se o mesmo com terapia ocupacional.

E passou-se o mesmo com reforço de terapia da fala.

E passou-se o mesmo com psicologia.

Procurámos fora a resposta de que precisávamos e pagámos. Apesar de a legislação em vigor prever um apoio.

Passa-se o mesmo, embora numa escala profissional e um pouco difícil de ver a comparação, com o trabalho de um professor.

E eu até arrisco a dizer “professor contratado”, o tal que, apesar de fazer a mesmíssima coisa que um professor do quadro, ganha menos, não progride, não é avaliado justamente (sim, eu nunca tive um Muito Bom apesar de quantitativamente o merecer), não usufrui em pleno dos direitos previstos no Estatuto da Carreira Docente e mais uns quantos diplomas legais. Por exemplo, não posso tirar uma licença para ficar com as minhas filhas, em caso de necessidade. Uma baixa, uma licença sem vencimento, por aí, ainda vá. Não posso concorrer para ficar colocada no cu de judas e pedir aproximação à residência por motivos de deficiência/apoio a descendentes. Mas adiante. São as opções que tomo e não me arrependo. No entanto, estas minhas opções acabam por me lançar em duas vertentes: a de professora com contrato por conta de outrem e a de trabalhadora independente.

Ora, para eu sentir e saber com toda a certeza de que estou a trabalhar com as condições a que me proponho e que proponho oferecer aos meus alunos com a preparação do meu trabalho, eu preciso de material. Logo, preciso de computador/es, projetor, monitor, tablet, smart pen, manuais técnicos de apoio, programas de tradução, impressoras, internet, etc. Ou seja, eu preciso de material para preparar e apresentar as minhas aulas, com base no que eu ambiciono ter como resultados.

Numa empresa – mesmo pública – teria esse material à disposição para uso profissional e faria todo esse meu trabalho no local. Requisitaria todo o material de que necessitasse. Não precisaria de fazer de casa a extensão do meu posto de trabalho.

E esse local chama-se “Agrupamento de Escolas de Unicornilândia”.

Num agrupamento de escolas do nosso país, na maioria das vezes, os computadores demoram quase 10 minutos a arrancar, não têm os programas de que necessitamos para ler um simples ficheiro audio, a conversão online demora mais de 20 minutos (se for autorizada pela rede e se a net estiver em dia bom), faltam canetas dos quadros interativos (se tiver a sorte de ter um na minha sala – coisa que não me acontece desde… bem, desde há uns bons 6 ou mais anos), o projetor está sempre ocupado e tem lista de espera, não há uma simples extensão elétrica, nem pensar em conseguir encontrar livros técnicos recentes na biblioteca escolar quanto mais programas licenciados de tradução ou educação e, não sendo eu de educação especial, desses muito menos, e do resto nem vale a pena falar. Tablets? Monitores auxiliares? É a gargalhada geral.

Pois bem, eu cá gosto pouco de ficar à espera e, tendo em conta a dualidade público-privada-desenrascada da minha profissão, eu tenho todo esse material. Mas é MEU. Comprado e pago por MIM, sem patrocínio ou apoio estatal algum. Pago inteiramente por mim. E, por isso, não empresto a ninguém (o que incluiu colegas) e reservo-me ao direito de usá-lo na sala de aula a meu bel-prazer, de acordo com o plano de aulas que tenho preparado.

Ora, mas agora estamos em teletrabalho e o Estado deveria comparticipar esses gastos ou, pelo menos, requisitar o teu material.

Sim, deveria. Mas eu sou uma mera professora contratada a quem foi atribuído um número gigantesco de identificação para efeitos de concurso, que ninguém conhece e de quem ninguém quer saber e que também trabalha por conta própria. E que não consegue lidar com as frustrações de não conseguir trabalhar com material obsoleto e não quer desconfinar à força. E que já usa todo este material para preparar as aulas e atividades e burocracias da sua atividade como trabalhadora independente.

Percebo, com toda a legitimidade, a posição de colegas que estão contra o uso da sua propriedade por parte do Estado. E também percebo, com toda a legitimidade, a posição de colegas que não estão para mexer num vespeiro.

Mas eu preciso destas coisas.

