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Gostamos de carros.
Gostamos de ver carros, de ouvir motores a roncar e de perguntar por cilindradas e cavalos.
Gostamos daquele cheiro a gasolina quando alguém faz um daqueles arranques a fundo com o turbo a assobiar.
Gostamos de participar em encontros de carros - cujas marcas nos digam algo ou nos sintamos bem.
Gostamos de carros onde prevaleça a mecânica.
Gostamos de tratar bem dos nossos carros, apesar de os euros não abundarem e de terceiros nos olharem de lado ou engelharem o nariz.
Gostamos de conduzir carros gandes e pesados.
Gostamos quando as piolhas nos dizem "aquele carro tem um motor com o som do mar" ou "eu quero conduzir este carro" ou "que carro tão giro".
Gostamos de colocar as piolhas a experimentar os carros: abrir e fechar portas com e sem comando, pôr o carro a trabalhar (nós estamos ali ao lado e o carro está em ponto-morto e travado), fechar tetos de abrir ou janelas, etc.
Gostamos que as piolhas gostem do que temos cá por casa e todos os nossos carros são carinhosamente tratados por "ferros velhos do aço" porque, vejamos, o mais velho é de 1993 e o mais novo de 1998. Todos adotados :D
As piolhas gostam de fazer wheeeeeeeeeeeeeeeee quando o pai estica as mudanças para acelerar.
Gostamos de cuidar dos nossos carros e modernizá-los sem os xunar ou perder essência: um auto-rádio atual e discreto, uns faróis led, umas películas, por exemplo (tudo em livrete). Quando os conduzimos não nos sentimos nos anos 90 porque temos tudo atualizado.
Não gostamos nada de ruídos parasitas nos carros, nem plásticos foleiros, nem luzinhas a mais no interior e eu confesso que me faz confusão não ter um conta km fixo em vez de um écrã.
 
O carro favorito do marido é um Mercedes-Benz S 500 [série W140] de 1995 e eu perco-me de amores por um Audi A8 6.0 w12 de 2005 (sim, igual ao filme "Transporter 2"). As nossas grandes exigências são preto de chapa, preto de interior, preto de estofos, vidros fumados. Minha nossa, carros assim, até nos param o coração. (OK, o carro que o Redington da série "The Blacklist" tem também me apaixona mas a eletrónica que há de ter - e os problemas que depois daí advêm - já não me atrai nem pouco mais ou menos. É um Mercedes-Benz S 550 [W222] lindíssimo, preto por dentro e por fora, obviamente). Um dia ainda havemos de fazer o gosto ao dedo e conduzir maquinões desses.
 
O meu carro - o meu primeiro carro e do qual sou incapaz de me desfazer - é um Audi 80 TDi 1.9 de 1993, edição básica: tem um sistema de segurança sem airbag (Procon ten) mas semelhante; não tem ar condicionado e tem os estofos e forras claros. Os anos de garagem estrela não perdoaram e a pintura linda e brilhante foi-se esbatendo (resolvemos nós, para já, temporariamente, pintando de preto mate e registando em livrete), tem uma racha no tablier e as forras das portas caíram (tratámos da pele por baixo e não colocámos nada ainda). Mas ainda não fez 200 mil km, tem um bom motor, nunca deu uma única chatice, trabalha sem quadrante e até pega de ligação direta. Um maquinão, é o que é :D é um carro confortável, apesar de alto. Como puxa à frente, já me deu um susto ou outro (atravessei-me...) mas posso ir à neve com ele :D é um pouco alto e torna-se menos aerodinâmico mas, ainda assim, faz um bom consumo: 5 ou 6l/100 (expertise do marido).
Ora, sendo um carro do início dos anos 90 e com pouca eletrónica, obviamente que tem muita coisa old school. Apesar de ter teto de abrir (arranjado posteriormente por nós mesmos, na nossa garagem) e a trabalhar impecavelmente), fecho centralizado e vidros da frente elétricos, os vidros de trás são para serem usados com a ajuda do instrumento da foto abaixo. Um clássico, hein? E sabem o que eu acho mais incrível? É que, apesar de, desde que as piolhas nasceram, andarmos (maioritariamente eu e elas) num outro carro (sim, outro ferro velho do aço, de 1996, no qual eu me sinto extremamente segura (e que só troco pelo A8 ou pelo S550 lá de cima), já todos cheio de luzinhas no tablier e de mariquices e queixumes iluminados no conta km, botõezinhos para tudo e mais alguma coisa, bloqueios infantis em botão (em vez de ser com chave de fendas na porta mesmo), as piolhas sabem para que serve aquela manivela e como se usa. Não gostam lá muito, calro, mas sabem o que é. E, daqui por apenas 6 anos, será neste carro que darão umas voltas. Não me batam já porque, obviamente que quero que elas tenham a hipótese de conduzir carros recentes, mas também queremos que saibam como funciona e se usa um travão de mão mecânico (puxá-lo e baixá-lo, ou, no outro carro, carregar com o pé e puxar a alavanca para destrancar), como levantam o capô ou abrem a mala manualmente, como podem verificar o aspeto e quantidade de óleo na vareta, como abrir e fechar o vaso de expansão, etc. São coisitas mais ou menos básicas que podem perfeitamente experimentar num ferro velho do aço e que num carro recente já nem existem (no caso da vareta do óleo). Além disso, queremos mesmo muito que elas saibam usar... uma chave. E colocá-la na ranhura e rodar para as diferentes posições. Bem, mas esta parte elas já sabem :D mas possam ver que há espaço para tudo: podemos perfeitamente conduzir modelos mais novos e até gostar deles (o S550 é de 2014) mas não há mal nenhum em gostar ou até conduzir carros antigos, desde que gostem e se sintam seguras.
 
