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Do cansaço...

por t2para4, em 21.07.21

Uma das minhas respostas prontas a perguntas do género “Como estás?” é “Cansada” aí 90% das vezes. E, na maioria das vezes, é um cansaço psicológico e até emocional, mais do que um cansaço físico.

E a maioria das pessoas não entende isso.

Eu sinto que estou constantemente cansada, com alguns vislumbres em que me sinto bem e enérgica, mas maioritariamente cansada. Também sei que o facto de fazer muitas coisas ao mesmo tempo, a profissão escolhida, as viagens/deslocações, a vida familiar e a maternidade atípica não abonam muito a meu favor. E é aí que quero chegar. Não podemos comparar cansaços. A minha mãe não entende bem por que ando sempre cansada mas percebe que o meu cansaço é diferente do da minha irmã; eu percebo que o meu cansaço é diferente do do marido; eu sei que o meu cansaço não é nada como o de outros pais atípicos. Comparar cansaços é como compararmos as nossas crianças: não dá e dá sempre mau resultado. Estamos cansados e pronto, é isso.

Mas, no fundo, o que me custa mais é o cansaço emocional. É gerir situações imprevistas e adversas a nível pessoal e familiar, das piolhas; é antecipar comportamentos, ações, aulas, estudo, saídas, aprendizagens, brincadeiras, etc; é saber lidar com a ansiedade de como vai ser mais um ano letivo, desta vez com exames nacionais; é sentir o coração pequeno por não saber como serão os nossos horários a partir de setembro; é tomar mil e quinhentas decisões (como mãe e como professora) sem me aperceber disso; mas, acima de tudo, é saber que nunca saberei o que é a maternidade típica. E isto ocupa espaço no pensamento, no coração, nos sentimentos. E não vai embora, fica sempre ali a pairar.

É preciso dar tempo para descansar de todos estes cansaços e recuperar ânimos e forças. A energia virá depois. Mas é preciso também perceber que, até aqui, somos todos diferentes e não há nada de errado nisso.

E, sim, estou muito cansada.

 

 

 

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publicado às 16:15

Podemos colocar-nos no lugar do outro?

por t2para4, em 23.11.20

À partida, não terei nenhum diagnóstico (embora a minha mãe me tivesse pedido uma avaliação para hiperatividade quando era muito miúda) mas confesso que talvez tenha uma queda para a hiperatividade ou para o síndroma de pensamento acelerado - não está nos meus planos imediatos fazer uma avaliação. Quem me conhece deve estar, neste momento, a abanar a cabeça em semiconcordância... Mas, a verdade é que, ainda hoje, tenho alguma dificuldade em encaixar-me. E consigo entender pelo que passam miúdos como os que têm as cadernetas cheias de recados ou os que são demasiado criativos e distraídos. Ou as piolhas.

A nossa vida é constituída por demasiados círculos que podem, por exemplo, ser a família próxima, a família alargada, amigos, colegas, pessoas do trabalho, pessoas que conhecemos de vista, etc. Para cada círculo, é expectável um determinado comportamento e forma de agir, uma determinada linguagem. Sem nos apercebermos, passamos o dia a saltitar de atitudes em atitudes, a tomar milhares de microdecisões, em constante adaptação. Para quem lida com pessoas, seja de que idade for, maior é a exigência dessa adaptação.
Tenho alguma dificuldade em encaixar-me em e seguir determinados padrões e, talvez por isso, na minha profissão, eu sinta um desgaste cada vez maior porque a minha tendência natural é preocupar-me, muitas vezes, em demasia. É colocar-me constantemente no lugar do outro e fazer pelos alunos o que espero que façam pelas minhas piolhas ou tivessem feito por mim quando era a minha vez nos bancos da escola. E isto é extenuante. Porque ninguém quer saber. Exceto eu.
Encaixar num mundo em que tudo nos é exigido e onde pouco espaço há para o que é diferente custa muito. Exige muito. Cansa muito. Cada vez mais.
Noto esta dificuldade mais recorrente. O confinamento, o distanciamento, o individualismo, o umbiguismo que se sente não têm facilitado a transição entre círculos de forma mais suave e quase impercetível. A exigência é imensa. E a empatia, a entreajuda, a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro estão a perder terreno…

Hoje, escrevo estas linhas no carro, em frente a um rio, num estacionamento completamente deserto porque, hoje, em particular, não consigo encaixar-me, não consigo diminuir a velocidade do que passa pela cabeça, não sinto vontade de integrar círculos onde o esforço é grande. Sou adulta, bem resolvida com a vida e feliz. Imagine-se o que sente uma criança, um adolescente, um jovem com autismo, com perturbações sociais, neurológicas, etc. Podemos colocar-nos no lugar do outro e facilitar a transição entre círculos? Ficamos todos a ganhar.