E preciso de um salário. Preciso de tempo de serviço. E não consigo deixar de me preocupar em não conseguir fazer as coisas minimamente quando, afinal, tenho tudo de que preciso. Meu mas ao serviço do Estado, é certo. Apesar de ser o mesmo Estado que me falha em relação aos meus direitos e aos das minhas filhas.

Do que eu não preciso é de críticas e de pseudosuperioridades por parte de colegas porque todos fazemos o mesmo: procuramos soluções quando não há.

Há quem, como eu, opte por investir e ficar com material que pode usar da forma como quiser; há quem opte por se sujeitar ao que o Estado tem – e não são os top do parque tecnológico escolar.

Se eu tivesse ficado à espera do Estado e não tivesse pago por fora, as minhas filhas nunca teriam passado de não verbais para verbais; se eu me recusasse a usar o meu material neste momento, teria de voltar à escola e deixar de as apoiar (professora contratada, remember?) e sofreria penalizações por ter trabalhar como independente mas não como contratada. Nada é fácil neste retângulo à beira-mar. Mas esta é a minha posição. Não me importa o que pensam os outros. O Estado falha.

O Estado falha e não dá o exemplo. Mas se eu estiver à espera, quem falha sou eu. E isso eu não suporto.

 

 

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publicado às 16:21

Dia #1 - E@D versão 2021

por t2para4, em 09.02.21

É só o primeiro dia.
Mas só agora desliguei o computador.

Hoje houve de tudo: lágrimas de frustração e de raiva; vontade de atirar PC janela fora; vídeochamadas que foram abaixo milhentas vezes; uma piolha no computador da mãe para perceber onde estava o problema; impressão de dezenas de páginas; envelopes gordinhos com materiais para enviar hoje para alguns alunos (da minha atividade paralela); reunião geral de professores com direito a fazer a ata; agendamento de várias salas de reuniões em plataformas diferentes; atualização de classrooms; elaboração de planos de trabalho para partilha obrigatória aos alunos; elaboração da atividade de S. Valentim para miúdos e graúdos com as devidas adaptações; preparação de material para as aulas; palavras de conforto para filhas, alunas lavadas em lágrimas e pais com dificuldade em colocar os dispositivos a trabalhar; preparação do almoço e jantar; máquinas a lavar e secar; análise das nossas dificuldades técnicas; redação de dezenas de emails; um ibuprofeno para as dores.

 

Somos 3 a usar rede de internet sem possibilidade de cabo; somos 3 a exigir aos PC que trabalhem em simultâneo em conferências e partilha de ecrã com documentos; somos 3 a recorrer ao telemóvel para nos socorrermos quando há algum problema; somos 3 em aulas diferentes. Todos os dias. Durante as próximas semanas (meses?).

Tem de haver alguma condescendência, dentro da segurança e aprendizagem dos alunos, claro. Tem de haver a perceção de que os equipamentos falham. E tem de haver noção de que isto não é uma extensão do ensino presencial.

E temos de aprender a ter calma. Mesmo. Ter calma. Senão, no final da semana, estamos todos no Sobral Cid. E eu não acredito que estejam a aceitar internamentos agora.

 

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publicado às 00:40

Das dúvidas que não são dúvidas

por t2para4, em 06.02.21

Creio ser seguro dizer que passei cerca das últimas 48h a responder às perguntas mais disparatadas, estranhas e até absurdas. E a fazê-lo de forma polida, educada e indubitável (mesmo que me sinta o Hulk a explodir de raiva).

 

“Lamento mas não podemos ter aula via Facebook. A escola tem uma plataforma para todos os intervenientes e será essa que eu irei também utilizar".

“Lamento mas não poderá enviar os trabalhos via Messenger. A escola tem uma plataforma para todos os intervenientes e será essa que eu irei também utilizar".

“Lamento mas não podemos criar um grupo no WhatsApp, não só pelas suas limitações na partilha de imagem e documentos em ecrã como também não pretendo disponibilizar o meu número de telemóvel. A escola tem uma plataforma para todos os intervenientes e será essa que eu irei também utilizar".

“Lamento mas os prazos de entrega estipulados são para cumprir. Receberei e corrigirei os trabalhos mas, como constará dos respetivos critérios de avaliação da atividade pedida, o incumprimento do prazo implica penalização na atribuição da nota”.

