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Um dia, a Educação implodirá

por t2para4, em 04.07.22

Um dia, mais cedo do que se possa imagina, a Educação implodirá. Este é um texto muito longo mas verdadeiro. E cru.
Do número excessivo – dizia-se, na altura – de cursos universitários voltados para a educação, turmas cheias e imensos alunos – a ponto de se encherem auditórios -, com o passar dos anos, alguns fecharam, outros desapareceram, veio o Bolonha, os novos alunos universitários não querem ser professores.
Do número excessivo – dizia-se, na altura – de candidatos ao concurso de professores, com o passar dos anos, vejamos o que veio afinal a acontecer para que, hoje, neste momento, não haja número suficiente de professores para colmatar as falhas sentidas e há, pasme-se, alunos que não tiveram uma única aula durante todo o ano letivo a algumas disciplinas (o futuro dirá o que colheremos dessa falta).
- temos de começar, obviamente, pela emigração sugerida por um Governo há anos. Professores a mais em Portugal  - > solução simples = mandá-los embora.
- cursos de ensino a mais  - > solução simples = terminar tudo ou quase tudo e limitar o ensino a quem tem mestrados ou semelhantes.
- aumento geográfico dos QZP (Quadro de Zona Pedagógicas) e mudança constante de regras de inserção nestes quadros que impacta diretamente no acesso de docentes aos QE/QA (Quadros de Escola/Quadros de Agrupamento).
- mudanças constantes e regras dúbias no acesso à Mobilidade por Doença, o que faz com que muitos professores não possam concorrer a determinadas escolas ou, pelo contrário, aproveitem alguns buracos na lei e concorram desmesuradamente para onde querem, apesar de estarem afetos a outros locais.
- congelamento na progressão da carreira, com acessos quotizados aos escalões e com um 10º escalão praticamente inalcançável.
- alteração do preçário e regras em relação ao ensino noturno.
- aumento salarial pouco significativo face às restantes profissões e ordenado mínimo nacional.
- duas tabelas salariais + dois horários (25h vs 22h) que discriminam educadores de infância e professores do 1º ciclo em relação aos restantes.
- reduções de horário (por idade, por artigo, por outros motivos) diminuída, número de dias de férias atribuído diminuído ao longo destes anos, possibilidade de utilização do artigo 102 diminuída ao longo dos anos também.
- proporção de trabalho relativo a exames vs dias de férias atribuídos
- calendário escolar completamente desfasado por ciclos
- estágios profissionais não remunerados e de apenas alguns meses, ao invés de um ano letivo e remunerado, como se fazia até ao início dos anos 2000.
- (não)renovação de contratos de professores contratados e injustiça criada com medidas como a Norma-Travão.
- concurso externo complicado, moroso, burocrático, desfasado que dura quase um ano letivo a concluir, onde ainda se verificam erros, ultrapassagens injustas, etc.
- alteração injusta na declaração de dias à Segurança Social para horários incompletos (abaixo de 15h, menos dias são declarados, ao invés de um mês inteiro como se fazia há pouco mais de 3 anos), o que, impacta diretamente no direito à atribuição de subsídio de desemprego;