 

 

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publicado às 13:24

Funcional e com incapacidade?

por t2para4, em 12.10.20

Ser funcional e ter, ao mesmo tempo, uma incapacidade é algo que intriga os demais. Às vezes, é algo mais que isso: chega mesmo a incomodar. Como é possível ter-se uma incapacidade, uma deficiência, MAS TAMBÉM, ser-se autónomo, capaz, funcional? Não são todas as deficiências incapacitantes? São, a bem dizer. Todas as deficiências, todos os problemas de saúde, todas as condições, são, em certa medida, incapacitantes. Daí, haver até uma avaliação para que se atribua uma percentagem a essa incapacidade e, através de um longo processo de análise, relatórios e um documento específico, atestar isso mesmo. Uma enxaqueca galopante traz consigo a incapacidade de conduzir, por exemplo, mas não me torna disfuncional a ponto de não conseguir abrir o carro ou colocá-lo a trabalhar, se for absolutamente necessário.


Infelizmente, ainda se associa muito a incapacidade visível e quase total à deficiência, em especial, à deficiência severa e grave. E o que é invisível, o que é funcional, não tem grau de gravidade. Não é uma crítica. É uma constatação.
Um indivíduo com autismo pode ser funcional. Um indivíduo com paralisia cerebral pode ser funcional. Um indivíduo com epilepsia pode ser funcional. Um indivíduo com osteogénese pode ser funcional. Como em tudo, a sua funcionalidade dependerá da gravidade da sua condição. E é – ou, pelo menos, deverá ser – assim que se baseia a intervenção terapêutica, clínica, técnica a seguir. Um caso mais leve, um caso funcional, não deixa de necessitar de ajuda; deve é ser uma ajuda adequada às suas necessidades e potencialidades. Um caso mais leve, um caso funcional, continua a necessitar de intervenção, não vem roubar direitos a casos mais graves, não vem encurtar ou aumentar listas de espera, não vem destabilizar números ou estatísticas. As coisas são como são. As comparações erróneas e injustas não devem ser o fator decisivo da atribuição de apoios porque a necessidade de apoio está lá – difere é na sua execução e na sua aplicação e na sua engrenagem e na sua concretização e até nos seus resultados.É muito comum comparar-se a funcionalidade. “Comparado com xxxx, isso não é nada”. Sim, de facto, comparado com o Vietname, o Ultramar não foi nada – estão a ver, mais ou menos, a comparação? É errado, injusto, desadequado, impróprio. Apesar das escalas de avaliação seguirem uma norma padronizada, é nas alterações ao padrão, àquilo que é o desvio, que nos podemos centrar. Não importa comparar a gravidade e a severidade e a curva desse desvio. O que realmente importa é agir com os devidos cuidados e promover o sucesso para a tal funcionalidade, se tal for possível. É possibilitar que sejam dadas ferramentas para trabalhar, adequadas à condição deste ou daquele indivíduo, independentemente do caso d e A, de B ou de C.


Não podemos deixar-nos cair em clichés porque é fácil fazê-lo. As coisas nunca são tão lineares como aparentam ser, há algo maior por detrás. Na esmagadora maioria dos casos, num indivíduo funcional com uma deficiência, adolescente ou jovem, estão anos e anos infindáveis de trabalho, uma família que nunca desistiu, uma equipa organizada para dar as tais ferramentas necessárias. E isso não se vê.

 

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publicado às 11:18

Incluir (toda) a diferença

por t2para4, em 05.09.20

Das muitas publicações que vamos fazendo, já devem ter percebido que eu, a autora A Família Neurodiversa e a autora do O Mundo do Gonçalinho vamos falando e discutindo temas variados. Há pouco tempo, surgiu em conversa a questão da discriminação e aceitação do que é “diferente” - seja ao nível de deficiência, género, cor da pele ou outros. Hoje, vamos as três lançar textos ao longo do dia (um por cada página).

