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Votei pelas minhas filhas

por t2para4, em 27.05.19

Ponderei muito, mesmo bastante antes de publicar este post. 


Há coisas que não discuto com ninguém: futebol, religião e política. Não discuto isto com ninguém porque acaba-se sempre numa espécie de conversão ao seu favorito e eu acho que o mundo é grande o suficiente para muitos futebóis, muitas religiões e muitas políticas, dentro do seu qb salutar.


Mas, não resisto a partilhar a mais recente das piolhas, que mostra um discernimento e um saber estar e um questionar e ponderar quase fora de série. Muitos dos nossos planeamentos são feitos dentro do carro, a caminho de alguma atividade/escola ou casa. Ontem, avisei que, domingo de manhã, iríamos votar e depois a casa dos avós. Informei que iriam comigo porque votar é um ato cívico muito importante, especialmente para as mulheres e elas, piolhas, devem fazer parte dessas ações. Elas já estão fartas de saber disso porque eu falo do assunto, sempre que há eleições. Uma delas pergunta-me, sem qualquer malícia ou agenda oculta, "Mãe, podes votar na Marisa Matias?" Perguntei porquê. "Ela é a única mulher candidata num mundo onde ainda há muitos homens na política. E precisamos de mais mulheres em cargos altos e a ganhar mais". 


Achei isto tão sem palavras, tão grande, tão elaborado que questionei se na escola alguém lhes tinha falado das eleições ou tinham apanhado alguém em propaganda. "Não, mãe, ninguém nos disse nada, nós só achamos que precisamos de mais vitórias de mulheres". Nem sequer lhes interessava o partido mas sim a figura que dava a cara. Aquela mulher. Uma mulher.
Nunca lhes falei das minhas (não)preferências políticas, eu voto no porgrama eleitoral que mais me satisfaz ou respeita, não sou seguidora de nenhum partido ou político, não pretendo alistar-me nesse mundo (embra devesse ponderar nisso ehhehehehehhe); apenas vêem os cartazes nas rotundas. E, de todos os cartazes em rotundas, das vilas e cidades por onde andámos, só havia o rosto de uma mulher. Uma única mulher a concorrer às eleições, num conjunto de quase uma vintena de partidos, com homens em destaque.


Eu estou de coração a rebentar. Estas miúdas são incríveis. E sim, só por causa disto, votei por elas. Orgulhosamente. 
E elas puseram o boletim na urna.

 

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publicado às 00:20

Contexto:
As piolhas sabem que têm autismo (esta questão está para sair em breve num post), os colegas sabem que elas têm autismo, os professores e a escola idem, muita gente sabe que elas têm autismo. Não é um rótulo, é um nome para explicar o porquê de determinadas dificuldades e questões neurológicas. As piolhas não falam de autismo com ninguém, a menos que alguém lhes fale disso e, mesmo assim, elas têm indicações para dizer que "autismo é algo que têm mas não as define".

 

Num dia destes, numa ação de sensibilização à diferença - em especial a que não se vê fisicamente -, a oradora falava de Asperger. As piolhas habituaram-se, com o passar dos anos, a perguntar o que não entendem ou não sabem o que é e perguntaram o que era Asperger. A resposta foi que era uma variante de autismo. Um colega, já que falavam da diferença real, referiu que elas tinham autismo. E a oradora tentou aproveitar a deixa para ser mais coerente com o que ia apresentar e questiona as piolhas sobre o que é, para elas, ter autismo. As piolhas não souberam responder.

 

Vamos agora tentar desconstruir (não é criticar):
As piolhas ainda não estão naquela fase de maturidade neurológica que lhes permita identificar - como nós, que estamos de fora a observar - que o seu comprometimento da compreensão da linguagem/comunicação ou interação social ou determinados comportamentos são característicos de autismo. Para elas, ter autismo é algo que sempre fez parte das suas vidas e que não conseguem separar de si mesmas. Para elas, a necessidade de ferramentas que as ajudem a suplantar as suas dificuldades sempre foi uma constante, ou seja, a terapia da fala, por exemplo, faz parte das suas vidas desde que se lembram de ser gente (desde os 3 anos que têm terapia da fala de forma quase ininterrupta). Basicamente, para elas, perguntarem-lhes como é ter autismo ou em que consiste é um pouco como me perguntarem a mim como é ser alta ou ao marido como é ter olhos verdes. É algo que faz parte de nós e que nos é "natural" porque sempre esteve connosco mas que não nos define porque somos muito muito mas tão mais do que ter 1,74m ou olhos verdes ou autismo.

