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Capacitismo? Dispensa-se, obrigada

por t2para4, em 25.02.21

Se eu falar, rapidamente em RainMan, Good Doctor e Astrid, certamente, alguns reconhecerão os protagonistas como indivíduos com autismo. E a maioria até pode comentar "Mas eles são brilhantes! Esquisitos mas muito inteligentes. Os autistas são assim."
Se eu falar em Tim Burton, Anthony Hopkins, Eminem e supostamente Messi, alguns também poderão associar como indivíduos com autismo. Não são personagens fictícias. "Ah, mas eles nem se nota nada.", "sim, têm uma certa pancada mas são geniais"


Engraçado como acabamos sempre no "genial". Sabem o que é genial no percurso de todos eles, de todos os que têm esse diagnóstico? A capacidade que tiveram de suportar horas infindáveis de terapias e trabalho, a aprendizagem constante, a resiliência, as pontuais crises, a identificação de gatilhos, a desregulação sensorial, a seletividade alimentar... e podia continuar mais umas quantas frases. Isto é que é genial, seja no percurso do Tim Burton, das minhas filhas ou do G. que ainda é não verbal com 14 anos.
A tolerância - e compreensão - de terceiros só tem (algum) espaço quando indivíduos com autismo são crianças. A empatia, a sensibilidade é maior. Quando estas crianças adquirem o mau hábito de ousar crescer para se tornarem adolescentes, jovens e adultos (ler a ironia, sim?), ninguém vê o caminho - apenas e somente o resultado.
Se for um individuo com autismo mas for funcional, ai, então, não se passa nada, é tão perfeitinho, correu tudo bem, vês?, há casos bem piores, olha aí que fala tão bem, não olha nos olhos, bah, isso não é importante, o meu também não come ervilhas e não é autista.
Se for um individuo com autismo mas não for funcional, ai, coitado, já viram o que esta pandemia veio fazer, a regressão, mas ele/a nem fala, e precisa de ajuda, as terapias não resultam, coitados destes pais.
Nenhuma destas situações precisa deste tipo de discurso capacitista, obrigada. O esforço exigido ao próprio autista e família/cuidadores é impensável aos demais. Os resultados variam consoante tantas tantas tantas variáveis que não dá para explicar num texto simples via facebook. Do que nenhum de nós precisa - em especial, quando nos referimos aos chamados autistas de alto funcionamento ou rendimento ou o que lhe queiram chamar, é desvalorização e a sensação grátis com que se diz "este é mais autista do que este que é menos". Mas o que raio quer isso dizer? Devo regozijar-me por as minhas filhas falarem porque há quem não fale? Porque elas têm medidas seletivas mas há quem tenha adicionais? Porque uns são adolescentes mas comparam com bebés de 4 anos? É isso?! Essa porra dessa comparação faz tanto sentido como comparar a boazona da Cindy Crawford comigo ou a minha conta bancária com a da Paris Hilton. Posso comparar mas é simplesmente idiota e absolutamente irreal.


Quando se vê um jovem/adulto com determinada condição e, aparentemente, muito funcional, a primeira coisa a fazer é morder a língua. Não podemos estabelecer semelhanças destes com o filho do vizinho que também tem autismo mas tem 4 anos. O caminho desbravado importa e importa muito. Arrisco a dizer que é isso que faz toda a diferença. E, além disso, lembram-se de eu já ter falado de "autismos", plural? Também há isso. Há o J. e há a S. Ambos com autismo mas tão diferentes como a noite do dia.


Palavras de ordem? Não desvalorizar, não comparar o incomparável, não minimizar - é preferível assumir a ignorância em determinado assunto e pedir para aprender.

 

 

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publicado às 09:19

Faz sentido falar-se em "autismos"

por t2para4, em 18.02.21

Talvez no próximo DSM, volume VI, tenhamos a designação de "autismos", no plural, dada a vastidão e imensidão do espectro.

Inicialmente, eu nem sabia bem em que consistia esta condição. Eu não fazia ideia do que era, em que consistia, o que era mais comummente associado a, como avançar com um diagnóstico destes. Eu não fazia a mínima ideia de que podia haver uma única palavra para designar algo tão diferente de indivíduo para indivíduo, debaixo do mesmo chapéu de chuva. Eu jamais suporia que há tantas palavras associadas e que foram especificamente criadas para descrever a neurodiversidade - esta palavra é um exemplo disso mesmo. Eu não tinha a ideia concreta de que havia tanto que estudar e desbravar - e ainda agora me falta um pouco disso, pois não sou nenhum poço de conhecimento e há sempre algo novo que surge.