Contem-me coisas (para não me sentir sozinha): quais foram os vossos primeiros carros? Ainda os mantêm? Como reagem os piolhitos às ideias dos carros que os avós conduziram? Sabem o que é e para que serve a manivela da imagem? Preferências? Carros de sonho?
 
 
 
 

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publicado às 19:06

Há coisas giras que gosto de ler e que não me importo de recriar. Apesar de muitas coisas estarem um bocadinho dispersas por aqui ou pelo blog, a verdade é que, apesar de tudo, 21 coisas sobre mim fizeram-me pensar um bocado.
Bem, aqui vão elas, a pedido da O Espírito da Mula 
 
 
1 – Sempre fui o que se chama de “menina certinha”, “rato de biblioteca”, “croma”, “marrona” – e não me arrependo nem por um segundo;
2 - Adoro ler, sou mesmo bookaholic assumida e tenho alguma dificuldade em livrar-me de livros, mesmo que não os leia;
3 – Descobri medos irracionais e imprevisíveis e incompreensíveis desde que fui mãe;
4 – Quando engravidei, de forma espontânea, tinha 3 bolsas;
5 – Comprei casa aos 23 anos, 2 meses depois de começar a trabalhar, quase 1 ano antes de casar;
6 – Casei 2 vezes com o mesmo homem, em datas díspares;
7 – Já andei de speedboat no Tejo, com uma mão a segurar-me e outra a segurar uma piolha, enquanto dizia ao pai para agarrar a outra piolha, que delirava com aquilo;
8 – Tenho uma bucket list tão longa e surreal que preciso de viver 2 vidas para a cumprir;
9 – Detesto burocracia e papelada, não quero cargos de coordenação ou direção, não ambiciono uma posição de efetiva com a casa às costas – do que gosto mesmo mesmo é de dar aulas;
10 - Já vivi uma experiência “paranormal”, chamemos-lhe assim, em que eu me vi a mim mesma, fora do meu corpo, vista de cima;
11 – Em 2016 estive tão doente que julguei que ia morrer;
12 – Já sobrevivi a duas depressões diagnosticadas (uma delas associada a um burnout) e, estou desde 2013, sem qualquer tipo de medicação;
13 – Estive quase quase para tirar uma nova licenciatura – pós-Bolonha, com mestrado e tudo mas outros valores se impuseram na altura;
14 – Já dei aulas a todos os níveis e idades – só me falta mesmo o Ensino Superior;
15 – Adoro conduzir (em especial, carros grandes e pesados… atrapalho-me com carros pequeninos e citadinos), acalma-me, ajuda-me a pensar e a organizar ideias e decisões;
16 – A maioria dos acabamentos no T2 foram feitos por mim (pintura em paredes, quadros, decoração, almofadas do sofá, etc.);
17 – Adoro tirar fotografias mesmo sabendo que não tenho muito jeito e que, às vezes, me falha o olho para a coisa;
18 – Há coisas da minha infância que me forcei a esquecer ou que estão agora envoltas numa névoa. Não vivemos tempos fáceis naquela altura.
19 – A minha atenção saltita e, muitas vezes, só consigo lembrar-me de coisas que não servem para nada. Considero que tenho uma larga cultura geral inútil;
20 - Sou autodidata em imensas coisas;
21 – And last but not least, vivo para as minhas filhas - não me importam as teorias que contradigam isto.
 
 
 
Bónus – por motivos muito alheios à minha (enorme) vontade, nunca fui às noites da Queima.
 
 
 
 

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publicado às 15:13

Flashback - ou recordar é viver

por t2para4, em 10.04.19

Nasci em 1980. A minha infância foi nessa década. Foi uma década horrível, diga-se de passagem… Pelo menos, na minha realidade: o dinheiro não abundava; o meu pai emigrou; a minha mãe passou de mãe-galinha a mãe natureza toda ela omnipotente e omnipresente; as roupas fariam qualquer coleção da Zippy suspirar por menos polémica e eram uma herança passada de geração em geração de forma genderless; fazia 4 km a pé para ir à escola porque os transportes eram só para quem vivia a mais de 3 km da escola; a minha mãe não tinha carro ou carta de condução e não havia papa-reformas; levava mudas de roupa/calçado extra para trocar na escola por causa das condições atmosféricas que não se compadeciam de ninguém;  não tínhamos telefone em casa e tínhamos de ir à vizinha (e privacidade zero quando queríamos falar com o nosso pai, uma vez por semana)… só para falar em algumas. Estes são os perfeitos exemplos do que eu e o marido nunca quisemos que as nossas filhas vivessem, que não passassem os sufocos nem as necessidades por que passámos. Mas não precisam de vivê-las para saber que existem: costumamos falar disto várias vezes e, a par com a série “The Goldbergs” que elas veem, falamos da nossa realidade – nós não éramos classe média alta.

