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Não consigo dormir, estou ansiosa com o futuro

" – Não consigo dormir, estou ansiosa com o futuro”, dizia-me ela, a medo, meio ensonada. Tinha sono mas não conseguia dormir. Não era a escola nem os testes nem as questões de aula nem os colegas que a impediam de dormir, era o futuro. E eu perguntava-lhe:

O futuro como?” e ela, receosa, baixinho respondia:

“ – Como vai ser quando tu…?” e fazia o gesto para cima, com o dedo indicador. Percebi de imediato e achei melhor evitar a piada parva que me veio logo à cabeça e assumi:

-Quando eu morrer?”.

Sim”.

Respirei fundo.

Oh filha, eu não vou a lado nenhum nos próximos tempos, tenho muito que fazer, mas isso faz parte do ciclo da vida… Nascemos, vivemos, morremos… Mas não tens de ficar preocupada, eu e o pai estamos a fazer tudo o que está ao nosso alcance para que tu e a mana sejam autónomas e independentes e fiquem bem, sem nós, um dia”.

Veio um abraço forte.

“Calma, está tudo bem, não tens de ter medo, ok? É normal pensarmos no futuro mas vamos levando um dia de cada vez, pode ser?”

Os receios foram mandados lá para longe, o sono veio e o dia seguinte foi um novo dia. Não podemos fazer promessas que não conseguimos cumprir mas, a verdade, é que a nossa hora não a sabemos. Até lá, resta-nos viver e assegurar que estaremos cá a tentar dar o nosso melhor, um dia de cada vez.

“ – Quando fizermos 18 anos temos de sair de casa?”.

Sorriso.

“- Não, claro que não. Podem ficar até quando precisaremNão dá é para vivermos todos com os vossos namorados porque não temos quartos para todos”.

 – Ewwww!!! Não pensamos nisso! Mas depois ajudam-nos a escolher coisas para a nossa casa? Como os móveis e assim?”

Lá as sossegámos, afiançando que estaremos sempre do seu lado e que podem e poderão contar connosco para qualquer coisa. E que a nossa casa será sempre a sua casa, de portas abertas e com colo à disposição.

É que, às vezes, pensamos no futuro e não sabemos bem como será…”

Sabem que mais, piolhas?, nem nós… Mas estamos aqui.

 

in https://uptokids.pt/estou-ansiosa-com-o-futuro/ 

 

 

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publicado às 23:19

Há coisas para as quais nunca estamos preparados, nunca estamos mentalizados, nunca estamos de razão plena. Este final de semana foi doloroso, foi cruel, foi injusto - ainda é. Nós tentamos seguir a lógica da lei natural e da lei da vida: os mais velhos partem primeiro. Foi a esse paradigma que nos agarrámos pela primeira vez que tivemos de abordar a morte com as piolhas.


Mas, desta vez, tudo foi não-natural, amoral, irreal quase... Tivemos de dizer às piolhas que o seu colega de escola, uma criança que conhecem desde os seus - delas e dele - 7 anos, falecera. Foi das coisas mais horríveis e difíceis que já tive de fazer. Até porque eu própria ainda estava em choque pois foi meu aluno desde os seus 7 anos, chegando até a ter aulas em casa... 

A reação delas foi inesperada: uma das piolhas cobriu-se com a manta do sofá e começou a misturar rituais na sua cabeça (seria anjo agora? teria que vestir preto? chorar seria normal?); a outra ficou zangadíssima comigo e só me gritava "guarda essas coisas más para ti própria! Por que nos estás a dizer essas coisas?". Soube, mais tarde, junto de outras mães que os filhos tiveram reações semelhantes de raiva, de descrença, de confusão. 

 

Nestas alturas, há algo em nós que morrer um bocadinho. Eu não sei explicar. Sei que, depois do choro compulsivo, da raiva pela injustiça, de repente, me senti em piloto automático como se estivesse a pairar sobre a vida que continuava, aquela mesma vida que não ousou sequer parar 5 minutos... E ficamos um bocado egoístas porque damos por nós a pensar nos nossos filhos, os nossos bens mais preciosos, e a querer protegê-los de tudo e de todos. No dia seguinte, levar as piolhas à escola e ter uma vida aparentemente normal, pareceu-me errado... Felizmente, quer as piolhas quer os seus colegas de turma tiveram o apoio da assistente operacional das piolhas e de professores que conversaram com eles e deixaram que a memória do P. fosse uma memória feliz, de uma criança que jamais esqueceriam e estaria para sempre nos seus corações.

 

A vida é demasiado cruel e muito imprevisível. Eu sei que temos de educar e preparar os nossos filhos para isto e sei que há dores que não conseguimos evitar que eles sofram. Podia ser mais fácil. Podia. Mas, infelizmente, não é. E, de repente, numa assentada só, lá tiveram elas de crescer mais um bocado e ouvir as mentiras da mãe que lhes responde que está bem quando na verdade se sente triste e dorida por dentro. E ainda terem tamanho para aconselharem a mãe de que não querem que ela chore mais. 

 

Cada vez me convenço mais de que todas estas nossas crianças são grandes. Maiores do que o mundo. 

 

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publicado às 11:58

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