Quando falamos em escola inclusiva e, por acréscimo sociedade inclusiva, a nossa tendência imediata é pensar em deficiência. E ainda bem pois significa que já estamos a chegar a algum lado na consciencialização para a diferença. No entanto, sob a capa da diferença cabem muitas outras coisas, desde etnia, religião, cultura, género, etc. E é de género que falo hoje. Mais especificamente de transgénero.
Vi recentemente um filme que me marcou. Abordava a questão do transgénero há anos atrás, numa altura em que ninguém falava do assunto e em que a marginalização era superior. Era um adolescente que sempre se sentiu diferente no corpo que lhe calhou biologicamente. E, por isso, por se recusar também a fingir ser alguém que não se sentia ser, assumia-se naturalmente. E isso trouxe imensos dissabores pois implicou mudança de escola devido a escalada dos episódios de bullying, mudança de morada por ameaças à sua integridade física, sentimentos muito difíceis de gerir devido ao não querer decionar a mãe mas querer ser o que sentia ser, entre outros.

Nos meus tempos de estudante, tive alguns colegas assim. Eram chamados de muitas coisas, sendo “exuberante” o mais simpático. As histórias que tentavam justificar os seus comportamentos eram do mais rocambolesco que se imagine. A escola não foi totalmente inclusiva para estes alunos. Quantas vezes foram vítimas de humilhação, de agressões... E eles, tal como os que seguem as regras sociais – seja lá o que isso for -, também têm direito ao seu lugar na sociedade. E liberdade de poderem escolher serem quem querem, serem quem se sentem ser. Por que isso incomoda tanto? Por que temos nós – ou outros – de achar que tal ou tal comportamento, tal ou tal convenção estão certas ou erradas? De novo, por que incomoda tanto que um rapaz queira ser uma rapariga ou vice-versa ou não se identifique com nenhum género?

Costumo dizer que a escola é uma sociedade em miniatura com as suas regras e grupos. Então, é aí que o respeito pela diferença, seja ela qual for, deve começar. As escolhas pessoais, os sentimentos profundos de uma pessoa só a ela lhe dizem respeito. Não temos que opinar sobre isso, em especial se não sabemos do que se trata.

Ostracizar, segregar, discriminar a diferença, seja ela qual for, não é ser-se inclusivo. E se a inclusão é palavra de ordem nos tempos que correm, todos devemos fazer a nossa parte.

 

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publicado às 09:01

Ainda temos muito que crescer...

por t2para4, em 21.07.20

Por que (ainda) é tão difícil mudar mentalidades, chegar a todos, aceitar a diferença e a diversidade (a vários níveis, seja diversidade física, neurológica, de género, sexual, etc.)? Por que ainda se fala em surdina daquela rapariga que coxeia porque tem paralisia cerebral ou daquele rapaz com uma tatuagem grande? Por que se critica o tamanho daquela saia ou as calças rasgadas no joelho? Por que se ponta o dedo com esgar de coitadinhice ao indivíduo com deficiência? Por que se critica uma mulher por ganhar muito dinheiro e ter uma carreira mas um homem não? Por que se empurram todas as obrigações parentais para a mãe e se desculpabiliza o pai? Por que é tão difícil falar (aceitar, até!) da diversidade?


Porque todo um passado fechado, pequeno, tacanho e atípico ainda nos persegue e porque, infelizmente, ainda temos pessoas que defendem determinados pontos de vista que abominam toda uma alteração social e, ali ao lado, a inclusão como ela deveria ser. É generalista, sim, mas é verdade.
Uma das coisas que gosto de fazer quando leio algum artigo é ler os comentários. Aprende-se muito com os comentários, acreditem. Faço parte de alguns grupos que mostram o que foi Portugal no passado e a aprendizagem que dali retiramos não tem valor. É História no seu verdadeiro sentido pois inclui também a história pessoal de quem publica. Mas, alguns comentários - a grande maioria dos comentários - é de levar as mãos à cabeça.