- intervalo de horários a concurso injusto: são apenas 3 intervalos (8h-14h; 15h-21h; 22h) que diferem como o dia da noite em termos de remuneração e tempo de serviço e, obviamente, impactam diretamente na forma como um professor concorre.
- não atribuição de direitos a professores contratados com descendentes/ascendentes com deficiência (aproximação à residência, meia-jornada, baixa médica por deficiência, etc.)
- desconto salarial de quase 50% do ordenado em caso de atestado médico e sem esquecer os 3 primeiros dias sem qualquer retribuição.
- número de crianças inscritas na escola a diminuir, o que em algumas escolas, se traduz indubitavelmente em horários incompletos porque, simplesmente, não há alunos suficientes para que se possa ter um horário completo.
- profissão que trabalha fora do seu horário de 35h/semanais (22h são letivas) a preparar aulas e materiais ou reuniões para usar essa preparação na aula e depois volta a trabalhar fora desse período para correções, textos, etc. Horas extra, serviço excessivo que não é pago. E que é maioritariamente feito em casa, pois os recursos de que o docente necessita estarão em sua casa.
- quezílias eternas entre professores do quadro e contratados (“A menina é colega ou estagiária?” foi-me perguntado numa sala de professores)  -> desunião de classe
- sindicatos numerosos e, alguns, incompetentes.
- estratificação desnecessária e injusta: os professores de AEC (Atividades de Enriquecimento Curricular) são técnicos, o seu tempo de serviço não é contabilizado para efeitos de concurso no caso de docentes não profissionalizados e o ordenado é miserável; alguns docentes do Ensino Profissional trabalham anos, na mesma escola, a recibo verde e a fórmula de cálculo de tempo de serviço é injusta.
- programas excessivamente complexos e longos, repetitivos e que obedecem a uma série de documentos que vão mudando consoante os ministros da educação e que assentam, maioritariamente, numa visão de empinanço de matéria para a vomitar em testes e exames, ao invés de verdadeiramente ensinar e preparar o aluno para o futuro.
- burocracia desmesuradamente inútil e excessiva em todos os aspetos que envolvem a escola, desde a avaliação dos alunos até aos projetos que são impostos às escolas.
- Avaliação de Desempenho Docente completamente inútil, quotizada, injusta e desnecessária sem qualquer impacto na vida ou carreira ou carteira de um professor contratado mas que impede a justa progressão de um professor do quadro porque há listas e quotas e não há vagas...
- trabalho de secretaria atribuído aos professores: matrículas, impressão de documentos, preenchimento de campos nos programas de gestão escolar, preenchimento de mapas (leite fruta, AECs, EMRC, devolução de manuais, etc.).
- escolas como depósitos grátis de crianças devido aos seus horários alargados e calendários letivos extensos
- existência de ameaças à integridade física e moral do professor (para não falar dos seus pertences).
- a tragicomédia que envolve atestados médicos, substituições e juntas médicas.
- ADSE – motivo de inveja para uns, motivo de horror para outros mas que pagamos por 14 vezes (12 meses, 1 subsídio de Natal e 1 subsídio de férias)
- outros (seguramente mais haverá mas já não consigo elencar e não vou falar sequer de motivação ou (in)disciplina de alunos)