“Lamento a sua dificuldade de recursos materiais. Deve expor a situação à escola e, enquanto se analisa, o seu filho/educando deverá estar presente, no telemóvel, e enviar os trabalhos pedidos. Não será penalizado pela forma de envio, por isso, pode fazer no caderno e enviar fotografia”

“Lamento mas não há lugar a compensação de aula no caso de falta do seu filho/educando. No regime presencial tal também não acontece. Deve justificar com quem de direito e esclarecer as suas dúvidas da aula comigo, se for o caso”

“Sim, a disciplina continua a ser curricular no ensino à distância e continua a obedecer aos mesmos critérios de avaliação do regime presencial”

“Sim, será esta a plataforma a usar uma vez que a escola disponibilizou para todos os intervenientes e será essa que eu irei também utilizar".

“Se o seu email institucional não funciona deverá contactar a escola para perceber o que se passa. Lamento, mas não posso ajudar”

“Sim, tem de utilizar o email institucional disponibilizado pela escola pois a plataforma não aceita outras extensões”

 

Bem-vindos ao mundo real, onde isto existe mesmo.

Socorro.

Que os anjos vos protejam, coragem, boa sorte, namastê (ou a professora exausta que há em mim saúda o semelhante que há em ti), muita cafeína, um copo à refeição até é permitido, mais cafeína e que nos valha Santo E@D.

 

 

 

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publicado às 20:49

À medida que o tempo passa e saem cada vez mais artigos científicos e estudos sobre diversos assuntos - linguísticos, clínicos, médicos, etc. -, sou levada a crer que, na verdade, a maioria das pessoas não quer saber - no sentido de ler, perceber, questionar em caso de dúvidas. O primeiro instinto é por regra a desconfiança, seguido de um ror de argumentos pseudoplausíveis a justificar a atitude. Ou seja, um bocadinho aquilo que se vive neste momento em relação à doença covid, vírus recentes, se a Terra é plana ou redonda, antivaxxers (pessoas contra vacinas), se o Homem foi mesmo à Lua, etc. Basicamente, todos os temas fracturantes que suscitem imensas teorias da conspiração. E gente que as defende. É o efeito Dunning-Kruger (ai pensavam que isto não tinha nome? Tem, pois! Um nome mais pomposo e bonito do que "estupidez").

Isto para dizer que tenho cada vez menos vontade, paciência e tolerância para me justificar enquanto mãe e para provar por a+b+c tudo o que envolve as piolhas, a outros, a terceiros. Não tenho de o fazer, não tenho de provar nada e, definitivamente, não tenho de ouvir conversas que comecem com "no meu tempo" ou "se fosse comigo".
Como dizia a nossa médica ontem, uma coisa é uma condição clínica com possível causa genética que não é nem defeito nem qualidade; outra é a estupidez que é um defeito incurável porque a pessoa assim o quer.


Avizinham-se tempos extremamente trabalhosos com escola à distância e toda a gestão pessoal e familiar e dificuldades que isso acarreta (não se iludam porque antes da Páscoa não volta ninguém à escola, dados os números em relação a contágios, infeções e internamentos de crianças de faixas etárias cada vez mais baixas) .
Noção precisa-se. E os pais atípicos não precisam de estar sempre a levar com a falta dela.

 

 

 

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publicado às 11:00

As escolas nunca fecham

por t2para4, em 19.01.21

A escola não é apenas um lugar de aprendizagem, de ensino, de experiências. Sabemos - ou deveríamos saber - que, em muitas situações - situações até demais, infelizmente, e que deveriam estar totalmente identificadas e resolvidas - funciona como centro de apoio, como porto de abrigo, refúgio até. Sim, muitas vezes, é na escola que algumas crianças têm as únicas refeições decentes do dia.


Mas, atenção quando se escreve dando exemplos generalistas descontextualizados como justificação do não encerramento atual das escolas face aos casos de covid! Fechar as escolas agora, parar as escolas no Natal, parar no Carnaval (sim, aqueles 3 habituais dias), parar na Páscoa e parar quase 3 meses para alguns anos de escolaridade vai manter as mesmas desigualdades, vai manter em risco algumas crianças, vai trazer problemas de violência e fome. Porque as escolas não funcionam 24h/dia! Mas também não fecham na totalidade! Não é só por conta do covid! Que não se use essa desculpa para não se proceder ao que deverá ser ética e medicamente mais correto neste momento!