 

Claro que ainda vivemos a parte romântica dos anos 80: as bolachas maria - da quétara que oferecia canetas – com manteiga; o leite aquecido nos bicos do fogão a gás (e os recados constantes da minha mãe “cuidado com o fogo!”), as brincadeiras de verão no tanque de lavar a roupa (que era em cimento e não em plástico!), o nesquik e o tulicreme (caríssimo sem promoções comprado na mercearia e cujo sabor hoje não é igual); ver os desenhos animados aos fins de semana, cedíssimo, e descobrir que o Poupas afinal não era cinzento mas sim amarelo; correr pelo quintal fora e andar de bicicleta (daquelas que tinham um aro metálico atrás do banco preto); comer iogurtes caseiros que nem sempre ficavam bem porque a iogurteira tinha lá um tique qualquer; ouvir “eu vi um sapo” a par com “a minha alegre casinha”; partir poças de gelo no Inverno, ver os girinos em transformação na Primavera e lamas no Verão; usar botas de borracha antes de se tornarem moda e lhes chamarem galochas; gostar de fazer trabalhos manuais na escola mesmo sem ter grande jeito para aquilo; os verões intermináveis que nos amorenavam a pele sem precisar de ir à praia; as quezílias com a irmã mais nova porque irmão que não pega com o irmão não sabe o que é viver com irmãos; as brincadeiras com as bonecas e as suas refeições de lama e ervas e pétalas… acho que já deu para ter uma ideia, certo?

 

TUDO isto foi contado e/ou mostrado às nossa filhas. As piolhas acham algumas coisas estranhas porque não é mesmo, de todo, a realidade delas mas há coisas tão giras que podemos fazer com a geração seguinte… Sim, embora não se recordem, as piolhas já viram episódios da Rua Sésamo; brincaram no tanque; comeram iogurtes feitos naquela iogurteira manhosa; usaram galochas cor de rosa; já viram leite ferver em cafeteiras de alumínio; os verões amorenam-lhes tanto a pele que até ficam com sardas no nariz; as barbies também comem cenas do quintal e viva a imaginação.

 

Há – e acredito que haverá sempre – um generation gap mas isso não impede que aprendamos uns com os outros. Por exemplo: eu sei que a minha mãe viveu os tempos do racionamento e da obrigatoriedade de dar parte das culturas ao Estado; eu sei que o meu avô trabalhou nas minhas de volfrâmio para ser enviado para a Alemanha durante a II Guerra. As piolhas também sabem isso embora, lá está, de novo, nem sequer consigam visualizar esta realidade tão distante.

 

Sempre detestei esta fotografia. Quem me conhece, felizmente, não me reconhece ali pois não há ali nenhum traço meu. Aquele cabelo curtinho sem jeito nenhum, a falta dos dentes da frente por mudança de dentição, aquela camisola que serviu 3 gerações e ainda deve ter sobrado para a minha irmã, aquele conjunto de cores que nem no arco-íris combina bem, eu a destoar de todo o grupo restante. Senti vergonha desta foto quase toda a minha vida. Mas, hoje, depois de ter lido os posts da Carmen e da Susana, eu olhei para aquela fotografia com olhos de ver, de forma externa. E sabem o que eu vi? Uma miúda gira, embora desdentada e mal penteada e malvestida, mas FELIZ! A única criança daquele grupo que, mesmo sem dentes, sorria de orelha a orelha e com olhinhos brilhantes. Isso tem de ser uma coisa boa, não? Aquela miúda adorava ir à escola. Não parava quieta um minuto, saltitava de atividade em atividade em menos de um flash (ainda hoje sofro um bocado disso…) mas adorava aprender, tinha boas notas, era feliz na escola mesmo sendo um pouco rebelde. E, apesar da infância tão complicada, aquela fase nem foi assim tão má quanto eu a recordava. Talvez tenha feito parte do caminho que me moldou e ajudou a tornar no que era hoje, afinal, mau-feitio, sempre tive.

 

Correndo o risco de soar a fútil, esta fotografia serviu para eu nunca deixar as piolhas terem fotos assim. As fotografias delas, no 1º ano de escola, com a mesma idade que eu, são tão lindas, tão profissionais, as piolhas estão tão fofinhas, tão queridas, tão lindas… Parece um mundo abismal de diferenças. Exceto numa única coisa: tal como eu, independentemente e apesar de tudo, são miúdas felizes, de sorrisos largos e olhinhos brilhantes.

 

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publicado às 11:00

A propósito do dia de hoje

por t2para4, em 08.03.19

#repost

por t2para4, em 08.03.17

 

Num mundo e numa era muito comercial e com deturpação das origens e verdadeiras mensagens de datas importantes a assinalar, as piolhas achavam que seria mais uma festa com trocas de presentes, apesar da sua boa vontade e carinho de querer "premiar" as mulheres das suas vidas.

Lá lhes tentei explicar, em versão rápida e curta e sucinta, que a vida não corre de feição para as mulheres, ainda que vivamos num pedacinho de céu. E contei-lhes que a discriminação contra as mulheres ocorre em formas tão subtis que parecemos nem notar: ordenados mais baixos, cargos de chefia limitados, despedimentos por gravidez, ilegalidade nas questões em entrevistas de trabalho, trabalho doméstico, etc. E ainda lhes disse que, em muitos países, as mulheres nem sequer vão à escola, podem usar determinados tipos de roupa, votar ou tirar a carta de condução. Basicamente, it's a men's world though they need women...

 

Estou com a neura. E depois de o marido me ter chamado agorinha mesmo à atenção para uma publicidade do stand virtual sobre o dia da mulher e sensores de estacionamento, a neura aumentou ainda mais. Mas, enfim, não estou para isto.