Posto todos estes motivos, sejamos honestos, quem quer ser professor? Quem quer ingressar nesta profissão? Quem vier, virá definitivamente por gosto e vocação e, isso, lamento, não é valorizado. Eu não quero que as minhas filhas sejam professoras, apesar de eu adorar o que faço.
Um dia, e esse dia estará para breve, o ensino em Portugal implodirá e teremos soluções de pensos rápidos a tapar rachas em barragens, veremos a qualidade elogiada no estrangeiro do nosso ensino a desaparecer, teremos um acréscimo da indisciplina, um cada vez maior incumprimento de direitos dos alunos (alunos com necessidades específicas serão os primeiros alvos), veremos pessoas não qualificadas a fazer serviço especializado e teremos cada vez mais alunos sem aulas e profissionais de atestado médico.
Entristece-me um país que não valoriza a profissão que faz todas as outras profissões e que, constantemente, me maltrata, me agoira, me sobrecarrega, não desvaloriza, me arrasta durante anos sem vínculo. Entristece-me um país que sofrerá amargamente com as suas atitudes para com os professores e, até ao momento, navega à toa, sem um plano correto, justo e adequado para professores, alunos e pais.

 

 

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publicado às 10:29

Falta muito para as férias?

por t2para4, em 12.06.22

Não tenho memória de um ano letivo tão exigente e exaustivo como este. Talvez pelas acumulações, talvez pelo trabalho, talvez pelo excesso de burocracia.
São avaliações, rubricas, provas de equivalência à frequência, provas extraordinárias de avaliação, critérios de correção e critérios de classificação, informações-prova, provas orais, cotações. E repete a preparação das provas não uma, não duas, mas três ou quatro vezes porque as coisas não batem certo logo à primeira e há toda uma formatação excessivamente formal para manter.
São grupos de trabalho, aplicações, vigilâncias, correções, impressões, autoavaliações, grelhas, plataformas.
São festas e ensaios e poemas e desenhos e palcos e público.
São horas de downloads no IAVE para impressão de provas de treino para as piolhas e áudios e correção. E vai mais uma voltinha que, apesar de as provas não contarem para nada, sei lá eu o que o futuro nos reserva e se elas quererão fazer exames nacionais no secundário.
São conteúdos para terminar e é aquele velho malhar em ferro frio: eu já não aguento, os miúdos, então, estão de todo. Só me apetece fugir. Aulas? Rua. Todos, eu e eles. Jogos.
Almoços, jantares, lanches, café. E há almoço no frigorífico, liguem se tiverem alguma dúvida, está aqui uma lista de tarefas para fazer. Ficam sozinhas em casa mas já sabem as regras todas, em última instância, peçam ajuda aos vizinhos ou lojas ali da frente porque toda a gente vos conhece. Vão dando notícias durante o dia. E, no final das aulas, 45 km = 40 minutos.
E viroses. Puta que pariu. Eu já estou tão cansada... E ranhos e vómitos e bílis e alergias e viroses e dores de garganta e um calor que parece que estamos todos na menopausa e febre, a puta da febre, que não deixa ninguém dormir.
Estou exausta. É isto quando chego a casa. Preciso mesmo de parar um bocado, fechar os olhos, descansar a cabeça antes de me atirar ao trabalho, aquele que não se faz na escola, que não se vê, não se valoriza, ninguém conhece (a menos que seja prof) e não é, de todo, pago.
Tenho tentado acompanhar o ritmo e até pus aquele artigo para poder fazer tudo o que estava em atraso.
A coisa vai, só preciso de descansar um bocadinho.

 

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publicado às 13:36

A tendência para a História se repetir

por t2para4, em 27.02.22

Falamos muito de História cá em casa, pois é tema que nos fascina. E vêm-se muitos episódios sobre acontecimentos históricos. Mas também se fala muito de realidade por cá. As piolhas sabem que já trabalhei com alunos de nacionalidades israelita, síria, ucraniana, russa, e, mais recentemente, de PALOP. À exceção destes últimos, todos os restantes tinham algo em comum: eram refugiados de guerra. Fugiram, deixando tudo para trás, do barulho e perigo das bombas, dos ataques, da vida em bunkers, da morte.
Sempre que algum desses alunos deixava escapar uma memória (lembro-me de um que fugiu da Síria para o Egito antes de ir para França e depois para Portugal), a minha mente fazia um esforço gigantesco para tentar sequer visualizar como teria sido essa provação e o meu coração encolhia até quase não bater. Nenhuma criança merece passar por isto, nenhuma. Nenhum ser humano merece fugir de uma guerra que nunca pediu e não fez nada para a despoletar.
No dia em que a Ucrânia foi invadida, eu nem conseguia imaginar a dor com que uma amiga devia estar por ver o seu país a ser destruído (vamos deixar as razões para os verdadeiros entendidos), ou tentar contactar a família. E eu deixei as piolhas na escola, no meu país seguro, na minha vila segura onde conheço quase toda a gente e todos nos conhecem e ia olhando para todos aqueles miúdos e pensava com dor como seria termos todos de fugir à pressa, no meio do caos. E fui trabalhar com o coração apertado, a imaginar cenários dantescos e a agradecer estarmos neste cantinho.
Os meus alunos não estavam muito melhor que eu... A minha aula de Inglês foi substituída por uma aula de História recente e de Cidadania. Copiei descaradamente a ideia de um professor meu amigo sobre o que faríamos, sentiríamos, colocaríamos em menos de 5 minutos numa mochila antes de fugir na direção oposta ao avanço do inimigo. Todos os nossos pensamentos foram para a família. É o mais importante.
Não devíamos ter de vivenciar estas experiências, nenhum destes conflitos bélicos. Lembro-me da Guerra do Golfo e sentia medo de que, sei lá como, cá pudesse chegar. Jamais pensei que, em pleno século XXI, ainda houvesse cenários de guerra, fosse onde fosse.

