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O Bullying constrói o carácter! É assim que se cresce!

“O meu pai, em conversa sobre este assunto, contava-me que “estas coisas sempre existiram””

Segundo a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), o bullying é uma forma de violência contínua que acontece entre colegas da mesma turma, da mesma escola ou entre pessoas que tenham alguma característica em comum.

Trata-se de um ato intencional e sistemático que envolve várias formas de violência (física, psicológica, social e sexual) e vários agentes (vítima, agressores e espetadores), sendo que estes comportamentos agressivos são propositados: têm o objetivo de assustar, magoar, humilhar e intimidar a vítima.

Não é modernice.

Sempre houve violência na escola, no caminho para a escola, nas salas de aula. E até no trabalho. Não tinha era o nome que lhe damos agora – anglicismo ou não. E não tinha as consequências ou penalizações que estão agora previstas. E não tinha, de todo, a consciencialização e a vigilância que tem agora.

O Bullying constrói o carácter! É assim que se cresce!

 

Restante artigo aqui: https://uptokids.pt/educacao/seguranca-educacao/o-bullying-constroi-o-caracter-e-assim-que-se-cresce/?fbclid=IwAR3O58uXU_wY4gzHzrzyxNjSFetNnY0jLmRk9o1WU4BlyYHTfBc1cRHTUDE

 

 

 

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publicado às 15:02

Escrevi no ano passado, para a Up to Kids, mas pode perfeitamente ser aplicável também para este ano. E seguintes.


"Todos os anos, por ocasião do dia 2 de abril, dia mundial da consciencialização o autismo, lá estamos nós, famílias dentro do espectro, a fazer o que mais fazemos durante todo o ano: a sensibilizar, a consciencializar, a alertar, a abrir mentalidades, a incutir valores simples e básicos como a inclusão, a apelar para a aceitação, a compreensão e, mais uma vez, a inclusão, a promover a equidade e, acertaram, a inclusão. Porque incluir é necessário. Não é uma moda, não é uma tendência, não é uma coisa nova regulamentada. É o que tem de ser. Ou, pelo menos, deveria ser.
Independentemente do dia associado ou da data a assinalar, é importante mantermos a noção de que todos temos o nosso lugar na sociedade e que somos todos iguais em direitos, logo, não sei muito bem, ainda, por que razão, às vezes, parece ser tão difícil cumprir esses mesmos direitos que se querem intocáveis e tão basilares.
Uma criança com autismo crescerá para se tornar um adulto com autismo. Pelo caminho, estão horas intermináveis de trabalho, de terapias, de esforço, de dedicação do mesmo e dos que o rodeiam. Pode ou não haver evolução. Pode ou não haver instrumentos e ferramentas que potenciem uma segura e eficaz inclusão. Não confundir com integração, que também é importante, claro, mas não é a mesma coisa. O que queremos, o que esperamos, o que desejamos é que haja um lugar para todos, no amanhã, na sociedade. Porque isso é possível e com pouco se pode fazer muito para que tal possa acontecer.
Autismo não é moda, não estão todos no espectro, como agora se diz. Há sim, mais atenção por parte de pais e profissionais de saúde e educação para os sinais precoces de desenvolvimento que podem indicar que poderá ali haver uma perturbação neurológica. Por isso, é tão importante, começar desde logo a intervenção precoce e com ela, numa esfera muito maior e mais global, a intervenção no outro: porque a diferença existe. A diferença invisível existe. E não há mal nenhum nisso. Como disse no ano passado e no outro anterior a esse e no outro anterior, como sempre disse, o maior caminho de todos inicia-se com o primeiro passo. Vamos lá?"