O que eu sei é que, mesmo dentro da gemelaridade monozigótica com um mesmo diagnóstico, há diferenças. E essas diferenças já mostram como são tão diversas, como o cérebro funciona e perceciona e percebe e responde e reage e se relaciona de forma tão diversa. Uma diversidade diferente da demais diversidade: eu, o pai, a professora, a terapeuta. Nada de errado ou de estranho nisso, apenas diferente, como é expectável e compreensível em indivíduos neurotípicos.
O espectro é tão variado, tão diverso, tão rico em algumas coisas e tão deficitário noutras, com alterações e limitações em algumas coisas e sem relação noutras, tão difícil de situar em local/cor/percentagem/etc., tão diferente dentro do mesmo leque que, na minha cabeça visual e hiperativa, um plural faz sentido. Faz sentido falar-se em "autismos". Faz sentido falar-se do comum e do diferente dentro da mesma escala. Faz sentido falar-se disso.


Quando se conhece alguém com autismo, conhece-se um indivíduo com autismo cujo diagnóstico partiu das mesmas premissas que todos os outros indivíduos com autismo mas que é único no seu autismo. Faz sentido? É que, na vida real, o autismo não é como vemos na televisão: estilizado, de muito alto rendimento quase savant ou de baixíssima funcionalidade quase incapacidade intelectual, não há comorbidades associadas, é algo chapa-cinco. Na vida real temos tudo e esse tudo tem nome: o A., o D., a M., a E., a B., a S., o F. e quase todos os nomes começados pelas letras do alfabeto. Todos estes indivíduos, de idades diferentes entre si, de género diferente, de educação diferente, de vivências diferentes, de personalidades diferentes, cabem debaixo do mesmo chapéu de chuva.


Por isso, hoje, data em que se assinala "Asperger" que acabou assimilado como "autismo" no DSMV, eu opto por falar em "-ismos", não pensar muito na história obscura por detrás dos nomes dados, não sofrer muito com o significado cru associado, não pensar em tanto que já desbravámos ou outras questões dolorosas (e podemos inserir aqui a tão falada e desejada inclusão). Hoje opto pela diversidade, pelo direito a sentirmo-nos cansados e rabugentos, pelo direito a felicitarmo-nos pelas conquistas alcançadas, pelo direito a ser. E, na minha muito simples e humilde ótica, não me parece que seja ou esteja errado.

 

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publicado às 15:35

Noção. Ponto.

por t2para4, em 15.12.20
 

Autismo de alto funcionamento ou grau 1 ou leve (ou como lhe queiram chamar) continua a ter comprometimento na tríade comunicação- interação social- comportamento. Não fosse esse comprometimento em tríade e não seria autismo.
Autismo de alto funcionamento continua a ser autismo mesmo que, a olhos destreinados, pareça que a área social esteja fantástica e seja um indivíduo sorridente que faz contacto ocular.
Autismo de alto funcionamento continua a ser autismo mesmo que, a olhos destreinados, pareça que o comportamento esteja bem regulado e não haja meltdowns.
Autismo de alto funcionamento continua a ser autismo mesmo que, a olhos destreinados, pareça que a linguagem utilizada pareça erudita.
Apesar de todos esses pontos que mostram evolução, continua a ser autismo.
E continua a ser necessário dotar estes indivíduos de ferramentas que os ajudem a ter uma postura menos rígida, mais flexibilidade de comportamento ou de pensamento ou até de linguagem - entre tantos outros aspetos a trabalhar. Continua a ser necessário apostar em terapias ou psicologia.
Qualquer pai ou mãe atípico de alguém com autismo nesta situação sabe que há casos piores, que evolução é bom, que ser leve não é sinónimo de gravidade e mais umas quantas pérolas do género. Temos olhos na cara e uma coisa chamada "noção".

Mas, comparar o vosso filho neurotípico que não gosta de bróculos com um alguém com autismo e seletividade alimentar, não se faz, não se diz. Comparar o vosso filho neurotípico que não gosta de confusão com alguém com autismo que bloqueia totalmente numa situação semelhante por desregulação sensorial, não se faz, não se diz. É até um bocado parvo. E desvaloriza a luta diária que famílias atípicas vivem - os próprios indivíduos com autismo vivem. E é desrespeitoso. Para com todos os envolvidos, desde quem tem autismo aos pais à equipa que diagnosticou.

Ganhemos "noção".