 

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publicado às 20:47

Ensinar é evoluir

por t2para4, em 17.03.21

Quando se sentir vontade de criticar o ato de ensinar - e não me refiro apenas e somente às escolas - lembremo-nos unicamente disto. Porque foi isso que nos permitiu evoluir.


"Pode levar até oito ou nove anos um jovem chimpanzé aprender a partir uma noz. Ao ensinar, os humanos diminuíram esse tempo de aprendizagem. Esse é o passo que nos impulsionou para o ser humano." - Dr George Leader in Expedition Unknown S06E08.


Aprender e ensinar são um círculo, um circuito, um anel que se complementa. Uma criança aprende muito por imitação, por observação mas aprende muito ao ser ensinada, mesmo numa aprendizagem disfarçada de brincadeira. E com esse aprendizagem vem um ensinamento. Ensina-se e aprende-se. E aprende-se a ensinar. É algo inerente, constante. É nosso. É humano. É fundamental.
Por isso, não posso aceitar que se desvalorize o que se ensina a uma criança com necessidades específicas, só porque já sabe. Sabe porque aprendeu. Aprendeu porque ensinaram. Ensinaram porque aprenderam.
Todos os dias me orgulho do que as piolhas aprenderam e me ensinaram. Todos os dias ensino e aprendo algo.
Isto é grande.
Isto é um feito incrível.
Isto merece ser destacado. Jamais desvalorizado.

 

 

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publicado às 18:07

2ª feira continua a ser 2ª feira

por t2para4, em 14.03.21

Tudo ansioso por 2ª feira?
Aqui também mas não pelos mesmos motivos.


A abertura faseada das escolas implica que, professores multinível e multiflexíveis como eu, se desdobrem numa coisa híbrida entre ensino à distância e ensino presencial. Ou seja, o dobro do trabalho a juntar ao outro dobro que já era o E@D na totalidade.
E, a juntar a esta loucura educacional e pseudopedagógica, temos ainda os filhos que não andam no secundário mas também não andam no 1º ciclo e estão ali naquele limbo que a lei diz que são demasiado pequenos para ficarem sozinhos em casa mas que os decretos-lei destas medidas de desconfinamento faseado acham que está tudo bem os putos ficarem sozinhos em casa, afinal, já são maiores que 12 anos completos nem que seja na hora anterior. Mas, atentemos que, se algo acontecer, bem, seremos - no mínimo - julgados por negligência. O limbo legislacional deste país em algumas coisas é extraordinário.

Portanto, vamos para a escola e ficamos em casa - tudo ao mesmo tempo - ou estamos na escola no tal regime da coisa híbrida ou arranjamos um atestado para ficarmos com os miúdos ou espetamos com eles nos avós - pois, porque ATL e centros e afins só abrirão de acordo com a fase correspondente.
Portanto, há sim ansiedade pelo regresso à escola que se avizinha ainda mais trabalhoso do que o habitual.


E testes? E vacinas? Ui, todo um mundo novo que se desenrola em frente dos nossos olhos. Anunciar é fácil; já cumprir o que se anuncia, são outros quinhentos... Por isso, um dia de cada vez e com as habituais regras de proteção mais álcool gel aos litros, mais máscaras mais óculos embaciados (já tenho um pano xpto para evitar isso) mais distanciamento inexistente (desculpem lá mas nenhum professor digno desse nome se distancia de uma criança do pré-escolar ou 1º ciclo porque é impossível, ponto).

Mas, acima de tudo, apesar de tudo, um quê de felicidade por voltar. Nada substitui uma interação presencial e eu já sinto saudades dos alunos. Mas custa-me muito esta dualidade, ainda que temporária.


Coragem. E calma.

