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O bullying...

por t2para4, em 21.10.20

Segundo a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), o bullying é uma forma de violência contínua que acontece entre colegas da mesma turma, da mesma escola ou entre pessoas que tenham alguma característica em comum. Trata-se de um ato intencional e sistemático que envolve várias formas de violência (física, psicológica, social e sexual) e vários agentes (vítima, agressores e espetadores), sendo que estes comportamentos agressivos são propositados: têm o objetivo de assustar, magoar, humilhar e intimidar a vítima.

Não é modernice. Sempre houve violência na escola, no caminho para a escola, nas salas de aula. E até no trabalho. Não tinha era o nome que lhe damos agora – anglicismo ou não. E não tinha as consequências ou penalizações que estão agora previstas. E não tinha, de todo, a consciencialização e a vigilância que tem agora.

O Bullying constrói o carácter! É assim que se cresce!
O meu pai, em conversa sobre este assunto, contava-me que “estas coisas sempre existiram”. É verdade. E acrescentava pequenas histórias de uma colega mais velha que empurrava os mais novos para as valetas cheias de água ou pegava em ramos de árvore e vergastava todos quantos lhe aparecessem pela frente. Por ser mais velha, quem se atrevia a queixar-se? Ninguém. Ou se afastavam dela ou aparecia outro miúdo pior que ela e vingava-se.

“No meu tempo, também havia disso”. Também é verdade. Apesar de o meu pai ter sofrido esta violência física, tentou incutir-nos, tal como a minha mãe, que nos defendêssemos, que não nos metêssemos em confusões, que denunciássemos abusos por parte de colegas. E nós assim fazíamos. E a minha mãe, volta e meia meia volta, lá ia à escola falar com o diretor de turma ou até com a direção para que as coisas se resolvessem e não se repetissem.

Não havia nome para isto. Mas agora há.

Não havia leis contra isto. Mas agora há.

Não havia consequências, a menos que as coisas fossem extremamente e visualmente graves. Mas agora há.

Violência psicológica nem sequer era considerada violência. Mas agora é. Certamente, entrarão agora em cena, os habituais velhos do Restelo que me dirão “ah, menina, mas isso constrói o carácter! É assim que se cresce!”.

Errado.

O caráter pode ser construído de diversas formas sem que precisemos de recorrer à violência para o fazer. E crescer não tem que ser marcante pela negativa. Crescer não tem que marcar a ferros em brasa memórias cruéis de tempos de escola. Crescer e construir caráter não precisam de ter intervenientes violentos. Porque, por muito insignificantes que sejam esses atos de bullying, eles ficam sempre marcados em nós, mesmo sendo já adultos, com a vida resolvida, como pessoas realizadas a vários níveis.

Há dias, um aluno dizia-me, todo feliz, que a sua mãe tinha sido minha colega. Após muita amnésia da minha parte, lá chego à conclusão que foi minha colega de escola, durante aqueles anos parvos da mudança de idade em que as hormonas – e outros fatores – imperam. A reação física imediata foi um baque no coração: era a mesma miúda que fazia caras de nojo quando eu me aproximava dela, que dizia mal de mim às restantes colegas, que se recusava a partilhar as canetas, que me gozava por eu ser quem era na altura. Não gostei nada da enxurrada de memórias que assolou rapidamente e sem controlo e que eu, ao longo destes anos, tinha colocado num arquivo-morto algures num armário bem fechado. Menti ao miúdo. Disse-lhe que não me recordava da mãe dele…

Este é um exemplo, aparentemente inócuo e inofensivo de coisas que ficam. Tenho outros exemplos bem mais graves, bem mais violentos – física e verbalmente – que prefiro manter fechados no tal arquivo-morto. Que foi feito na altura? Nada. Nos anos 80 e 90, os nossos pais não tinham paciência nem educação emocional para estas questões, a menos que envolvessem ofensas extremamente graves, sovas ou roubos. As coisas, eventualmente e com sorte, acabavam por refrear e desaparecer.