 
 
 
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publicado às 11:54

Podemos colocar-nos no lugar do outro?

por t2para4, em 23.11.20

À partida, não terei nenhum diagnóstico (embora a minha mãe me tivesse pedido uma avaliação para hiperatividade quando era muito miúda) mas confesso que talvez tenha uma queda para a hiperatividade ou para o síndroma de pensamento acelerado - não está nos meus planos imediatos fazer uma avaliação. Quem me conhece deve estar, neste momento, a abanar a cabeça em semiconcordância... Mas, a verdade é que, ainda hoje, tenho alguma dificuldade em encaixar-me. E consigo entender pelo que passam miúdos como os que têm as cadernetas cheias de recados ou os que são demasiado criativos e distraídos. Ou as piolhas.

A nossa vida é constituída por demasiados círculos que podem, por exemplo, ser a família próxima, a família alargada, amigos, colegas, pessoas do trabalho, pessoas que conhecemos de vista, etc. Para cada círculo, é expectável um determinado comportamento e forma de agir, uma determinada linguagem. Sem nos apercebermos, passamos o dia a saltitar de atitudes em atitudes, a tomar milhares de microdecisões, em constante adaptação. Para quem lida com pessoas, seja de que idade for, maior é a exigência dessa adaptação.
Tenho alguma dificuldade em encaixar-me em e seguir determinados padrões e, talvez por isso, na minha profissão, eu sinta um desgaste cada vez maior porque a minha tendência natural é preocupar-me, muitas vezes, em demasia. É colocar-me constantemente no lugar do outro e fazer pelos alunos o que espero que façam pelas minhas piolhas ou tivessem feito por mim quando era a minha vez nos bancos da escola. E isto é extenuante. Porque ninguém quer saber. Exceto eu.
Encaixar num mundo em que tudo nos é exigido e onde pouco espaço há para o que é diferente custa muito. Exige muito. Cansa muito. Cada vez mais.
Noto esta dificuldade mais recorrente. O confinamento, o distanciamento, o individualismo, o umbiguismo que se sente não têm facilitado a transição entre círculos de forma mais suave e quase impercetível. A exigência é imensa. E a empatia, a entreajuda, a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro estão a perder terreno…

Hoje, escrevo estas linhas no carro, em frente a um rio, num estacionamento completamente deserto porque, hoje, em particular, não consigo encaixar-me, não consigo diminuir a velocidade do que passa pela cabeça, não sinto vontade de integrar círculos onde o esforço é grande. Sou adulta, bem resolvida com a vida e feliz. Imagine-se o que sente uma criança, um adolescente, um jovem com autismo, com perturbações sociais, neurológicas, etc. Podemos colocar-nos no lugar do outro e facilitar a transição entre círculos? Ficamos todos a ganhar.

 

 

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publicado às 13:24

Miminho bom

por t2para4, em 13.11.20

Conheço-te desde os teus 3 anos. Talvez deva dizer, mais corretamente, que me conheces desde os teus 3 anos, talvez.
Viste-me sentada no chão, na beirinha do degrau do recreio, a vigiar os meninos mais crescidos que brincavam, e vieste enroscar-te e encaixar-te no meu colo, como um gato a ronronar. Cabias ali na perfeição, estavas confortável, seguro. O teu cabelo era suave, fofinho, fininho, aquele cabeço típico de criança, com cheiro ainda a bebé, que me encheu de saudades das piolhas, do tempo em que, como tu, cabiam ali enroscadinhas no meu colo e o espaço era perfeito.
Olhaste sorridente para os meus brincos estranhos porque parecem a linha de uma folha e o dourado chamou-te a atenção. Mexeste muito neles mas não tive medo que os puxasses. De repente, saíste do meu colo num pulo e puxaste-me a mão para correr. Nunca precisaste de dizer uma palavra para que eu percebesse perfeitamente o que querias fazer e como.
Hoje, vieste a correr para os meus braços, pediste-me de braços esticados aquele colinho bom, deste-me um abracinho forte e um beijinho! Caramba... que coisa mais boa... Que saudade de um abracinho de gente pequena... porque as piolhas também eram assim, sabias? Elas davam muitos beijinhos, muitos abracinhos exatamente iguais aos teus. E tinham o mesmo cheirinho doce e suave no cabelo.
Quiseste que me deitasse no chão contigo porque querias brincar... mas o chão estava muito frio e eu com mochila e não consegui. Mas deste-me a mão para que te seguisse. Sono? Uma sestinha? Uma brincadeira calma? Deste muitos sinais ao mesmo tempo porque querias que te seguisse.
Mais uma vez, não precisaste de falar. Já tens uns 4 anos por agora. E não falas. Comunicas muito, és muito expressivo mas não sentes necessidade de verbalizar o que queres. E, à tua maneira doce, mesmo nos teus maus momentos, consegues transmitir como te sentes e o que queres. E quem te rodeia consegue compreender-te.
Já vi um mau momento teu. Tiveste um meltdown muito feio. Não deve ter sido um dia fácil para ti pois estavas muito agitado e os teus olhos estavam vermelhos e inchados. Não quis incomodar-te com as minhas patetices mas senti uma urgência terrível de te dar o meu colo. Há dias melhores, vais ver. Porque vais crescer e, com calma e com as ferramentas certas, vais conseguir reconhecer que estás mal e autorregulares-te. Eu sei porque já vi isso acontecer com as piolhas, sabes? E sabes porquê? Porque elas já fizeram o caminho que fazes agora. E, apesar de sinuoso, com as pessoas certas, podes chegar tão longe...