 

 

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publicado às 15:27

Os 15 desmandamentos do E@D

por t2para4, em 06.03.21

Ou a realidade do ensino à distância via online...

1. Terás micro AVC de cada vez que houver problemas de rede.
2. O som de uma música ou vídeo nunca funcionará em condições durante a aula síncrona para todas as turmas, mesmo que o testes antes.
3. Nunca terás 100% dos trabalhos marcados como "entregues" mesmo que tenham sido entregues.
4. Nunca terás uma única plataforma de trabalho: poderás até saltitar de plataforma em plataforma durante a semana (ou mesmo o durante o dia)
5. Começarás todas as tuas aulas à espera que os alunos vão pedindo para serem admitidos e terminarás as tuas aulas a pedir que saiam para poderes sair da sala.
6. Terás sempre a sensação de estar numa sessão espírita com uma tábua ouija quando começas a perguntar "Estás a ouvir-me?", "Estás aí?", "Usa o 'levanta a mão'"
7. Serás avaliado pela mãe (que podes não ver mas estará por perto), pai, avó e até senhora da limpeza.
8. Conhecerás todos os animais domésticos dos teus alunos. Às vezes, até a própria casa deles por dentro.
9. O que vês a mais com alunos do 1º ciclo nunca verás com alunos do secundário pois todos serão quadrados pretos com iniciais.
10. A noção de "lentidão" tomará todo um novo significado na tua vida de ensino online.
11. Apetecer-te-à, mais que uma vez, ter um ataque à Hulk e partir tudo
12. Respirarás fundo e lembrar-te-às que foste tu que pagaste todo aquele material e que o PC mixuruca que custava 250 paus custa agora 700.
13. Ficarás entupido, atolado, assoberbado em papel que nunca irás imprimir mas te ocupa gigas de espaço.
14. Tratarás os teus filhos como teus alunos quando te pedirem ajuda para fazer um trabalho de aula assíncrona.
15. Faças o que fizeres, nunca - mas nunca mesmo, vá, jamais - terás todo o teu trabalho em dia.

 

Bónus:
16. Trabalharás durante o sono na realização de formulários, preparação de reuniões e até elaboração de atas.
17. A cafeína é tua amiga: apoia-te nela várias vezes por dia; o álcool também é saudável no final do dia (ou antes...)

 

 

 

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publicado às 19:20

Novo texto em https://uptokids.pt/opiniao/cronicas/o-estado-falha-e-nao-da-o-exemplo/?fbclid=IwAR2LyAuDIosEIMk9kNNim8e2ttwcSj-SZqfJ3Mj7XGblIANn9NzP7wiu_IM

 

O Estado falha e não dá o exemplo. Mas se eu estiver à espera, quem falha sou eu.

 

O Estado falha e não dá o exemplo. Mas se eu estiver à espera, quem falha sou eu.

Quando, em 2010, aquando do diagnóstico nos foi dito que as piolhas precisavam de “terapia da fala para ontem” (sic), a primeira coisa que fizemos foi tratar do assunto e questionar a intervenção precoce nesse sentido. Acontece que, como nos fomos habituando a ouvir ao longo destes anos, há casos mais graves (apesar de elas não serem verbais na altura), a lista de espera é grande, só nos puderam dispensar uma educadora de educação especial e depois uma psicóloga – e não em simultâneo.

Ou seja, face à falta de resposta do Estado – apesar do direito das piolhas a este serviço – fomos procurar fora o que precisávamos desesperadamente – e pagámos do nosso bolso. Sem apoios, sem subsídios, sem ajudas. E não foi por falta de tentativas. Os tempos eram outros, alguns dos apoios que há agora não existiam na altura, para os que há não éramos elegíveis.

Passou-se o mesmo com terapia ocupacional.

E passou-se o mesmo com reforço de terapia da fala.

E passou-se o mesmo com psicologia.

Procurámos fora a resposta de que precisávamos e pagámos. Apesar de a legislação em vigor prever um apoio.

Passa-se o mesmo, embora numa escala profissional e um pouco difícil de ver a comparação, com o trabalho de um professor.

