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Não consigo dormir, estou ansiosa com o futuro

" – Não consigo dormir, estou ansiosa com o futuro”, dizia-me ela, a medo, meio ensonada. Tinha sono mas não conseguia dormir. Não era a escola nem os testes nem as questões de aula nem os colegas que a impediam de dormir, era o futuro. E eu perguntava-lhe:

O futuro como?” e ela, receosa, baixinho respondia:

“ – Como vai ser quando tu…?” e fazia o gesto para cima, com o dedo indicador. Percebi de imediato e achei melhor evitar a piada parva que me veio logo à cabeça e assumi:

-Quando eu morrer?”.

Sim”.

Respirei fundo.

Oh filha, eu não vou a lado nenhum nos próximos tempos, tenho muito que fazer, mas isso faz parte do ciclo da vida… Nascemos, vivemos, morremos… Mas não tens de ficar preocupada, eu e o pai estamos a fazer tudo o que está ao nosso alcance para que tu e a mana sejam autónomas e independentes e fiquem bem, sem nós, um dia”.

Veio um abraço forte.

“Calma, está tudo bem, não tens de ter medo, ok? É normal pensarmos no futuro mas vamos levando um dia de cada vez, pode ser?”

Os receios foram mandados lá para longe, o sono veio e o dia seguinte foi um novo dia. Não podemos fazer promessas que não conseguimos cumprir mas, a verdade, é que a nossa hora não a sabemos. Até lá, resta-nos viver e assegurar que estaremos cá a tentar dar o nosso melhor, um dia de cada vez.

“ – Quando fizermos 18 anos temos de sair de casa?”.

Sorriso.

“- Não, claro que não. Podem ficar até quando precisaremNão dá é para vivermos todos com os vossos namorados porque não temos quartos para todos”.

 – Ewwww!!! Não pensamos nisso! Mas depois ajudam-nos a escolher coisas para a nossa casa? Como os móveis e assim?”

Lá as sossegámos, afiançando que estaremos sempre do seu lado e que podem e poderão contar connosco para qualquer coisa. E que a nossa casa será sempre a sua casa, de portas abertas e com colo à disposição.

É que, às vezes, pensamos no futuro e não sabemos bem como será…”

Sabem que mais, piolhas?, nem nós… Mas estamos aqui.

 

in https://uptokids.pt/estou-ansiosa-com-o-futuro/ 

 

 

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publicado às 23:19

Um diagnóstico não é um rótulo, é uma resposta

A importância de um diagnóstico

Já escrevi algumas vezes sobre a importância de um diagnóstico e de olhar para ele como diagnóstico mesmo e não como rótulo. Por vezes, ouço alguns pais dizer que não querem atribuir rótulos aos filhos. Que preferem que, na escola, ninguém saiba o que se passa ou que há ali algo ou é “especial” mas sem nunca aprofundar ou dar um nome.

Como mãe e como professora, saber o que se passa com as nossas crianças permite-me saber como agir em conformidade e não cair em generalismos como “é tímido/a demais, é malcomportado/a, tem problemas de disciplina, é distraído/a, é assim é assado”.

Se uma criança tem dificuldades em lidar com a sua regulação, é natural que vá apresentar problemas de comportamento. Se uma criança tem PHDA, é natural que se distraia com facilidade ou que revele um foco de atenção díspar. E é aqui que um diagnóstico – que vale o que vale – ajuda. Não só os pais percebem o que se passa com os seus filhos, têm um nome para associar àquela condição de que até já desconfiavam e sempre notaram ser diferente e atípica, como, na escola, à luz do diploma legal em vigor, há uma série de medidas para ajudar essa criança a ter sucesso, a estar integrada, a ser incluída, não importa a sua diferença, se é atípica ou não; permite uma adaptação de materiais, ferramentas, avaliação, etc.; evita que se teçam injustiças porque one size doesn’t fit all.