 

O A. não me conhece de lado nenhum a não ser dos intervalos onde me vê 1x/semana, uma manhã, apenas.
O A. tem autismo. Reconheci os sinais assim que vi os seus calcanhares no ar enquanto caminhava e veio enroscar-se no meu colo, sem uma palavra, com os mesmos gestos que faziam as piolhas, o mesmo olhar, o mesmo tipo de foco de atenção.
O A. hoje deu-me o inesperado abraço e beijo que me deram o reconforto e a força de recobro de uma semana difícil.
Hoje, o A. foi maior que o mundo. Mesmo estando com sono e no rescaldo de uma birra por causa da sopa.
O A. tem autismo e é um miúdo incrível. É só isso que tenho a dizer.

 

 

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publicado às 09:31

Será a socialização sobrevalorizada?

por t2para4, em 26.09.20

A socialização é importante e é considerada característica inata do ser humano. Foi graças à capacidade social do ser humano que pudemos evoluir ao longo da nossa existência. A socialização, ao longo da nossa evolução histórica, era premissa ligada à sobrevivência da espécie. Mas, também acredito que, ao longo da evolução humana, tenhamos tido vários casos de indivíduos pouco dados a questões e rituais sociais, com pouquíssima ou nenhuma vontade de interação social e que, possivelmente, só o fariam porque dela dependia a sua sobrevivência, ou, em casos extremos, nem a isso chegava.

Já todos percebemos que o ser humano é um ser social, ok. E também já todos percebemos que podemos ter perturbações a nível social, e que o autismo, por exemplo, na sua tríade de comprometimento, engoba a componente social. Quando há uma orientação clínica que marca esta área como possível problema é comum verificarmos o aconselhamento da frequência de jardim de infância ou escola, da participação em atividades extracurriculares, da aposta em saídas mais frequentes onde seja possível a interação com outras pessoas, etc. O que se nota, logo que sai um diagnóstico de autismo, por exemplo, é uma pressão quase desenfreada na questão social.
A criança com autismo, o individuo com autismo, tem de refrear os seus impulsos (não abanes assim as mãos, não tapes as orelhas, não pules assim, não faças iiiiiiiiiiiiiiiiiiii, não guinches, não, não , não.) – impulsos estes que, muitas vezes são movimentos e gestos reguladores de ansiedade, comportamento, sensorialidade, etc. porque não são socialmente adequados.
A criança com autismo, o individuo com autismo, tem de identificar, aprender e aplicar uma série de rituais sociais que, muitas vezes (tantas vezes!) não fazem sentido e não são algo de essencial (cumprimentos físicos e próximos que envolvam o toque ou a ritualização da conversa fiada para preencher um vazio incomodativo.)
A criança com autismo, o individuo com autismo, tem de aprender a ter a iniciativa e ser um bicho social mesmo sem vontade nenhuma de cumprimentar aquela pessoa ou de usar um sorriso politicamente correto quando não se sente com disposição para isso.
E isto são meros, simples e poucos exemplos de entre todo um mundo social que é pedido a quem tem autismo que conheça e faça parte dele. Caramba, até a quem não tem autismo mas não é simplesmente uma pessoa a quem estas coisas digam algo…