Mas, os anos 80 deram lugar aos anos 90, os anos 90 culminaram com a viragem de século, de milénio, vieram os 00s, seguiram-se os 10s, estamos a meses da segunda década do século XXI (vamos ler, século vinte e um, devagar, para que assente) e estas situações – e mais graves!! – não mudaram. Mantêm-se, repetem-se, evoluíram para campos tecnológicos, continuam. A minha geração, a geração que foi vítima de bullying ou que viveu o bullying nem que fosse a assistir, não soube educar os filhos para a sua erradicação. E, todo um novo conjunto de formas de bullying surge, com o agressor escondido atrás de um ecrã com o poder exacerbado das teclas, a atacar desmesuradamente, só porque sim.

Também uma aluna minha comentava comigo, no outro dia, que, “basta ser um pouco diferente que já somos um alvo”. Essa diferença pode ser a velhinha situação da roupa de marca que uns têm e outros não, pode ser a comum situação do vem de carro ou de autocarro para a escola, pode ser o ainda a absurda situação do ser-se mais ou menos gordo, pode ser a incompreensível situação da deficiência ou pode até ser a idiota situação do porque não empatizo contigo. Nenhuma destas situações deveria ser adjetivada ou sequer motivo ou causa de bullying.

Em 2012, surge o Estatuto do Aluno, Lei 51/2012 de 5 de setembro, que aprova o Estatuto do Aluno e Ética Escolar, que estabelece os direitos e os deveres do aluno dos ensinos básico e secundário e o compromisso dos pais ou encarregados de educação e dos restantes membros da comunidade educativa na sua educação e formação. A certa altura, fala na responsabilidade civil e criminal. Não é uma lei anti-bullying. Mas já aborda campos que remetem para os comportamentos e ações do aluno – e outros. E envolve sempre as direções das escolas que, estão, neste momento, obrigadas a monitorizar e denunciar casos de bullying ao Ministério da educação, por uma “Escola sem bullying. Escola sem violência”.

Estamos na segunda década do século XXI. Isto não deveria sequer acontecer. Nós pais que passámos por tantas situações de bullying deveríamos poder ver que, volvidos 30 ou 40 anos, os nossos filhos estão completamente seguros na escola. Porque, como eu já disse antes, “A escola quer-se um local de várias aprendizagens, a vários níveis, com vários intervenientes (professores, assistentes operacionais, assistentes técnicos, alunos, pais). A escola quer-se um lugar onde os nossos filhos estejam e sejam felizes.” Sim, a escola é uma sociedade em miniatura. Os nossos filhos estão a aprender a viver nessa espécie de sociedade. Mas, tal como na verdadeira sociedade fora dos portões da escola, há regras a cumprir e valores pelos quais nos regermos. E isso é válido para todos.

Nós todos já fomos vítimas de bullying – pretério perfeito.

Nós, pais deste artigo, reagimos, com base em valores éticos, cívicos e legais – pretério perfeito e presente e futuro (mesmo sem o conjugarmos).

 

(texto escrito no ano anterior para a Up to Kids)

 

 

 

 

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publicado às 09:02

Chega esta semana ao fim o remendo possível, a solução encontrada e longe de ser a ideal mas, de novo, a solução possível, do ensino à distância, 13 semanas depois. Um período completo ao longe mas com os professores por perto, a fazer o necessário para que os alunos não fizessem apenas mas, algures no processo, também aprendessem.
Aqui, além desse esforço do fazer mas também aprender alguma coisa, do verificar se o apoio de educação especial estaria a resultar, foram 13 semanas de absoluta paz, 13 semanas sem um único episódio de bullying e, por mais incrível que pareça, 13 semanas sem um único de cyberbullying (algo que começou logo no verão passado, ainda as aulas não tinham começado, mal saiu a relação de turmas).