Uma grande percentagem aborda o tradicional cliché "éramos tão felizes com pouco" ou "éramos tão felizes e não sabíamos", geralmente associado a fotografias a preto e branco de pessoas do povo, descalças a ir buscar água à fonte ou de crianças descalças e esfarrapadas na escola. Em nenhuma daquelas fotos se vê um sorriso. Ou um pé calçado. Viver em sub-condições, sem wc próprio, sem água canalizada, sem eletricidade, sem comida, sem planeamento familiar, com violência educacional e doméstica devia ser uma felicidade do caraças. E, muitos - demasiados!!! - são defensores que sopas de cavalo cansado nunca fizeram mal a ninguém. Realmente, nada como uma vinhaça materlada com pão de uma semana para dar um boost de energia num cérebro infantil em desenvolvimento, logo pela manhã... Não admira que as taxas de mortalidade e de desenvolvimento infantil fossem assustadoras e a nossa população fosse mais baixa, mais magra e menos desenvolvida que as demais.


Alguns comentadores - mais jovens que eu e eu já faço 40 daqui a uns meses - conseguem até encontrar justificação para episódios de violência doméstica e de crítica para a emancipação feminina. Não resisto a partilhar aqui, ipsis verbis, a resposta dada por uma mulher, mais jovem que eu, sobre este assunto: "Não me parece que o mundo esteja melhor pelo facto das mulheres terem abandonado o cuidado do lar filhos e marido para se dedicar em a outras coisas..." porque, como toda a gente sabe, o papel da mulher - esse ser inferior e sugestionável, inútil até, à sociedade e que em nada contribui para a evolução humana - é no "lar", a cuidar do marido e dos filhos. Sim, não há opção: é para ter marido e filhos, independentemente da sua vontade. Há que ser submissa e obediente à figura masculina.


Outros comentários há que abordam, então, a forma como as mulheres se vestem hoje: sem brio, sem qualidade, sem simplicidade, sem beleza. Porque antigamente é que era bom. Ah, e éramos todos felizes, mesmo descalços e esfarrapados, de luto carregado mesmo na flor da idade.
Agora, façamos aqui um exercício de extrapolação: estamos em 2020, 20 anos depois de termos iniciado o século XXI, em plena era tecnológica, com exploração dos oceanos profundos e do universo para lá das suas costuras alcançáveis, temos coisas reais como a nanotecnologia e a medicina mais avançada com que alguma vez pudemos sonhar há uns anos (e não me venham com merdinhas, porque já ninguém morre de sida como se morria nos anos 80 e 90 e até temos doenças erradicadas) MAS não conseguimos ter uma mentalidade mais aberta, mais natural, mais flexível e criticamos a deficiência (o ideal era esconder todos num buraco negro), o vestuário libertino (o ideal era usar um hábito com capuz), a orientação sexual (o ideal era sermos todos uns sei lá o quê, nem tenho com que criticar isto) e mais uma meia dúzia de outras coisas que não deveria incomodar ninguém numa sociedade que se diz moderna e atualizada e inclusiva. Sabem o que isto quer dizer? Quer dizer que enquanto houver quem critique de forma saudosista um presente em prol de um passado ditatorial e deficitário em saúde, educação, valores, princípios, diversidade, pedagogia, etc. e houver quem defenda determinados crimes - violência doméstica é crime, discriminação é crime, segregação é crime - e se falar disto de forma leviana em forma de comentário a uma fotografia de miúdos descalços alinhados à frente da senhora professora porque "eram os mais atrasados na leitura e era assim que se ensinavam os mais burros" e se defenda que é com porrada, com insultos, com violência, com preconceito que se ensina, se defende, se apoia, se inclui, não evoluiremos enquanto sociedade. É triste mas é a realidade.


Quero muito acreditar que a amostra do que leio não é relevante em termos populacionais e desejo muitíssimo acreditar que a minha geração - e até a anterior - mais a geração seguinte serão capazes de transmitir às gerações seguintes que a diferença não é algo anormal, a diferença não é algo a recear, a diferença pode ser riqueza, a diferença é diversidade.
Não há problema nenhum em ter mulheres fortes e com carreiras incríveis, não há problema nenhum em não querer ter filhos ou em querer ter uma dúzia deles, não há problema nenhum na diversidade sexual, de género, neurológica.
Não somos todos iguais e não somos, de todo, todos um.
E a verdadeira riqueza social (talvez até humana?) está aí.

 

 

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publicado às 14:14

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