Aceitar um diagnóstico

Percebo a renitência em aceitar ou assumir um diagnóstico. Também percebo que, nos dias de hoje, todos parecem ser atípicos. A verdade é que há mais atenção clínica e parental face ao desenvolvimento de uma criança e instrumentos de avaliação que permitem perceber se está tudo bem ou não. Não é a escola que vai diagnosticar. Mas vai ser sempre parte integrante do desenvolvimento da criança e um elemento-chave de uma equipa multidisciplinar que vai envolver médicos, técnicos e família. Não há aqui inimizades ou oposições. Há o que deveria ser um trabalho coeso de interação entre todas as partes com vista a um objetivo comum. Este objetivo é o desenvolvimento a vários níveis da criança.

A minha experiência?

Assumimos o diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo horas depois do choque inicial e tratámos logo de articular com o jardim de infância, intervenção precoce e outros. E essa articulação manteve-se ao longo dos anos até aos dias de hoje e manter-se-à até ser necessária. Não é um rótulo mas sim uma resposta e o que permite que se abram portas com as respetivas ferramentas e apoios para que se possa chegar mais longe, com os mesmos direitos e oportunidades que os outros.

 

in https://uptokids.pt/um-diagnostico-nao-e-um-rotulo/ 

 

 

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publicado às 08:35

In https://uptokids.pt/a-adolescencia-pode-ate-ser-uma-fase-boazinha/ 

 

A adolescência pode até ser uma fase boazinha

Não são as adolescentes típicas mas também não há problema nenhum nisso e não faz mal.

Uma das coisas que ouvimos alguma vezes quando nos deixávamos assombrar pela evolução meteórica das piolhas em alguns campos, era esta descida à Terra. Esta queda na realidade de que elas nunca serão neurotípicas e, como tal, não serão as adolescentes típicas. E, de facto, apesar de ainda não estarmos sequer a meio desse percurso etário de desenvolvimento humano, nota-se que há uma certa tranquilidade, menos rebeldia, menos vincar exuberante de personalidade e/ou mudanças de humor e/ou menos conflitos entre gerações em comparação com a minha própria adolescência.

Eu fui uma adolescente difícil.

Apesar de cumpridora e respeitosa de regras (vá, pelo menos da maioria, qu’isto uma pessoa não é de ferro). Mas, não as piolhas. Elas cumprem, elas respeitam, elas não destabilizam, elas evitam gerar desconforto e são muito fiéis a si mesmas. São naturalmente amistosas e meigas, sem flutuações de humor e sem pegas de caras com os pais. Sim, há uma voz mais alterada ou uma choradeira sem grande nexo esporadicamente, mas pouco mais que isso.

Não é coisa que me preocupe por demais.

Em termos biológicos e fisiológicos, a adolescência está a decorrer de forma perfeitamente típica. Em termos neurológicos, bem, é o que temos. Não sendo neurotípicas, não poderão ter comportamentos, atitudes, gestos, etc., de forma neurotípica. E não há nada de errado nisso, nem considero que possa aqui haver um problema. É até, na verdade e falando de modo um pouco egoísta, bastante conciliador e quase um alívio saber que não entrarão em incumprimento com determinadas regras. Que não agirão por impulso inexplicável em algumas áreas, que não buscarão emoções fortes desregradas.

A parte mais difícil é, sem dúvida, a questão social.

Apesar de amistosas e meigas, a verdade é que não têm amigos (não confundir com colegas). E, apesar de racionalmente eu saber que as verdadeiras e eternas amizades podem surgir mais tarde, a verdade é que acho que faz falta uma ou outra amiga com quem passar dias inteiros na conversa. Com quem martelam teclas nas redes sociais. E com quem tiram selfies tolas e façam festas do pijama.

Esse tipo de coisas fixes que nós também fizemos e nos deram grandes memórias mesmo que essa amiga da altura já não o seja agora. Tendo a verdadeira noção de que não é de todo a mesma coisa, apesar de tudo, fico feliz e aliviada que se tenham uma à outra. E essa questão social pode surgir um pouco depois, mais tarde e quem sabe ser algo para a vida.

Claro que as nossas prioridades sociais neste momento estão focadas noutros campos (comportamento para com estranhos, saídas sozinhas, pequenos recados sozinhas, possibilidade de pequenos trabalhos voluntários, etc.) mas esta questão não está esquecida mas, à força, não é algo verdadeiro e não é isso que queremos – ou desejamos.