 

Quero que as minhas filhas - que serão mulheres neste mundo e sociedade - nunca jamais em tempo algum deixem de se sentir bem na sua condição ou se sintam inferiores a quem quer que seja. Que continuem a ir à luta como têm ido até agora. E que saibam que há mulheres incríveis em todas as épocas, em todas as sociedades, em todos os lados - e que, independentemente dos entraves - nunca desistem e abrem pequenas brechas que se transformam em portas, mais tarde, para que outras mulheres possam seguir os mesmos caminhos. 

Não é feminismo, não é sufragismo, não é andar de maminhas ao léu e queimar soutiens: é ser-se mulher sem discriminação, é saber-se apreciar o esforço de uma mulher, apesar de tudo. A História reza de muitas mulheres que se transformaram nos chefes de família e nos trabalhadores da família, conseguindo não só mostrar o quão fantásticas elas são nos seus papeis multitasking, como também mostrar que são capazes. De tudo.

 

http://expresso.sapo.pt/sociedade/2017-03-08-Carolina-votou-em-1911.-Foi-a-primeira-e-a-Republica-mudou-a-lei-para-impedir-o-voto-feminino 

 

Logo, será disto de que falarei às piolhas. E aos meus alunos também, se surgir. 

 

 

 

 

 

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publicado às 09:33

Não era isto de que me recordava...

por t2para4, em 24.02.19

O que faz uma pessoa que dorme mal durante a semana, trabalha imenso, gere 3 ou 4 horários diferentes, quase que se afoga em café e que nem se dá conta da noite passar até o despertador tocar? Aceita jantar com o grupo do costume e acaba numa discoteca até de madrugada, obviamente.

Acabei por se chegar a 3 brilhantes conclusões:

1- continuo a gostar imenso de comer e, já que vou pagar e vou, ao menos como algo que não costume comer em casa, habitualmente;

2 - estou a ficar velha para isto;

3- posso, seguramente, dormir descansada e tranquila pois as piolhas, definitivamente, não serão gajas para se enfiarem numa discoteca, pelos motivos que abaixo explicitarei.

 

Ora, a discoteca só abre quando os bares fecham, portanto, já era madrugada quando chegámos. Miúdas na receção e no bar estupidamente jovens e com tanto betume na cara que acho que necessitarão de muito mais que simples desmaquilhante para retirar aquilo. A bebida que pedi não era nada de especial (embora tenha gostado bastante do copo) e fiquei desiludida pois eu consigo fazer bebidas melhores com os mesmos ingredientes... Obviamente que pedi um gin, mas, juro, os gins que eu faço sabem muito melhor. Mas, num ambiente entre amigos e de boa disposição, a gente até esquece esses pormenores.

Porém, o que realmente me fez aperceber que não tenho pedalada nem estofo nem estaleca nem cultura nem paciência para isto foi... a música... Ou melhor, aquele conjunto de sons a que alguém chama de música. Os meus neurónios definhavam e morriam de desilusão. Ainda aguardei que surgissem o que eu achava que era música de discoteca, os "familiares" tsss tum bum tsss tsss tsss tum hum tsss hum tsss tss hum... Nada. Umas cenas malucas com frases "tu é você e tu tá bem" e "tu é tu" e " e tá tudo bein" e "mafiosa" e "piradinha" e "quisifouda". E tudo de rabo pra fora e pra baixo como se estivessemos a cagar no mato ou numa casa de banho pública (bem, a parte positiva é que o pessoal faz ali uns agachamentos do camandro). E, já agora, já não se dança com os braços no ar? Não? Porquê? Não? Nem se dança de forma sexy? Não? A certa altura pareceu-me que estava num baile em honra de um santo qualquer numa terriola qualquer... 

E quando vinha algo como "tira o péd o chão!!", eu até tentava mas já estive em locais com mesmo gosma aderente que aquele... não dava para imitar o Travolta com a Thurman, definitivamente.

Portanto, 16 anos depois a minha última ida a uma discoteca - e, ok, já é muito tempo mas não é assim taaaaaaaaaaanto tempo quanto isso - e que ainda se passavam músicas dançáveis - e, tudo bem, até podem ser cenas comerciais -, fiquei muito dececionada... 

 

Mas, se neste campo eu vi defeitos, quando me pus a digerir tudo aquilo pensei: bem, as piolhas jamais frequentarão locais assim e eu posso ficar descansada com o "não pouses o copo em lado nenhum", "não tires os olhos do copo"; "se tens dúvidas, vale mais comprares outra bebida", "cuidado com os cabelos perto dos cigarros", pois, além de conjugar tudo aquilo que (ainda) não aguentam como escuro, som, eco, fumo, reverberação, acresce ainda a má música.

 

 

Hoje estou grogue, doem-me um pouco as costelas e vou fazer uma sesta daqui a pouco. Já não tenho estofo para isto. Prefiro ir a um bom bar, sentar numa cadeira porreira e ter o meu copo na mão enquanto estamos ali a passar um bom momento. Coisas que surgem com a idade, suponho.

 

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publicado às 14:04

A tropa manda desenrascar...

por t2para4, em 06.01.19

O café é decididamente o meu melhor amigo. Não só me salva das horríveis manhãs e maus humores com que acordo como também me salvou a cor do meu cabelo. Confuso? Pois, quando eu digo que #pareceumacasademalucos (com hashtag e tudo) é melhor acreditar porque parece mesmo.