E, um dia, veio o covid e um novo corona vírus. E a todos, sem exceção – incluído indivíduos com cegueira que dependem do toque -, é exigido que se abstenham de tocar no que quer que seja e se desinfetem como se fossem germofóbicos; é proibido o contacto social próximo com terceiros; há uma série de regras e normas e leis até que impedem a proximidade, que promovem o distanciamento, que – imagine-se – até impedem as expressões faciais como forma de aprendizagem de emoções visíveis. Afinal, a socialização pode estar a ser sobrevalorizada! A criança com autismo, o individuo com autismo, continua a ser aconselhado a ir à escola, ao trabalho, a cumprir as habituais rotinas MAS tudo o que se apregoava anteriormente acaba por não poder ser aplicado nos dias que correm. Bem sei que é uma situação temporária. Mas quão temporária? Um ano? Dois? Cinco? Nesse intervalo de tempo, já contradizemos a nossa cultura do toque, do beijinho matinal dado a toda a gente, do aperto de mão desenfreado a conhecidos e desconhecidos, do agora és mesmo obrigado a olhar para os meus olhos porque a minha cara está tapada (o que pode ser altamente desconfortável).

Não temos todos de ser uns party animals mas, honestamente, talvez tenhamos ao longo dos tempos, por motivos culturais ou humanos, caído em exageros. Não há qualquer sentimento de frieza ou má-educação se não cumprimentarmos toda a gente com dois beijos e apertos de mão; nem vem mal ao mundo se não conseguirmos fazer contacto ocular e não reconhecermos adequadamente expressões faciais (até porque, sejamos sinceros, quantas vezes disfarçámos uma tristeza profunda com cansaço, por exemplo?). Não reconheço qualquer maldade em quem não tem paciência nenhuma para lidar com outras pessoas e prefere estar no seu cantinho.

Sejamos francos: lidar com pessoas é muito difícil e não estou a referir-me a feitios. É preciso ter a noção básica de que todos somos diferentes e, como tal, agimos e falamos e pensamos de forma diferente e isso tem de ser tudo interpretado. Há linguagem não verbal que pode estar a dar sinais diferentes do que diz a boca. Há especificidades da linguagem e da fala e da comunicação que, por vezes, não percebemos. Temos de ser educados e corteses. E de cumprir uma data de requisitos sociais: distância adequada e confortável entre pessoas, tom e modo de voz adequado à situação, etc etc etc. para alguns de nós é algo tão natural como respirar, para outros nem tanto. E isto é difícil… Se pensarmos nos passos que seguimos é algo enorme! É muito trabalho!

E isto tudo para dizer que, neste momento, toda a importância quase desmesurada dada à socialização, parece cair por terra. O que me leva a pensar que, afinal, talvez não estejamos assim tão errados nem seja um problema tão grande quanto isso se não tivermos o “gene social” 100% ativo e sejamos 100% politicamente corretos.
E questiono: se a socialização é assim tão importante e deve começar-se desde o nascimento, por que, apesar de todas as regras de higiene e saúde, se grita aos miúdos na escola “não andem tão juntos!”, se fecham parques infantis, se proíbem ajuntamentos com mais de x pessoas, se obriga ao uso de máscara em alguns locais em idades tão baixas, se se adiam indefinidamente desportos de equipa, só para citar alguns exemplos? Não estamos todos juntos na escola? Não estamos todos s seguir as indicações dadas pela DGS? Do que tenho visto, nestas semanas, é que, daqui por anos, teremos um aumento exponencial de germofóbicos e de pessoas com perturbações obsessivo-compulsivas e hipocondríacos.

 

NÃO estou a negar o que existe – ainda estamos a viver uma pandemia; NÃO estou a desvalorizar as regras de saúde ou etiquetas recomendadas; NÃO estou promover o incumprimento de normas; NÃO se interpretem coisas que eu não escrevi nem disse – o meu foco aqui é a (des)importância da socialização.

 

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publicado às 11:45

Entrevista na LuxWoman

por t2para4, em 30.07.20

Como diz uma vizinha de quem gosto muito, falar destas coisas abertamente também é ativismo.
Cláudia Carvalho e nós, no papel de pais, Alda Coelho, pedopsiquiatra, Albertina Marçal, mãe e fundadora do Centro ABC Real, respondemos à jornalista Leonor Rodrigues Poças e Leonor Antolin Teixeira, da Revista LuxWoman e o resultado foi uma reportagem algo emotiva, real, direta, que saiu na revista de agosto.
Para quem possa ter dúvidas ou queira ler várias realidades sob um único nome - que um dia ainda poderá transformar-se num plural, num -ismos -, creio que a matéria é de leitura acessível e informada sobre autismo, escola, diversidade, inclusão e diferença.