E, para concluir, adolescência ou não, vamos seguindo o nosso motto familiar de um dia de cada vez e muitos se seguirão. Com o coração cheio de desejos, é certo, mas um dia de cada vez.

A adolescência pode até ser uma fase boazinha.

 

 

 

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publicado às 21:30

Não há perfeição na maternidade. E não há nada de errado nisso.

Como tal, nenhuma mãe ou pai é perfeito. E não há nada de errado nisso.

Quando nasce um filho, nasce uma mãe ou um pai. E, por muita experiência que tenhamos com bebés ou crianças, estamos a aprender tudo de novo, a viver tudo como se fosse a primeira vez – e, em alguns casos, é mesmo a primeira vez.

Não há uma receita milagrosa, um livro de instruções, uma indicação universal em como lidar com aquele(s) ser(es) minúsculo(s) que acaba(m) de entrar nas nossas vidas. E depois começam, quase no mesmo instante do parto, as pressões sociais e até familiares de perfeição, as comparações entre membros da família ou conhecidos, as opiniões e palpites.

E a culpa.

Ai a culpa, esse sentimento tão incapacitante quanto tenebroso. Tudo é culpa dos pais, em especial da mãe, claro. O parto foi de cesariana? A culpa é da mãe. Não tem leite? A culpa é da mãe. A criança tem soluços? A culpa é da mãe. A criança não dorme? A culpa é da mãe. A criança tem um problema de saúde? A culpa é da mãe. Não esqueçamos a velha causa de autismo nos anos 50 em que as culpadas eram as mães por serem frígidas no seu amor aos filhos e daí o termo “mães-frigorífico”, que, pasme-se, alguns ainda hoje usam, volvidas tantas décadas de estudos e análises.

A culpa é-nos intrínseca, é-nos ensinada desde logo cedinho, “culpa” da nossa tradição hereditária judaico-cristã. Temos sempre de nos sentir culpados de algo ou não estaremos a desempenhar corretamente o nosso papel. Em especial, se formos mães ou pais.

Se a culpa é grande em pais típicos, ela torna-se avassaladora em pais atípicos.

Porque há a hereditariedade, porque há a genética, porque aconteceu isto ou aquilo na gravidez ou no parto, porque porque porque…

Não há perfeição na maternidade.

Não tem de haver culpas.

Surgiu. E dói. Mas, agora vamos avaliar a situação e saber do que se precisa para lidar com isso, desde apoios, a tratamentos, a medicação, a avaliações, a técnicos, a médicos, a abordagens terapêuticas. A culpa não pode ter lugar nesta enumeração de trabalho a fazer porque desgasta, deprime, desmoraliza, não traz benefícios. Não é negligência.

Só acentua uma dor que já magoa demais.

Ser mãe ou pai é difícil, caramba, é mesmo muito difícil. Podia ser mais intuitivo, mais “user-friendly”, mais simples! Mas não é. Mas também não há nada de errado nisso. Quero acreditar que todos damos o nosso melhor para fazer um excelente trabalho no nosso papel de pais e educadores. A culpa só vem atrapalhar e não traz nada de novo a esta equação tão complexa.

 

in https://uptokids.pt/nao-ha-perfeicao-na-maternidade/?fbclid=IwAR2Li-Qt-l7v8FQ3S2kYbKpws7fG_PdVVa5xbhZrY996CClmL38dIco9juA 

 

 

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publicado às 12:26

O Bullying constrói o carácter! É assim que se cresce!

“O meu pai, em conversa sobre este assunto, contava-me que “estas coisas sempre existiram””

Segundo a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), o bullying é uma forma de violência contínua que acontece entre colegas da mesma turma, da mesma escola ou entre pessoas que tenham alguma característica em comum.

Trata-se de um ato intencional e sistemático que envolve várias formas de violência (física, psicológica, social e sexual) e vários agentes (vítima, agressores e espetadores), sendo que estes comportamentos agressivos são propositados: têm o objetivo de assustar, magoar, humilhar e intimidar a vítima.

Não é modernice.

Sempre houve violência na escola, no caminho para a escola, nas salas de aula. E até no trabalho. Não tinha era o nome que lhe damos agora – anglicismo ou não. E não tinha as consequências ou penalizações que estão agora previstas. E não tinha, de todo, a consciencialização e a vigilância que tem agora.