Ora, durante a pausa letiva, aqui a pessoa que vos escreve desempenhou a função de ajudante de mecânico durante uma tarde solarenga (um dia, com calma, escreverei sobre essa aventura). Levou com imenso sol na mioleirinha e, no dia seguinte, ao olhar-se ao espelho, repara que as suas habituais madeixas naturais que já começavam a clarear estavam, de momento, quase... vermelhas. Como se tivesse efetivamente feito madeixas. Fiquei apavorada. E desgostosa... O cabelo estava mesmo feio e eu não queria nada ter de o pintar. Pedi ajuda e alguém me informou que poderia ser algum ingrediente nos produtos que uso na minha higiene capilar (ó que bonito  agora a sério, são champôs e condicionadores sem sal e máscaras para hidratação/nutrição/reconstrução de acordo com um cronograma para cabelos saudáveis, já que há uns anos que não uso qualquer química). E chamaram-me especificamente a atenção para camomila e macadame (ou macadâmia). De facto, a camomila era ingrediente em quase todas as máscaras... Nunca tal me tinha passado pela mente já que pela cabeça passou e me estava a pôr ruiva!!! 


Na falta de outras opiniões, recorri ao dr. Google, esse sábio mestre à distância de uma boa ligação à net, e pesquisei "como escurecer o cabelo de forma natural". E, voilà!, as receitas mais fidedignas envolviam café ou chocolate em pó. Dado que não tinha cá chocolate em pó, pumbas, atirei-me ao café e fiz uma máscara de café frio (dos solúveis, bem escuro e bem diluído), máscara capilar da fase em questão e mel. Mexi tudinho, apliquei no cabelo como se o estivesse a pintar e deixei atuar 30 mniutos. As piolhas acharam que estava a pintar o cabelo e diziam para eu não o fazer porque gostavam de mim assim. Lá expliquei que não era para pintar, só para fazer desaparecer os vermelhos. "Mas cheira a café!" e expliquei que levava café.... "Oh mãe, estás sempre a inventar..."
Logo na 1ª aplicação (que repeti passados 2 dias), fiquei logo com a minha rica cor de volta e sem vermelhos! Bam!!!! Agora, de cada vez que lavo o cabelo, cheira a café  mas, pelo menos, vermelho não está!


Para quem me lê, lamento desiludir mas, se esta máscara tira as madeixas naturais criadas pelo sol e/ou camomila, não disfarça os cabelos brancos nem um pouco. Os meus cá estão, bem à vista e orgulhosamente brancos.

 

PS - sempre que, no médico, me questionavam da reação das piolhas a mudanças em casa, eu respondia que elas reagiam bem - as mudanças só lhes causavam problemas quando fora da casa delas, por estranho que pareça. Depois, em conjunto, chegámos à conclusão que, para elas, no ambiente familiar, o estranho era não haver mudanças, pois, desde muito bebés que nós mudávamos as cores das paredes, disposição da mobília, roupas de cama e wc, cortes de cabelo, estilo de roupas, louças, etc etc etc. Isto era o "normal" delas... Daí não estranharem as minhas "invenções". Enquanto que a casa dos meus pais parece estar sempre na mesma, a nossa, ao longo destes 14 anos já mudou de aspeto interior dezenas de vezes. O quarto delas, então, foi das divisões que mais alterações sofreu desde sempre. Habituaram-se a isso e, aqui para nós, mesmo sem o sabermos, ainda bem que assim foi.

 

 

 

 

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publicado às 20:12

Síndrome da coitadinhice - repost

por t2para4, em 27.10.18

Repost de um texto de 2013

 

São gémeos? Ah coitada…

Vão as duas para a escola? Ah coitada…

Têm autismo? Ah coitada…

 

A “coitadinhice” é algo que deve ser manifestado, de forma visível, de modo a incomodar, com o intuito de vitimizar, contra a vontade do abordado.

 

A “coitadinhice” não vem sozinha. Por norma, vem acompanhada de um olhar extremamente piedoso, do género, “tens-aí-uma-coisa-estranha-que-pode-pegar-se-deus-me-livre-mas-olho-para-ti-misericordiasamente” e de uma voz quase melíflua.

 

A “coitadinhice” deve ser expressa em voz alta, por regra, junto do alvo. Se for uma mãe com uma criança – ou várias, gémeos ou mais será o ideal -, preferencialmente desenrascada e entendida, é a vítima perfeita. Deve ser abordada como se a conhecêssemos toda a vida e atingida pelo “ah, coitada” com toda a veemência, sem dar espaço para uma resposta.

 

A “coitadinhice” não pode esperar uma resposta à altura, sob pena de a pessoa ser considerada antipática perante a boa vontade do interlocutor.

 

A “coitadinhice” fica excecionalmente bem quando aplicada a pessoas com problemas ou deficiências, preferencialmente crianças. Não interessa o quão fortes serão os pais dessas crianças nem quais os seus limites de tolerância perante a absurdidade do que os rodeia. Dem ser abordados, não importa onde. Ou, caso não se ouse fazê-lo, comentar com a pessoa ao lado, cochichando mas deixando perceber de quem se fala e porquê.

 

A “coitadinhice” é transversal a todas as idades, credos, raças, sexos, estratos sociais, etc.

 

Não gosto de “coitadinhice”.  “Ah, coitada…” A sério? Por que razão alguém que passa pela alegria de ser mãe – e mãe de gémeos – é considerada “coitada”? Por que razão ter dois filhos na escola é para ser comentado de “coitada”? A maioria das pessoas nem sabe o que é autismo mas sabe dizer “coitada”. Cada vez me convenço mais de que se diz “coitada” para se ter algo que dizer, embora, nestas situações, seria muito melhor se estivessem caladas. Há algo que toda a gente deveria entender quando se abordam pessoas que estão com crianças, principalmente crianças com necessidades especiais: a nossa tolerância é para com eles e baixa drasticamente com comentários absurdos, vindos de terceiros.