 

 

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publicado às 08:59

Esta coisa do sentir no feminino...

por t2para4, em 13.07.20

https://t2para4.blogs.sapo.pt/meninas-no-espectro-do-autismo-338972

Este artigo acerca de sinais de autismo no feminino já foi publicado e partilhado por mim várias vezes e, várias vezes, penso nas muitas secções em que está organizado. Todas focam comportamentos e ações que mexem num ou noutro nervo/sentimento/neurónio aqui ou ali mas há algumas frases que são flagrantes e que não nos passavam sequer pela cabeça que pudessem acontecer. Uma delas, é esta “Muitas vezes mimada por outros na escola primária, mas intimidada no ensino secundário.” que se insere na categoria do social.

As piolhas sempre foram as coqueluches da turma por onde quer que tenham passado. Talvez por serem gémeas, talvez por serem as mais novinhas, talvez por serem tão engraçadas. Caraças, talvez por serem tão bonitas. A verdade é que, desde a creche que foram sempre protegidas pelas meninas e pelos meninos – sim, também havia rapazes que as protegiam e brincavam com elas. As piolhas eram crianças populares num sentido bom: eram amadas por todos, respeitadas por todos, acarinhadas por todos, protegidas por todos. Havia crianças que dedicavam o seu tempo a ensiná-las a brincar, a fazer pulseiras de macramé borrachoso, a aprender as regras de um ou outro jogo, certos rituais sociais. Todos mesmo, desde colegas, a professores, auxiliares, técnicos, terapeutas, as tinham ali num escudo protetor invisível. Até os seus pares. E, pasme-se, crianças mais velhas.

Mas, os miúdos crescem, o tempo passa, as coisas mudam – as pessoas mudam. As piolhas mudaram de escola, mudaram de ciclo de escolaridade, mudaram de professores, mudaram até de alguns colegas. E, como alunas que são agora num ciclo acima, em plena adolescência, com colegas também em plena adolescência, todos com interesses diferentes, todos com visões diferentes do mundo que os rodeia, a mudança é mais visível, quase palpável. E, aquela bolha de proteção invisível dissipou-se, aquele sentimento de valorização do que faziam desvaneceu-se, o orgulho de ter colegas tão ímpares desapareceu. “as gémeas” – só assim, “as gémeas”, sem adjetivos – passaram a ser “as gémeas autistas” ou “as miúdas estranhas”, seja lá o que isso for, como se fosse necessário ter mais epítetos para as distinguir, como se o facto de serem, possivelmente, as gémeas mais conhecidas cá da terra não fosse suficiente.

Elas também mudaram: endureceram, amadureceram mais rápido, passaram a não confiar despreocupadamente e a ter bastantes reservas nesta coisa da socialização. Porque, algures pelo caminho, algo as fez tornar-se assim… Porque era preciso demarcá-las. Era preciso acrescentar o que as distingue dos outros mas que ninguém vê.  Era preciso acrescentar aquilo que as torna diferentes dos outros, como se serem gémeas idênticas não fosse já diferença dos demais.  Era preciso insistir no “autistas” vezes e vezes e vezes sem conta, como se não tivessem nome ou não fossem seres individuais ou fosse isso o mais importante na sua distinção dos outros.

Era preciso demarcar a diferença – está visto.

E, aquela frase lá em cima, aquela frase que tanto me marcou quando li este artigo pela primeira vez, veio provar-se real - tão absurda e dolorosamente real.

Não precisamos que elas sejam as coqueluches da escola, não precisamos que sejam as populares da escola. Precisamos – elas precisam - é de ser aceites pelo que são, reconhecidas e tratadas pelos nomes que têm e pelo que alcançam, respeitadas pelas suas escolhas e, sim, diferenças também! Porque, já o disse várias vezes, ainda que a linha seja ténue e não haja uma fronteira palpável entre o -ismo e o não -ismo, elas são muito mais que um qualquer -ismo. Tão mais.

 

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publicado às 09:00

Culpada, disseram todos.

por t2para4, em 07.07.20

A culpa primordial de todos os males da Humanidade recai sobre a mulher. E há imensos exemplos disso na Mitologia, na História, na vida real. Provada que esteja ou não essa alegada culpa. Temos Eva (que não resistiu ao encantamento diabólico), Pandora (que não controlou a sua curiosidade), as bruxas de Salem, a mulher comum que não consegue engravidar ou tem filhos com deficiência. E já dei exemplos religiosos, mitológicos, históricos e reais.

A culpa é sempre da mulher. E, quando passa a ser mãe, a culpa é sempre da mãe.