O Bullying constrói o carácter! É assim que se cresce!

 

Restante artigo aqui: https://uptokids.pt/educacao/seguranca-educacao/o-bullying-constroi-o-caracter-e-assim-que-se-cresce/?fbclid=IwAR3O58uXU_wY4gzHzrzyxNjSFetNnY0jLmRk9o1WU4BlyYHTfBc1cRHTUDE

 

 

 

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publicado às 15:02

Escrevi no ano passado, para a Up to Kids, mas pode perfeitamente ser aplicável também para este ano. E seguintes.


"Todos os anos, por ocasião do dia 2 de abril, dia mundial da consciencialização o autismo, lá estamos nós, famílias dentro do espectro, a fazer o que mais fazemos durante todo o ano: a sensibilizar, a consciencializar, a alertar, a abrir mentalidades, a incutir valores simples e básicos como a inclusão, a apelar para a aceitação, a compreensão e, mais uma vez, a inclusão, a promover a equidade e, acertaram, a inclusão. Porque incluir é necessário. Não é uma moda, não é uma tendência, não é uma coisa nova regulamentada. É o que tem de ser. Ou, pelo menos, deveria ser.
Independentemente do dia associado ou da data a assinalar, é importante mantermos a noção de que todos temos o nosso lugar na sociedade e que somos todos iguais em direitos, logo, não sei muito bem, ainda, por que razão, às vezes, parece ser tão difícil cumprir esses mesmos direitos que se querem intocáveis e tão basilares.
Uma criança com autismo crescerá para se tornar um adulto com autismo. Pelo caminho, estão horas intermináveis de trabalho, de terapias, de esforço, de dedicação do mesmo e dos que o rodeiam. Pode ou não haver evolução. Pode ou não haver instrumentos e ferramentas que potenciem uma segura e eficaz inclusão. Não confundir com integração, que também é importante, claro, mas não é a mesma coisa. O que queremos, o que esperamos, o que desejamos é que haja um lugar para todos, no amanhã, na sociedade. Porque isso é possível e com pouco se pode fazer muito para que tal possa acontecer.
Autismo não é moda, não estão todos no espectro, como agora se diz. Há sim, mais atenção por parte de pais e profissionais de saúde e educação para os sinais precoces de desenvolvimento que podem indicar que poderá ali haver uma perturbação neurológica. Por isso, é tão importante, começar desde logo a intervenção precoce e com ela, numa esfera muito maior e mais global, a intervenção no outro: porque a diferença existe. A diferença invisível existe. E não há mal nenhum nisso. Como disse no ano passado e no outro anterior a esse e no outro anterior, como sempre disse, o maior caminho de todos inicia-se com o primeiro passo. Vamos lá?"

 

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publicado às 11:21

Surgiu um convite, seguiu-se uma conversa acerca do que poderia ser escrito, seguiram-se mais contactos e avançámos. O desafio era mesmo falar dos desafios de se ser mãe/pai de crianças com Perturbação do Espectro do Autismo. Falei com outras famílias, pensei muito na nossa realidade, tive dúvidas (não gosto de ser mal-interpretada) mas o texto lá saiu.
E, lá na página 19, depois do meu texto, culmina uma revista inteiramente focada no trabalho que se quer para incluir. Porque é importante falar-se do assunto, ver-se e ler-se o que se faz, perceber onde queremos chegar e ver que temos, em Portugal, pessoas incríveis.
Obrigada especial às minhas "vizinhas" pela paciência (as suspeitas do costume O Mundo do Gonçalinho, A Família Neurodiversa, Diário de uma pequena guerreira), pela ajuda, pelas contribuições (que temos muito dentro da mesma linha de pensamento) e à minha L. pelas revisões e opiniões.

https://drive.google.com/file/d/1h1Taqw5sCw3ZUgTCQCCH1AHPIjdT39z5/view?fbclid=IwAR0vxQgHdtMsCWb71Mqbapjf4yyS0HlQia-W2xnQ7yWkc6WwDB-TMOCEZ4k

 

 

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publicado às 11:15

Novo texto em https://uptokids.pt/opiniao/cronicas/o-estado-falha-e-nao-da-o-exemplo/?fbclid=IwAR2LyAuDIosEIMk9kNNim8e2ttwcSj-SZqfJ3Mj7XGblIANn9NzP7wiu_IM

 

O Estado falha e não dá o exemplo. Mas se eu estiver à espera, quem falha sou eu.