 

E que tal umas sugestões, ao invés da “coitadinhice”?

- elogiar a criança pela sua beleza, gestos, comportamentos ou palavras

- não julgar uma criança pelo seu comportamento estranho ou inconveniente – principalmente quando os pais estão tão preocupados que nem parecem respirar

- evitar reações inapropriadas junto de uma criança, seja por ignorância ou crueldade

- não abordar os pais para dar sermões ou dicas de educação, sem saber minimamente o que se passa

- evitar os chavões “se fosse meu filho… “ e “ah coitada…”: se fosse seu filho, iria reagir do mesmo modo ou pior que aqueles pais; não comparemos o que desconhecemos

- evitar falar quando não há nada para dizer. O silêncio faz maravilhas.

 

 

 

 

 

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publicado às 09:44

Eu, egoísta, me confesso.

por t2para4, em 14.10.18

O dicionário define “egoísmo”, assim de forma mais simplista, como “alguém que coloca os seus interesses em primeiro lugar”. Não deixa de ser uma emoção humana e, como humana que sou, muitas vezes, deixo-me levar por algum egoísmo.

Sempre coloquei a família em primeiro lugar e, embora altamente criticada por muitos colegas, daí a minha opção de me sujeitar a horários incompletos e mesmo temporários mas ficar por perto, num raio de 1h de viagem, mais coisa menos coisa. No outro dia, eu e o marido conversávamos sobre o caminho que já percorremos e o patamar de desenvolvimento em que as piolhas estão e sabemos, sem sombra de dúvida que, se tivesse ocorrido com os pais dele, por exemplo, as piolhas “que são tão lindas, podem lá ter autismo, isso são coisas da vossa cabeça” ainda hoje não falariam, estariam abandoadas numa escola qualquer sem se saber se os direitos delas estariam a ser cumpridos ou não e seriam absolutamente incapazes de estar num local com outras pessoas, quanto mais numa sala de aula. Além disso, dada a vergonha que sentiriam pelo comportamento desajustado delas, nunca saíriam de casa.

Fui egoísta o suficiente para parar com este tipo de mentalidade pequenina sinónimo de síndroma de avestruz e ir à luta.

Fui egoísta o suficiente para me afastar, enquanto houve necessidade, de outras pessoas que se recusaram a falar a mesma língua que eu e a tentar entender as minhas filhas.

Fui egoísta o suficiente para, sozinha, pesquisar, estudar, pedir ajuda a outras mães em igual situação e aprender com elas.

Fui egoísta o suficiente para deixar de pensar, por uns tempos, nos outros e nos filhos dos outros para poder pensar nos meus.

Fui egoísta o suficiente para não voltar a ter filhos. Talvez com uma boa dose de cobardia associada pois não me via a conseguir lidar com mais casos de autismo em casa, a ter que passar por todas as terapias e lutas de novo. Não me via a lidar com mais bebés (sim, plural, pois a probabilidade de vir mais que um é enorme) e a ter que mudar de casa e de carro e estender prazos de empréstimos. Não me via a ter que passar pelos medos de um novo aborto, de uma nova gravidez tão complicada quanto a das piolhas. Não me via a passar noites sem dormir quando, esta noite, me custou tanto e só andei a vigiar febres.

Fui egoísta ao ponto de criar uma bucket list que é tão grande que terei que viver duas vidas para poder cumprir tudo. Egoísta, pois, tenciono fazê-la sem as piolhas (ou outros filhos) pois sei que elas não querem acompanhar-me, que o ambiente não é o mais adequado para elas, que é um plano que envolve o pai (ou só a mim). Ir a concerto num festival de verão ou ao Rock in Rio é algo demasiado cruel para as piolhas e algo que elas não querem de todo fazer (eu já perguntei) mas que desejam que eu faça e elas ficam com os avós (solução apresentada por elas). Viajar pela Escócia ou Gales ou Irlanda com caminhadas envolvidas não é o que as piolhas querem fazer – elas detestam caminhar, dar passeios longos ou ir para longe. Mas dizem para eu ir. Ainda é algo que não consigo fazer mas que tenciono fazer quando elas atingirem a maioridade.

Fui egoísta ao ponto de me desligar do mundo que não me interessa, do mundo das mães perfeitas que parem naturalmente, amamentam como os mamíferos normais, têm filhos perfeitos e não se coíbem de o divulgar ao mundo. Não me encaixo nesse mundo e, egoistamente, preferi bloquear-me desse mundo.