Até há não muito tempo, no nosso país, a mulher que não casasse virgem – com ou sem o homem com quem tivesse tido essa primeira experiência – era uma desavergonhada; já do homem, não se diz o mesmo, pelo contrário, incentivava-se a essa experiência de forma quase pública, afinal, ia tornar-se um homem; se a mulher casada não engravidasse, a culpa era dela pois não servia o seu propósito de vaso recetor e fecundador do marido, independentemente de haver a possibilidade de essa dificuldade ou infertilidade poder ter causas masculinas; se nascia uma criança do sexo feminino, a culpa era da mulher pois ela é que tinha parido – ainda que a ciência tenha vindo explicar que, afinal, a determinação do sexo é feita pelo homem pois é ele quem possui os cromossomas XY; se uma criança nasce com uma deficiência, mesmo que seja uma anomalia genética única não presente no pai ou na mãe, a culpa é da mãe pois não terá seguido o indicado para uma gravidez segura, ela é quem carrega o bebé, ela é quem dá à luz, logo, ela é a culpada.

Sempre a culpada, sempre a acusada, sempre a ré – sem julgamento, sem defesa, só com acusação.

Quando começaram a surgir os primeiros casos diagnosticados sob o nome de autismo, a primeira resposta à pergunta “qual a causa”, foi a teoria das mães-frigorífico. Esta teoria, cunhada por altura dos anos 1950, defendida por alguns psicanalistas (o autismo esteve durante muito tempo ligado à psicanálise e avaliado, analisado e tratado sob o ponto de vista desta área), sugeria que o autismo era causa direta da falta de calor humano, amor e carinho por parte das mães. Leo Kanner, o autor da teoria, através da observação direta de alguns casos, referia haver uma frieza, distanciamento e alheamento dos pais – em especial da mãe, sobre quem recaía a função de educação dos filhos – e uma atenção quase mecânica, causando a ausência de um vínculo correto. Mais tarde, esta teoria foi descartada e revogada e desacreditada mas já era tarde demais. Estamos na segunda década do século XXI e ainda há membros clínicos, familiares e pessoas comuns que acreditam nesta teoria. E, mais uma vez, a culpa é da mãe. Repare-se que o nome da teoria é “mães-frigorífico” e não “pais ou avós frigorífico”.

Não há culpas a atribuir num diagnóstico, jamais aos progenitores. Nenhum progenitor entra numa gravidez a desejar que o seu bebé tenha um problema de saúde ou uma perturbação neurológica. A hereditariedade, a genética, o ambiente ou até mesmo todos estes fatores combinados – quando possível – podem dar uma resposta para a causa de uma doença, condição ou perturbação. E essa resposta pode ser rápida, lenta ou nunca chegar... Esses mesmos fatores, combinados ou não, podem ser A causa dessa doença, condição ou perturbação… Mas, na minha ótica, mais importante do que uma possível causa, é o que podemos fazer no “durante”: que tratamentos há, que trabalho pode ser feito, que cursos terapêuticos podemos seguir, que medicação é ou não adequada e se existe, etc. Pode haver uma cura. Pode não haver cura. O que não pode haver é a atribuição de culpas aos pais, em especial à mãe.

 

 

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publicado às 08:45

10 causas “científicas” do autismo

por t2para4, em 08.06.20

A começar já, sem rodeios.

10 – Mães frigorífico: Essas insensíveis de temperatura corporal abaixo de zero, dignas de um caso de estudo científico e que deveriam viver num ambiente semelhante ao de Mercúrio durante a noite, são a causa primordial de autismo. Incapazes de aquecer e de amar, coitadinhas, dariam ótimas estátuas decorativas no palácio do filme “007 Die Another Day” mas ousaram ter filhos e pumbas, deram-lhes autismo. Ai não está relacionado com a temperatura corporal? Oops… erro meu.

9 – “Eles”. Há sempre um “eles”. A culpa é “deles”. “Eles” andam aí. “Eles” tratam disso. Ninguém sabem verdadeiramente quem são “eles” mas culpa do autismo é “deles”. “Eles” é que fizeram as coisas – seja lá o que isso for – para que o autismo esteja a caminho de uma epidemia.

8 – A lua: ao estilo lobisomem, a lua é a culpada do autismo na Terra, pois, certamente noutros mundos não há pois se não se veem, toda a gente sabe que não existem. Se a NASA estivesse estado quieta e não tivesse mandado para lá a Apollo 11 e o Neil não tivesse posto o pezito em solo lunar, não teria desalinhado os chakras nem mexido nos cristais. How dared he? Ah não? Não houve alunagem? Foi tudo uma encenação num estúdio? Ah, ok, ok, então e o autismo não vem daí? Ah, é como as marés, tem a ver com as fases da lua, é isso? Ah, ok, bastante mais esclarecida.