 

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publicado às 11:21

Surgiu um convite, seguiu-se uma conversa acerca do que poderia ser escrito, seguiram-se mais contactos e avançámos. O desafio era mesmo falar dos desafios de se ser mãe/pai de crianças com Perturbação do Espectro do Autismo. Falei com outras famílias, pensei muito na nossa realidade, tive dúvidas (não gosto de ser mal-interpretada) mas o texto lá saiu.
E, lá na página 19, depois do meu texto, culmina uma revista inteiramente focada no trabalho que se quer para incluir. Porque é importante falar-se do assunto, ver-se e ler-se o que se faz, perceber onde queremos chegar e ver que temos, em Portugal, pessoas incríveis.
Obrigada especial às minhas "vizinhas" pela paciência (as suspeitas do costume O Mundo do Gonçalinho, A Família Neurodiversa, Diário de uma pequena guerreira), pela ajuda, pelas contribuições (que temos muito dentro da mesma linha de pensamento) e à minha L. pelas revisões e opiniões.

https://drive.google.com/file/d/1h1Taqw5sCw3ZUgTCQCCH1AHPIjdT39z5/view?fbclid=IwAR0vxQgHdtMsCWb71Mqbapjf4yyS0HlQia-W2xnQ7yWkc6WwDB-TMOCEZ4k

 

 

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publicado às 11:15

Novo texto em https://uptokids.pt/opiniao/cronicas/o-estado-falha-e-nao-da-o-exemplo/?fbclid=IwAR2LyAuDIosEIMk9kNNim8e2ttwcSj-SZqfJ3Mj7XGblIANn9NzP7wiu_IM

 

O Estado falha e não dá o exemplo. Mas se eu estiver à espera, quem falha sou eu.

 

O Estado falha e não dá o exemplo. Mas se eu estiver à espera, quem falha sou eu.

Quando, em 2010, aquando do diagnóstico nos foi dito que as piolhas precisavam de “terapia da fala para ontem” (sic), a primeira coisa que fizemos foi tratar do assunto e questionar a intervenção precoce nesse sentido. Acontece que, como nos fomos habituando a ouvir ao longo destes anos, há casos mais graves (apesar de elas não serem verbais na altura), a lista de espera é grande, só nos puderam dispensar uma educadora de educação especial e depois uma psicóloga – e não em simultâneo.

Ou seja, face à falta de resposta do Estado – apesar do direito das piolhas a este serviço – fomos procurar fora o que precisávamos desesperadamente – e pagámos do nosso bolso. Sem apoios, sem subsídios, sem ajudas. E não foi por falta de tentativas. Os tempos eram outros, alguns dos apoios que há agora não existiam na altura, para os que há não éramos elegíveis.

Passou-se o mesmo com terapia ocupacional.

E passou-se o mesmo com reforço de terapia da fala.

E passou-se o mesmo com psicologia.

Procurámos fora a resposta de que precisávamos e pagámos. Apesar de a legislação em vigor prever um apoio.

Passa-se o mesmo, embora numa escala profissional e um pouco difícil de ver a comparação, com o trabalho de um professor.

E eu até arrisco a dizer “professor contratado”, o tal que, apesar de fazer a mesmíssima coisa que um professor do quadro, ganha menos, não progride, não é avaliado justamente (sim, eu nunca tive um Muito Bom apesar de quantitativamente o merecer), não usufrui em pleno dos direitos previstos no Estatuto da Carreira Docente e mais uns quantos diplomas legais. Por exemplo, não posso tirar uma licença para ficar com as minhas filhas, em caso de necessidade. Uma baixa, uma licença sem vencimento, por aí, ainda vá. Não posso concorrer para ficar colocada no cu de judas e pedir aproximação à residência por motivos de deficiência/apoio a descendentes. Mas adiante. São as opções que tomo e não me arrependo. No entanto, estas minhas opções acabam por me lançar em duas vertentes: a de professora com contrato por conta de outrem e a de trabalhadora independente.

Ora, para eu sentir e saber com toda a certeza de que estou a trabalhar com as condições a que me proponho e que proponho oferecer aos meus alunos com a preparação do meu trabalho, eu preciso de material. Logo, preciso de computador/es, projetor, monitor, tablet, smart pen, manuais técnicos de apoio, programas de tradução, impressoras, internet, etc. Ou seja, eu preciso de material para preparar e apresentar as minhas aulas, com base no que eu ambiciono ter como resultados.

Numa empresa – mesmo pública – teria esse material à disposição para uso profissional e faria todo esse meu trabalho no local. Requisitaria todo o material de que necessitasse. Não precisaria de fazer de casa a extensão do meu posto de trabalho.

E esse local chama-se “Agrupamento de Escolas de Unicornilândia”.