As escolas não funcionam sozinhas. Há protocolos com juntas de freguesia, câmaras municipais, entidades (semi)públicas e privadas e mais, para que, nas pausas letivas, essas crianças não morram de fome, frio ou violência! Há CPCJ para os casos graves. As mesmas premissas que usam agora para justificar o manter as escolas abertas enquanto morrem aos Boeings cheios de gente por dia em Portugal! Estas situações manter-se-ão nas férias grandes, sabem? Ou nas férias grandes já não há problema de aulas+covid+desigualdades+etc e tal?


Para os ignorantes de serviço, tenho uma novidade: houve escolas que NUNCA fecharam de março até agora! E houve até crianças que tiveram SEMPRE aulas presenciais, com professores a sério, lá dentro de uma sala de aula! E havia SEMPRE refeições garantidas para crianças carenciadas! E havia comunicação estreita com as famílias na tentativa de se apurar se estaria tudo a correr bem - aulas à parte. E, pasme-se, as escolas sede NUNCA fecham nas férias grandes!
As escolas têm muitos defeitos mas, porra, por regra, não costumam deixar estes casos graves e sinalizados para trás, nem nas férias grandes.
Não me venham é usar esses argumentos mal usados, gastos, deturpados que até já cheiram mal como desculpa porque não há dinheiro para fechar as escolas. Assumamos que é isso! Não há! E eu percebo! Nem imagino a cratera fenomenal que a nossa paupérrima Segurança Social deverá ter. Mas não se invente que é a fome e a violência que impedem de fechar as escolas. Para esses, as escolas nunca fecharão. Terão sempre a sua refeição, terão a sua vigilância.


E, aviso desde já que se começarem os insultos, vierem mimimis desagrados ou teorias da conspiração, vão logo àquele sítio com três cestos - serão banidos e bloqueados e até denunciados. Não tenho a mínima pachorra para aturar gente acéfala quando se morre às centenas em hospitais, quando faltam ambulâncias, quando se escolhem vidas como se estivéssemos numa guerra civil do século XIX, quando há enfermeiros a alimentar doentes em ambulâncias que esperam horas para entrar nos hospitais. Querem acreditar que a Terra é plana é lá convosco mas não neguem que está a ser cada vez mais difícil escapar a um vírus que existe. E que está cientificamente provado.

 

 

 

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publicado às 23:18

A escola é minha, é tua, é nossa

por t2para4, em 15.01.21

Este é um post sobre educação, sobre escola, sobre defesa da escola pública, sobre a defesa do acesso universal à educação.
Sim, seguir a máxima - concordemos ou não, apesar da burocracia inerente - "escola de todos para todos". E isso, meus caros, inclui mesmo todos. Todos até aqueles que têm deficiência, que são neurodivergentes. Isto é sermos "todos".


Um determinado candidato presidencial e dirigente de um partido extremista - o mesmo candidato que se incomoda e faz uma birra por causa do baton vermelho de uma oponente, do que se compra no estrangeiro sobre outra, que insulta idosos (esquecendo que é para essa faixa etária que caminha) e traz à baila o que pior havia num Portugal profundo e ostracizado nas décadas de 40-50-60-70, apresenta, na sua proposta eleitoral, o que se transcreve abaixo:


"Educação: à cabeça surge a ideia de extinguir o Ministério da Educação, mantendo também aqui o governo meras funções de regulação e inspecção. “As instalações escolares passariam, num primeiro momento, para a tutela da Direcção Geral do Património que, de seguida, as ofereceria a quem nelas demonstrasse interesse, dando-se prioridade absoluta aos professores nelas leccionando nesse momento”. Seguir-se-ia a “instituição do cheque-ensino”, subsídio directo ao estudante, permitindo a este optar pela escola da sua preferência."