7- Parto por cesariana: mães que ousam parir sem dor, sem rasgões no pipi e optam por uma cesariana, ainda que a vossa vida e a dos vossos filhos dependa disso, vocês não só colocam o vosso pipi em primeira prioridade como, ainda por cima, não sabem ser mães, o que vos pode remeter para o ponto 10 desta compilação bem como traz seguramente autismo aos vossos filhos. Parem de se preocupar com o pipi!

6 – Paracetamol: Essa invenção do demo que foi propositadamente criada para controlar as nossas ondas cerebrais e desabituar-nos do prazer da dor é causador de autismo ainda in útero! Não se pode tomar comprimidos nem supositórios nem xaropes que tenham este princípio ativo. Toda a gente sabe que não há nada como fazer como faziam os antigos barbeiros do século XVIII e XIX: é beber até entrar em coma alcoólico. Não há dor que resista. A vida sem dor é sobrevalorizada.

5 – Fluor. Pensavam que a nossa água tinha uma percentagem de fluor por segurança? Engano vosso. A ideia é causar autismo. Pensavam que os tratamentos dentários mais eficazes que recorrem ao fluor são seguros? Nada disso. O fluor, como toda a gente sabe, causa autismo. Elimine-se o fluor das nossas vidas e viremos uns alegres cariados ou desdentados que, como toda a gente também sabe, até pode ser o próximo patamar da evolução facial humana que até pode vir a ter influências linguísticas pois passaremos todos a falar à sopinha de massa mas com gengivas rijas.

4 – Sexo. Tão bom que até os bichinhos gostam MAS a raiz de todos os males. A grande causa de todas as doenças e problemas do mundo. Vá, rezem 300 pais-nossos e 500 avés-marias e façam uma oferenda aos pobres. Abstinência é o melhor curativo de todas as doenças. E um contracetivo 100% eficaz.

3 – Chemtrails. Sabem aqueles risquinhos brancos tipo nuvem que ficam como rasto de alguns aviões? Pois, são químicos perigosíssimos lançados por aviões controlados por “eles” (ver ponto 9”) para nos causar autismo e mais umas quantas outras coisas boas. Se verificarmos esta hipótese com rigor científico verão que se confirma. Somos todos autistas porque todos nós levamos com os chemtrails e nada fazemos contra essa ameaça velada contra nós. Mas uns disfarçam melhor que outros. Não queremos combater o poder “deles” e, por isso, “eles” continuam a fazer o que querem.

2 – Tecnologia 5G. Cuidado que vem aí o apocalipse. Os pássaros caem do céu, as formigas morrem na terra (eu ficaria verdadeiramente surpreendida se fosse ao contrário, mas ok, “eles” lá sabem) e até há relatos de cenas supersónicas, ao estilo trinados alienígenas que nunca passariam pela cabeça do produtor dos X-Files. Estamos condenados. A hipótese de as crianças nascerem com ou desenvolverem autismo é superior a 1000% e estamos todos a permitir que isso aconteça com o nosso desejo de ligações web mais rápidas e WiFi disponível até na Fossa Mariana.

1 – Vacinas. É óbvio que este tinha de vir em primeiro lugar. Toda a gente sabe que quem aceita voluntariamente injetar corpos estranhos no seu próprio organismo para criar anticorpos contra doenças graves e fatais não pode ser bom da cabeça. E, como bónus, ainda pode “ganhar” autismo. Morrer de varíola ou ficar com sequelas de poliomielite é mil vezes melhor do que arriscar a ter um microchip instalado no nosso corpo via vacina para que o Bill Gates nos controle, uma vez que ele está verdadeiramente interessado em saber o que cerca de 7 biliões de pessoas fazem das suas vidas tão interessantes.

Agora que sei que afinal o autismo é sinal que tenho crianças cristal e que o amor cura tudo, qual antibiótico antivírico (cura bactérias E vírus, é um all in one, como as pastilhas da máquina de lavar louça), fico muito mais descansada e vou ver se tenho uma conversa com o Big Foot. Sim, porque alguém humanoide que só deixa vestígios, tem um comprometimento a nível da linguagem/comunicação + interação social + comportamento, só pode ser autista – diagnóstico grátis com o alto patrocínio do Dr. Google.

 

 

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publicado às 09:00

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