Num agrupamento de escolas do nosso país, na maioria das vezes, os computadores demoram quase 10 minutos a arrancar, não têm os programas de que necessitamos para ler um simples ficheiro audio, a conversão online demora mais de 20 minutos (se for autorizada pela rede e se a net estiver em dia bom), faltam canetas dos quadros interativos (se tiver a sorte de ter um na minha sala – coisa que não me acontece desde… bem, desde há uns bons 6 ou mais anos), o projetor está sempre ocupado e tem lista de espera, não há uma simples extensão elétrica, nem pensar em conseguir encontrar livros técnicos recentes na biblioteca escolar quanto mais programas licenciados de tradução ou educação e, não sendo eu de educação especial, desses muito menos, e do resto nem vale a pena falar. Tablets? Monitores auxiliares? É a gargalhada geral.

Pois bem, eu cá gosto pouco de ficar à espera e, tendo em conta a dualidade público-privada-desenrascada da minha profissão, eu tenho todo esse material. Mas é MEU. Comprado e pago por MIM, sem patrocínio ou apoio estatal algum. Pago inteiramente por mim. E, por isso, não empresto a ninguém (o que incluiu colegas) e reservo-me ao direito de usá-lo na sala de aula a meu bel-prazer, de acordo com o plano de aulas que tenho preparado.

Ora, mas agora estamos em teletrabalho e o Estado deveria comparticipar esses gastos ou, pelo menos, requisitar o teu material.

Sim, deveria. Mas eu sou uma mera professora contratada a quem foi atribuído um número gigantesco de identificação para efeitos de concurso, que ninguém conhece e de quem ninguém quer saber e que também trabalha por conta própria. E que não consegue lidar com as frustrações de não conseguir trabalhar com material obsoleto e não quer desconfinar à força. E que já usa todo este material para preparar as aulas e atividades e burocracias da sua atividade como trabalhadora independente.

Percebo, com toda a legitimidade, a posição de colegas que estão contra o uso da sua propriedade por parte do Estado. E também percebo, com toda a legitimidade, a posição de colegas que não estão para mexer num vespeiro.

Mas eu preciso destas coisas.

E preciso de um salário. Preciso de tempo de serviço. E não consigo deixar de me preocupar em não conseguir fazer as coisas minimamente quando, afinal, tenho tudo de que preciso. Meu mas ao serviço do Estado, é certo. Apesar de ser o mesmo Estado que me falha em relação aos meus direitos e aos das minhas filhas.

Do que eu não preciso é de críticas e de pseudosuperioridades por parte de colegas porque todos fazemos o mesmo: procuramos soluções quando não há.

Há quem, como eu, opte por investir e ficar com material que pode usar da forma como quiser; há quem opte por se sujeitar ao que o Estado tem – e não são os top do parque tecnológico escolar.

Se eu tivesse ficado à espera do Estado e não tivesse pago por fora, as minhas filhas nunca teriam passado de não verbais para verbais; se eu me recusasse a usar o meu material neste momento, teria de voltar à escola e deixar de as apoiar (professora contratada, remember?) e sofreria penalizações por ter trabalhar como independente mas não como contratada. Nada é fácil neste retângulo à beira-mar. Mas esta é a minha posição. Não me importa o que pensam os outros. O Estado falha.

O Estado falha e não dá o exemplo. Mas se eu estiver à espera, quem falha sou eu. E isso eu não suporto.

 

 

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publicado às 16:21

Entrevista na LuxWoman

por t2para4, em 30.07.20

Como diz uma vizinha de quem gosto muito, falar destas coisas abertamente também é ativismo.
Cláudia Carvalho e nós, no papel de pais, Alda Coelho, pedopsiquiatra, Albertina Marçal, mãe e fundadora do Centro ABC Real, respondemos à jornalista Leonor Rodrigues Poças e Leonor Antolin Teixeira, da Revista LuxWoman e o resultado foi uma reportagem algo emotiva, real, direta, que saiu na revista de agosto.
Para quem possa ter dúvidas ou queira ler várias realidades sob um único nome - que um dia ainda poderá transformar-se num plural, num -ismos -, creio que a matéria é de leitura acessível e informada sobre autismo, escola, diversidade, inclusão e diferença.