 

Passámos anos a ensinar as piolhas a gerir emoções, a ensinar sinais físicos dessas emoções, a mostrar em que consistem essas emoções e quais as funções dessas emoções. Neste momento, sob pena de poder ser criticada e mal-entendida, eu quero ser egoísta. Quero poder pensar apenas nas minhas filhas e não ter que andar com penduras só porque são demasiado preguiçosos para tirar o rabo do sofá e ir à luta; quero poder fazer todas aquelas coisas que as mães de filhos neurotípicos fazem, quero que as piolhas façam o que as crianças neurotípicas fazem, quero tirar férias semanas seguidas, quero viajar, quero comprar sapatilhas e um anel de pérolas, quero continuar a trabalhar onde estou porque adoro o que faço e onde estou, quero continuar a acrescentar itens na minha bucket list e escrevê-la para não me perder, quero remodelar a minha sala, quero que as piolhas se adaptem sem dificuldades quando forem para a escola secundária para o próximo ano, quero que tenham um sucesso estrondoso este ano, quero que as terapias comecem já sem problemas, não quero ter que continuar a pagar terapias fora da escola, quero que este ano letivo continue a decorrer sem problemas, quero mesmo. São muitos queros, o que, de certo modo, faz de mim egoísta pois sei que há casos piores, que há escolas que estão a fazer do novo decreto lei um caos maior do que já era antes, que há outras prioridades que não futilidades como viagens/férias/anéis, que não posso pedir uma neurotipicidade quando isso não existe por aqui…

 

Ainda assim, por uns momentos, vou permitir-me a ser egoísta e pedir a ver se pega.

 

 

 

 

 

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publicado às 17:29

Um dia com muitos dias...

por t2para4, em 01.10.18

Neste dia, a 1 de outubro…

 

Há 2 anos, desmarquei todas as aulas e sessões de formação e decidi passar o dia com a família mais próxima. Bateram-me no meu carro estacionado de tal forma que um farolim saltou, os restantes partiram, a mala torceu e o para-choques partiu pelos encaixes. A seguradora reparou tudo e foi só mesmo a chatice.

 

Há 5 anos era selecionada para um bom horário, a dar aulas mesmo ao lado de casa. O critério de seleção que levou ao desempate entre mim e outra colega foi exatamente a data de nascimento (eu era mais velha, logo, tinha prioridade).

 

Há 7 anos, passámos a tarde na praia a saltitar de pocinha em pocinha, a levantar os vestidos porque estava um dia de sol lindíssimo e um mar de uma cor esmeralda irresistível. Foram as melhores horas que nos poderiam ter sido concedidas e foi maravilhoso. Um dos melhores dias que já tive.

 

Há 8 anos, saímos. Fomos até à praia, a uma zona de passadiços e passeámos. As piolhas petiscaram qualquer coisa no McDonald’s, a única forma de nos conseguirmos desenvencilhar a uma hora de refeição, fora de casa, como uma família dita “normal”. Não foi uma celebração ideal, mas foi soube pela vida.

 

Há 11 anos, passava o meu primeiro aniversário como mãe. Tinha dois seres minúsculos com apenas 3 meses de vida que dependiam totalmente de mim e era avassalador tanto como incrível e encantador. Não se fez nada de especial, mas as piolhas estrearam uma roupa nova pindérica nas horas que deixou de servir em menos de um nada.

 

Há 15 anos tinha o meu primeiro emprego, o primeiro dos únicos 3 horários completos que obtive em todos estes anos de trabalho/descontos e já me metia na lufa-lufa do que era procurar casa, escolher casa, comprar casa – o que acabou por acontecer mês e meio depois.

 

Há 20 anos, entrava na Universidade de Coimbra, na Faculdade de Letras, na 2ª fase. Foi uma felicidade pegada. Não entrava no curso que inicialmente queria e pelo qual ansiara todo o meu secundário, mas sim num curso bilinguístico que acabou por ser a minha primeira escolha por seguir à toa o guia de candidatura, depois de ter ficado de fora na 1ª fase. E quis o destino que gostasse imenso e seguisse a vida educacional.

 

Há 30 anos aprendia a celebrar aniversários via telefone (o telefone da casa da vizinha) pois o FMI e o desemprego e uma subida absurda dos juros sobre os imóveis levaram o meu pai à emigração. Só voltei a saber o que era ter uma celebração cara a cara com a família toda há coisa de uns 5 anos.

 

Há 33 anos, entrava na escola primária para o que na altura se chamava de 1ª classe. E uma turma enorme com muitos meninos e meninas cantou-me logo os “parabéns a você”, na mesma sala, onde uma geração depois, 28 anos depois, as piolhas foram ter as suas primeiras aulas do que agora se chama 1º ano.

 

Há 38 anos, a minha mãe, farta de uma gravidez de barriga proeminente e pernas de bebé até ao pescoço, no exato timing previsto pelos médicos da maternidade, inicia o mês de outubro com uma das maiores e mais complicadas aventuras da sua vida.

Há 38 anos, eu nascia.

 

 

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publicado às 00:05

É o meu corpo e ponto final

por t2para4, em 04.08.18

Adoro quando regressam os dias de sol e de calor e irrompem de todo o lado mil anúncios a ginásios, dietas, cremes anti-celulite, suplementos e até exercícios localizados. Só que não.

Qual é que é o ponto de pressionar as mulheres - e os homens, já começo a ver que também surgem ataques disfarçados à figura física masculina - para se ter um suposto corpo perfeito? Mas, por acaso, a perfeição é gradualmente tornarmo-nos todas iguais umas às outras, entupidas de botox, sem expressões faciais, sem características pessoais únicas? 

Não, obrigada.

A sério.

 

Demorei anos a aceitar-me. Passei todos os meus anos de escola - todos - insegura de mim mesma: ou era o cabelo (que não era liso) ou eram as unhas (que não existiam por roê-las) ou eram as pernas (que ameaçavam celulite) ou era o aspeto (alta demais, achava-me feia) ou era o queixo (comprido demais). Por favor! Se eu pudesse voltar atrás dava a mim mesma uma carga de porrada e mostrar-me-ia que posso ser firme, segura de mim mesma e confiante sem ligar às opiniões de terceiros e sem ter que me comparar com ninguém. 