Ou seja, apesar de todos nós - gente do terreno, não doutores de gabinete - sabermos que o MEC tem muitas falhas, no entanto, sabemos que o MEC ainda é o que nos rege e, em algumas situações, põe mão e travão a verdadeiras atrocidades legais aos direitos dos alunos nas escolas. Uma proposta destas a concretizar-se iria traduzir-se na hora - não tenhamos dúvidas!!!!! - num regresso aos anos negros da ditadura, sem escola para todos, se lugar para aprender, sem lugar para as crianças com deficiência, com necessidades específicas.
Não nos iludamos que muitas perturbações como dislexia, défice de atenção, autismo, défice cognitivo iriam desaparecer dos decretos-lei e as deficiências mais profundas, as doenças raras nem seriam previstas. As unidades multideficiências seriam fechadas e desmanteladas, as unidades de ensino estruturado seriam reconvertidas em salas de aula típicas, os recursos humanos usualmente dedicados à área da educação especial seriam dispensados. A Educação Especial seria extinta. Extinta! Porque, à semelhança do que já fazem algumas instituições privadas, a escola, que deixaria de ser pública e de todos e para todos, privatizada, passaria a dar-se ao luxo de recusar determinados alunos, passaria a usufruir em pleno esplendor da reserva do direito à admissão.
A escola pública tem muitos problemas e não é perfeita. Mas a escola pública portuguesa é das únicas no mundo onde existe algo semelhante à inclusão, a caminho dela, num espaço de apenas 40 anos (o post que escrevi sobre isso aqui).


Política à parte, partidos à parte, vontades à parte, confinamento à parte, pensem bem se é isto que querem para os vossos filhos - típicos e atípicos-, se querem voltar a ver o nosso país - independentemente dos seus defeitos e problemas - não só mergulhado numa crise profunda mas também numa obscuridade medonha, com medo até da própria sombra. Pensem bem se vale a pena desistir do direito do voto ou não votar porque estamos zangados com o atual Governo. Pensem bem se é dar cabo do pouco bem que temos em busca de uma coisa atroz, inconstitucional certamente (artigo 43 da Constituição da República Portuguesa) e contra os direitos humanos (Declaração dos Direitos Humanos, artigo 26). Pensem bem se nos interessa ter um povo cada vez mais acéfalo, incapaz de pensar por si e sem oportunidades educativas justas de todos e para todos. Pensem bem se querem que se mexa na nossa Constituição para alterar direitos básicos que devem ser alienáveis.


Tirem o cu do sofá, façam o vosso passeio higiénico e vão votar. Quanto mais não seja para afastar "pessoas" destas de lugares aos quais não pertencem.

Hoje é um baton vermelho e um avô bêbedo, amanhã são escolas privatizadas com ensino discriminatório e elitista.


Nem eu nem as minhas filhas merecemos isso. Não é para isso que pago os meus impostos e continuo a dedicar-me à profissão, sabe lá muita gente com que sacrifício.


Concluo, repetindo-me e retirando a premissa do Decreto-Lei 54/2018: escola de todos para todos.


#escolapública #defesaescola #direitoàeducação #direitoàdiferença #neurodiversidade #deficiência #proteçãodaeducação #apeloaovoto #t2para4

 

 

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publicado às 15:08

Até podia escrever sobre um confinamento geral "muito, muito rigoroso" (sic - não o canal, mas uma citação textual) mas com escolas abertas, usando, como argumentos contra e a favor referindo o estado da economia, as ações preventivas de outros países da União Europeia, o colapso do nosso SNS, o medo pessoal, os riscos, etc etc etc.


Não o farei. Toda a gente já leu, em locais bem mais instruídos do que este; pressupõe-se que todos sabem bem o que se está a passar; sabemos que por causa do pecador paga o justo. Também já sabemos - se não sabemos, ficamos agora a saber - que já se fazem "escolhas impossíveis" (sic, de novo) nos hospitais portugueses.
Só tenho a dizer que um aluno que não aprenda a fazer frações no 2º ano não ficará com handicap desse conteúdo para o resto da vida nem os exames nacionais deixarão de se fazer caso as escolas, numa remota e hipotética hipótese, fechem.


Somos todos uns dramáticos e uns mimimis. E sim, a situação está dramática. Mas acho que os mimimis ainda não acordaram. Creio que poucos pararam ainda para pensar que se tivermos um acidente grave no caminho de casa e precisarmos de uma cama ou de um médico ou de um ventilador pode não haver. E nós não temos covid mas sim um fdp de um acidente de viação.


E, por mim, acabou-se esta conversa do confina-mas-não-tudo e ai-meu-deus-a-economia. Há de vir fome e miséria mas se o vírus tivesse surgido há uns 8 anos, acho que passaríamos a fazer como os europeus na 2ª Guerra Mundial e até de urtigas faríamos sopa e dos jardins uma horta.
Tenhamos cuidado, sejamos cívicos, façamos a nossa parte e cumpramos as regras de saúde mínimas exigidas. Um dia de cada vez e vários dias se farão.