E eu até arrisco a dizer “professor contratado”, o tal que, apesar de fazer a mesmíssima coisa que um professor do quadro, ganha menos, não progride, não é avaliado justamente (sim, eu nunca tive um Muito Bom apesar de quantitativamente o merecer), não usufrui em pleno dos direitos previstos no Estatuto da Carreira Docente e mais uns quantos diplomas legais. Por exemplo, não posso tirar uma licença para ficar com as minhas filhas, em caso de necessidade. Uma baixa, uma licença sem vencimento, por aí, ainda vá. Não posso concorrer para ficar colocada no cu de judas e pedir aproximação à residência por motivos de deficiência/apoio a descendentes. Mas adiante. São as opções que tomo e não me arrependo. No entanto, estas minhas opções acabam por me lançar em duas vertentes: a de professora com contrato por conta de outrem e a de trabalhadora independente.

Ora, para eu sentir e saber com toda a certeza de que estou a trabalhar com as condições a que me proponho e que proponho oferecer aos meus alunos com a preparação do meu trabalho, eu preciso de material. Logo, preciso de computador/es, projetor, monitor, tablet, smart pen, manuais técnicos de apoio, programas de tradução, impressoras, internet, etc. Ou seja, eu preciso de material para preparar e apresentar as minhas aulas, com base no que eu ambiciono ter como resultados.

Numa empresa – mesmo pública – teria esse material à disposição para uso profissional e faria todo esse meu trabalho no local. Requisitaria todo o material de que necessitasse. Não precisaria de fazer de casa a extensão do meu posto de trabalho.

E esse local chama-se “Agrupamento de Escolas de Unicornilândia”.

Num agrupamento de escolas do nosso país, na maioria das vezes, os computadores demoram quase 10 minutos a arrancar, não têm os programas de que necessitamos para ler um simples ficheiro audio, a conversão online demora mais de 20 minutos (se for autorizada pela rede e se a net estiver em dia bom), faltam canetas dos quadros interativos (se tiver a sorte de ter um na minha sala – coisa que não me acontece desde… bem, desde há uns bons 6 ou mais anos), o projetor está sempre ocupado e tem lista de espera, não há uma simples extensão elétrica, nem pensar em conseguir encontrar livros técnicos recentes na biblioteca escolar quanto mais programas licenciados de tradução ou educação e, não sendo eu de educação especial, desses muito menos, e do resto nem vale a pena falar. Tablets? Monitores auxiliares? É a gargalhada geral.

Pois bem, eu cá gosto pouco de ficar à espera e, tendo em conta a dualidade público-privada-desenrascada da minha profissão, eu tenho todo esse material. Mas é MEU. Comprado e pago por MIM, sem patrocínio ou apoio estatal algum. Pago inteiramente por mim. E, por isso, não empresto a ninguém (o que incluiu colegas) e reservo-me ao direito de usá-lo na sala de aula a meu bel-prazer, de acordo com o plano de aulas que tenho preparado.

Ora, mas agora estamos em teletrabalho e o Estado deveria comparticipar esses gastos ou, pelo menos, requisitar o teu material.

Sim, deveria. Mas eu sou uma mera professora contratada a quem foi atribuído um número gigantesco de identificação para efeitos de concurso, que ninguém conhece e de quem ninguém quer saber e que também trabalha por conta própria. E que não consegue lidar com as frustrações de não conseguir trabalhar com material obsoleto e não quer desconfinar à força. E que já usa todo este material para preparar as aulas e atividades e burocracias da sua atividade como trabalhadora independente.

Percebo, com toda a legitimidade, a posição de colegas que estão contra o uso da sua propriedade por parte do Estado. E também percebo, com toda a legitimidade, a posição de colegas que não estão para mexer num vespeiro.

Mas eu preciso destas coisas.

E preciso de um salário. Preciso de tempo de serviço. E não consigo deixar de me preocupar em não conseguir fazer as coisas minimamente quando, afinal, tenho tudo de que preciso. Meu mas ao serviço do Estado, é certo. Apesar de ser o mesmo Estado que me falha em relação aos meus direitos e aos das minhas filhas.