 

O Estado falha e não dá o exemplo. Mas se eu estiver à espera, quem falha sou eu.

Quando, em 2010, aquando do diagnóstico nos foi dito que as piolhas precisavam de “terapia da fala para ontem” (sic), a primeira coisa que fizemos foi tratar do assunto e questionar a intervenção precoce nesse sentido. Acontece que, como nos fomos habituando a ouvir ao longo destes anos, há casos mais graves (apesar de elas não serem verbais na altura), a lista de espera é grande, só nos puderam dispensar uma educadora de educação especial e depois uma psicóloga – e não em simultâneo.

Ou seja, face à falta de resposta do Estado – apesar do direito das piolhas a este serviço – fomos procurar fora o que precisávamos desesperadamente – e pagámos do nosso bolso. Sem apoios, sem subsídios, sem ajudas. E não foi por falta de tentativas. Os tempos eram outros, alguns dos apoios que há agora não existiam na altura, para os que há não éramos elegíveis.

Passou-se o mesmo com terapia ocupacional.

E passou-se o mesmo com reforço de terapia da fala.

E passou-se o mesmo com psicologia.

Procurámos fora a resposta de que precisávamos e pagámos. Apesar de a legislação em vigor prever um apoio.

Passa-se o mesmo, embora numa escala profissional e um pouco difícil de ver a comparação, com o trabalho de um professor.

E eu até arrisco a dizer “professor contratado”, o tal que, apesar de fazer a mesmíssima coisa que um professor do quadro, ganha menos, não progride, não é avaliado justamente (sim, eu nunca tive um Muito Bom apesar de quantitativamente o merecer), não usufrui em pleno dos direitos previstos no Estatuto da Carreira Docente e mais uns quantos diplomas legais. Por exemplo, não posso tirar uma licença para ficar com as minhas filhas, em caso de necessidade. Uma baixa, uma licença sem vencimento, por aí, ainda vá. Não posso concorrer para ficar colocada no cu de judas e pedir aproximação à residência por motivos de deficiência/apoio a descendentes. Mas adiante. São as opções que tomo e não me arrependo. No entanto, estas minhas opções acabam por me lançar em duas vertentes: a de professora com contrato por conta de outrem e a de trabalhadora independente.

Ora, para eu sentir e saber com toda a certeza de que estou a trabalhar com as condições a que me proponho e que proponho oferecer aos meus alunos com a preparação do meu trabalho, eu preciso de material. Logo, preciso de computador/es, projetor, monitor, tablet, smart pen, manuais técnicos de apoio, programas de tradução, impressoras, internet, etc. Ou seja, eu preciso de material para preparar e apresentar as minhas aulas, com base no que eu ambiciono ter como resultados.

Numa empresa – mesmo pública – teria esse material à disposição para uso profissional e faria todo esse meu trabalho no local. Requisitaria todo o material de que necessitasse. Não precisaria de fazer de casa a extensão do meu posto de trabalho.

E esse local chama-se “Agrupamento de Escolas de Unicornilândia”.

Num agrupamento de escolas do nosso país, na maioria das vezes, os computadores demoram quase 10 minutos a arrancar, não têm os programas de que necessitamos para ler um simples ficheiro audio, a conversão online demora mais de 20 minutos (se for autorizada pela rede e se a net estiver em dia bom), faltam canetas dos quadros interativos (se tiver a sorte de ter um na minha sala – coisa que não me acontece desde… bem, desde há uns bons 6 ou mais anos), o projetor está sempre ocupado e tem lista de espera, não há uma simples extensão elétrica, nem pensar em conseguir encontrar livros técnicos recentes na biblioteca escolar quanto mais programas licenciados de tradução ou educação e, não sendo eu de educação especial, desses muito menos, e do resto nem vale a pena falar. Tablets? Monitores auxiliares? É a gargalhada geral.