 

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publicado às 22:17

Início da semana.


Manhã.
Estão 0,5 graus numa aldeia remota do interior do país, num vale no meio da serra. Os acessos são duros, cheios de curvas, curvas com gelo que só derrete na primavera e onde o sol não toca o dia inteiro. Na escola, quase à beira de uma ribeira, o aquecimento não está ligado porque há uma avaria. Está um gelo húmido e vê-se o vapor a sair da boca dos alunos pequenos. Estamos todos de gorros e casacos, abotoados até ao cimo. Peço um aquecedor. O único aquecedor daquela escola veio, um pouco a contragosto, para a minha sala e lá conseguimos trabalhar com os dedos mais ou menos quentes, embora os pés e os joelhos gelados.
A manhã esteve sempre cinzenta, com nevoeiro e fria, fora a humidade.


Tarde.
Estão cerca de 5 graus numa escola a meio metro de distância de um rio. A humidade é tal que se entranha na roupa, nas botas, nos ossos. A sala, desocupada desde há quase 3 semanas, está um gelo sepulcral. Desencantei um aquecedor elétrico de uma colega. O aquecimento, pouco e antigo, só fica ligado durante a manhã. Se, com sorte, os radiadores de parede estiverem a funcionar. Veio sol por cerca de 20 minutos e depois, a encosta da montanha, tapou e ficou escuro e frio.


Meio da semana.


Manhã.
Estão -1 (sim, um grau negativo), numa escola nos arredores de uma cidade capital de distrito (quando digo arredores refiro-me aí a uns 5km da artéria mais movimentada daquela cidade). Não há aquecimento central, nem local, nem individual nem coletivo, não há nada. Não podemos fechar as portas porque temos de cumprir com as regras da DGS e, nos intervalos das aulas, temos de abrir as janelas. Pela 1ª vez em 17 anos de aulas, tive de trabalhar de gorro porque tremia com arrepios de frio. Os meus alunos estavam todos de luvas, mantas nos joelhos, casacos de capuz, gorros, cachecóis. São alunos, na sua maioria, já adultos e que toleram melhor o frio que uma criança pequena. Com toda esta parafernália e ainda máscaras, já é uma sorte eu conseguir ver-lhes os olhos.
Saímos às 14h, com cerca de 6 graus na rua mas enregelados, de pés gelados (e reparei que, como eu, muitas alunas traziam collants por baixo das calças) e a tentar aproveitar o sol, qual lagarto no deserto, aos primeiros raios de sol.


A realidade das piolhas, aqui ao lado de casa, é muito semelhante apesar de haver aquecimento e este estar ligado: alunos super agasalhados, uma coleção de mantas nos joelhos, professores encasacados e de pontas dos dedos geladas a escrever nos quadros porque há portas (e janelas) abertas porque tem de haver circulação de ar. Por causa do vírus - aquele vírus apenas, não outro. Noutras escolas, por causa desse mesmo vírus, aquecimento desligado ou avariado...


Estas escolas não são escolas decadentes, não são escolas com problemas estruturais na sua construção - apesar das suas muitas décadas de vida -, algumas destas escolas são até modernos centros educativos. Mas nenhuma destas escolas oferece condições de trabalho a alunos e professores, horas enfiados numa sala gelada, sentados no mesmo lugar de hora a hora, saindo para um intervalo/recreio igualmente gelado. Não há capacidade intelectual que aguente pensar, trabalhar, escrever com frio. Alunos e professores sofrem com os dedos gelados e as frieiras voltam a aparecer.


Critico audivelmente a falta de manutenções básicas que deveriam ser feitas no verão e este tipo de condições criadas porque estamos a ultrapassar a barreira da noção.
Não somos um país nórdico habituado a trabalhar ou a dormir ao frio ou a brincar na neve. Não somos um país nórdico com ar condicionado até nas paragens do autocarro para nos aquecermos. Não somos um país nórdico onde, desde pequenos, sabemos lidar com temperaturas extremas e como agir em conformidade. Não somos um país nórdico com condições para trabalhar e estudar com temperaturas demasiado baixas. E mesmo assim, não me venham já com "na Finlândia ou na Suécia ou no Luxemburgo ou na Bélgica" porque há lá uma coisa chamada "intempéries" que é basicamente uma licença em que o trabalhador é dispensado do trabalho e pago a 80% ou 100% por causa das condições meteorológicas, durante um determinado espaço de tempo, aplicável a certas profissões. O meu pai, pedreiro, passou por situações assim. Ou era destacado para serviços de interior ou ia para as "intempéries".
E não está aqui ninguém a pedir para ir para casa, não se vá de ler o que não está aqui escrito.