 

 

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publicado às 08:59

in: https://uptokids.pt/educacao/o-ensino-a-distancia-a-escola-nunca-mais-voltara-a-ser-como-era-antes/?fbclid=IwAR1lynykS6AmxNo6G4_TGL-M_rZJtBP8ty3v_bpAMwFCF__0gSwopwd88IQ 

 

O ensino à distância.

A escola nunca mais voltará a ser como era antes.

Esta é a realidade que nos assiste desde o dia 16 de março de 2020. Foi uma reinvenção à pressa, sem preparação, sem aviso com a devida antecedência. Mas foi o desafio que acabámos todos, de uma forma ou outra, por abraçar e aceitar, apesar das inúmeras dificuldades e do acesso.

A escola que se quer inclusiva ainda não consegue chegar a todos agora – mas, se pensarmos bem, já antes não conseguia chegar a todos. Lembremo-nos das inúmeras batalhas travadas para que os direitos básicos de crianças com necessidades específicas sejam cumpridos na íntegra mas também dos que abandonam a escola. Sim, apesar da escolaridade obrigatória ser até ao 12º ano ou 18 anos, a verdade é que ainda há quem fique pelo caminho. E isto ainda não é a definição de escola inclusiva. Lá chegaremos, quero muito acreditar.

O ensino à distância

Na nossa nova realidade, com o ensino à distância, vejo os dois lados: o de professora – o meu lado – e o do aluno – as minhas filhas. Ambos os lados estão cheios de trabalho, a esforçar-se para cumprir o planificado, o proposto, o esperado; ambos os lados se sentam de manhã ao computador e saem ao final do dia. Não é fácil, não é o ideal, não é o desejado – mas é o que temos por agora e, que, de uma forma ou de outra, todos se esforçam para que funcione e para que chegue aos alunos.

Vejo um esforço imensurável de colegas que mesmo aos fins de semana enviam emails e notificações para que não se falhem prazos e vejo uma preparação de aula e planos semanais a delinear a serem feitos com uma semana de avanço, sem prejuízo do trabalho a desenvolver na semana anterior. O enfoque na avaliação padronizada e estruturada com fichas e testes e provas está diluído e transformado. E isto é uma coisa boa.

A adaptação

Mas não irei alongar-me em questões pedagógicas relacionadas com o ensino à distância. Não é a mim que compete essa avaliação. A mim compete-me adaptar-me e fazer os meus adaptarem-se. E isso tem corrido surpreendentemente bem, apesar de algumas dificuldades – técnicas e pessoais. A aprendizagem tem sido bem mais transversal e alargada do que estar apenas numa disciplina, numa qualquer classroom, em frente a um computador.

Deixo alguns exemplos:

– é necessário saber ler o horário enviado e gerir aulas síncronas e assíncronas, aproveitando as assíncronas para fazer os trabalhos pedidos;

– é necessário saber gerir algumas plataformas eletrónicas diferentes do que se usava habitualmente e saber fazê-lo em segurança (passwords, permissões, etc.);

– saber gerir o tempo para ter todas as tarefas feitas e entregues dentro dos prazos pedidos;

– é necessário continuar a ter rotinas saudáveis: levantar num horário, vestir como se fossemos para a escola, lanchar adequadamente nos devidos intervalos, auxiliar em pequenas tarefas em casa;

– saber usar todo um hardware à sua volta: computador, telemóvel, impressoras, scan, tripé, etc.

– é necessário saber ler nas entrelinhas dos chats de colegas o que é dito, como é dito e se há ali algo de relevante, de perigoso ou apenas conversa fiada;

– é necessário estarmos preparados para imprevistos e saber lidar com eles: a ligação que cai, a rede que tem oscilações, a impressora que só funciona depois de reiniciar o computador, o sistema operativo que é lento, etc.

O Bullying

No nosso caso, a melhor coisa que o ensino à distância nos trouxe – além da gestão pessoal das coisas no nosso espaço familiar – foi o fim dos episódios de bullying. Não há nada que valha mais do que isto. Não há vontade alguma de regresso a uma suposta normalidade escolar que me faça mudar de ideias. Eu sei que é importante ter a questão social resolvida, eu sei que a vida real é entre pessoas e não numa bolha no nosso espaço pessoal, eu sei que isto é apenas algo passageiro. Mas temos tido uma paz que não experienciávamos desde junho do ano letivo anterior.