Pois bem, eu cá gosto pouco de ficar à espera e, tendo em conta a dualidade público-privada-desenrascada da minha profissão, eu tenho todo esse material. Mas é MEU. Comprado e pago por MIM, sem patrocínio ou apoio estatal algum. Pago inteiramente por mim. E, por isso, não empresto a ninguém (o que incluiu colegas) e reservo-me ao direito de usá-lo na sala de aula a meu bel-prazer, de acordo com o plano de aulas que tenho preparado.

Ora, mas agora estamos em teletrabalho e o Estado deveria comparticipar esses gastos ou, pelo menos, requisitar o teu material.

Sim, deveria. Mas eu sou uma mera professora contratada a quem foi atribuído um número gigantesco de identificação para efeitos de concurso, que ninguém conhece e de quem ninguém quer saber e que também trabalha por conta própria. E que não consegue lidar com as frustrações de não conseguir trabalhar com material obsoleto e não quer desconfinar à força. E que já usa todo este material para preparar as aulas e atividades e burocracias da sua atividade como trabalhadora independente.

Percebo, com toda a legitimidade, a posição de colegas que estão contra o uso da sua propriedade por parte do Estado. E também percebo, com toda a legitimidade, a posição de colegas que não estão para mexer num vespeiro.

Mas eu preciso destas coisas.

E preciso de um salário. Preciso de tempo de serviço. E não consigo deixar de me preocupar em não conseguir fazer as coisas minimamente quando, afinal, tenho tudo de que preciso. Meu mas ao serviço do Estado, é certo. Apesar de ser o mesmo Estado que me falha em relação aos meus direitos e aos das minhas filhas.

Do que eu não preciso é de críticas e de pseudosuperioridades por parte de colegas porque todos fazemos o mesmo: procuramos soluções quando não há.

Há quem, como eu, opte por investir e ficar com material que pode usar da forma como quiser; há quem opte por se sujeitar ao que o Estado tem – e não são os top do parque tecnológico escolar.

Se eu tivesse ficado à espera do Estado e não tivesse pago por fora, as minhas filhas nunca teriam passado de não verbais para verbais; se eu me recusasse a usar o meu material neste momento, teria de voltar à escola e deixar de as apoiar (professora contratada, remember?) e sofreria penalizações por ter trabalhar como independente mas não como contratada. Nada é fácil neste retângulo à beira-mar. Mas esta é a minha posição. Não me importa o que pensam os outros. O Estado falha.

O Estado falha e não dá o exemplo. Mas se eu estiver à espera, quem falha sou eu. E isso eu não suporto.

 

 

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publicado às 16:21

Entrevista na LuxWoman

por t2para4, em 30.07.20

Como diz uma vizinha de quem gosto muito, falar destas coisas abertamente também é ativismo.
Cláudia Carvalho e nós, no papel de pais, Alda Coelho, pedopsiquiatra, Albertina Marçal, mãe e fundadora do Centro ABC Real, respondemos à jornalista Leonor Rodrigues Poças e Leonor Antolin Teixeira, da Revista LuxWoman e o resultado foi uma reportagem algo emotiva, real, direta, que saiu na revista de agosto.
Para quem possa ter dúvidas ou queira ler várias realidades sob um único nome - que um dia ainda poderá transformar-se num plural, num -ismos -, creio que a matéria é de leitura acessível e informada sobre autismo, escola, diversidade, inclusão e diferença.

 

 

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publicado às 08:59

in: https://uptokids.pt/educacao/o-ensino-a-distancia-a-escola-nunca-mais-voltara-a-ser-como-era-antes/?fbclid=IwAR1lynykS6AmxNo6G4_TGL-M_rZJtBP8ty3v_bpAMwFCF__0gSwopwd88IQ 

 

O ensino à distância.

A escola nunca mais voltará a ser como era antes.

Esta é a realidade que nos assiste desde o dia 16 de março de 2020. Foi uma reinvenção à pressa, sem preparação, sem aviso com a devida antecedência. Mas foi o desafio que acabámos todos, de uma forma ou outra, por abraçar e aceitar, apesar das inúmeras dificuldades e do acesso.