Em algumas escolas - essas sim sem condições - já era duro lecionar e aprender no pico do inverno. Neste momento, é absurdo impor essa dureza gelada, fria e calculista em todas as escolas. Os nossos alunos - porra!, os nossos filhos - não apanham covid mas ficam com um risco acrescido de ter uma gripe séria, uma inflamação na garganta ou ouvidos, uma pneumonia? E já alguém parou 5 minutos para pensar como estão as condições nas unidades de ensino estruturado ou multideficiências? Já alguém parou 5 minutos para pensar como será a reação de uma criança/jovem com deficiência grave que precise de ter uma fralda mudada ou uma roupa trocada? Já alguém parou para pensar que temos aqui 2 pesos e 2 medidas: ar condicionados a bombar de tal forma no supermercado que até transpiramos e tudo desligado numa escola? Alguém acha isto normal?
Eu não acho. Está frio e este frio não é psicológico. E é triste estarmos em 2021 (em 2021!!!!!!) com estas (faltas) de condições e, correndo o risco de desrespeitar algumas regras, um professor ter de levar o seu próprio aquecedor para ter um mínimo de conforto mínimo (sim, é repetido de propósito).


Temos muitas realidades a nível nacional. E o interior, muitas vezes, esquecido, também ainda tem escolas... E, no interior, faz muito frio , caso alguém tenha esquecido. E o raio do aquecimento faz falta. Ajuda a ter qualidade de vida, qualidade no trabalho. Ainda que tenhamos um ou vários vírus à solta.

 

 

 

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publicado às 18:17

MEC - onde anda este Ministério?

por t2para4, em 26.12.20

Há gente que, certamente, não dorme de noite para as fazer de dia. E, com esta introdução, refiro-me a um qualquer iluminado que, não vá o Governo mudar de repente, precisa de mostrar um qualquer serviço lá nos gabinetes do Ministério da Educação. Então, de uma assentada só, alguém se lembra de mexer nos exames nacionais e, também!, criar uma nova aferição (que é como quem diz, mais um exame da treta).
Portanto, as notas dos exames nacionais de 2020 foram demasiado boas, logo, vamos complicar a coisa em 2021. Um sistema perfeitamente retrógrada e anti-escola, quando temos um DL 55/2018 a falar especificamente em flexibilidade e flexibilização. Mas, está bom de ver que, a pedagogia ideal é aplicar um exame padronizado a nível nacional porque, como todos sabemos, somos todos exatamente iguais.


Temos alunos sem terem tido uma única aula de determinadas disciplinas desde setembro (porque, como toda a gente também sabe e aqui se vê, há professores a mais - ironia) e alunos em isolamento profilático ou em quarentena mas o importante é mesmo avaliar as aprendizagens de março a junho porque estivemos em casa. Se não fosse tão sério, até dada vontade de rir à gargalhada. Esta "diretriz" vem do mesmo local que indicou 5 semanas de revisão e consolidação de conteúdos no início do 1' período ou a possibilidade de o ir fazendo ao longo do ano.
O nosso ministério gosta é de aferir e examinar. Esqueceu-se do mais importante: lecionar. Porque um dia, esta "simples" ação de passar e transmitir conhecimentos e afins vai fazer falta, porque, para já, tudo é importante exceto dar aulas. Se não fosse Natal, juraria que era uma piada. Mas nem fake news é, é mesmo a realidade. Triste.

Mas calma que ainda há manobra para piorar. Ainda falta resolver como serão lecionados os conteúdos das disciplinas sem professores há meses (e consequente avaliação, pois claro), que medidas surgirão para colmatar a falta de professores. Só para nomear estas. Oxalá me engane muito mas cheira-me que, muito em breve, vamos ter técnicos com o 12' ano a dar aulas e a serem tratados por "professor". Vá, mandem-nos emigrar agora, vá.
Esta é mesmo a realidade. Triste.

 

 

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publicado às 09:38

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