 

(Ainda) não cabe às piolhas explicarem-se acerca de si mesmas. Haverá uma fase em que esse entendimento sobre si mesmas e sobre o que pode condicioná-las, os seus pontos fortes e áreas mais comprometidas fará sentido e poderão ser elas mesmas a falar sobre isso. Para já, aos 11 anos, a entrar na adolescência, a experienciar toda uma série de novas mudanças físicas, mentais, neurológicas, linguísticas, psicológicas, etc, é cedo para se perceber, para ter esse entendimento. É em situações como estas que precisamos de tempo: elas, nós e os outros.

 

 

 

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publicado às 21:37

Tagarelice #61

por t2para4, em 16.02.19

Estou a cotar testes, de costas para as piolhas, com grelhas em excel abertas e concentração ali naquelas percentagens. Uma delas, sorrateiramente, aproxima-se de mim e dispara:
"O que é eróticos?"
Ainda vou ter um AVC...

 

A minha resposta foi, em modo desvaloriza-que-passa, que isso não interessava nada e que tinha a ver com coisas sexuais, desejo sexual e coisas dessas que só os adultos faziam... Uma das piolhas foi ao dicionário (página seiscentos e tal, da Porto Editora, de 2009) e decidiu ler a definição em voz alta e as palavras relacionadas com sexo a sair da boca dela até me fizeram úlceras... deusmalibre...

 

 

 

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publicado às 10:30

Tagarelice #60

por t2para4, em 15.02.19

Sábado à noite, marido a dormitar no sofá, piolhas na cama, uma comédia na TV. Faço umas pipocas no micro-ondas, rapidinho, e volto para o quentinho da sala e conforto do sofá.
- Mããããeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!!!!!!!!! 
Até fiquei sem ar pois há anos que não me chamavam assim. Fui a correr até ao quarto.
- Que se passa?
- POR QUE É QUE CHEIRA AQUI A PIPOCAS?!
E, assim, todo o prédio ficou a saber que, pelas 22h20, eu fiz pipocas e que o cheiro foi até ao quarto delas e o meu nariz estava avariadinho de todo e não me cheirava a nada (embora me soubesse bem).
- Amanhã queremos pipocas, pode ser? É que cheira aqui mesmo a pipocas! Cheira sim!

 

 

 

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publicado às 16:21

Sapatilhas velhas, roupa da que não temos pena que se estrague e... as bicicletas...
 
Lembro-me, claramente, de uma terapeuta no hospital nos dizer que as piolhas tinham problemas de dissociação motora (ou seja, fazer dois movimentos diferentes com o corpo), de equilíbrio e de corrdenação. Nada de novo, portanto. Daí a dificuldade tremenda em conseguirem andar de bicicleta mas equilibrarem-se tão bem numa trotinete... Nessa altura, apercebi-me, amargamente que, talvez tenhamos negligenciado a necessidade de terapia ocupacional.
Foi há 6 anos.
Dessa data em diante, as piolhas começaram a compensar o tempo perdido com sessões semanais numa academia de motricidade e passaram a ter terapia ocupacional na escola, mas, com aquela idade, mais voltada para a área social e organizacional.
 
O tempo foi passando e as rodinhas de apoio passaram a ser uma amálgama estranha de metal meio suspensa nas bicicletas e elas sem conseguirem pedalar naquilo, sem cair. O marido - mais assertivo nestas coisas do que eu - tirou-lhes as rodinhas. Não correu bem, detestavam andar naquilo, não tinham qualquer interesse, o tempo foi passando, elas cresceram e tiveram de mudar para bicicletas maiores. A adaptação não foi má de todo mas, treinar o equilíbrio, já era demasiado trabalho quanto mais pedalar... Tentámos no nosso pátio, na rua, em trilhos lisos , até na escola quando o ATL criou um dia só para patins/trotinetes/bicicletas!! Conseguiram uma coisinha mínima e desistiram.
 