A escola que se quer inclusiva ainda não consegue chegar a todos agora – mas, se pensarmos bem, já antes não conseguia chegar a todos. Lembremo-nos das inúmeras batalhas travadas para que os direitos básicos de crianças com necessidades específicas sejam cumpridos na íntegra mas também dos que abandonam a escola. Sim, apesar da escolaridade obrigatória ser até ao 12º ano ou 18 anos, a verdade é que ainda há quem fique pelo caminho. E isto ainda não é a definição de escola inclusiva. Lá chegaremos, quero muito acreditar.

O ensino à distância

Na nossa nova realidade, com o ensino à distância, vejo os dois lados: o de professora – o meu lado – e o do aluno – as minhas filhas. Ambos os lados estão cheios de trabalho, a esforçar-se para cumprir o planificado, o proposto, o esperado; ambos os lados se sentam de manhã ao computador e saem ao final do dia. Não é fácil, não é o ideal, não é o desejado – mas é o que temos por agora e, que, de uma forma ou de outra, todos se esforçam para que funcione e para que chegue aos alunos.

Vejo um esforço imensurável de colegas que mesmo aos fins de semana enviam emails e notificações para que não se falhem prazos e vejo uma preparação de aula e planos semanais a delinear a serem feitos com uma semana de avanço, sem prejuízo do trabalho a desenvolver na semana anterior. O enfoque na avaliação padronizada e estruturada com fichas e testes e provas está diluído e transformado. E isto é uma coisa boa.

A adaptação

Mas não irei alongar-me em questões pedagógicas relacionadas com o ensino à distância. Não é a mim que compete essa avaliação. A mim compete-me adaptar-me e fazer os meus adaptarem-se. E isso tem corrido surpreendentemente bem, apesar de algumas dificuldades – técnicas e pessoais. A aprendizagem tem sido bem mais transversal e alargada do que estar apenas numa disciplina, numa qualquer classroom, em frente a um computador.

Deixo alguns exemplos:

– é necessário saber ler o horário enviado e gerir aulas síncronas e assíncronas, aproveitando as assíncronas para fazer os trabalhos pedidos;

– é necessário saber gerir algumas plataformas eletrónicas diferentes do que se usava habitualmente e saber fazê-lo em segurança (passwords, permissões, etc.);

– saber gerir o tempo para ter todas as tarefas feitas e entregues dentro dos prazos pedidos;

– é necessário continuar a ter rotinas saudáveis: levantar num horário, vestir como se fossemos para a escola, lanchar adequadamente nos devidos intervalos, auxiliar em pequenas tarefas em casa;

– saber usar todo um hardware à sua volta: computador, telemóvel, impressoras, scan, tripé, etc.

– é necessário saber ler nas entrelinhas dos chats de colegas o que é dito, como é dito e se há ali algo de relevante, de perigoso ou apenas conversa fiada;

– é necessário estarmos preparados para imprevistos e saber lidar com eles: a ligação que cai, a rede que tem oscilações, a impressora que só funciona depois de reiniciar o computador, o sistema operativo que é lento, etc.

O Bullying

No nosso caso, a melhor coisa que o ensino à distância nos trouxe – além da gestão pessoal das coisas no nosso espaço familiar – foi o fim dos episódios de bullying. Não há nada que valha mais do que isto. Não há vontade alguma de regresso a uma suposta normalidade escolar que me faça mudar de ideias. Eu sei que é importante ter a questão social resolvida, eu sei que a vida real é entre pessoas e não numa bolha no nosso espaço pessoal, eu sei que isto é apenas algo passageiro. Mas temos tido uma paz que não experienciávamos desde junho do ano letivo anterior.

Este é o nosso lado da história.

Sei, infelizmente, que ainda que a nossa casa seja mesmo o nosso castelo, outras há que são verdadeiros infernos e a escola seria o oásis de salvação. Daí a importância de se ver que a escola será sempre uma sociedade em miniatura, com os seus problemas e ações, com as suas especificidades tão particulares e tão abrangentes ao mesmo tempo. Mas, agora, em setembro deste ano, para o ano, daqui a 2 ou 5 anos, esta escola tem se se reinventar e jamais voltará a ser o que era. E nós adaptar-nos-emos.

 

 

 

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publicado às 21:15

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