Este é o nosso lado da história.

Sei, infelizmente, que ainda que a nossa casa seja mesmo o nosso castelo, outras há que são verdadeiros infernos e a escola seria o oásis de salvação. Daí a importância de se ver que a escola será sempre uma sociedade em miniatura, com os seus problemas e ações, com as suas especificidades tão particulares e tão abrangentes ao mesmo tempo. Mas, agora, em setembro deste ano, para o ano, daqui a 2 ou 5 anos, esta escola tem se se reinventar e jamais voltará a ser o que era. E nós adaptar-nos-emos.

 

 

 

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publicado às 21:15

Leia-se o que ela diz sobre a perturbação. Ando a dizer isto há anos. Para mim, tudo isto e o que realmente importa, nas palavras da Carolina Deslandes, que são as minhas palavras desde 2010 e as de tantas outras como eu e como ela e que dizem a mesmíssima coisa:

“O autismo continua a ser visto como um problema. Algo que torna as pessoas diferentes e esquisitas. Pois eu olho para o Santiago e acho que os esquisitos somos nós. Com o nosso filho entendi que as palavras são o meio mais fácil de comunicar, mas não o mais bonito. Ainda sem falar, o Santiago já me disse os mais bonitos poemas, já me mostrou cores no mundo que eu não sabia que existiam, já me disse que me amava ao roçar o seu nariz no meu e ao encostar a cabeça no meu peito. Vê-lo superar-se a cada dia, vê-lo partilhar e crescer é um privilégio. E eu hei de estar sempre lá na primeira fila, a aprender tudo o que ele quer ensinar."

 

In https://famashow.pt/famosos/2019-09-30-Carolina-Deslandes-sobre-o-filho-mais-velho-O-Santiago-sofre-de-uma-perturbacao-do-espectro-do-autismo?fbclid=IwAR2jOadwpzQHZijcZB7E_rbnW2qA04AmGziCcY2oatmJFvpjSXLKxhmli_4 

 

In https://famashow.pt/famosos/2019-09-30-Carolina-Deslandes-sobre-o-filho-mais-velho-O-Santiago-sofre-de-uma-perturbacao-do-espectro-do-autismo?fbclid=IwAR2jOadwpzQHZijcZB7E_rbnW2qA04AmGziCcY2oatmJFvpjSXLKxhmli_4 

publicado às 15:01

Sobre sair do espectro

por t2para4, em 29.09.19

É aqui que os caminhos ditos em surdina ou não, os "não parecem ter nada", "há casos bem piores", "isso são coisas da tua cabeça", "eu tenho anos de experiência com outro tipo de situações e está tudo bem", vão dar.
Não é bater no ceguinho, não é desculpabilizar, não é insistir - é fazer ver as coisas como são. Autismo no feminino é diferente, é moldável, é disfarçável. Mas não é sinónimo de que, ao fim de uns quantos anos de terapias e comparando com outras situações, esteja tudo bem. É sinónimo sim de que teremos de continuar a trabalhar porque as questões linguísticas e relacionais continuam com limitações e, de forma a torná-las minimamente funcionais, precisamos de ferramentas, estratégias e outros que tais para lá chegar.

 

"Muitos profissionais e famílias utilizam a expressão “sair do espectro” para dizer que determinada pessoa perdeu suas características autísticas, portanto, não mais poderia ser considerado autista. É curioso constatar que uma boa parte deles também afirma acreditar ser o autismo uma condição genética (como confirmado pela ciência) - uma configuração cerebral diferente. Este é um posicionamento no mínimo contraditório. Se é uma condição genética, não existe sair do espectro. São perspectivas excludentes.

No texto de hoje, compartilho com vocês cinco motivos pelos quais considero “sair do espectro” uma expressão enganosa, irresponsável e nociva.