Este verão, deixei de andar a transportar bicicletas em carros e levei-as para casa da avó. A tia achou que era desta que iriam aprender. O pai insistou e chateou-se e irritou-se, as piolhas insistiram e chatearam-se e irritaram-se... Os vizinhos (gémeos também, mas de outra geração) vieram ajudar e até ajudaram a colocar no sítio as correntes que saltavam (se é para fazer, que seja como nos velhos tempos, com correntes cheias de óleo a sair e tudo!). A tia insistiu por dias. O pai insistiu.
E hoje, depois de muita insistência e chatice e reclamação e resiliência e teimosia e atitudezinhas (deusmalibre...) e subornos e ameaças e negociações e o diabo a sete, finalmente, as piolhas aprenderam a pedalar mais que um metro. Aprenderam - literalmente - a andar de bicicleta e a equilibrar-se.
Aprenderam a andar de bicicleta!!!
Conseguem até já subir pequenas e mínimas inclinações a pedalar sem se desiquilibrar. Aprenderam a andar de bicicleta, sem rodinhas, sem apoio, sem ninguém a empurrar. E, orgulhosas desta conquista, exigiam que as víssemos pedalar, transpiradas e cheias de calor, todas contentes. E chamaram o avô inúmeras vezes para que as visse.
Agora, rezo que seja mesmo como se diz popularmente, que andar de bicicleta seja coisa que nunca se esqueça.
Este foi, sem dúvida, um grande feito para nós hoje.
 
 
 

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publicado às 19:41

A tropa manda desenrascar...

por t2para4, em 06.01.19

O café é decididamente o meu melhor amigo. Não só me salva das horríveis manhãs e maus humores com que acordo como também me salvou a cor do meu cabelo. Confuso? Pois, quando eu digo que #pareceumacasademalucos (com hashtag e tudo) é melhor acreditar porque parece mesmo.


Ora, durante a pausa letiva, aqui a pessoa que vos escreve desempenhou a função de ajudante de mecânico durante uma tarde solarenga (um dia, com calma, escreverei sobre essa aventura). Levou com imenso sol na mioleirinha e, no dia seguinte, ao olhar-se ao espelho, repara que as suas habituais madeixas naturais que já começavam a clarear estavam, de momento, quase... vermelhas. Como se tivesse efetivamente feito madeixas. Fiquei apavorada. E desgostosa... O cabelo estava mesmo feio e eu não queria nada ter de o pintar. Pedi ajuda e alguém me informou que poderia ser algum ingrediente nos produtos que uso na minha higiene capilar (ó que bonito  agora a sério, são champôs e condicionadores sem sal e máscaras para hidratação/nutrição/reconstrução de acordo com um cronograma para cabelos saudáveis, já que há uns anos que não uso qualquer química). E chamaram-me especificamente a atenção para camomila e macadame (ou macadâmia). De facto, a camomila era ingrediente em quase todas as máscaras... Nunca tal me tinha passado pela mente já que pela cabeça passou e me estava a pôr ruiva!!! 


Na falta de outras opiniões, recorri ao dr. Google, esse sábio mestre à distância de uma boa ligação à net, e pesquisei "como escurecer o cabelo de forma natural". E, voilà!, as receitas mais fidedignas envolviam café ou chocolate em pó. Dado que não tinha cá chocolate em pó, pumbas, atirei-me ao café e fiz uma máscara de café frio (dos solúveis, bem escuro e bem diluído), máscara capilar da fase em questão e mel. Mexi tudinho, apliquei no cabelo como se o estivesse a pintar e deixei atuar 30 mniutos. As piolhas acharam que estava a pintar o cabelo e diziam para eu não o fazer porque gostavam de mim assim. Lá expliquei que não era para pintar, só para fazer desaparecer os vermelhos. "Mas cheira a café!" e expliquei que levava café.... "Oh mãe, estás sempre a inventar..."
Logo na 1ª aplicação (que repeti passados 2 dias), fiquei logo com a minha rica cor de volta e sem vermelhos! Bam!!!! Agora, de cada vez que lavo o cabelo, cheira a café  mas, pelo menos, vermelho não está!


Para quem me lê, lamento desiludir mas, se esta máscara tira as madeixas naturais criadas pelo sol e/ou camomila, não disfarça os cabelos brancos nem um pouco. Os meus cá estão, bem à vista e orgulhosamente brancos.