Do que eu não preciso é de críticas e de pseudosuperioridades por parte de colegas porque todos fazemos o mesmo: procuramos soluções quando não há.

Há quem, como eu, opte por investir e ficar com material que pode usar da forma como quiser; há quem opte por se sujeitar ao que o Estado tem – e não são os top do parque tecnológico escolar.

Se eu tivesse ficado à espera do Estado e não tivesse pago por fora, as minhas filhas nunca teriam passado de não verbais para verbais; se eu me recusasse a usar o meu material neste momento, teria de voltar à escola e deixar de as apoiar (professora contratada, remember?) e sofreria penalizações por ter trabalhar como independente mas não como contratada. Nada é fácil neste retângulo à beira-mar. Mas esta é a minha posição. Não me importa o que pensam os outros. O Estado falha.

O Estado falha e não dá o exemplo. Mas se eu estiver à espera, quem falha sou eu. E isso eu não suporto.

 

 

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publicado às 16:21

Dia #1 - E@D versão 2021

por t2para4, em 09.02.21

É só o primeiro dia.
Mas só agora desliguei o computador.

Hoje houve de tudo: lágrimas de frustração e de raiva; vontade de atirar PC janela fora; vídeochamadas que foram abaixo milhentas vezes; uma piolha no computador da mãe para perceber onde estava o problema; impressão de dezenas de páginas; envelopes gordinhos com materiais para enviar hoje para alguns alunos (da minha atividade paralela); reunião geral de professores com direito a fazer a ata; agendamento de várias salas de reuniões em plataformas diferentes; atualização de classrooms; elaboração de planos de trabalho para partilha obrigatória aos alunos; elaboração da atividade de S. Valentim para miúdos e graúdos com as devidas adaptações; preparação de material para as aulas; palavras de conforto para filhas, alunas lavadas em lágrimas e pais com dificuldade em colocar os dispositivos a trabalhar; preparação do almoço e jantar; máquinas a lavar e secar; análise das nossas dificuldades técnicas; redação de dezenas de emails; um ibuprofeno para as dores.

 

Somos 3 a usar rede de internet sem possibilidade de cabo; somos 3 a exigir aos PC que trabalhem em simultâneo em conferências e partilha de ecrã com documentos; somos 3 a recorrer ao telemóvel para nos socorrermos quando há algum problema; somos 3 em aulas diferentes. Todos os dias. Durante as próximas semanas (meses?).

Tem de haver alguma condescendência, dentro da segurança e aprendizagem dos alunos, claro. Tem de haver a perceção de que os equipamentos falham. E tem de haver noção de que isto não é uma extensão do ensino presencial.

E temos de aprender a ter calma. Mesmo. Ter calma. Senão, no final da semana, estamos todos no Sobral Cid. E eu não acredito que estejam a aceitar internamentos agora.

 

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publicado às 00:40

Das dúvidas que não são dúvidas

por t2para4, em 06.02.21

Creio ser seguro dizer que passei cerca das últimas 48h a responder às perguntas mais disparatadas, estranhas e até absurdas. E a fazê-lo de forma polida, educada e indubitável (mesmo que me sinta o Hulk a explodir de raiva).

 

“Lamento mas não podemos ter aula via Facebook. A escola tem uma plataforma para todos os intervenientes e será essa que eu irei também utilizar".

“Lamento mas não poderá enviar os trabalhos via Messenger. A escola tem uma plataforma para todos os intervenientes e será essa que eu irei também utilizar".

“Lamento mas não podemos criar um grupo no WhatsApp, não só pelas suas limitações na partilha de imagem e documentos em ecrã como também não pretendo disponibilizar o meu número de telemóvel. A escola tem uma plataforma para todos os intervenientes e será essa que eu irei também utilizar".

“Lamento mas os prazos de entrega estipulados são para cumprir. Receberei e corrigirei os trabalhos mas, como constará dos respetivos critérios de avaliação da atividade pedida, o incumprimento do prazo implica penalização na atribuição da nota”.