1 - Perpetua a desinformação. Alguns alegam que, se a pessoa não mais apresenta os sinais que definem o diagnóstico, não há mais como ser “enquadrada” numa classificação diagnóstica oficial. Isso revela que, no fundo, se apegam àquela visão ultrapassada do autismo representada pelo menino do filme, que não fala, não olha pra ninguém e se balança sem parar. Como se não tivéssemos avançado anos-luz desse retrato emblemático e não conhecêssemos todas as variadas formas de manifestação do autismo e seus sinais mais sutis. Além disso, sendo, por definição, uma condição do desenvolvimento, é mais que esperado que os sinais evoluam com o tempo (estamos falando de maturação de sistema nervoso central!). Muitos autistas tornam-se indistinguíveis dos seus pares. Mas continuam sendo autistas. Nenhum manual de critérios diagnósticos diz o contrário. Alguém já leu algo como “os sinais que definem o autismo devem permanecer constantes e imutáveis para que o diagnóstico se mantenha”?

2 - Alimenta a indústria da cura e o ego de profissionais desonestos. É óbvio que todos nós, profissionais da área, trabalhamos para que nossos pacientes adquiram habilidades, desenvolvam estratégias para lidar com suas dificuldades, avancem na aprendizagem, alcancem a autonomia. Cada um dentro do seu perfil. Alguns realmente evoluem de forma surpreendente (até mesmo para macacos velhos, como eu). Não é raro que alguns profissionais se aproveitem desses casos para promover a si mesmos ou para alardear algum tipo de tratamento, sendo que a única atitude honesta é reconhecer que a evolução resulta da soma de diversos fatores - inclusive de atributos neurológicos particulares de cada indivíduo, sobre os quais não temos muito controle.

3 - Legitima o culto à normalização. “Sair do espectro”, na maior parte das vezes, significa que a pessoa fala bem e não mais apresenta estereotipias motoras ou vocais. Ou seja, não vai mais ser apontada como “diferente” em meio a uma multidão, porque suas diferenças não são mais visíveis para os outros. Pais que fazem de tudo e tentam de tudo para normalizar seus filhos, não importa a que custo, estão passando a eles a mensagem de que suas diferenças são motivo de tristeza e vergonha. Por trás de frases como “Eu apenas não quero que ele/ela sofra”, há muito preconceito e negação, muitas vezes não reconhecidos. É como se dissessem: “Você até pode ser autista, desde que ninguém perceba”.

4 - Representa perdas práticas e reais. Não são raros os casos de filhos de pais separados, em que o pai procura um médico que ateste que seu filho saiu do espectro e entra na justiça para parar de custear terapias ou reduzir a pensão. Claro que é possível que a necessidade de terapias e suporte diminua com o tempo ou seja modificada, mas daí a suspender qualquer apoio tem uma longa distância. Essa postura dá margem para que autistas jovens, sem características visíveis, tenham ainda mais dificuldade de obter algum tipo de suporte terapêutico ou acomodações em escolas, faculdades e ambientes de trabalho.

5 – Aumenta a carga emocional para os autistas. “Mas você/ele/ela não parece autista!” a frase é infalível para aqueles que não apresentam dificuldades aparentes. Na maior parte das vezes, é proferida por puro desconhecimento do assunto. Porém, ter o diagnóstico sistematicamente questionado pode ter consequências muito negativas, como sugerir que a pessoa possa estar se aproveitando de um “rótulo” para obter vantagens ou privilégios, para justificar as próprias falhas ou peculiaridades. Para os autistas, que já lidam com uma sobrecarga enorme para sobreviver em meio aos estímulos e demandas do ambiente, ter suas dificuldades vistas como preguiça, falta de vontade, frescura, comportamento manipulador ou temperamento difícil pode ser insuportável. “Sair do espectro” pode significar não ter o reconhecimento de suas dificuldades e o direito ao suporte adequado.

Seria bom que familiares e profissionais pensassem nisso."

 

In https://www.facebook.com/DraRaquelDelMonde/photos/a.581671572203967/908181152886339/?type=3&theater 

publicado às 14:09

Entrevista à Revista Crescer

por t2para4, em 29.08.19

Falámos do passado, do presente e do futuro. 
Falámos de medos, de anseios, de dores e de ânsias.
Falámos de nós e do que gostaríamos que tivesse sido diferente.
Falámos de esperança, também.
A jornalista Andreia fez um trabalho fantástico e conseguiu sintetizar tudo - ainda que pareça extenso! - porque eu sei que "falo" demais e tudo me parece importante e não queria que quem lesse ficasse com dúvidas. Percam um bocadinho e leiam.