 

PS - sempre que, no médico, me questionavam da reação das piolhas a mudanças em casa, eu respondia que elas reagiam bem - as mudanças só lhes causavam problemas quando fora da casa delas, por estranho que pareça. Depois, em conjunto, chegámos à conclusão que, para elas, no ambiente familiar, o estranho era não haver mudanças, pois, desde muito bebés que nós mudávamos as cores das paredes, disposição da mobília, roupas de cama e wc, cortes de cabelo, estilo de roupas, louças, etc etc etc. Isto era o "normal" delas... Daí não estranharem as minhas "invenções". Enquanto que a casa dos meus pais parece estar sempre na mesma, a nossa, ao longo destes 14 anos já mudou de aspeto interior dezenas de vezes. O quarto delas, então, foi das divisões que mais alterações sofreu desde sempre. Habituaram-se a isso e, aqui para nós, mesmo sem o sabermos, ainda bem que assim foi.

 

 

 

 

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publicado às 20:12

A 10 de dezembro celebrou-se o 70º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Uns meses antes, a nossa terapeuta ocupacional enviou-nos um link com a informação de que a ONU estava a promover um concurso de desenho para crianças sobre os direitos humanos. Talvez as piolhas quisessem participar. Achei uma excelente ideia. Uma das piolhas não quis participar mas a outra demonstrou um enorme interesse até porque, a pedido da mesma terapeuta, já tinha feito um desenho alusivo ao que, para ela, é a inclusão em contexto escolar. Avisei-a de que, a par com ela, participariam milhares de crianças e que as suas hipóteses de ganhar alguma coisa ou de o desenho ser selecionado seriam mínimas mas que, ainda assim, a participação neste concurso seria uma experiência diferente. Depois de retocar o desenho, legendou com o artigo 1.º: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos”.

 

O desenho não está completo e está longe de representar tudo o que desejaríamos mas dá para perceber que ela tentou abordar a questão da neurodiversidade, da deficiência bem como até da cor de pele. Para ela – e para mim – o facto de haver meninos e meninas neste grupo que se dirige para a biblioteca escolar, mostra bem o ambiente escolar que deveríamos todos ter bem como o que deveria ser inclusão. Nada forçado, nada regulamentado por toneladas de papel, nada de cruzes em grelhas de avaliação, nada de adultos a impor ou a influenciar o que quer que seja… apenas, um grupo de meninos e meninas, numa escola, a caminho da biblioteca escolar, sem que as suas diferenças importem ou tenham peso na relação que têm entre si.

 

O desenho da piolha não foi selecionado, talvez por erro meu na altura da participação, talvez por não preencher os requisitos pedidos pela organização. Mas, para nós, já ganhou noutros campos.

 

 

 

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publicado às 15:09

Era uma vez um espectro...

por t2para4, em 11.12.18

Imaginemos um espectro de cores, tipo anúncio da Nós, estão a ver coisa, certo? Atente-se, agora, na variedade de tons e sobretons e nuances e misturas e luzes desse mesmo espectro. Tudo muito parecido assim de repente e à primeira vista, certo? Errado. Muito errado. Tal como, na informática, cada cor e tom e sobretom e nunce tem um código único, no espectro de cores também todas elas são únicas e diferentes embora extremamente semelhantes.



As piolhas são duas cores desse espectro de luz. Quase iguais mas diferentes, ali uma nuance de diferença.

 



Agora vamos falar de outro espectro, que não o de luz nem o do Harry Potter: o espectro do autismo. Voilà. Dá para perceber a metáfora que fiz à pressão?

 



Há autistas que procuram estímulos, que se dão bem em ambientes fechados e que adoram festas; há autistas a quem o mínimo som um décibel acima já provoca uma sobrecarga sensorial; há autistas que toleram festas e concertos ao ar livre de dia; há os que toleram isso em ambientes fechados. Tal como nós - os neurotípicos (sim, há um rótulo também para os não-autistas, ou pensavam que era só dar rótulos aos outros?) - toleramos e aguentamos determinadas situações melhor do que outras.

 



As piolhas não gostam de cinema - sim, já foram ao cinema e até já viram filmes 3D -, não toleram música em espaços fechados (o seu comportamento adaptativo passa a disruptivo em menos de um nada), não aguentam a confusão nem os sons ou luzes de um espetáculo ou jogo dentro de um pavilhão gimnodesportivo. Toleram minimamente festas ou eventos e até multidões em ambientes abertos longe das colunas de som (fomos à Volvo Ocean Race em Algés e correu lindamente mas evitámos as colunas e os amontoados de pessoas em espaços pequenos).

 



Não sou eu quem impede as piolhas de irem a uma visita de estudo ou a um espetáculo ou a um concerto; são elas que não querem ir porque sabem o quanto lhes custa. Elas nem sequer participam no espetáculo da escola de música e estão incríveis na bateria...