Numa das suas muitas fichas de autoavaliação, uma das piolhas queria escrever "gosto mais destas aulas do que na escola". Não deixei que escrevesse. Doeu-me um pouco o coração ao ler aquilo. Tanto que daqui se pode interpretar... E não venham com a tradicional atribuição de culpas à mãe porque vai já com os cães! Quantos de nós, apesar dos horários mais esticados, não descobriram que o teletrabalho pode ser uma pequena maravilha porque não há deslocações, não temos que aturar um mau ambiente, não precisamos de lidar com colegas parvos?
Foi um ano atípico desde o início e que ficou ainda pior quando só faltavam 3 meses para terminarmos. Houve muitas muitas mudanças: de escola, de ciclo, de colegas, de professores, de quantidade de disciplinas, de abordagens aos conteúdos, de pedidos de trabalho e, quando se pensava que não poderia ser pior, ainda veio uma pandemia...

A escola - a nossa escola - sempre colaborou connosco na tentativa de minimizar problemas, de resolver os episódios de bullying, de conversarmos sobre estratégias, etc. Fizemos tanto. Houve momentos de interregno e pensávamos "ok, o pior já passou, vai melhorar". Foi um choque para nós - para elas mesmas - passar das coqueluches da turma, da escola, onde toda a gente as mimava e acarinhava para as apontadas a dedo, sem percebermos muito bem o que raio se passou nesta transição. No entanto, tenhamos em mente que esta é apenas uma de muitas questões sociais do autismo no feminino e que já aqui partilhei algumas vezes.

O ensino à distância não foi o ideal e não é a solução perfeita mas foi o que se pôde arranjar à pressa, apesar das milhentas críticas que já li ao longo destas 13 semanas. O engraçado é que não li nem uma única proposta de solução além da "enfiem-se os miúdos todos dentro da escola de novo". Não vou tecer comentários sobre esta dinâmica online, muito já se falou sobre isso. Não é o ideal, ponto assente; é o que se pode arranjar num instante. Sobre o próximo ano letivo, suposições há muitas, certezas nem por isso, portanto, temos que aguardar, ainda nem sequer saíram os respetivos despachos.

Mas, de novo, para nós, para as piolhas, foi a calma necessária para que pudessem sentir-se elas mesmas novamente. Foi a aprendizagem paralela de gestão de tempo e conteúdos, de autonomia, de literacia digital, de interpretação até da personalidade de alguns professores mediante as respostas dadas às suas perguntas. Foi paz e sossego, no verdadeiro significado da palavra. Foi trabalharem sem batota (porque eu não posso nem é correto fazer os trabalhos por elas, não sou eu a aluna. Supervisionar e ajudar, sim, fazer não). Foi sentir um orgulho imenso quando chegavam à 5ª feira e já tinham os trabalhos da semana todos concluídos. Foi conviver com os colegas à distância sem um único ataque, sem uma única boca foleira, sem um único foco de gozo, sem uma única forma de insulto.

E a questão social?, podem perguntar-me. Tendo em consideração que desde que as piolhas frequentam a escola - desde os 2 anos - que, todos os verões, por mais ou menos 3 meses, o contacto com os colegas é zero (não por falha da parte delas), eu acho que elas sobrevivem bem a este contratempo escolar e a questão social é a última das minhas preocupações neste momento.

O texto já vai longo e eu quero apenas rematar: foi um ano extremamente longo, exaustivo, cansativo, trabalhoso, atípico, difícil. Mas foi um ano de aprendizagens profundas, de viragem na história - social, pessoal, escolar, académica. Porque a nova realidade já foi alterada. Já temos muitas coisas que estão a ser feitas de forma diferente e que assim continuarão. Nada ficou igual ao que era antes.
E, de alguma forma, conseguimos sobreviver a isso. Não foi da forma ideal mas da forma possível.
E, assim mesmo, de repente, chegámos ao 8º ano. Estamos todos de parabéns.

 

 
 
 
 
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publicado às 09:07

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