“Lamento a sua dificuldade de recursos materiais. Deve expor a situação à escola e, enquanto se analisa, o seu filho/educando deverá estar presente, no telemóvel, e enviar os trabalhos pedidos. Não será penalizado pela forma de envio, por isso, pode fazer no caderno e enviar fotografia”

“Lamento mas não há lugar a compensação de aula no caso de falta do seu filho/educando. No regime presencial tal também não acontece. Deve justificar com quem de direito e esclarecer as suas dúvidas da aula comigo, se for o caso”

“Sim, a disciplina continua a ser curricular no ensino à distância e continua a obedecer aos mesmos critérios de avaliação do regime presencial”

“Sim, será esta a plataforma a usar uma vez que a escola disponibilizou para todos os intervenientes e será essa que eu irei também utilizar".

“Se o seu email institucional não funciona deverá contactar a escola para perceber o que se passa. Lamento, mas não posso ajudar”

“Sim, tem de utilizar o email institucional disponibilizado pela escola pois a plataforma não aceita outras extensões”

 

Bem-vindos ao mundo real, onde isto existe mesmo.

Socorro.

Que os anjos vos protejam, coragem, boa sorte, namastê (ou a professora exausta que há em mim saúda o semelhante que há em ti), muita cafeína, um copo à refeição até é permitido, mais cafeína e que nos valha Santo E@D.

 

 

 

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publicado às 20:49

Antecipação E@D versão 2021

por t2para4, em 06.02.21

Creio ser seguro dizer que passei cerca das últimas 48h a responder às perguntas mais disparatadas, estranhas e até absurdas. E a fazê-lo de forma polida, educada e indubitável (mesmo que me sinta o Hulk a explodir de raiva).


“Lamento mas não podemos ter aula via Facebook. A escola tem uma plataforma para todos os intervenientes e será essa que eu irei também utilizar".
“Lamento mas não poderá enviar os trabalhos via Messenger. A escola tem uma plataforma para todos os intervenientes e será essa que eu irei também utilizar".
“Lamento mas não podemos criar um grupo no WhatsApp, não só pelas suas limitações na partilha de imagem e documentos em ecrã como também não pretendo disponibilizar o meu número de telemóvel. A escola tem uma plataforma para todos os intervenientes e será essa que eu irei também utilizar".
“Lamento mas os prazos de entrega estipulados são para cumprir. Receberei e corrigirei os trabalhos mas, como constará dos respetivos critérios de avaliação da atividade pedida, o incumprimento do prazo implica penalização na atribuição da nota”.
“Lamento a sua dificuldade de recursos materiais. Deve expor a situação à escola e, enquanto se analisa, o seu filho/educando deverá estar presente, no telemóvel, e enviar os trabalhos pedidos. Não será penalizado pela forma de envio, por isso, pode fazer no caderno e enviar fotografia”
“Lamento mas não há lugar a compensação de aula no caso de falta do seu filho/educando. No regime presencial tal também não acontece. Deve justificar com quem de direito e esclarecer as suas dúvidas da aula comigo, se for o caso”
“Sim, a disciplina continua a ser curricular no ensino à distância e continua a obedecer aos mesmos critérios de avaliação do regime presencial”
“Sim, será esta a plataforma a usar uma vez que a escola disponibilizou para todos os intervenientes e será essa que eu irei também utilizar".
“Se o seu email institucional não funciona deverá contactar a escola para perceber o que se passa. Lamento, mas não posso ajudar”
“Sim, tem de utilizar o email institucional disponibilizado pela escola pois a plataforma não aceita outras extensões”


Bem-vindos ao mundo real, onde isto existe mesmo.
Socorro.
Que os anjos vos protejam, coragem, boa sorte, namastê (ou a professora exausta que há em mim saúda o semelhante que há em ti), muita cafeína, um copo à refeição até é permitido, mais cafeína e que nos valha Santo E@D.

 

 

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publicado às 20:48

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