É exatamente isto que digo às piolhas sempre que surge uma oportunidade. Nunca as ouvi queixar-se do que quer que seja do seu corpo (ainda é cedo para estas crises) e quando falam de borbulhas no nariz, elas próprias, com naturalidade, dizem que é a puberdade.

 

Eu não sou perfeita Mas sou perfeitamente capaz de aceitar os meus defeitos inestéticos. Uma gravidez múltipla trouxe-me estrias na cintura e falta de definição na barriga, esticou a minha pele a um estado tal que consigo ver onde engelha por causa dessa elasticidade; uma amamentação mal sucedida e uma subida do leite inesperada trouxeram estrias às minhas mamas e fê-las descaírem; essa mesma gravidez e um aborto espontâneo há uns anos agravaram a celulite nas minhas pernas e despertaram uma rosácea terrível na minha cara que só ameniza com pomada antibiótica. 

Não estou tonificada nem morenaça nem musculada. Não tenho o cabelo esticadinho, perfeito e sempre no lugar. Não uso maquilhagem todos os dias. Já não consigo usar saltos agulha.

MAS...

Estou com um corpo incrível para quem passou por 2 cirurgias à barriga e passou por 2 gravidezes, sobreviveu a uma lesão grave intermuscular e lesões cerebrais que requereram medicação tão forte que me fez cair o cabelo, dar cabo da pele e enfraquecer as unhas.

Não tenho paciência, nem dinheiro, nem vontade de encher o cabelo de químicos. Nem sequer tenho vontade de me pentear e só o faço quando lavo o cabelo. Sigo um cronograma capilar de forma séria, arrisquei um corte de cabelo novo e ganhei caracóis e ondas que defino com creme de pentear ou espuma. E penteio-me com os dedos.

De vez em quando, quando as costas e as folgas me permitem, faço algum exercício físico. Mas, há de contar como reforço subir 3 lanços de escadas com kg de sacos de compras, materiais da escola, filhos, etc. Porque, de uma coisa estou certa, tudo isto me sai do coiro.

Tenho celulite e, este ano, depois de muitos muitos muitos anos a recusar sequer ter algo do género no meu roupeiro, usei vestidos e saias no inverno (com collants e não leggings) e estou a usar e a abusar dos calções, vestidos e saias no verão (de perna ao léu, mesmo).

Tenho uma barriga magra e lisa que não é tonificadinha mas uso bikini e bikini usarei até me fartar. 

Desisti de fazer a depilação só para, supostamente, agradar ao marido (quando ele, na realidade me confessou que não liga nada a isso) e faço por mim: porque detesto pêlos, porque é mais higiénico, porque vou usar uma saia ou um bikini e porque eu controlo esse processo (faço com máquina em casa e tenho pouquíssimos motivos de sofrimento).

Desisti de disfarçar os brancos. Ainda pintei o cabelo várias vezes com coloração permanente e com a que sai com lavagens. E, um dia, um mês depois de o ter pintado, apanhei piolhos (quando supostamente não entrariam em cabelo pintado). Apanhei uma neura tal que desisti. Estou com imensos fios brancos e quase quase na minha cor natural. E sinto-me muito bem.

Deixei de usar cremes de dia, de tarde e de noite. Além daquelas bodegas me atiçarem a rosácea, esquecia-me de usar como deveria e em dias de calor absurdo como agora, eu ficava um nojo maior. atirei tudo fora e utilizo água termal, a tal pomada quando necessário, leite de limpeza da marca Cien todas as noites. E chega que não tenho paciência para mais. Nem dinheiro.

 

O que quero daqui retirar é que, desde que aprendi a aceitar-me assim como sou e a ter a noção de que o esforço a que submeti o meu corpo e a idade que começa a fazer-se pesar, sinto um alívio imenso e me sinto realmente melhor. Não sou nenhuma hippie! Adoro usar maquilhagem e não saio de casa sem lápis/rímel e baton. Adoro salto alto (passei a optar por uns mais baixinhos ou por salto cunha) mas há looks incríveis com botins, sandálias e sapatilhas. Comecei a usar roupas com as quais me sinto verdadeiramente confortável e bem. Arranjo as unhas, quase religiosamente, há coisa de dois anos com a melhor pessoa que podia imaginar, que sabe o que faz e não arrisca estragar o pouco que há e que faz autênticos milagres.

Não quero que as minhas filhas passem pelo horror que eu passei e tenham vergonha de sorrir para uma foto porque acham que são feias. Tudo coisas parvas da nossa cabeça e sem razão para existirem. Elas são lindíssimas (eu sei que sou altamente suspeita e imparcial mas é verdade) e não precisam nem têm necessidade de pensar ou de se rebaixarem ao ponto de não se aceitarem como são. Já basta o que basta.

Tudo com conta, peso e medida. Ignorar e evitar ataques, serem saudáveis e terem cuidados básicos com a saúde (e, por acréscimo, com o corpo) e serão sempre belas. Porque envelhecer não tem que se tornar no horror e na fogueira de vaidades plastificadas e sem heterogeneidade que se apregoa por aí. Pode ser natural. 

 

Para já, espero que, como adolescentes, as piolhas não sintam nem sofram a pressão de serem uma ou outra figura. Espero e tentamos que sejam elas próprias, com o gosto delas e que saibam aceitar-se. São lindas, saudáveis e felizes. 

Como dizem os meus caríssimos e queridos Dr. Watson e Sherlock Holmes, "it is what it is".

 

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publicado às 16:48

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