Enquanto elas não quiserem nem aguentarem nem souberem como reagir, eu não vou forçar a nada e serei a chata de serviço. Temos pena. O que os outros vêm são duas crianças aparentemente perfeitamente normais mas que começam a abanar-se ou a gritar ou a tapar os ouvidos ou a arrancar cabelo ou a morder-se e, esses mesmos outros, vão achar, seguramente, que elas estão a fazer uma birra ou a ser mal-educadas porque, vá lá, até já são tão crescidas...



Eu sei o que tenho em casa e, em caso de sobrecarga sensorial ou disrupção comportamental, no final do dia, quem tem que saber gerir tudo isso, sou eu e o pai.

E não temos ninguém para nos auxiliar ou até compreender sem desvalorizar.



 



 

 

 

 

 

 

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publicado às 21:38

Tagarelice #59

por t2para4, em 25.11.18

Parámos perto da escola de condução e um novo aprendiz saía com o carro. Comentei com as piolhas que um dia (e faltam apenas 7 anos 😱) seriam elas a aprender a conduzir.



- Parece fácil.



- Não é complicado mas tens de ter atenção a uma data de coisas, tudo ao mesmo tempo e isso pode ser dificil...



- Então, é dar à chave para por o carro a trabalhar e depois acelerar.



- Só isso?!



- Pronto, acelerar devagarinho....



 



Foi um fartote de rir. Não temos carros automáticos em casa. Mas, na ilusão dela, o que fazemos parece tão simples que ele nem se apercebe que depois de dar à chave, destravamos o carro (bem, isto ela não vê, pois o travão de mão de um dos carros é perto dos botões das luzes e é travão de pé), temos de engatar mudanças ao mesmo tempo que carregamos na embraiagem e continuamos a acelerar e usamos o volante...



O que me deixa descansada é que, quando chegar a vez de treinarem com um carro, os nossos ferros velhos do aço terão cerca de 35 anos e sei que lá dentro não se passará nada :)

 

 

 

 

 

 

 

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publicado às 09:33

É o meu corpo e ponto final

por t2para4, em 04.08.18

Adoro quando regressam os dias de sol e de calor e irrompem de todo o lado mil anúncios a ginásios, dietas, cremes anti-celulite, suplementos e até exercícios localizados. Só que não.

Qual é que é o ponto de pressionar as mulheres - e os homens, já começo a ver que também surgem ataques disfarçados à figura física masculina - para se ter um suposto corpo perfeito? Mas, por acaso, a perfeição é gradualmente tornarmo-nos todas iguais umas às outras, entupidas de botox, sem expressões faciais, sem características pessoais únicas? 

Não, obrigada.

A sério.

 

Demorei anos a aceitar-me. Passei todos os meus anos de escola - todos - insegura de mim mesma: ou era o cabelo (que não era liso) ou eram as unhas (que não existiam por roê-las) ou eram as pernas (que ameaçavam celulite) ou era o aspeto (alta demais, achava-me feia) ou era o queixo (comprido demais). Por favor! Se eu pudesse voltar atrás dava a mim mesma uma carga de porrada e mostrar-me-ia que posso ser firme, segura de mim mesma e confiante sem ligar às opiniões de terceiros e sem ter que me comparar com ninguém. 

É exatamente isto que digo às piolhas sempre que surge uma oportunidade. Nunca as ouvi queixar-se do que quer que seja do seu corpo (ainda é cedo para estas crises) e quando falam de borbulhas no nariz, elas próprias, com naturalidade, dizem que é a puberdade.

 

Eu não sou perfeita Mas sou perfeitamente capaz de aceitar os meus defeitos inestéticos. Uma gravidez múltipla trouxe-me estrias na cintura e falta de definição na barriga, esticou a minha pele a um estado tal que consigo ver onde engelha por causa dessa elasticidade; uma amamentação mal sucedida e uma subida do leite inesperada trouxeram estrias às minhas mamas e fê-las descaírem; essa mesma gravidez e um aborto espontâneo há uns anos agravaram a celulite nas minhas pernas e despertaram uma rosácea terrível na minha cara que só ameniza com pomada antibiótica. 

Não estou tonificada nem morenaça nem musculada. Não tenho o cabelo esticadinho, perfeito e sempre no lugar. Não uso maquilhagem todos os dias. Já não consigo usar saltos agulha.

MAS...