 

https://www.crescercontigo.pt/mentora-do-blogue-t2-para-4-assume-o-autismo-e-um-monstro-mas-nao-posso-deixar-que-nos-domine/?fbclid=IwAR1fCtz2NHhFftSk8_2c7MrIh36h6mfuom9XYbkWvLimqD7Rjj78TjL_2Yg 

publicado às 17:43

Fui buscar as avaliações das piolhas. E tratar das matrículas.

 

In https://uptokids.pt/opiniao/cronicas/a-escola/?fbclid=IwAR1qdVzobH9z6UrybAxuS5lcX0gddltCQPWYs1mRpPEqCo5HvzUxosbsbCE 

 

“You can be the greatest , You can be the best” – Hall of Fame, The Script

As piolhas terminaram mais um ciclo de escolaridade. Com sucesso. No próximo ano letivo irão frequentar o 3º ciclo de escolaridade, numa escola secundária pública.

Mais um ciclo que se fechou, que se completou. E mais uma vez contra as expectativas e vozes de velhos do restelo que ouvíamos, fechámos um ciclo com sucesso. Sem mais nem menos do que com o recurso ao que a lei prevê para situações como as das piolhas.

Não é facilitismo!

Eu trocava já, na hora com quem quisesse, a necessidade de “ao abrigo das alíneas x y z do Decreto-Lei 54 de 6 de julho de 2018”.

Não é favoritismo!

Um aluno com necessidades específicas requer respostas igualmente específicas e adaptadas à sua realidade, às suas competências, entre outros, de forma a colmatar as suas dificuldades e ter sucesso.

Não é privilégio!

É um direito, é o usufruir dos direitos que os vários decretos, portarias e despachos normativos – e, em última grande instância, a Constituição – preveem, sem retirar direitos a ninguém, nem usar mais do que aquilo que está previsto e salvaguardado.

Não é uma competição!

Apesar das suas notas incríveis e níveis altos, quando surgia um 51%, a minha reação era a mesma “parabéns, miúda! É só um teste, não é o espelho dos teus verdadeiros conhecimentos, não mostra o trabalho/tempo/estudo que dedicaste. É positiva. Melhorará numa próxima vez.

Não é dopping!

Não há nenhuma pílula milagrosa ou medicamento para a inteligência, o trabalho, o esforço, a dedicação.

Não é influência de ninguém!

Os pais, os professores, a lua, o sol, não têm influência nas notas a atribuir. São o que são, de acordo com os critérios aprovados. Não há notas inflacionadas nem notas mendigadas nem notas forretas.

Muitos foram os que duvidaram: saberiam um dia escrever? saberiam um dia ler sem ser por associação pictórica? conseguiriam um dia resolver os mesmos exercícios abstratos que os pares também realizavam? conseguiriam um dia andar de bicicleta? teriam um dia uma aula de educação física sem saltarem à vista comprometimentos motores e de equilíbrio? teriam um dia redução de horas de terapia de fala?

Mas, muitos foram também os que acreditaram.

E que nos ajudaram em todo este caminho árduo. E que estarão sempre do nosso lado, mesmo que a acompanhar-nos à distância.

Como também costumo dizer muitas vezes, parafraseando a personagem Locke, da série “Perdidos”: “Não me digam o que não consigo fazer!

Ergo o meu copo (com uma qualquer bebida lá dentro) e digo bem alto “Cheers!” porque, contra todas essas vozes, contra muitas estatísticas, com e sem apoio, com quem sempre acreditou em nós, chegámos mais longe, fomos mais.

Brindemos às piolhas, essas miúdas incríveis!

E, para terminar, pasme-se – até porque sou professora de profissão e adoro o que faço – que eu não dê a importância exacerbada às notas que seria suposto.

Que não veja a escola como único local de aprendizagem e que encare a escola como algo muito mais que aulas e avaliações. A escola quer-se um local de várias aprendizagens, a vários níveis, com vários intervenientes (professores, assistentes operacionais, assistentes técnicos, alunos, pais). A escola quer-se um lugar onde os nossos filhos estejam e sejam felizes.

Isso, para mim, vale muito muito mais do que qualquer número marcado numa qualquer pauta.

Agora, venham as férias em pleno. Para setembro, há mais.

 

publicado às 21:47

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