Estou com um corpo incrível para quem passou por 2 cirurgias à barriga e passou por 2 gravidezes, sobreviveu a uma lesão grave intermuscular e lesões cerebrais que requereram medicação tão forte que me fez cair o cabelo, dar cabo da pele e enfraquecer as unhas.

Não tenho paciência, nem dinheiro, nem vontade de encher o cabelo de químicos. Nem sequer tenho vontade de me pentear e só o faço quando lavo o cabelo. Sigo um cronograma capilar de forma séria, arrisquei um corte de cabelo novo e ganhei caracóis e ondas que defino com creme de pentear ou espuma. E penteio-me com os dedos.

De vez em quando, quando as costas e as folgas me permitem, faço algum exercício físico. Mas, há de contar como reforço subir 3 lanços de escadas com kg de sacos de compras, materiais da escola, filhos, etc. Porque, de uma coisa estou certa, tudo isto me sai do coiro.

Tenho celulite e, este ano, depois de muitos muitos muitos anos a recusar sequer ter algo do género no meu roupeiro, usei vestidos e saias no inverno (com collants e não leggings) e estou a usar e a abusar dos calções, vestidos e saias no verão (de perna ao léu, mesmo).

Tenho uma barriga magra e lisa que não é tonificadinha mas uso bikini e bikini usarei até me fartar. 

Desisti de fazer a depilação só para, supostamente, agradar ao marido (quando ele, na realidade me confessou que não liga nada a isso) e faço por mim: porque detesto pêlos, porque é mais higiénico, porque vou usar uma saia ou um bikini e porque eu controlo esse processo (faço com máquina em casa e tenho pouquíssimos motivos de sofrimento).

Desisti de disfarçar os brancos. Ainda pintei o cabelo várias vezes com coloração permanente e com a que sai com lavagens. E, um dia, um mês depois de o ter pintado, apanhei piolhos (quando supostamente não entrariam em cabelo pintado). Apanhei uma neura tal que desisti. Estou com imensos fios brancos e quase quase na minha cor natural. E sinto-me muito bem.

Deixei de usar cremes de dia, de tarde e de noite. Além daquelas bodegas me atiçarem a rosácea, esquecia-me de usar como deveria e em dias de calor absurdo como agora, eu ficava um nojo maior. atirei tudo fora e utilizo água termal, a tal pomada quando necessário, leite de limpeza da marca Cien todas as noites. E chega que não tenho paciência para mais. Nem dinheiro.

 

O que quero daqui retirar é que, desde que aprendi a aceitar-me assim como sou e a ter a noção de que o esforço a que submeti o meu corpo e a idade que começa a fazer-se pesar, sinto um alívio imenso e me sinto realmente melhor. Não sou nenhuma hippie! Adoro usar maquilhagem e não saio de casa sem lápis/rímel e baton. Adoro salto alto (passei a optar por uns mais baixinhos ou por salto cunha) mas há looks incríveis com botins, sandálias e sapatilhas. Comecei a usar roupas com as quais me sinto verdadeiramente confortável e bem. Arranjo as unhas, quase religiosamente, há coisa de dois anos com a melhor pessoa que podia imaginar, que sabe o que faz e não arrisca estragar o pouco que há e que faz autênticos milagres.

Não quero que as minhas filhas passem pelo horror que eu passei e tenham vergonha de sorrir para uma foto porque acham que são feias. Tudo coisas parvas da nossa cabeça e sem razão para existirem. Elas são lindíssimas (eu sei que sou altamente suspeita e imparcial mas é verdade) e não precisam nem têm necessidade de pensar ou de se rebaixarem ao ponto de não se aceitarem como são. Já basta o que basta.

Tudo com conta, peso e medida. Ignorar e evitar ataques, serem saudáveis e terem cuidados básicos com a saúde (e, por acréscimo, com o corpo) e serão sempre belas. Porque envelhecer não tem que se tornar no horror e na fogueira de vaidades plastificadas e sem heterogeneidade que se apregoa por aí. Pode ser natural. 

 

Para já, espero que, como adolescentes, as piolhas não sintam nem sofram a pressão de serem uma ou outra figura. Espero e tentamos que sejam elas próprias, com o gosto delas e que saibam aceitar-se. São lindas, saudáveis e felizes. 

Como dizem os meus caríssimos e queridos Dr. Watson e Sherlock Holmes, "it is what it is".

 

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publicado às 16:48

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